31.12.08

Sem sol

na minha cama
uma semana estranha
avança
amansa
mas não me alcança

tacanha,
minha vida invade
o amanhã de manhã
e mata de tédio
a semana estranha
que avança.

1. Teorias de Base - Semiótica - Ácida Metodologia de Base

Charles Sanders Peirce era um obcecado por triângulos, tríades e tricotomias. Três. Tudo o que aparece à consciência se dá numa gradação de três propriedades = três elementos formais de toda e qualquer experiência.

Tais categorias fundamentais, encontradas no pensamento e descobertas pela análise reflexiva dos fenômenos, estão também presentes na natureza básica universal de todas as coisas, que podem ser físicas, biológicas ou psicológicas. Peirce escolhe as manifestações psicológicas para aplicar suas categorias, pois a psicologia abrange as coisas vivas e a linguagem, que é o fundamento de toda a semiótica.

As três categorias (primeiridade, secundidade e terceiridade) se referem às modalidades possíveis de apreensão de todo e qualquer fenômeno. Para Peirce, o estudo semiótico é um estudo lógico, quase matemático. Ele acreditava que o que se precisava era de uma grande teoria, geral, de todas as possíveis espécies de signo, seus modos de significação, denotação e de informação; e o todo de seu comportamento e propriedades, desde que essas não sejam acidentais.

Um quadro às quartas

The old cemetery tower at Nuenen in the snow, 1885
Obra de Vincent Willem Van Gogh (1853-1890)

Porque

Tua companhia, ainda que distante, é infinita.

30.12.08

E quem foi que não pensou que Van Gogh podia ter vendido sua orelha para Beethoven? Pois se o músico frustrou-se pela maldição exata de ser surdo, morreu sem conhecer suas mais belas canções, o outro vai lá e decepa a orelha achando que para nada lhe servia aquele adorno horrível para as cabeças? Ora, ora, por isso a miséria nunca terá fim. Van Gogh egoísta, podia ter dado sua orelha arrancada para alegrar a existência de Beethoven. Quem sabe se assim, quando morreu, não ia ver Deus mais contente, com cara de bonachão, esperando ansioso sentado nalgum banco imerso no espaço sideral.

Beto

Será o nome do peixe.

O homem que se confundiu com o sonho e, matando-o, matou-se

Era elástico o sonho, como um estilingue novo. E puxava forte, o desgraçado. Doido para matar um passarinho de alma ou um morcego a galope. Conseguisse, seria o sonho mais feliz do mundo. Conseguisse, seria o maior assassino que já existiu. Conseguisse, apenas. Conseguisse.

Quando acordou, revisitou as lembranças e descobriu-o pesadelo. Matou-se com dois tiros na testa. Uma sujeira pelo chão. A mancha vermelha jamais saiu completamente do carpete da sala.

1. Teorias de Base - Eixo da Comunicação

Comunica: comum, única? Com+um = eu+um?, como coisa única? Unifica? Ou amplia, transcende, multiplica opiniões, repertórios, vivências, o que vivencio, o que vivencias?

Fuja dos modelos comunicacionais simplistas de teorias ultra-passadas, pra lá de passadas, e, em passadas largas, atire-se à comunicação que dinamiza, que propicia troca de papéis entre eu e você, ora eu sou “eu”, ora você sou “eu”, processo sexual assexuado, dois são um, sem deixar de ser si mesmos e sem ser o mesmo um.

Queremos a comunicação des-simplificada, em linguagem verbal oral ou não, em linguagem corporal, linguagem-gen desumanizada porque a comunicação não é privilégio régio humano, linguagem celular, via telefone sem fio pré-pago ou telefone sem fio de latinha de massa de tomate. Queremos a anunciação do enunciado, ser enunciadores e enunciatários.

Enunciador e enunciatário são os sujeitos da enunciação (discurso), cujas marcas encontram-se implícitas no enunciado (texto). O enunciador e o enunciatário, coitadinhos, carregam inquietantes inquietações:

Enunciador: “Quem sou eu para lhe dizer o que quero dizer? Quem é ele para que eu lhe diga o que vou lhe dizer?”

Enunciatário: “Quem é ele para me dizer isso? Quem sou eu para que ele me diga isso?”

PAUSA: Essa estória me lembrou Zeca Baleiro: “... eu não sei dizer o que quer dizer o que vou dizer...” Uma homenagenzinha ao Zeca. Grande Zeca.

Aplicando o eixo comunicacional ao nosso produto-amostra à mostra InVerso, temos que a revista produzida – InVerso – é um aglomerado de enunciados produzidos pelos enunciadores. No caso do produto-amostra, os enunciadores são os jornali(ri)stas Thaís, Vanessa e Edison, que se idealizam num enunciador único. Na revista em si, porém, os enunciadores serão todos os repórteres, jornalistas, fotógrafos, editores, diagramadores que participarem da construção do produto.

O enunciador tem a palavra, pá que lavra a lavoura do poder. Ele representa um deus criador que molda, com o barro comunicacional, os personagens do enunciado. É o enunciador que delega voz a múltiplos narradores, em primeira ou terceira pessoa, de acordo com o efeito que se pretende conseguir. São os efeitos pretendidos também – e o enunciatário visado – que determinam qual plano de expressão é mais adequado para que o enunciado atue sobre o enunciatário.

O discurso em primeira pessoa (enunciativo) aproxima os sujeitos da enunciação – principalmente se feito no tempo presente: a combinação eu-aqui-agora, ou mesmo eu-lá-então, confere subjetividade e realidade ao enunciado.

Já o discurso em terceira pessoa, também chamado enuncivo – o mais empregado jornalisticamente (o que não é pouco nessa época de desemprego e recessão) – cria um efeito de maior objetividade e distanciamento – o narrador fala sobre um ele qualquer, um acontecimento qualquer.

Os enunciados de InVerso apresentam ambos os discursos, levando em conta, levando em costas, o público que se deseja atingir e o efeito que se pretende obter.

No produto à mostra, nosso enunciatário implícito é o senhor Adenil Alfeu Domingues e Segundes (APLAUSOS). Mas o público-alvo, público-negro, são jovens e adultos, ou adultos jovens (entre 18 e 35 anos) não importa de que classe social, desde que com um bom nível de escolaridade.


InTrodução

É com fadiga e mal-estar que observamos o atual estágio do jornalismo contemporâneo. Nos anos noventa, por exemplo, poucos jornais se preocuparam em melhorar, seja na forma, seja no conteúdo. Talvez uma rara exceção seja o Correio Braziliense, protagonista de uma das maiores reformas gráficas dos últimos tempos no Brasil. Enquanto isso, Folha de São Paulo e O Estado de S. Paulo, por exemplo, procuravam conquistar seus leitores através de brindes como fascículos de Atlas e enciclopédias, ao invés de inovarem no próprio jornal.

Este trabalho propõe reformular, através da ruptura de velhas amarras, um produto jornalístico. A revista InVerso é toda redigida em versos ou prosa-poética e procura provocar o leitor a cada página, lançando mão de argumentos sinestésicos.

Como embasamento teórico, detivemo-nos na teoria semiótica de Charles Peirce, além de levarmos em conta os conceitos de eixo da comunicação, Gestalt e inúmeros estudos de poesia.

Somada a esta compilação teórica, apresentamos uma amostra do produto aqui proposto. InVerso é destinada a leitores preocupados em não só adquirir informação, mas sim senti-la em toda a plenitude. Uma revista para ser lida em primeiridade.

Ps.: Também estamos fadigados da linguagem monográfica vigente na Academia. Portanto, leia o trabalho e veja que saída (ou entrada!) encontramos. A porta ainda está aberta. Mas está quase fechando... Corre, corre. Corre, Adeniiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiil!!!

Terça sonora



"Said I've been crying, my tears they fell like rain,
Don't you hear, Don't you hear them falling"

29.12.08

Para começar a semana

"Quando você tem suficiente talento, talvez a ficção consiga influenciar a realidade."
Van Gogh doido, coitado!, ou sorte, vai saber. Não tinha a menor consciência do que ocorria, ou fingia que não tinha, e pintou os seus melhores quadros nesse seu estágio final de torpor e loucura. Insensatez que queria às vezes Ana Clara ter, só para profanar os valores que eram lhe ditados desde criancinha, só para reclamar os direitos que sua condição de animal lhe pedia. Só para impedir que a fome fosse uma realidade no mundo.

Resolução de Ano-Novo

Em 2009, estarei frequentemente sem ideias.

Vou sentir falta da velha-língua boa de se escrever.

