espero tudo o que não alcanço.
depois canso.
26.8.07
Irene
Com triste ironia
Irene sorria.
Um pedaço de poema
no pecado entre as pernas
a lhe lembrar nas retinas
da contrita rotina:
Irene sorria.
Sempre juízo,
Irene sorria.
E sem prejuízo
na data da festa do santo
tomava sopa de incunábulos
saboreando os vínculos
em suave penitência.
No íntimo, intimidada,
Irene sorria
porque seria práxis chorar
lágrimas vermelhas com aroma
de amora.
Irene só sorria
como quem inventasse e ventasse.
Irene sorria.
Um pedaço de poema
no pecado entre as pernas
a lhe lembrar nas retinas
da contrita rotina:
Irene sorria.
Sempre juízo,
Irene sorria.
E sem prejuízo
na data da festa do santo
tomava sopa de incunábulos
saboreando os vínculos
em suave penitência.
No íntimo, intimidada,
Irene sorria
porque seria práxis chorar
lágrimas vermelhas com aroma
de amora.
Irene só sorria
como quem inventasse e ventasse.
Tentativa n.º 8
Quero ser uma cebola e, anticola, desprender cada camada
em mim só
como a bola que, tanto ser chutada, despedaça seus gomos
aquilo que somos.
Uma gota qualquer de orvalho
permaneça, sábia,
até que eu amealhe uma folha, outra folha...
Quero ser um pó de cebola
um poema
um problema.
Uma negação.
em mim só
como a bola que, tanto ser chutada, despedaça seus gomos
aquilo que somos.
Uma gota qualquer de orvalho
permaneça, sábia,
até que eu amealhe uma folha, outra folha...
Quero ser um pó de cebola
um poema
um problema.
Uma negação.
19.8.07
Alfabetólio
Adalgisa amava Bartolomeu que era amigo de Carlos que ficava com Daniela que gostava muito de Eric que batia em Fábio que era apaixonado por Gustavo que cantava com Hércules que beijava Iara que transava com Juliana que jogava vôlei com Kátia que sonhava com Luís que sorria para Mário que nadava com Nádia que piscava para Osvaldo que bebia com Pedro que competia com Quirino que saía com Rosana que morava com Sara que amamentava Trajano que queria ser Umberto que abraçava Viviane que se fantasiava de William que colecionava miniaturas de Xaiane que matou Yuri e Zélia.
17.8.07
Bandeira
AGORA A ROSA ACABOU
GORA A ROSA ACABOU A
ORA A ROSA ACABOU AG
RA A ROSA ACABOU AGO
A A ROSA ACABOU AGOR
A ROSA ACABOU AGORA
A ROSA ACABOU AGORA
A ROSA ACABOU AGORA
A A ROSA ACABOU AGOR
RA A ROSA ACABOU AGO
ORA A ROSA ACABOU AG
GORA A ROSA ACABOU A
AGORA A ROSA ACABOU
GORA A ROSA ACABOU A
ORA A ROSA ACABOU AG
RA A ROSA ACABOU AGO
A A ROSA ACABOU AGOR
A ROSA ACABOU AGORA
A ROSA ACABOU AGORA
A ROSA ACABOU AGORA
A A ROSA ACABOU AGOR
RA A ROSA ACABOU AGO
ORA A ROSA ACABOU AG
GORA A ROSA ACABOU A
AGORA A ROSA ACABOU
16.8.07
15.8.07
12.8.07
Pedaços nus
O relógio, com sua lógica irrepreensível, marcava duas em ponto quando Suzana, a louca, desligou o despertador para não ser incomodada às 7:43, como era de praxe, todas as manhãs, chuvosas ou de bom-humor, de frio ou até de feriado. Foi quando, sem qualquer aviso de antemão que provasse o seu orgulho ou algo que o valha, pulou-lhe da garganta um ovo que botou um ser penado, com asa e tudo:
- Cocoricó - resmungou, entre tantos.
- Cacarejo eu - respondeu, só.
E a verdade que não foi dita é que a partir deste instante, Suzana, a louca, passou a escrever sonhos e retirar o sentido dos tons de cinza nuvem para jogá-los longe junto do sol ocre e solitário a rir das gentes.
- Devia parar de tostar nossas peles, pelamordedeus, devia parar. Ainda iremos acabar todinhos à passarinho.
Então voava.
Sempre amargo o pressentimento de abrirei a janela e verei uma anta correndo para o mato ou um macaco suspirando pelos cantos de todos os galhos. Até ontem, desilusão por jamais me deparar com tais fragmentos oníricos. Sai sangue.
