9.9.07

Terapauta (autotexto de abril de 2005)

Nuvens são deusas ao desuso condenadas, decrépitas em virtude do ateísmo professado pelas gentes. Ao fim do dia, gosto de ter tempo pra adorá-las, quando ficam rosa-roxeadas pelo pôr-do-sol macio que só em Bauru há.

Aí penso no que passou e no punhado de coisas grandes que tenho vontade de conquistar, fazer, me ser. Culpo-me pelo texto não escrito e ao mesmo tempo já me expio ao lembrar que a madrugada está inteira e ainda há tempo de sobra pra exorcizar-me, brigando freneticamente com o teclado incansável de meu computador.

Meu computador é um parágrafo à parte. Em seu currículo são dois anos e meio (54 reportagens, 3427 fotos, 52 contos e centenas de poemas). No meu, são vinte. Dedicados a interromper o fluxo atemporal do vento que balança as montanhas e da lógica que desafia os fatos. Dedicados a encurvar retas e aborrecer quem se atreve a ler-ser-amar-correr.

Do jornalismo não tenho o que dizer. Prefiro sê-lo a julgá-lo. Prefiro vivê-lo a entendê-lo. Ele me acontece, apenas. E é só olhar para trás e lá se vão quase oito anos (40% da minha vida) em que estou nele em comunhão. Minha profissão, de fé. Minha pró-visão.

A poesia vem de antes. Não sei ao certo quando, mas certamente foi por irritação por um fiapo de manga enroscado nos dentes, tão precocemente amarrados por arames metálicos da modinha. A poesia surgiu como descarga – e ainda hoje a é. Acompanhou-me nas primeiras frustrações da paixão e agora é fiel depositária do amor que vivo. Meu éter, a chuva que faço chover quando quero brincar de Deus.

Em 2000 virou livro que prefiro esquecer. Desde um ano antes me rende prêmios – alguns dividendos, por vezes. Mas gosto mesmo é daquelas que provocam: um beijo, uma lágrima, um sorriso sincero, um adeus. As outras são inúteis.

Os contos nem dá pra contar. São despretensiosos e tão sem futuro quanto os fumantes. Ano retrasado cismei de criar algo maior e nasceram nove gnominhos cor-de-abóbora. Mas ainda não foram capazes de decidirem seu rumo e continuam morando dentro do computador – ao menos já se mudaram da minha cabeça, não os aturava mais!

De manhã, raramente olho ao espelho. Não costumo pentear os cabelos desde que o uso do capacete me desobrigou de tais cuidados. Ganhei alguns minutos a mais de sono, cada um com a sorte que tem.

Gosto de passar a tarde escrevendo, mas não sei até quando isso vai durar.

Tem dias que me sinto um tremendo ponto de interrogação. Olho para o pingo abaixo e, por ser d´água, vejo que ele reflete a curvatura superior que rio de mim mesmo, numa pose quase aristocrática. Nesses dias, tenho vontade de ser um poste ou um avestruz. Fico em dúvida, posto que estou interrogação. Tenho vontade de procurar um terapeuta, mas sempre esbarro no problema de encontrar o mais conveniente. E, pra ser sincero, já estou deveras cheio dos terapautas que nos consomem enquanto sumimos o resto que somos, sem deixar rastos – que é pra ninguém seguir mesmo, com suas tralhas, as trilhas que fizemos.

Acho que sempre gostei de aquários.

Um comentário:

giovanna longo disse...

"Gosto de passar a tarde escrevendo, mas não sei até quando isso vai durar." - Tomara que para sempre!
Um beijo!