Passo-a-passo

  • Crie um método complicado para descumprir;
  • Ensine o método complicado para burros;
  • Esqueça o método complicado para sempre;
  • Finja que não inventou o método complicado para os amigos;
  • Critique o método complicado para todos.

2009

I. a guerra.
contra: os asteriscos assustados, os hífens caídos e os pontos, irritantemente terminais.

II. o sonho.
com: as tremas ressurretas, os acentos tal-qual-são(-eram?) e os beijos de antigamente.

III. o eu.
de: alfabetos inventados, vocabulários inexistentes e a vontade de nunca parar de escrever.

inverso

tudo o que for inverso, tem seis mãos - duas devidamente algemadas.

28.12.08

Eu e você

eu e você
eu e você
eu e você
eu e você
eu e você
eu e você

como se a repetição
fosse o etcétera;

como se a vida
fossem as reticências;

como se o amor
fossem as lacunas;

como se eu
fosse você.
E a miséria nunca terá fim. A frase, incrustada nos recantos perdidos da mente, fazia Ana Clara desabrochar em uma lágrima preguiçosa, que ia escorrendo devagar. As pessoas que andavam afoitas na rua não eram capazes nem de perceber a música de Beethoven, quanto menos as lágrimas lentas, quase nada, quase invisíveis do rosto dela. E Ana Clara sabia que a frase foi a última dita por Van Gogh, em seu leito de morte.

Domingo, foto

The dove, 2006
Clique de Loretta Lux (1969- )

27.12.08

Mas, afora isso, afora as belezas que cercam a imaginação, Ana Clara percebia, não era tola ela, que era tudo ilusão, que o mundo anda complicado demais para caber a felicidade. E vai ver até a cicatriz do sol foi um tombo cruel e ele pode estar se reclamando para si mesmo ou para seus colegas do espaço: - Êta, êta, êta... Sei não até quando suportarei essa dor que não me mata de verdade mas me mata de dor. Êta, êta, êta... Acho que vou me aposentar.

26.12.08

Ana Clara se lembrou que era artista de pensamento. Isso porque nunca tinha sequer pintado um quadro, nem era boa em fazer desenhos, nunca se viu estampando figuras em lugares nenhuns, mas sentia por dentro um ímpeto de que tinha viço para deslumbrar o mundo com magníficas pinturas. E o dia merecia um quadro, óleo em tela, óleo em bela, óleo dela, óleo que lembrava o calor da sua cama quentinha, dela quentinha, dos devaneios da noite.

Filminho de sexta



Assim eu topo levar o cachorrinho para passear.

25.12.08

Instante da estante

AMADO, Jorge. A morte e a morte de Quincas Berro Dágua. Rio de Janeiro: Record, 1999.
Via as pessoas como se fossem pessoas de verdade. E todos parados, olhando ao redor, eram um delírio sadio, engraçado. A luz que vinha de cima parecia opaca, como se o sol tivesse caído, levado três pontos, e mostrasse uma cicatriz simpática no meio da testa. Shhh, shhh, shhh, shhh, era o vento botando o dedo em riste no meio dos lábios, dizendo para as gentes andarem mais devagar, menos ruído, shhh, shhh, para não acordar neném, para não atrapalhar sinfonia de Beethoven, para não apagar os sonhos bons. Shhh, shhh, shhh, shhh... bem de levinho o vento avisando que a vida amanheceu bonita e pronta para ser vivida.

24.12.08

Um quadro às quartas

Broadway Boogie-Woogie, 1942/43
Obra de Pieter Cornelis Mondriaan (1872-1944)

numeralha

o carro está no h27
são 1h53
cpf? 308.316.790-40
não ultrapasse 120 km/h
tomar 3x ao dia
custa R$ 59,90
leva umas 4h20
acabou 2x1 para o Palmeiras
hoje é dia 24
havia umas 20 pessoas
ande umas 4 ou 5 quadras
à vista ou em 6x sem juros
morreram 31 peixinhos
a saída é no km 226
A diferença era que era ela quem pensava. E andando no meio da multidão vinha-lhe à cabeça uma sonata de Beethoven, como se a música privativa e muda fosse, que só ela ouvia e se deliciava. Os outros, no caos urbano, não percebiam os estímulos delicados do compositor alemão. Ana Clara sentia-se feliz por redescobrir o mundo dessa forma, e sua felicidade impregnada dos anos tenros de sua juventude, a completavam cheia de um riso sincero, sorriso, só riso. Nada de novo detrás do sol.

23.12.08

Retrospectiva introspectiva

Por isso sempre em cada abraço eu tropeço, depois me esqueço. Peço outro verso, outro abraço, outro céu. E me esqueço de novo. Mereço.

Por isso, e não mais que isso, sempre invento um vento que vem do leste, franzino, só pele e osso. Pelo avesso, que é para outro tropeço acontecer. E me esqueço de novo. Mereço.

Por isso sou um seresteiro solitário a enganar os nervos alheios. Servo do verso, raposa de prosa, um sopro que jamais aconteceu. Acontece. E me esqueço de novo. Mereço.

Terça sonora



"Far from home, elephant gun
Let's take them down one by one"
Ana Clara decidiu se vestir. E, vestida com a roupa vigente na moda da estação, esquecia que era alguém para se tornar mais uma. Camuflava seus sonhos e desejos e virava apenas um ícone no meio de tantos outros.

De mônios e manias

cada alma que escapa
é um riso que espera
o que tanto segreda
se nem nada lhe agrada

no fundo cada espanto é um sossego
e em cada aborígine há um algarismo
a enquadrar as raízes desse quintal

cada palmo que separa
é um salmo que pareia
o que tanto lhe agride
se nem nada degrada.

22.12.08

Para começar a semana

"Jamais escrevi pensando no leitor. É uma viagem meio autista. Depois que o livro é entregue à editora, aí é um produto."

Ana Clara decidiu se vestir. Depois da noite maravilhosa, da chuva chovendo, da carta para Deus, era hora de pôr roupas e ser gente novamente. Agora até nome ela se lembrava que tinha e então era mais uma pessoa pronta para o convívio social. Não era mais nua em verso, em pêlo, em pele ruborizada e tranqüila. Não era mais quentinha, cheiro doce que emanava de sua cama e para sua cama. Agora era gente novamente, com toda a implicância que tal conceito traz consigo, sem pestanejar nem se revoltar com nada.

21.12.08

as mentes que escorrem pelo ralo do universo são as mais puras, as mais singelas, as mais adequadas que já existiram neste mundo. isto é sinceridade.
Enquanto isso, Eva, a garota experimental que vivia batendo as canelas nos móveis quando tropeçava no escuro, ponderava novas visões do cosmo:
- De que me vale um diploma se a miséria impera em todas as nações do mundo?
- De que me importa ser mal-vestida se minha honra pode ser aparente em uma sociedade hipócrita?
- Será que mais me valeria ser stripper de uma casa noturna ou protagonista dos sonhos eróticos de adolescentes imberbes?
- De que me vale fingir ser bêbada revoltada com os preconceitos que regem os costumes usuais do mundo se ao final das contas não passo de mais uma corrompida?
- Será que um dia ainda terei coragem de pular do alto da Torre Eiffel cantando Raul Seixas bem alto pra todo mundo ouvir?
- Será que os franceses vão entender a genialidade do Raul, em português?
- Estou olhando o mundo pela janela.

Domingo, foto

The book, 2003
Clique de Loretta Lux (1969- )

19.12.08

Mágica


Incerto


Lembrete

nem tudo que evapora é gás,
nem tudo que escorrega é liquido.

Contagem regressiva

Cérebro

se é intermitente a dor de cabeça o melhor a fazer é arrancá-la fora. tirar de dentro as nuvens de nada e colocar um cérebro novo, de preferência que pense melhor, que pense mais claro, que pense diferente, que pense.

no dia em que inventarem, eu topo. para sentir-me novo de novo, calado, taciturno com razão, sóbrio, sorumbático de verdade. porque de falho, já basta o espírito.

Filminho de sexta



She's leaving home. Again.

18.12.08

Instante da estante

REINA, Eduardo. No gravador. São Paulo: RG Editores, 2003.
se estiver com alguém que saiba onde estou, por favor, pergunte.
preciso da resposta.
para tentar me achar.

17.12.08

Crise mundial


Um quadro às quartas

O moinho vermelho, 1911
Obra de Pieter Cornelis Mondriaan (1872-1944)

9. Noite contente

- A noite de Natal tem netos?

- Não. Só papais. Noéis.

- Todos trajam preto?

- Não. Só os mortos. Vivos.

- E tentam atirar presentes?

- Não. Só aos bons. Meninos.

- Tanto tentam que até atentam?

- Não. Só os amigos. Secretos.