*****
Não passava uma madrugada inteira sem trepar, ainda que fosse só uma fodinha rápida. Não agüentava, jamais agüentaria suportar aquele tesão que brotava em seu corpo de dezenove anos. Ora, se Elenice aceitara o fardo de ser sua mulé, agora que não rogasse arrego. E nada de dores de cabeça ou flechadas no coração. Nada. Não engolia, isso, jamais.
Era, sim, cabra macho sim sinhô. Forte e rijo, abusava. Mesmo que Elenice resistisse, vez sim vez não, no começo. Ah, quando o troço embalava era gostoso de dar dó.
E ela gemia de quatro em seu quarto, a três quadras ou pouco mais da igreja matriz, quando os sinos repicavam duas horas da matina.
*****
- Me dá uma sacola?
*****
- Como você vai dormir?
- Com meias brancas.
E só.
- Cocoricó - resmungou, entre tantos.
- Cacarejo eu - respondeu, só.
E a verdade que não foi dita é que a partir deste instante, Suzana, a louca, passou a escrever sonhos e retirar o sentido dos tons de cinza nuvem para jogá-los longe junto do sol ocre e solitário a rir das gentes.
- Devia parar de tostar nossas peles, pelamordedeus, devia parar. Ainda iremos acabar todinhos à passarinho.
Então voava.
*****
Sempre amargo o pressentimento de abrirei a janela e verei uma anta correndo para o mato ou um macaco suspirando pelos cantos de todos os galhos. Até ontem, desilusão por jamais me deparar com tais fragmentos oníricos. Sai sangue.
*****
Não passava uma madrugada inteira sem trepar, ainda que fosse só uma fodinha rápida. Não agüentava, jamais agüentaria suportar aquele tesão que brotava em seu corpo de dezenove anos. Ora, se Elenice aceitara o fardo de ser sua mulé, agora que não rogasse arrego. E nada de dores de cabeça ou flechadas no coração. Nada. Não engolia, isso, jamais.
Era, sim, cabra macho sim sinhô. Forte e rijo, abusava. Mesmo que Elenice resistisse, vez sim vez não, no começo. Ah, quando o troço embalava era gostoso de dar dó.
E ela gemia de quatro em seu quarto, a três quadras ou pouco mais da igreja matriz, quando os sinos repicavam duas horas da matina.
*****
Tantos sonhos a atrapalhar o sono, pirações sem nexo, que às nove e trinta e dois ela começava a pesadelar:
- Me dá uma sacola?
- Sacola?
- É. Pra guardar mais um sonho, que as minhas acabaram.
*****
- Como você vai dormir?
- Com meias brancas.
E só.
11.8.07
Pequeno texto acerca dos negócios (ou como simplificar o mundo que anda tão complicado)
Meu negócio é vender palavras. O negócio de uma construtora é vender prédios. Para unirmos esses dois pontos, precisamos de intermediários. O negócio dos intermediários é ganhar dinheiro fazendo pontes. São muitos. São muitas. Pontes são construídas por algumas pessoas tristes para que outras se atirem lá de cima.
Para comprar um pedaço de um prédio, primeiro preciso buscar um corretor. O negócio do corretor é vender conversa-fiada. No caso, em sua lábia estão embutidas as vantagens da aquisição de um pedaço de um prédio. Da incorporadora, já que seu negócio é justamente vender esses pedaços. Compro um.
Para pagá-la, preciso de dinheiro. Recorro ao banco. O negócio do banco é vender dinheiro. Bem caro. Para conseguir comprar dinheiro do banco, como não entendo nada de papelada, é preciso contratar um agente. No caso, uma agente. Agentes são pessoas cujo negócio é vender atalhos. Porque conhecem gente aqui e acolá e, mais importante, têm tempo para não se estressarem com a burocracia das coisas. São profissionais da chatice.
No meio do caminho há as máquinas de xerox - que têm como negócio vender cópias -, os gerentes de banco e seu negócio de enrolar clientes, as atendentes de telemarketing e seu negócio-mania de deixar a todos esperando com uma musiquinha renitente. E tem a religião, cujo negócio é nos lembrar de Deus. E tem Deus. O negócio de Deus é salvar o mundo. Meu mundo: um apartamento financiado.
Depois entrarão em cena o marceneiro mercenário - e seu negócio: dar um acabamento a árvores mortas para que elas caibam na sala de estar -, o carinha da mudança - e seu negócio de quebrar espelhos no leva-e-traz - e até as Casas Bahia - que têm um negócio maneiro de vender tudo à prestação.
Para isso tenho de vender mais palavras. Por falta de opção, já que não sei nem definir outras coisas.
Para comprar um pedaço de um prédio, primeiro preciso buscar um corretor. O negócio do corretor é vender conversa-fiada. No caso, em sua lábia estão embutidas as vantagens da aquisição de um pedaço de um prédio. Da incorporadora, já que seu negócio é justamente vender esses pedaços. Compro um.
Para pagá-la, preciso de dinheiro. Recorro ao banco. O negócio do banco é vender dinheiro. Bem caro. Para conseguir comprar dinheiro do banco, como não entendo nada de papelada, é preciso contratar um agente. No caso, uma agente. Agentes são pessoas cujo negócio é vender atalhos. Porque conhecem gente aqui e acolá e, mais importante, têm tempo para não se estressarem com a burocracia das coisas. São profissionais da chatice.
No meio do caminho há as máquinas de xerox - que têm como negócio vender cópias -, os gerentes de banco e seu negócio de enrolar clientes, as atendentes de telemarketing e seu negócio-mania de deixar a todos esperando com uma musiquinha renitente. E tem a religião, cujo negócio é nos lembrar de Deus. E tem Deus. O negócio de Deus é salvar o mundo. Meu mundo: um apartamento financiado.
Depois entrarão em cena o marceneiro mercenário - e seu negócio: dar um acabamento a árvores mortas para que elas caibam na sala de estar -, o carinha da mudança - e seu negócio de quebrar espelhos no leva-e-traz - e até as Casas Bahia - que têm um negócio maneiro de vender tudo à prestação.
Para isso tenho de vender mais palavras. Por falta de opção, já que não sei nem definir outras coisas.
7.8.07
Do poste ao rótulo, do parapeito à rótula
Coleciono abismos, pelo prazer de dividir humanidades:
de um lado os humanos, de outro os amenos - espremidos
no menos espaço possível entre meus braços e o aperto.
Hoje em dia, a eternidade não basta. É preciso alinhar
as paralelas, alimentar os páras, ensimesmar o bastante:
bestas são bostas endeusadas no abissal planeta Terra.
Se houvesse outra vida, colecionaria borboletas ou cartas
de baralho. São mais fáceis de manusear, contar, guardar.
Além disso, não há dúvida de que eles são o que se hão.
de um lado os humanos, de outro os amenos - espremidos
no menos espaço possível entre meus braços e o aperto.
Hoje em dia, a eternidade não basta. É preciso alinhar
as paralelas, alimentar os páras, ensimesmar o bastante:
bestas são bostas endeusadas no abissal planeta Terra.
Se houvesse outra vida, colecionaria borboletas ou cartas
de baralho. São mais fáceis de manusear, contar, guardar.
Além disso, não há dúvida de que eles são o que se hão.
6.8.07
Ela não está comigo
Faltam dentes na boca de Nelson, que mora na rua há mais de um ano. Faz quinze dias que não toma banho, diz ele, e não comeu nada hoje. Vestido com trapos, fede. No centro da cidade, não mendiga porque acha indecente; desconversa de como sobrevive. E exala um bafo de quem só consegue suportar o frio – o termômetro marca pouco mais de seis graus às três horas da madrugada – com muita cachaça.
Em seus olhos, a noite é imensa, e triste, e fria. E perigosa. Não dá para dormir direito, é preciso vigiar. O sem-teto em que habita guarda a história paulistana. Uma hora é o Pátio do Colégio, noutra os arredores da Estação da Luz, às vezes está em frente ao Teatro Municipal... Nelson conhece São Paulo, São Paulo é sua casa. Eis o verdadeiro cidadão, aquele que dorme com a cidade, come-a.
Quando Marinês chega ali e vai procurar se esquentar sob o mesmo cobertor surrado de Nelson, ela já trabalhou um bocado. Foram seis clientes das sete da noite àquela hora. Um pagou o dobro, para ter também o cuzinho. Os outros quiseram só o arroz-feijão. Marinês, trinta e quatro anos, aparenta quarenta e cinco. A pele está cansada, o corpo está cansado, e nem a buceta é mais a mesma. Todos os dias é o mesmo ritual. Pagamento adiantado, vinte reais a fodinha básica, meia-hora ou até o cliente gozar, o que acontecer primeiro prevalece. Então leva o sujeito ao quarto muquifo. Uma cama baixa, colchão mole. Fecha a janela que ficara aberta para arejar um pouco o fedor de porra ressequida, e tira a roupa, mecânica. Rebola se esfregando no pau do cara, veste a camisinha rapidamente e se senta. Diz que não sente nada mais. E já perdeu a conta de quantos foram em sua vida, pudera.