- A noite de Natal tem estrelas?

- Não. Só as anãs. Vermelhas.

- Todas saltam com botas?

- Não. Só as astros. Nautas.

- E tentam tirá-las também?

- Não. Só os tiros. Livres.

- Tão tontas que até acreditam?

- Não. Só as vagas. Lumes.


- A noite de Natal tem atrasos?

- Não. Só os rádios. Relógios.

- Todos despertam terça e quarta?

- Não. Só às quintas. Feiras.

- E tentam trapacear os tolos?

- Não. Só os joões. Bobos.

- Tanto que o tempo até inventam?

- Não. Só os passa. Tempos.


- A noite de Natal tem infinitos?

- Não. Só os buracos. Negros.

- Todos tragam e trazem tudo?

- Não. Só os versos. Brancos.

- E tentam tardar até o infinito?

- Não. Só as rodas. Gigantes.

- Tão espertos até até até tombam?

- Não. Só os cata. Ventos.

Entrenuvens

meu céu
não é teu céu

é seu
céu

ateu
a teu céu

meu som
teu tom
seu azul

meu céu
não é seu céu

é teu
céu

menecma
de mim
meu
teu
seu
céu

nosso não há
nem nada
nem não
céu


céu

16.12.08

prefiro peixes
que só entendem.

Terça sonora



"Quando eu vi que o Largo dos Aflitos
Não era bastante largo
Pra caber minha aflição"

alucina

sei como toda pele
é erótica
se não repele
que toda pede
é erótica
se não despede
que toda pese
é erótica
se não despreze
que toda prece
é erótica
se não apresse
que toda
toda
toda
toda
que toda é toda
erótica
que toda
foda.

15.12.08

cubo mágico

prometo
um cubo
de idéias
para guardar.

e desmontar
e montar
e quebrar
e colar.

depois jogar tudo fora
de novo.

Ecossistema próprio

observar dias no aquário é um exercício-terapia no mínimo interessante. alguns, irrequietos, olham-me feito interrogações nervosas. outros, calmos, têm um jeitão meio blasé. há ainda o subgrupo daqueles que se escondem como se devessem algo ao fisco.

no absurdo das idéias, cada aquário é um mundinho do deus-dono-do-aquário. que tem poder de criar e destruir o mundo em sete dias, sete horas, sete minutos. porque sou o senhor do tempo.
Para driblar o frio, sal.
a literatura existe porque é uma arma letal que o homem inventou para assassinar vermes chatos que catimbam contra o pensamento. eu não gosto. prefiro assistir a um filme, ouvir uma música nova ou morrer mais uma vez, daquele jeito que sempre faço.

Para começar a semana

"De todas as companhias para um escritor, nenhuma é mais valiosa do que um dicionário."

Victor-Marie Hugo (1802-1885)

14.12.08

esqueço
tudo o que
alcanço.

se canso,
se lanço,
meu ranço
avança.

Poemapronto do descumpridor de prazos

de prazos que desprezo
desconfio que gosto

que de tão apertados
os ponteiros lambam
de minha religião
relógio ilógico

e cada lambida do tempo
alimento
com a língua atenta
um tempo
novo
de novo

que de tão apartado
aponte com o dedo
um ponteiro na contramão
desapontado

depois o intento:
um atentado contra
o próprio tempo
de prazos
desprezos.

Domingo, foto

Lípsia, 2008
Clique de Regina Cazzamatta (1983- )

13.12.08

Aquário

colecionáveis
as vidas do aquário
soluçam bolhas de segredos.

cada uma com seu tediozinho
de bater no vidro
infinitamente.

é como morar dentro
de uma televisão
que não se desliga.

Dimensões da imensidão

em lágrimas pergunto
com quantas pequenices
se faz um tamanho

é tanto tanto
e o espírito tão tacanho
que fico junto
inventando issos
e vivendo aquilos

no fundo
tudo
o que pergunto
não tem resposta.

12.12.08

Filminho de sexta



Memória paulistana. Pelos estadunidenses, em 1943.

Circunflexa

sem valia
é minha vontade
de voar.
Foi quando, ao assinar a carta para Deus, que ela se lembrou que, como gente que era, tinha também um nome. Antes ela só sabia que era ela, nada mais do que ela. Agora é Ana Clara.

11.12.08

Instante da estante

SWIFT, Jonathan. As viagens de Gulliver. São Paulo: Clube do Livro, 1956.

Travesseiro

sem tamanho
é o sono
que coleciono.
“Caro Deus
(sinceramente, até hoje não aprendi se tenho que o tratar por você, senhor, vossa excelência ou outros pronomes antiquados e feios)
Hoje amanheci com vontade de escrever um bilhete para as estrelas. Então me disseram que a estrela não tem vida e eu fiquei pensando assustada porque a gente se fia em papo de astrônomo que garante estarem vivas várias estrelas e não todas estarem mortas e nós aqui sem sabermos por causa da morosa velocidade da luz. Já pensou se amanhã ou depois a gente acorda e está tudo escuro porque as estrelas já morreram e a luz já se cansou e cumpriu todo o caminho até nossos olhos? Um apagão intergaláctico culminaria com o fim de tudo ou a tristeza seria, como sempre, só passageira?
Acho que você não deve ter a resposta para esse meu dilema, pois já perguntei até para o garoto mais inteligente da turma e ele também não soube me responder, de tal forma que não seria você o sabe-tudo capaz de solucionar a questão. Um dia eu vou conhecer algum gênio americano de Harvard, daqueles que aparecem em filmes de ficção científica, e então obterei a certeira.
Agora me explica uma coisa? Para que servem os anjos? Quando ocorrem as fatalidades eles estão de férias ou apenas tirando um costumeiro cochilo depois do almoço? Como vou saber o nome do meu anjo? É sempre o mesmo ou de vez em quando eles são trocados? Quando eu morrer ele se aposenta ou recebe outra missão de defesa para cumprir? Os anjos são filhos de quem?
Ando preocupada com outro ponto fundamental da história. Sempre aprendi que você, sendo criador, existia antes de tudo. Então você é filho de quem?
Vou terminando por aqui, pois tenho uma porção de grandes coisas a conquistar e não posso ficar aqui parada. Espero ansiosamente que me responda, senão quando eu morrer e chegar aí vou lhe dar um puxão de orelhas.
Beijos de
Ana Clara.”

10.12.08

Um quadro às quartas

Composição com vermelho, amarelo e azul, 1921
Obra de Pieter Cornelis Mondriaan (1872-1944)
Por isso era só ver chuva chovendo que logo desabrochava a vontade de escrever uma carta. E para Deus a carta desta vez tinha de ser bem caprichada, para ver se ele respondia. Será que tinha caligrafia bonita? Achava que não, um homem ocupado como ele não ia ter tempo disponível para ter letra enfeitada. Mas também não podia ser letra de médico, afinal nem todo mundo é farmacêutico para entender aquelas garatujas. Será que Deus fala português? Com essa onda de globalização é perigoso ele ter que apelar para algum intérprete, pois deve ter aprendido apenas o inglês...

9.12.08

Armas, almas

as armas que escorregam das mentes mortas
esquecem de atirar no mais importante.

enferrujadas, manchadas de sangue, verdazuladas,
erram todos os alvos, confundem as almas.

as almas que escorregam das mentes mortas
esquecem de tirar o mais importante.

Terça sonora



"Newspaper taxis appear on the shore
Waiting to take you away
Climb in the back with your head in the clouds
And you're gone"
- Deus é onipresente, onipotente e onisciente – dizia, mesmo sem convicção, o patético professor de religião. E quando ela perguntava se tinha sido Deus que havia dito aquilo ele ficava desconcertado e gaguejava que estava na bíblia ou no livro do catecismo. E tudo ficava por aquilo mesmo, afinal com autoridade ninguém se mete para não levar castigo feio na frente de todo mundo. E podiam pensar que ela estava possuído pelo demônio ou falando em nome de algum discípulo de satã.

8.12.08

Para começar a semana

"sob o nanquim da incompreensão
ressurgem as palavras
letra por letra,
verso a verso,
varam o escuro e
rebrilham à luz de outro tempo

de nada adiantou tapar palavras
nunca adiantou perseguir idéias
jamais adiantará calar versos

se idéias palavras
seguem tramando
interditas
na trama dos versos
subterrâneas
subversivas
vivas

seguem buscando
como dizer e dizem:

apesar da violência
a despeito das tormentas

dizem
da força
do que as escreveu

dizem
da persistência
da poesia

dizem
do carinho dos que
as preservaram

cada letra palavra
a romper o escuro silêncio
é testemunho
do mundo livro
é lembrança
do poder do vivo
livro

os que em vão pintaram
os versos de petrarca
não contavam
com o poder do tempo

não contavam
com a força do verso
não contavam com
petrarca josé e guita
para fazer do livro
completo organismo
para fazer
da palavra vida!"