Marinês nunca trepou com Nelson. A relação deles é muito carinho para caber sexo. E Marinês não gosta de levar trabalho para casa.
Ela se acha uma mulher de sorte, pois é das poucas que toma banho, mais de uma vez por dia inclusive, das pessoas que moram nas ruas. É a vantagem embutida em seu serviço. Banho por conta da casa.
Nelson ultimamente tem passado o dia na linha B da CPTM. Ele e mais cinco ambulantes. Organizados, respeitam um rodízio em cada vagão. Para apregoarem seus produtos, um aguarda o outro. Sempre quem começa leva vantagem. Nelson vende amendoinzinhos, cinqüenta centavos. E é com Mozart ou Beethoven ao fundo – agora o trem toca música clássica, som ambiente, bem baixinho para ninguém reparar – que ele grita:
- Cinqüenta centavos o amendoim crocante, só cinqüenta centavos.
Lizete vende guardanapos bordados a dois reais, Ademir vende livrinhos de colorir para que pais com consciência pesada por deixarem os filhos sós o dia todo se redimam (um e noventa e nove), Gorete vende chips (um real), Odair vende canetas (três por um real) e Josias vende chocolates (um e cinqüenta cada barra).
Tem dia que Nelson não resiste e come um pacote de amendoinzinhos. Mas só de vez em quando. É preciso vender dez para pagar um.
Hoje, ao chegar em casa, após comprar um amendoinzinho de Nelson e foder com Marinês, desesperei-me ao não encontrar a chave. Ela não está comigo – será que um dia esteve? E assim, preso do lado de fora, voltei a me deparar com eles pelo mundo. Preso do lado de fora.
Em seus olhos, a noite é imensa, e triste, e fria. E perigosa. Não dá para dormir direito, é preciso vigiar. O sem-teto em que habita guarda a história paulistana. Uma hora é o Pátio do Colégio, noutra os arredores da Estação da Luz, às vezes está em frente ao Teatro Municipal... Nelson conhece São Paulo, São Paulo é sua casa. Eis o verdadeiro cidadão, aquele que dorme com a cidade, come-a.
Quando Marinês chega ali e vai procurar se esquentar sob o mesmo cobertor surrado de Nelson, ela já trabalhou um bocado. Foram seis clientes das sete da noite àquela hora. Um pagou o dobro, para ter também o cuzinho. Os outros quiseram só o arroz-feijão. Marinês, trinta e quatro anos, aparenta quarenta e cinco. A pele está cansada, o corpo está cansado, e nem a buceta é mais a mesma. Todos os dias é o mesmo ritual. Pagamento adiantado, vinte reais a fodinha básica, meia-hora ou até o cliente gozar, o que acontecer primeiro prevalece. Então leva o sujeito ao quarto muquifo. Uma cama baixa, colchão mole. Fecha a janela que ficara aberta para arejar um pouco o fedor de porra ressequida, e tira a roupa, mecânica. Rebola se esfregando no pau do cara, veste a camisinha rapidamente e se senta. Diz que não sente nada mais. E já perdeu a conta de quantos foram em sua vida, pudera.
Marinês nunca trepou com Nelson. A relação deles é muito carinho para caber sexo. E Marinês não gosta de levar trabalho para casa.
Ela se acha uma mulher de sorte, pois é das poucas que toma banho, mais de uma vez por dia inclusive, das pessoas que moram nas ruas. É a vantagem embutida em seu serviço. Banho por conta da casa.
Nelson ultimamente tem passado o dia na linha B da CPTM. Ele e mais cinco ambulantes. Organizados, respeitam um rodízio em cada vagão. Para apregoarem seus produtos, um aguarda o outro. Sempre quem começa leva vantagem. Nelson vende amendoinzinhos, cinqüenta centavos. E é com Mozart ou Beethoven ao fundo – agora o trem toca música clássica, som ambiente, bem baixinho para ninguém reparar – que ele grita:
- Cinqüenta centavos o amendoim crocante, só cinqüenta centavos.
Lizete vende guardanapos bordados a dois reais, Ademir vende livrinhos de colorir para que pais com consciência pesada por deixarem os filhos sós o dia todo se redimam (um e noventa e nove), Gorete vende chips (um real), Odair vende canetas (três por um real) e Josias vende chocolates (um e cinqüenta cada barra).
Tem dia que Nelson não resiste e come um pacote de amendoinzinhos. Mas só de vez em quando. É preciso vender dez para pagar um.
Hoje, ao chegar em casa, após comprar um amendoinzinho de Nelson e foder com Marinês, desesperei-me ao não encontrar a chave. Ela não está comigo – será que um dia esteve? E assim, preso do lado de fora, voltei a me deparar com eles pelo mundo. Preso do lado de fora.
30.7.07
23.7.07
21.7.07
Eu era um homem que colecionava pedrinhas de gelo
Até que elas derreteram.
E, de líquido, ficaram só minhas lágrimas.
E, de líquido, ficaram só minhas lágrimas.
20.7.07
Eu era um homem que tinha uma árvore
“Maybe I’m a man and maybe you’re the only woman
who could ever help me
baby won’t you help me understand”
(Paul McCartney)
Eu era um homem que tinha uma árvore.
E minha existência era feliz, por conta disso, pela árvore estar em minhas mãos, por ser minha, por estar minha, por me pertencer enquanto vida em minha vida. Eu era um homem, e tinha uma árvore. Como a regaria todos os dias e a adubaria semana sim, semana não, como contaria segredos ao seu pé que nem ouvido, como escreveria iniciais de todos os nomes em seu caule quando ela estivesse crescidinha e pudesse abrigar amores.
Eu era um homem que tinha uma árvore, repito, e esta verdade consolidava a minha existência.
– Eu quero!
– Quer não!
– Eu quero!
– Quer não!
– Onde você vai plantar? – Onde? – Tenho quintal! – Eu não. – Vou plantar no Ibirapuera! – Eu, na praia. – Praia não tem árvore, tem coqueiro! – Ah, é!? – É. – Vou plantar num sítio, então. – Até lá vai morrer, já tá murchinha...
Odeio mortes. Olhei para minha árvore, agora ameaçada de morte. Eu odeio mortes. Olhei para minha árvore, agora ameaçada de morte, como se um fuzil houvesse apontado em sua direção. Eu odeio muito mortes. Se pudesse, mataria todas as mortes enforcadas, para que nunca mais importunassem ninguém. Mas que chato seria a humanidade eterna, viver pra sempre, mais que vegetal, mais que mineral.
(Desconfio que odeio mortes só dos outros.)
– Toma, a árvore é sua, será mais feliz solta no mundo. Plante-a bem. Cuide-a. Toma, a árvore é sua, não mais minha, não tenho mais uma árvore, não tenho mais uma árvore, não tenho mais que disfarçar essas lágrimas, não tenho mais minha fábrica particular de fotossínteses, não sou mais ecologicamente correto, não tenho mais minha cota de reciclagem de carbono para dormir com a consciência em paz.
Não sei onde ela está agora. Se chora de saudades, se dorme bem, se tem companhia, se passa frio, se vai casar. A ausência precoce de minha árvore, que partiu para ganhar o mundo ainda novinha, meio sem se despedir, me perturba. É com a insônia de um pai que abro a janela e saio gritando pelo seu nome. Um nome que me esqueci de lhe dar.
No CD player, Paul cantarola, incansável, alheio, quase feliz.
18.7.07
Solo
Com suas asas brancas, o demônio domina molduras estereotipadas e, livro na estante, brinca de quebrar instantes.
Solo de sax. Gelo seco. Sorriso e saudade.
No canto do sofá, Anselmo folheia uma revista velha, mas quem dera se distrair. Pensa na pena que viu escorregar hoje pela sua defesa. Acaricia a barba e, na imaginação, encara a carranca do juiz inexorável, com seu martelinho a determinar os tantos anos de prisão ao seu cliente.
Se mais gente houvesse, um amigo ou uma mão, estaria justificado Anselmo e sua implicância em se acomodar no canto do sofá. Que nada! Anselmo era sozinho, como um solo de sax, como um gelo na garganta seca, nunca sorriso, sempre saudade.
Ali na renitência bruta do ambiente quieto, perambulava o demônio e suas asas brancas, como eu já lhe adiantei no primeiro parágrafo mas você não acreditou porque julgou a imagem pouco verossímil. Não, não adianta disfarçar; eu também já fui leitor e sei bem como é isso.
E o demônio é invisível aos vivos. Anselmo julga-se só.
Até que.
O demônio espirra.
Todo-mundo sai correndo.
(Ainda bem que todo-mundo é só Anselmo, senão teríamos um alvoroço!).