Frederico Barbosa (1961- )
Por isso era só ver chuva chovendo, neurônios mais rápidos catalisados pelos íons chovidos, vontade louca de pegar um papel e escrever. Escrever uma carta para alguém que talvez ninguém conhecesse. Uma carta pra quem? Para Deus? Escrever uma carta para Deus parecia ser uma idéia interessante pois ela sempre tinha desejado falar com Deus para saber se de fato ele existiria. Mas quem entregaria a carta a Deus? Qual o endereço de Deus?

7.12.08

De belezas inequecíveis

Algumas coisas acho especialmente bonitas. De doer, escorrer entre os dedos, parecer água limpa. Algumas coisas acho principalmente bonitas. E é isto que, de certa forma, me deixa vivo, feliz, humano. Porque a beleza é força absoluta, magia, sensação. A beleza é a gradação contínua rumo ao tudo, ao que há e o que nem há porque ninguém ainda foi capaz de inventar.

Nas horas vagas, gosto de desinventar feiúras. Para aumentar a média de beleza no mundo. Mas nem sempre consigo. Entre um passatempo e outro, penso que deveria me dedicar a desinventar feiúras também nas outras horas, em que estou ocupado demais em ganhar dinheiro. O dinheiro não é das coisas mais bonitas: é sujo, passa de mão em mão, cheira mal, tem uma textura asquerosa e serve para diferenciar as pessoas. É isso. O dinheiro é estranho porque tem como serventia preferencial justamente rotular a humanidade, ao dividir humanos entre gentes e indigentes, cheio de castas intermediárias.

Mas falávamos das coisas bonitas. O culto à beleza, esta rara e bruta flor de inconstâncias, está na percepção da simplicidade como alma máter da sociedade. O simples é belo. Ponto. Simples não é malfeito, nem desfeito, nem rarefeito. Simples é o justo, o junto, o júbilo. Simples. Simples é o poema que brota de talento e talante; o orvalho que seca antes de cair no chão e, vapor, fica pronto para virar nuvem de novo; o sonho que faz o cérebro da gente sorrir por dentro.

Acho que não preciso de mais nada.

Domingo, foto

No hablo español, 2008
Clique de Juliana de Faria (1984- )

6.12.08

De sábado

cada beijo que invento
é um percurso escuro
de perda de sentimento.

o frenêsi, o tempo lento,
a cidade que se consome,
depois some toda dentro.

todo absurdo eu comento.
- Professora, por que as pessoas escrevem? Eu nunca vi um cachorro escrever e parece ele ser muito feliz do jeito que é... É verdade que os animais não escrevem? Quem inventou lápis, papel, caneta, giz de cera, pincel atômico, bomba atômica, equações do segundo grau, números complexos? – Num surto parecia que vinham à tona todas as perguntas cruciais de sua existência, exatamente as mesmas dúvidas não respondidas que têm o poder de transformar a concepção do universo, os conceitos de mundo e submundo, a sujeira que ninguém limpou ou que foi varrida pra debaixo do tapete da sala de estar onde a burguesia se reúne para tomar café e maldizer a vida alheia.

5.12.08

Filminho de sexta



O carro é uma merda. Mas o comercial é bem bacaninha.
Gosto de mudanças graves, defeitos agudos, saudades crônicas e verdade ácidas. O resto é ki-suco.
Por isso era só ver chuva chovendo, e a chuva chovia tão bonita naquele dia que não parecia nem água, mas sim diamantes feitos na melhor sala do laboratório-natureza, era só ver chuva chovendo bonita que ela tinha vontade de botar para fora todos os sentimentos contidos. Segundo a sua crença própria, essa era a maneira que o seu organismo encontrava para manifestar o poder catalisador dos íons da chuva. Então dá-lhe papel e vamos escrever uma carta para alguém. Quem será esse alguém?

4.12.08

Instante da estante

BARBOSA, Frederico; RISÉRIO, Antonio. Brasibraseiro. São Paulo: Landy, 2004.

Constatação

Em pensamento, o poeta lisboeta jura:
Arrependimento não tem cura
Nem salvação
Nem retrocesso.

Eu que não nasci em Portugal
Nem perdi o lugar
Nem sou poeta
Sou obrigado a concordar.

Em silêncio.

cruzeiro (em dólar)

enjoy
e
enjoe.
Uma vez disseram que a chuva quando chovia mexia num não-sei-quê e liberava ou produzia, não tinha entendido muito bem, um monte de íons que eram partículas elétricas. Então ela sempre achava que os íons tinham a função de catalisar as reações dos seus neurônios. Talvez fosse, aliás, o único ponto em que ela acreditava nas ciências aprendidas na escola, mesmo porque era o único ponto que ela poetizava as ciências apreendidas por seu cérebro.

3.12.08

Interrogações sorumbáticas

Por que você some às vezes?
E onde se esconde tem chave?
Há uma cópia debaixo do tapete?
Fica um cachorro bravo de vigia?
Você dorme bonita ou fica acordada com insônia?
Por que você some dentro dos meus sonhos?
Vai voltar a aparecer impunemente com o verão?
Posso me perder em seus novos e-mails?
E me encontrar nas entrelinhas de alguns deles?
- queria comprar sono.
- mas quem tem pra vender?
- não sei, não sei, mas compro.
- e quem tem pra vender?
- queria comprar sono.
- e quem tem pra vender?
- não sei, não sei, mas compro.
- e quem tem pra vender?
- queria comprar sono.
- e quanto custa se eu não sei?

Um quadro às quartas

Evolução, 1911
Obra de Pieter Cornelis Mondriaan (1872-1944)
tudo o que é canhenho, tem quatro mãos.

2.12.08

Enquanto isso, Eva, a garota experimental que naufragara feito Dinamene de Camões na leveza tormenta do Atlântico meridional, monofilosofava pensamentos originais e perturbadores:
- Quem inventou a pena de morte pensa que com a morte de quem matou vai resgatar a vida de quem morreu matado?
- E o carrasco por ser matador também não merece a morte da pena instituída?
- Fico pensando... A agulha da injeção letal tem de ser desinfetada, descartável, diabo a quatro, ou não?
- Quem vai ter coragem de revolucionar os valores pré-existentes para quebrar a ordem estabelecida?
- Tem gente que tem medo de fantasma. Por que é tão difícil assim ter gente que tem medo da gente? Ou estou equivocada?
- Quem vai prostituir os neurônios em busca de uma neo-análise crucial da existência humana?
- Quem inventou o trabalho não estava contente em não ter mais o que fazer?
- Vou tomar banho. Quer vir comigo?

Terça sonora




"O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração"

1.12.08

Pequeno balanço

Toda semana recebo um e-mail com as ofertas da Livraria Martins Fontes e penso que já não cabem mais livros em minha estante - mas cabem muitos, infinitos, em meus olhos tremendamente míopes;
Todo mês tem lua cheia;
Toda semana prometo para mim mesmo que vou organizar minha vida: responder centenas de e-mails pendentes, acabar aquele projeto, costurar um lembrete mental para não me afundar em outros, ir ao médico cuidar do estômago - desnecessário dizer, evidentemente, que jamais cumpro promessas que faço a mim mesmo;
Todo ano completo aniversário, mas isso não é importante porque é assim com todo mundo que não morre antes;
Toda noite eu choro;
Todo dia alguém me liga com alguma história estapafúrdia do tipo "você precisa fazer uma denúncia porque meu filhinho teve o sapato engolido pela escada rolante do Shopping Morumbi" - sinto muito por ter educação para ouvir tudo antes de desligar;
Todo mês eu queria viajar para onde o dinheiro desse, mas o dinheiro nunca dá então eu fico em casa;
Todo dia eu escrevo;
Toda hora sonho com aquele seu olhar.
quanta coisa não cabe aqui.

Para começar a semana

"Não defendo meus livros, apenas os escrevo."

Anne Enright (1962- )

30.11.08

Réquiem

Um homem é a metade do que acredita. O resto é abreviatura.
Enquanto acontece o futebol, o aquário vazio é um fedor intransigente.
Ontem, 31 peixes. Hoje, só o motorzinho do filtro a embalar o luto.

Um homem livre

Um homem livre não existe porque não lhe inventaram asas para podar
nem nadadeiras suficientemente grandes para cruzar oceanos pacíficos.

Um homem livre é uma aventura imaginária daquelas que só um homem
preso consegue parar para pensar sozinho em sua cela escura e fria e fria.