Quando ele tropeça, acorda em sua cama, pelado, suando frio. Tudo bem, tudo bem, outro pesadelo, o julgamento de seu cliente é só amanhã, às 10 horas, não é mesmo?
O único detalhe é que, na sala, a mesma revista velha está aberta, ao chão. E o CD de jazz, findo, repousa no deck.
Com suas asas brancas, o demônio domina molduras estereotipadas e, livro na estante, brinca de quebrar instantes. Saudades de quando era anjo, o mais belo, o mais poderoso, o mais sozinho.
O demônio nunca aprendeu a tocar harpa.
Solo de sax. Gelo seco. Sorriso e saudade.
No canto do sofá, Anselmo folheia uma revista velha, mas quem dera se distrair. Pensa na pena que viu escorregar hoje pela sua defesa. Acaricia a barba e, na imaginação, encara a carranca do juiz inexorável, com seu martelinho a determinar os tantos anos de prisão ao seu cliente.
Se mais gente houvesse, um amigo ou uma mão, estaria justificado Anselmo e sua implicância em se acomodar no canto do sofá. Que nada! Anselmo era sozinho, como um solo de sax, como um gelo na garganta seca, nunca sorriso, sempre saudade.
Ali na renitência bruta do ambiente quieto, perambulava o demônio e suas asas brancas, como eu já lhe adiantei no primeiro parágrafo mas você não acreditou porque julgou a imagem pouco verossímil. Não, não adianta disfarçar; eu também já fui leitor e sei bem como é isso.
E o demônio é invisível aos vivos. Anselmo julga-se só.
Até que.
O demônio espirra.
Todo-mundo sai correndo.
(Ainda bem que todo-mundo é só Anselmo, senão teríamos um alvoroço!).
Quando ele tropeça, acorda em sua cama, pelado, suando frio. Tudo bem, tudo bem, outro pesadelo, o julgamento de seu cliente é só amanhã, às 10 horas, não é mesmo?
O único detalhe é que, na sala, a mesma revista velha está aberta, ao chão. E o CD de jazz, findo, repousa no deck.
Com suas asas brancas, o demônio domina molduras estereotipadas e, livro na estante, brinca de quebrar instantes. Saudades de quando era anjo, o mais belo, o mais poderoso, o mais sozinho.
O demônio nunca aprendeu a tocar harpa.
15.7.07
O de sempre
A dona da casinha de bonecas decidiu reformar a casa. Comprou uma cortina de isopor, mudou a cor dos eletrodomésticos, arranjou um namorado novinho em folha, trocou a mobília do quarto e parcelou uma TV de plasma. A única coisa que não mudou foi sua cara horrenda, seu mau humor costumeiro e todas as incoerências de sua cabeça que vivem vitimando as pessoas ao redor.
13.7.07
Joie de vivre
Toda novidade é inventada, diria meu avô, e estas foram suas últimas palavras, ali, no leito da agonia, tadinho, já era, câncer no pulmão, fumante inveterado que vivia tragando a morte aos pouquinhos. Alinhavei a frase num pedacinho dourado de papel, guardei na dobra da carteira, fechei a carteira, guardei-a no bolso, tirei a calça, botei-a no cabide, fechei o armário para sempre ter o bolso com a carteira com a frase no papel dourado bem guardadinhos.
Dois meses antes de eu completar meus noventa anos, lembrei-me de tudo isso, noviventado vivido que estava, era, sou. Novivida, resmungou meu bisneto caçula, e eu, comovido, tristemente percebi que a infância é capaz de se perder em neologismos ricos porque pueris.
Ontem comemorei, modo de dizer pois não comemorei lhufas, noventa anos. Vieram poucos amigos, afinal a maioria já é morta, enterrada e apodrecida. Compareceram minha tartaruga de estimação, uns seis ou sete jogadores profissionais de dominó, o avô da garota mais bonita da rua e, talvez, uma ou outra lembrança gasta. Era proibida a entrada de menores de sessenta.
Na rodinha mais interessante da festa, enquanto Seu Osmar reclamava de dor nas costas, Seu Firmino do reumatismo e Seu Horácio ficava só hein hein hein porque já faz tempo que era o mais surdo da turma, eu me pus a contar como foi que matei, duas semanas atrás, o jardineiro do prédio da frente. Odiava aquele jardineiro, sempre de tesoura em punho, decepando as plantinhas verdes. Odiava aquele jardineiro, que pensava ele que era, Deus por acaso, para ficar decidindo qual o tamanho definitivo de cada criatura? Odiava aquele jardineiro, principalmente porque ele comia metade das mulheres do prédio, inclusive minha bisneta mais velha.
Todos encararam o fato com naturalidade, o que me deixou mais à vontade, posto que percebi que a juventude contemporânea também havia chegado às solertes mentes de meus antigos amigos, e embora não quisesse, poderia comentar com eles quaisquer novidades que ninguém se poria a reclamar que o mundo está perdido mesmo. Fiquei à vontade, como disse, para contar como foi que cometi diversos outros crimes, como enfartar o Dr. Ruberi, suicidar Godofredo, estuprar Maria Augusta e até mesmo sonegar o imposto de renda.
A noite nem estava na metade e não foi preciso mais nada para que as piadas desaparecessem.
Dois meses antes de eu completar meus noventa anos, lembrei-me de tudo isso, noviventado vivido que estava, era, sou. Novivida, resmungou meu bisneto caçula, e eu, comovido, tristemente percebi que a infância é capaz de se perder em neologismos ricos porque pueris.
Ontem comemorei, modo de dizer pois não comemorei lhufas, noventa anos. Vieram poucos amigos, afinal a maioria já é morta, enterrada e apodrecida. Compareceram minha tartaruga de estimação, uns seis ou sete jogadores profissionais de dominó, o avô da garota mais bonita da rua e, talvez, uma ou outra lembrança gasta. Era proibida a entrada de menores de sessenta.
Na rodinha mais interessante da festa, enquanto Seu Osmar reclamava de dor nas costas, Seu Firmino do reumatismo e Seu Horácio ficava só hein hein hein porque já faz tempo que era o mais surdo da turma, eu me pus a contar como foi que matei, duas semanas atrás, o jardineiro do prédio da frente. Odiava aquele jardineiro, sempre de tesoura em punho, decepando as plantinhas verdes. Odiava aquele jardineiro, que pensava ele que era, Deus por acaso, para ficar decidindo qual o tamanho definitivo de cada criatura? Odiava aquele jardineiro, principalmente porque ele comia metade das mulheres do prédio, inclusive minha bisneta mais velha.
Todos encararam o fato com naturalidade, o que me deixou mais à vontade, posto que percebi que a juventude contemporânea também havia chegado às solertes mentes de meus antigos amigos, e embora não quisesse, poderia comentar com eles quaisquer novidades que ninguém se poria a reclamar que o mundo está perdido mesmo. Fiquei à vontade, como disse, para contar como foi que cometi diversos outros crimes, como enfartar o Dr. Ruberi, suicidar Godofredo, estuprar Maria Augusta e até mesmo sonegar o imposto de renda.
A noite nem estava na metade e não foi preciso mais nada para que as piadas desaparecessem.
9.7.07
Atchim
Quando perto despertei senti que nada anda mas algo pulsava. Espirrei rinite alérgica. Funguei tentando segurar outro espirro. Não deu. Espirrei outra vez. E assim sucessivamente de modo que me recuso a narrar para não me chatear em demasia.
7.7.07
Sabão em pó neutro
Diz a rima que pode
Perceber a lua debaixo
De um pé de laranja
Mas aquela que fode
Esparrama-se no escracho
E pois se finge de anja
Diz à rima: explode
E num acho que não acho
Delícias me esbanja
Perceber a lua debaixo
De um pé de laranja
Mas aquela que fode
Esparrama-se no escracho
E pois se finge de anja
Diz à rima: explode
E num acho que não acho
Delícias me esbanja
6.7.07
Por que toda vez um não vou tem de ter porquê?
Um estrabismo social que nos acomete exige teletransporta pelo avesso. Tenho vontade de vomitar pesadelos na cara de quem inventou regras convenções etiquetas e afins. Sono é motivo. Sonho é motivo. Mas tudo o que eu quero é desmotivar a vida sem etcéteras e perdições. Hoje só amanhã.
5.7.07
Inutilia truncat
uma vez escrevi um poema - que talvez precise reencontrar nalguma gaveta suja ou dentro de um bolso roto de camisa marrom - no qual dizia estar cansado de ser humano. ser humano. cansado de ser eu um humano. cansado de conviver com tanto ser humano. cansado da existência humana como um todo de mim e dos outros. cansado.
cada vez mais repugno os manuais de sobrevivência nos quais condutas se apóiam. para que servem? para desiludirmo-nos ao constatarmos que ninguém os cumpre da maneira como esperamos que as pessoas falham os próximos também se desrespeitam e a ética virou estética. patético.