Um homem livre.

Um homem livre já morreu várias vezes, conhece a morte intimamente
sabe chamá-la pelo nome e consegue apalpá-la amá-la fazê-la sorrir.

Um homem livre é um desvario estranho de quem não se lhe conhece bem
porque um homem livre não é apenas um homem livre; é um homem livre.
A morte é uma rasteira imprevisível, dessas que a criança dá no amigo.
Mas a morte mata, e é a única coisa irreversível e indesinventável.

Domingo, foto

The hush, 2000
Clique de Loretta Lux (1969- )

29.11.08

quando as vontades se esfacelam morte abaixo, dói. assim, um sábado se perde na alcova do calendário. que merda.

21.11.08

Filminho de sexta



Boa notícia.

20.11.08

Instante da estante

CLEMENTE, Bird. Entre ases e reis de Interlagos. São Paulo: Tempo&Memória, 2008.

Do sobre e do tudo

Olhei lá, com atenção e até um tiquinho de surpresa. Uma surpresa inventada por você mesmo, quando me disse que não sabia escrever gostosinho. É formidável. Facetas humanas, demasiado humanas, cruelmente humanas, que prendem a gente. Prendem tanto que eu lamentava àquela hora da madrugada ter sono, lamentava ter de vir trabalhar no dia seguinte. Queria ler tudo de uma só vez.

A história de Nicole, de dar pena, deixa um vazio de sei-lá-quantos mililitros na alma. Porque também somos humanos. E dói imaginar tais situações. Dói mais ainda quando sabemos - você porque escreveu, eu porque li com sua garantia jornalística de que ali estão relatos da verdade, nada mais que a verdade, doa a quem doer - que é realidade. Absurda. Perambulante. Quase comum.

Mas punge mais ainda a que vem logo abaixo. De seu pai, o bilhetinho escrito num papel roxo. O papel não era roxo? (Na minha memória fotográfica do que nunca vi, sempre será roxo esse seu papelzinho.)

Continuarei acompanhando, ainda que muitas vezes o silêncio se sobreponha. Meu jeitão ascético, pobre.

E nunca mais, nunca mais, diga que não escreve de um jeito bão de ler.

19.11.08

Um quadro às quartas

II castello che monc e ancore, 2006

18.11.08

Pedido perdido

procure poemas perdidos;
não os deixe escorrer ralo abaixo.

depois me os envie:
um a um,
por e-mail
ou pombo-correio.

quero odiá-los pessoalmente.

Terça sonora



"Eu não tenho nada, quero ver Irene rir
Quero ver Irene dar sua risada"

17.11.08

Para começar a semana

"A cultura valeu-se principalmente dos livros que fizeram os editores ter prejuízo."

Thomas Fuller (1608-1661)
(silêncio)

Nécessaire

  • O orgulho de ser caipira;
  • A saudade de ser distante;
  • O sossego de ser ausente;
  • A desculpa de ser bêbado;
  • O mérito de ser próprio.

Ritual

queria poder colecionar olhos,
verdes,
seus.

só para me perder dentro deles,
maduros,
olhares.

e depois me consumir em si,
ver melhor,
vermelhos.

você, eu

calada.
em calafrios,
calo-me-quente.

16.11.08

Domingo, foto

Topless swimsuit, 1964
Clique de William Claxton (1927-2008)

Questão de endereço

mora no meu travesseiro a menina mais bonita do universo inteiro.
mora no seu oceano o olhar mais bonito de tudo o que é humano.

14.11.08

Filminho de sexta



Renault brasileira.

13.11.08

Instante da estante

VEIGA, Edison. Enigma. São Paulo: Scortecci, 2000.

Luz amarela

Às vezes não sei se fui feito para cá,
Se as raspas acabam em nada,
Se a cebola esquece que faz chorar.

Às vezes não entendo mais o semáforo,
As cores que estampam sua camiseta,
O alfabeto que organiza o dicionário.

Às vezes ser piegas me faz tão bem
Que tudo o que é contrário de mim
Não serve.

De quinta-feira

para cada gravata amarela, uma borboleta
colorida. para cada fotografia esquecida, um
sorriso requentado. para cada poema frio,
um chapéu cabisbaixo. para cada fotossíntese
necessária, um adeus pré-programado.

12.11.08

De quarta-feira

o colecionador de enquantos ressuscitou no
quarto dia, quando eu esperava apenas um
outro outono a assombrar todas as espécies.

as confissões, publicadas em papel-jornalão,
trazem as mesmas mentiras tristes de todo
dia, sem nada mais a declarar a mim amém.

o colecionador de enquantos vai ser morto
novamente com uma bordoada na cabeça.

Um quadro às quartas

Busca e esquecimento, 2006
Obra de Carlos Eduardo Uchôa Fagundes Jr. (1961- )

11.11.08

Terça sonora



"Gostava de sombra e água fresca"

De terça-feira

agora as missões são todas possíveis.
e lembro-me de meu pai que, como
vários e vários outros pais, insistia:
- só não há conserto para a morte!

talvez a morte seja um concerto.
em si.

10.11.08

8. Sentimental demais

- Alimento silêncios.

- Tem pra mim?

- Não sei. Por que quer, se vive quebrando-o?

- Porque não suporto o barulhar eterno. Agride, não agrada. Degrada, segrega. Não segreda.

- Alimento silêncios.

- Com o quê?

- Com senãos.

- Tem pra mim?

- Não sei. Por que quer? Para quebrar?

- Gosto do tilintar seco de cristais.

- Precisa de luminária?

- Não, só de um decibelímetro.

- Eletrônico?

- Analógico.

- Alimento silêncios.

- Tem pra mim?

- Não sei. Por que quer? Para perturbar? Para provocar? Para se despir?

- O silêncio lambe. Alimente-o se gostar de minha língua.

- Onde a boca guarda o silêncio cabe a língua?

- Na boca que ri onde o silêncio se ocupa o universo inteiro cabe.

- Como vai sua vida se o universo inteiro caberia onde eu só queria a língua?

- .

- Você silencia e eu sigo colecionando enquantos.

Para começar a semana

"Se em troca do meu amor à leitura me dessem todos os tronos da terra, recusaria sem vacilar."

Amizade

devo-lhe milcoisas
assim, tudojunto.

9.11.08

Retrato do poeta quando hoje

O poeta está escondido debaixo do lençol. Não quer ver o mundo que ajudou a criar de seu jeito aleatório. Tem pena daqueles que, nervosos, espantam olhos alheios com palmatórias de idéias. Não sabe sorrir. Acha difícil que a crise mundial de nervos não se espalhe logo pelas linhas telefônicas congestionadas.

O poeta prefere estar escondido debaixo do lençol. Ali, no escuro, luzes apagadas, porta e janela fechadas, é só um suspiro. Um suspirar. Um suspirar eterno, frenético, indecifrável exatamente. Os absurdos que ele colecionou surgem um a um, pedem a bênção, codificam sentimentos, depois somem sem nenhuma inferência ou ilação. Alguma coisa dentro de si sangra, secamente.

O poeta não tem opção senão se manter debaixo do lençol. Um esconderijo ensimesmado, feito uma pulga em repouso, na frente das orelhas. Cada pensamento que se lhe apresenta traz embutido a esperança fedorenta de que dali a um dia, uma semana, um mês quem sabe a chuva voltará carregada de versos brancos, limpos, lavados.

Como a alma, se ele a encontrar novamente.

Domingo, foto

Philly Joe Jones and Larance Marable, 1958
Clique de William Claxton (1927-2008)

8.11.08

Fotograma

o dia estava tão legal, teve uma queda no gráfico, mas eu ainda acredito que vá terminar bem.
pensamento positivo é tipo uma religião
na qual os deuses são invisíveis, inatingíveis, inexistentes.

quando vejo o sol brotando pela fresta da persiana
lembro-me que há vida de verdade acontecendo:
com carros que trafegam sem explicação,
sonhos que se esquecem de virar realidade,
pessoas bonitas transando o tempo todo.

eu estou aqui, dentro de um quarto fechado, rodeado de silêncios e tédios que mudam sempre de lugar.

7.11.08

Filminho de sexta



F-1.

duas inocentes perguntas e um lugar-comum

quantas frações tem um segundo?
quantas frações têm um segundo?

aforismo

escrever para mim é um destino.
se eu não for remetente.

6.11.08

Você

Eu pensei num mundo de você.
Como se você fosse plural.
E você multiplicasse-me.

Instante da estante

TAMARO, Susanna. Ouça a minha voz. Rio de Janeiro: Rocco, 2007.
decidi que não entendo por que as pessoas sorriem.

5.11.08

A fazer #4

  • Sinestesiar os sentimentos;
  • Simbiosificar as sensações;
  • Sinalizar os sonhos;
  • Sinsinar os sins;
  • Dizer não aos nãos.

Um quadro às quartas

Sem título, 2006
Obra de Carlos Eduardo Uchôa Fagundes Jr. (1961- )

7. No princípio, era o verbo

Alguns diálogos, a vida esquece pelo caminho.

Talvez porque fossem primitivos:

- U-u-u.

- Gugu-gu?

- Ic, bibi!

- A-a-a.

Talvez porque fossem inusitados:

- Quantos céus batem no fundo do mar?

- Tantos couberem na mão.

- E quanto custa uma mão nova?

Talvez porque fossem sentimentais demais:

- E tudo você leva aí dentro?

- Sim. De amores atrasados a suspiros pontuais.

Talvez porque fossem horripilantes:

- Comi sopa de ratazanas ao molho de sangue hoje.

- Sério? E nem deixou um pouco para eu requentar pra mim?

- Não. Ratazanas ao molho de sangue é um prato que deve ser saboreado frio, como a vingança.

Talvez porque nem fossem:

- .

4.11.08

Sobre ódios

Odeio novembro, dezembro, janeiro, fevereiro e sorvete de abacaxi.
Também odeio tudo o que não é filosofia, música, cinema, literatura e minha casa.

Quem foi o idiota que inventou critérios e ódios?
À guilhotina. Já.

Quando acordo mal-humorado, sou um risco à perpetuação da espécie humana.
Tropeço em meus próprios desastres.
Invento novos explosivos.
E substituo sorvetes de abacaxi por pessoas detestáveis.

Terça sonora



"In a heart full of dust
Lives a creature called lust
It surprises and scares"

Quandos

quando lhe quis um beijo
não pensava em nada
que fosse extinto

quando lhe tirei uma foto
não pensava em nada
que fosse imagem

quando lhe armei o bote
não pensava em nada
que fosse finito

quando lhe pedi um poema
não pensava em nada
que não fosse

3.11.08

flashes

a clavícula da morte
faz cócegas
ad infinitum.

cada escorregão, um arrepio.

Para começar a semana

"Escrever para mim, muito mais do que uma decisão profissional, é um destino. Eu só tinha esta opção, uma vez que nasci assim."

Nelson Falcão Rodrigues (1912-1980)
era uma vez um colecionador.
sou fissurado por coleções.
mas o colecionador que mais me encanta.
é o colecionador.
aquele que coleciona simplesmente.
coleções.

entre estranhas pontuações.
o colecionador coleciona.
simplesmente.
é um intransitivo por natureza.
com milhares de coleções.
de uma peça.
só.

2.11.08

Domingo, foto

Enredo-me, 2008
Clique de Edison Veiga (1984- )
cada vez mais tenho a certeza de que os mundos são assim fabricados por acaso já que o tédio deve ter se apoderado de algum bacanão e ele começou a brincar porque não tinha mais bebida alcoólica na geladeira

1.11.08

Noves fora

Novembro quero ver se me lembro de algo menos ameno para colecionar
Depois quem sabe até inventar novos problemas só para resolver
Um por um.

Por que seus beijos?

31.10.08

Filminho de sexta



Xeque-mate.

Dialoguinho

Todas as coisas têm andado de carro?
Não, não. A cabeça vai ao vento, como sempre.
no tempo não tem pó nem tem pão; só tempo tem não;
no porão do tempo
temporão
tem porão.

30.10.08

Instante da estante

LEMINSKI, Paulo. Os melhores poemas de Paulo Leminski (seleção). São Paulo: Global, 2002.
Do amor, andou pelos ares.
Da barriga, brotou um bebê.
Do cárcere, colecionou causos.
Do debate, desafiou Deus.
Da escola, escolheu um enigma.
Do fim, forjou as flores.
Do gramado, germinaram gérberas.
Do hoje, houve hiatos.
Do início, indicou istmos.
Da janela, jogou janotas.
Do lugar, legou lições.
Do meio, marcou o mundo.
Do nada, nivelou nãos.
Do orvalho, ousou ao outro.
Do problema, produziu poemas.
Da quitanda, quis quiabos.
Do rei, roeu a roupa.
Do sonho, sentiu saudades.
Do tempo, teve tédio.
Da úlcera, untou os uis.
Da viagem, ventou vísceras.
Do xis, xuaxalhou sobre xiriricas.
Do zunido, zebrou o zupt.

maçarico

seu olhar era macônico
manicômico
maneta
como se um sorriso
molhasse
me olhasse
assim.

só olhar era maçante
maniçante
mônico
como se ser sorriso
melasse
molhasse
em mim.

29.10.08

Eu-externo

O eu-externo vai se apoderando do eu-interno, que de lírico não conta mais nada. Aritmético. Fleumático. Paradigmático. Enfermo. Feito um pigmeu ensimesmado, saltito tristemente. Passo por lugares-comuns e incomuns, falo frases-feitas e outras por fazer, sussurro à boca-pequena e também às maiores.

O eu-externo vai virar eu-interno e eu transmutar-me-ei por dentro. Alimento.

Um quadro às quartas

Maria-fumaça, 2005
Obra de Luis André Frade (1965- )

28.10.08

Terça sonora



"I thought the world of you"

27.10.08

melhoragora
maisuma
sempretem
assimesmo
tábom
comoassim
nãossei

Para começar a semana

"O livro pode não ser o melhor amigo, mas é o amigo indispensável."

26.10.08

Domingo, foto

Luanda, 2008
Clique de David Braga (1980- )

25.10.08

Só que se a chuva não fosse nada disso, se resumisse àquela idéia física de que o ciclo da água é algo natural e normal, sem nenhuma possibilidade dos desvarios seus serem realidade, então é que ela teria descoberto mesmo o motivo para se jogar dali do nono andar e virar espírito solto quando cair no meio da rua, atrapalhando o trânsito. Onde estariam então os gnomos? E os sentimentos do mundo? Não! Seria deveras triste para ser verdade: imagine que pacato o mundo intrínseco em reações químicas que tentam em vão explicar a evaporação da água e os fenômenos da chuva que chove. Chove e pronto.
Quais eram os tesouros que compunham a fortuna dos gnomos? Ela tinha certeza, mas não ia contar para ninguém, que eram os sentimentos mais bonitos. E pensava naquela pieguice pueril como seria legal quando os homens resgatassem moedas de Amor, notas de Paz, pérolas de Amizade, pulseiras de Sinceridade, colares magníficos de União, alianças douradas que não simbolizariam a prisão, mas a liberdade...

24.10.08

Ela achava mesmo que era melhor encarar a chuva como um artefato mágico que ajudava as pessoas a se verem melhor. Acabava de descobrir que via a chuva como o que revelaria o nosso próprio sentimento. A chuva quando forma poça é espelho natural para quem não penteia o cabelo. A chuva quando falta é caos total na terra que dependemos da água. A chuva quando tem sol junto ou imediatamente após resulta em arco-íris, um dos mais belos espetáculos que encantam os olhos de quem vê, além de servir de esconderijo para os gnomos de todos os tipos e tamanhos, em cada ponta do arco, com uma arca cheia de tesouros desconhecidos da humanidade.

Filminho de sexta



Clássicos.

23.10.08

E a chuva chovendo devagar a lembrava de idéias de suicídio. Poderia ela pular ali da janela, nono andar, e virar pacote de defunto quando se esbodegasse no chão rude do asfalto? Outro dia leu que as pessoas se matam mais em dias de chuva, que a chuva entristece, que a chuva é um motivo a mais para a morte, que a chuva é mesmo a gota d’água dos problemas, e não inúmeras gotas d’água força vital que move a humanidade. Isso porque as pessoas ainda não haviam descoberto que a chuva só as mataria se se tornasse um fenômeno capaz de matá-las, e sendo que só se tornaria capaz se as próprias pessoas permitissem. Nove andares de ruptura e um abismo entre vida e morte, a maior antítese que refuta os pensamentos da gente. Acho que a chuva ajuda a gente a se ver, é o som que vem do rádio ligado no canto do quarto que cheira aquele aroma gostoso da alma feminina que acaba de despertar.

Tanta coisa não poderia, Maria (singelo poeminha inocente)

Tanta coisa não poderia, Maria
Outra alegoria, uma confusão
Tamanha briga em seu coração
Tanta coisa não poderia, Maria
Hoje, não; hoje, não

Tanta coisa não poderia, Maria
Que desconheço o meu perdão
Tacanha lida brotando do chão
Tanta coisa não poderia, Maria
Hoje, não; hoje não

Tanta coisa não poderia, Maria
Outra alegria, eles jamais virão
Estranho dia, enxotado, cão
Tanta coisa não poderia, Maria
Hoje, não; nunca não.

Instante da estante

PRATA, Liliane. Uma bebida e um amor sem gelo, por favor. São Paulo: Marco Zero, 2006.
Abriu as janelas enfim e, para seu descontento, não topou com um belo sol pronto para condecorar aquela noite maravilhosa. Era chuva chovendo devagar, sem pressa para acabar, como um pássaro doente que se arrasta agonizante esperando a morte chegar e torcendo para que acabe logo sua sina desperdiçada de viver. Mal sabia ela que toda chuva matinal era resultado da tempestade noturna que agonizava as pessoas e a perseguia impiedosamente. Fosse o que fosse, apenas imaginação, e na verdade o que havia era sim, chuva chovendo, só que os pingos, se vistos sem desconfiança, reduziríam-se a meros orvalhos do alvorecer. Blém-blém-blém? De dia o barulho social, a turbulência dos carros e ônibus e aviões e transeuntes conversando atrapalhava a audição e não tinha blém-blém-blém. Na verdade tinha, e ela sabia que tinha, mas fingia que não tinha para não ficar preocupada por não ouvir o blém-blém-blém. Por isso ela preferia mil vezes a noite com seus raios de luar e suas lampadazinhas estrelas ao dia, quando as coisas acontecem e é tão chato acontecerem as coisas.

22.10.08

Ela estava encucada com o dilema crucial de sua vida. Queria tanto se lembrar dos prazeres que tinha gozado enquanto sucumbia em profundo sono. Queria tanto se lembrar que tinha sido poema, nua em verso, feito patética idealização romântica em sua cama quentinha. Quentinha como ela ficava só de pensar no que havia sonhado e não se lembrava mais. Quentinha e com o coração palpitante, toda lábios intumescidos de um frenesi contagiante que irradiava seus olhos de moça. Tentava até simpatias para avivar sua memória e recordar-se dos sonhos, mas como não possuía superstição suficiente em seu âmago, nada adiantava, sequer funcionaria.

Um quadro às quartas

Les Alyscamps, 1888
Obra de Vincent Willem Van Gogh (1853-1890)
Acordou ansiosa para abrir as janelas e procurar pelos sonhos que haviam fugido de sua cabeça durante a noite. Por que será que os pesadelos ficavam vivos na memória enquanto os alegres sonhos de idílios impossíveis e grandes vitórias se perdiam para sempre na moleza do inconsciente? Seriam os sonhos coelhos fugindo rápido pelo emaranhado de campos silvestres que as pessoas têm dentro de suas cabeças? Ou seriam tarefas cumpridas? Então os pesadelos devem ter mesmo esse nome ridículo por causa do peso enorme: são os coelhos gordos, ou grandes ursos que o cérebro sonha por confundi-los com coelhos. Na hora do sol nascente, hora combinada para a fuga, coelhos somem embrenhando-se no mato enquanto os obesos ursos diabéticos não conseguem se perder.

21.10.08

entremeios

azar
é pôr

amor
é mar

amar
é dor.

a menina mais linda que existe
não cabe no poema maior do mundo:

disse o colecionador de verdades
de dentro de sua caixa escura
onde ele mora.

morar
é amor.

morar
é amar.
Enquanto isso, Eva, a garota experimental que fora defenestrada da sala do presidente da ditadura, mantinha suas idéias revolucionárias de uma originalidade estonteante e abusiva:
- Vou criar a antimatéria só pra ver o mundo no avesso, tudo o que era belo será feio, tudo o que era estético será imoral, tudo o que era ético será mortal, tudo o que era vermelho será multicor, numa rosa dos ventos infinita...
- Vou convocar todas as mulheres para que masturbemos o Brasil. Agora entendi como fazer essa coisa crescer. Se o profeta que escreveu o Hino disse “deitado eternamente em berço esplêndido”, com um pouco de excitação a velha Pátria vai se erguer e construir o seu futuro.
- Vou jogar torta na cara de quem vier me encher a paciência. E já estou mandando queimar todos esses livros de gramática que os acadêmicos querem me empurrar goela abaixo. Não tô nem aí...
- Vou queimar todas as plantações de imorangos do mundo. E quando algum político vier doar alimento para os raquíticos que adornam a sociedade capitalista, dou-lhe um safanão: “ensine a pescar ao invés de dar o peixe, seu patético charlatão!”
- Agora estou na internet.
abc.

Terça sonora



"Acabou chorare, ficou tudo lindo
De manhã cedinho, tudo cá cá cá, na fé fé fé
No bu bu li li, no bu bu li lindo
No bu bu bolindo
No bu bu bolindo
No bu bu bolindo"

20.10.08

Para começar a semana

"Não dá para querer que o papel da literatura seja o de mover montanhas. As coisas mudaram. A literatura, no entanto, é uma comunhão de emoções."

Luci Collin (1964- )

19.10.08

Que a terra lhe seja leve (nada nos deixaria, nem mesmo a sua virgem face incolor. Nunca a censuraria por não sanar minhas dúvidas, afinal nem mesmo a inocência e a ignorância revestidas num corpo humano poderiam responder algo que nem mesmo Deus saberia ao certo como acontecia. Isso me engasgava até hoje e sempre me engasgaria feito nó na garganta).

Domingo, foto

Céu de São Paulo, 2008
Clique de Sylvia Masini (1957- )

18.10.08

- Professora, venta no avesso da Lua? Por que o mar não derrama? Quem inventou a pipoca? Quanto tempo tem o infinito? – Era ela, desconcertando a mestra da primeira série, pobrezinha, invariavelmente sem resposta para questões tão intrinsecamente banais. Que será que será dela? Estará viva ainda? Creio que sim, pois dúvidas existenciais duram para sempre. Deve estar bem velhinha, o tempo não tem pena e esbanja nas pessoas a vingança por seu tédio de ser eterno: condena-as à senilidade, em cadeiras de roda ou de balanço, com animais de estimação ou em asilos, fumando cachimbo ou jogando baralho, tomando viagra ou lendo a bíblia, dormindo ou viajando, morrendo ou apodrecendo em leitos hospitalares... Quanto a mim, não. Nada me condenaria, nem mesmo o tempo que nunca vejo passar e quando passa arrasta-se como sereias em mares de lama. Descanso em paz? Aqui jaz a professorinha inocente, responsável por minhas primeiras dúvidas não respondidas, culpada dos meus primeiros dilemas, pela minha paranóia inicial. A professorinha de quem não tive pena, pois poderia perguntar apenas datas e nomes, regras ortográficas e resoluções óbvias da matemática. Mas perguntava questões crucialmente filosóficas.

pra ti cá mente

o que me mais irrita é a tua sinceridez nada espontânea
tua espezinhadeira autônoma
teu máximo alimentrifício amor
que finge não ser
querência

do esquerdo alto de teu saluço
cada simlêncio seja átomo
cada segredo seja póstumo
cada verso seja concreto
para que a junção útil
agradámel permita-me

atende-me

17.10.08

Mas se fosse palavras como sonhariam os analfabetos?, sem essência, sem cor, sem alma, sem jeito... Não! seria egoísmo demais vilipendiar dessa forma os anseios daquela gente estranha que não conhece letras pelo nome. Não bastasse toda a montanha que os separam na sociedade, ainda teriam que ter sonhos chatos, seria demais para a misericórdia ou a ira divina. Ela era piedosa e se conclamava de dó daquela gente humilde e resignada enquanto dormia o turbulento sono. Nua e crua, na cama quentinha... à espera de um calor mais intenso, mesmo efêmero, algo que poderia fortalecê-la eternamente, se a eternidade não fosse uma coisa tão longa que tanto e quanto tempo dura jamais ninguém soube ao certo explicar-lhe.

Filminho de sexta



Leminski, the businessman.

16.10.08

Instante da estante

FERNANDES, Millôr. Que país é este?. Rio de Janeiro: Desiderata, 2006.
Afinal, quem nunca sonhou ser poema? Ela estava absorta nisso, um poema de vidro à beira de abismo que pode se quebrar num leve toque do vento, caindo profundamente e influenciando as futuras gerações. Quem nunca sonhou ser poema? Ela era ela, sentia-se um lindo poema quase perfeito, burilado com carinho pelas mãos do sábio poeta do seu coração. Ela era palavras nuas e cruas, e estava assim aconchegada em sua cama quentinha, toda nua ela, verso e coragem, pensamentos e sonhos, desvarios. Bem sabia, é verdade, que qualquer dia amanheceria e então desperta podia descobrir seu engano de querer ser poema, então se certificava meticulosa que não era tão perfeita como pensava naquele momento. Blém-blém-blém, só o tempo passa quando se pensa e o mundo pára.

Decretos de um dia sem sol

1. Menos nomes e normas normais em manhãs mornais;
2. Sempre sem pressa, chega-se;
3. Sal e sol, demais não;
4. Ensimesmados são assim mesmo;
5. Todo silêncio é um sim-lêncio;
6. À beira do abismo abre-se a beira do abismo;
7. Quanto mais pro fundo, menos em tendo;
8. Quanto mais pro curo, menos em contro;
9. Quanto mais procuro, menos escrevo;
10. Quanto menos escravo, mais detento;
11. Quanto mais quantos, mais chato;
12. Quem coleciona não pode ser colecionado;
13. Menos nomes, menos normais, menos normais, menhos manhãs -- com um copo de gelo, por favor.

palavras

cioso,
coleciono palavras que não ouço
nem peço.

assim mesmo
elas escorregam de mim
em busca do ouça-me
sinta-me
soluça-me.

mesmo que tente
perdê-las,
mesmo que tentado
esteja,
coleciono-as
assim:

são sons
(não só).
são sensações
a sós.

palavras.

15.10.08

Blém-blém-blém, outras vezes, e já era bem mais que meia-noite. Estrelas cintilando ao luar denunciavam a neblina esparsa da madrugada. Quem cai na armadilha do blém-blém-blém? Ela não caía e nada parecia interromper o sono azul que levava incontinenti e perene feito possibilidade de o paradoxo assim puder ser. Aliás, tudo pode quando se é verso de poema, tudo pode quando se sonha, mesmo que pesadelos de granizo interrompam a azuléia serpente das tormentas alegres que circundam as fossas cerebrais em momentos de turbulência intelectual, quando se mergulha no profundo descanso. Descanso, uma ova!, é hora essa que a cabeça trabalha mais, e mais livremente, sem a interferência da pálida zona consciente. Não tinha lido que a relatividade fora descoberta num estampido noturno do sono e sonhos de Albert, o Einstein? Fosse ou não fosse verdade, é de lendas que o homem vive, sobrevive no mundo cruel e casto do consumismo e da esterilidade da imaginação.

Um quadro às quartas

El espolio, 1577/79
Obra de Doménikos Theotokópoulos - "El Greco" (1541-1614)

14.10.08

tem palavras

tem palavras é como se escorregassem as mãos, se perdendo à cabeça tocam os pés arrepiam a alma. tem palavras é como alimento para as borboletas, aquelas que moram no estômago.
um alfaiate de origens costuma estraçalhar os vidros de minha cabeça.

- matar já é demais, sussura uma alface.

- tem gente que passa dos limites.

enquanto isso, dentro do meu travesseiro azul, pedras escorregam e cutucam, cutucam, cutucam. até amanhã. tchau, gente. e depois não digam que eu não avisei, porque eu não avisei mesmo.

Terça sonora



"I know, I can't believe"

13.10.08

Para começar a semana

"A literatura dirigiu meu pensamento, minha forma de ver o mundo. Eu vivo e respiro literatura o tempo inteiro. Quando não estou escrevendo livros meus, estou traduzindo obras de grandes autores."

Lya Fett Luft (1938- )
adoro pessoas que emendam um assunto no outro. principalmente, se os misturam.

12.10.08

de lugares, pessoas, amores

os lugares só funcionam porque existem as pessoas para os valerem a pena. do contrário, apenas seriam lugares, ocos, desprovidos de sentido, insossos, impróprios para o consumo.

mais que lugares, gosto das pessoas. mesmo das que desgosto, é um prazer. só por não ter a indiferença, por ser abstrato, por cimentar o gesto. estou confuso hoje e ontem. o resto são dívidas.

quando estou nos lugares e não vejo pessoas, sinto-me obviamente só. e pior que ser só, é estar só. pior que estar só, é sentir-se óbvio.

obviedades são as piores coisas já inventadas. piores que todas as memórias da ficção. piores que gols perdidos na prorrogação, beijos prometidos e nunca cumpridos, sonhos que somem antes mesmo da gente acordar.

- quero acordar ao seu lado esta manhã.

Domingo, foto

Sobrevivência, 2007
Clique (e obra) de Eduardo Srur (1974- )

11.10.08

Coleções #4

  • Amares;
  • Comeres;
  • Beberes;
  • Dormires;
  • Esquecimentos.
Dois pontos.
Reticências.
Exclamação.

10.10.08

Morte coalhada

Coveiro caolho não se cansa de coalhar a morte.
Repica um sino, outro sino.
No cemitério, cada defunto tem seu lugar,
alguns nem lugares
têm
fora de lá.

Quando a morte é coalhada, vara o pano
que amarra cada um à vida.
É mágica.
Jeito maroto de coveiro caolho reclamar
trabalho.

(Em tempos de crise, crase, cruzes,
desemprego e tanta coisa
que coveiro caolho nem eu
entendemos direito.)

Quando defunto é encomendado,
despachado,
mandado para o fundo,
coveiro caolho faz nome-do-pai
e diz amém.
Pensando no tempo que passa, olhando para trás no hoje que já vira ontem, assim dormiu, sorrindo, sonhando com estrelas de uma nova fábula. Estrelas mais fortes que o Sol, queimando sinos que jamais repicarão de novo. Quem nunca sonhou em ser poema? Ela se via um verso, nua e crua, formando estrofes brancas, algumas coloridas, quem vai perceber? Sonhava que suas palavras compunham o mais belo soneto de amor e que o amor valia a pena mesmo que ninguém acreditasse nisso. Sentia-se forte, coalhava a morte que havia dentro de si como se a calma fosse virtude e bem necessário. E guardava consigo própria essa vontade interior de ser poema, alma nova vibrando em versos... De certo não achava certo dividi-la com mais ninguém, assim a constatariam jamais como desvairada e coisa e tal. Fazia bem parte de seu temperamento misantropo limitado tornar-se uma crente incrédula e por uma momento poderiam transformar suas idéias numa seita antagônica e ela ser julgada pela sociedade como maluca. Isso a deixava amedrontada e reprimida diante dum sentimento tão significativo. E a faria esconder o segredo dentro dos sete buracos da cabeça.

Filminho de sexta



Leminski e a linguagem.
Blém-blém-blém, doze vezes, e num átimo já não era mais meia-noite pois o tempo não pára. E ouvia ela assim, insistentemente, o repicar do sino anunciando o fim de mais um dia, rotina, mesmice. Mas será que o sino existia ou tudo não passava de desvario seu? Pois se sino não havia que é que repicava e repicaria blém-blém-blém quase sem querer? E se fosse o mesmo sino que ela não sabia que existia e repicava perfeito para estender o som da marcha fúnebre às sextas-feiras, pontualmente cinco da manhã? Aliás, não se via capaz de entender o porquê do lúgubre ruído deveras por causa de seu pensamento no som da trombeta anunciando renitente a morte de alguém. Por que isso a lembra da morte dos grandes soldados na guerra, deixando-a triste na vaga lembrança daquele vulnífico tanque de batalha na fazenda do avô? Para que dele lhe servia o avô? Apenas para alimentar as traquinagens dela e seus primos que cometiam afoitos diante do bélico instrumento? O eco do blém-blém-blém não respondia, era só silêncio, e ela audaciosa e melindrosa se encolhia toda na cama quentinha só de pensar nessas bobagens que chegam até a tirar o sono da gente. Afinal, que ia ela de querer com o sino que repica, o vento que chacoalha, a voz que estremece? Investigar o instigante motivo que levaria o sino a trabalhar altas horas da noite, incessante, mesmo que no mesmo instante exato todos dormimos como juliãos descansados? Não, não, apenas uma coisa tinha certeza: ela, e só ela, sabia conversar com estrelas. E sabia que sabia, isso era melhor ainda, pois a consciência a revestia de talento e a fazia umquê mais forte. O resto? Conquista-se, compra-se, vende-se... Falar com estrelas, só ela, mesmo quando no céu não há mais estrelas, mesmo quando é dia e o Sol estrela maior egoísta se sobrepõe às demais e apaga o que não é tão claro como ele. Pois sabia bem até procurá-las na claridez e as encontrava mormente, mesmo aquela que menos brilha, aquela que julga como sendo sua, só sua.

9.10.08

Instante da estante

REY, Marcos. Enigma na televisão. São Paulo: Ática, 1995.

8.10.08

Há pessoas que não respondem e-mails.

Um quadro às quartas

Asno podre, 1928
Obra de Salvador Dalí (1904-1989)