uma vez eu quero rasgar de vez todos os poemas filosofias contos crônicas cartas de amor romances letras de máquina de escrever do mundo inteirinho começando pelo meu quarto. da inutilidade da palavra escrita da inutilidade das pessoas da inutilidade da sobrevivência humana na face da terra. a ética virou ex-ética.
cada vez mais repugno os manuais de sobrevivência nos quais condutas se apóiam. para que servem? para desiludirmo-nos ao constatarmos que ninguém os cumpre da maneira como esperamos que as pessoas falham os próximos também se desrespeitam e a ética virou estética. patético.
uma vez eu quero rasgar de vez todos os poemas filosofias contos crônicas cartas de amor romances letras de máquina de escrever do mundo inteirinho começando pelo meu quarto. da inutilidade da palavra escrita da inutilidade das pessoas da inutilidade da sobrevivência humana na face da terra. a ética virou ex-ética.
4.7.07
Do capítulo neutro
Desconstruir o mundo é missão para os jovens de espírito. Porque de suas mãos brotam versos fortes e escasseiam vilipêndios nervosos. Porque o que chamamos planeta se esfacela ao menor toque seco. Porque sim.
2.7.07
Faíscas
Na desconsciência consistente
o vazio que se enche:
começo, perverso, avesso.
Não tenha medo da lua
que escorre e enche a noite.
Não tenha medo de seu lado
e s c u r o
virado pelo direito.
Pressuponha um após
que há durante
antes mesmo de ser.
Lapsos não cabem em propósitos.
o vazio que se enche:
começo, perverso, avesso.
Não tenha medo da lua
que escorre e enche a noite.
Não tenha medo de seu lado
e s c u r o
virado pelo direito.
Pressuponha um após
que há durante
antes mesmo de ser.
Lapsos não cabem em propósitos.
30.6.07
A dor da gente não sai no jornal
[à guisa de prolegômeno:
o texto a seguir foi escrito no finalzinho de 2002
e dedicado à Srta. Márcia Neme - aquela que tanto nos fez pensar]
A chuva que chovia torrencialmente eram as lágrimas dos anjos que choravam a morte de Deus. Sim, porque assim falou Zaratustra: Deus está morto. Mas eu não sei quem o matei.
Via a chuva chover encastelado em minha casa. Não trajava sóbrio luto, nem para espantar a iconoclastia ou afugentar as suspeitas que naturalmente me caíam. Sempre detestei a anacronia desses cerimoniais, ritos e/ou resquícios de costumes tribais.
Recostado à janela, acompanhava as lágrimas angelicais que escorriam pelo vidro. Minha respiração embaçava o vidro, tornando quase opaco o que queríamos transparente. Areia, vidro. Vidro, areia. Areia e o tempo que passou na janela e só Carolina não viu. Não sou apenas eu que amamos Carolina, porque Carolina é uma menina que contamina, nos ensina a amar. (Vale não esquecer que hoje em dia há uma carolina em cada esquina — as mais doces são vendidas na padaria, quitute charmoso).
Areia, vidro. Vidro, areia. Sangue escorrendo na praia, manchando o mar verde. Ver de novo o mar, manchado. Mar vermelho. Moisés atravessando o mar e uma multidão brotando ao seu lado, todos sem nome, gentes azuis, amarelas, verdes, e algumas também um pouco carolinas.
Fui tomar um banho, quente. Era a única maneira de contrabalançar a chuva que chorava lá fora. Um peso, duas medidas. Cátion e ânion: ionizado eu ficava mais desinfeliz como se a existência fosse suportável, ou a insustentável leveza do ser, de ser, assim, desvencilhável.
Na cabeça passavam emoções recortadas de um filme chamado vida. "Tutto buona gente", dizia minha vó, una bella vecchia, e sorria sua prótese dentária. Contudo, no dia da morte de Deus, me lembrava de outras pessoas:
— Um dia, minha Filha, a gente vai ser feliz!
— A gente não é, Mãe?
— Um pouco. Mas um dia a gente vai poder comer à vontade, de tudo, sem precisar de dinheiro. Já pensou, um supermercado todinho só pra gente? Nunca mais a gente vai passar fome, de tanta comida...
Pausa. A Filha parecia reflexiva diante do que ouvira. Alguns segundos depois, abriu uma interjeição pueril:
— Mãe, o que é comida?
Não obteve resposta. A Mãe, contrita, continuava cozinhando água suja com jornal, a sopa que lhes enriqueceria o organismo para suportarem mais um dia nesta lenta agonia que é viver.
Penteando os cabelos eu olhava-me ao espelho, achando-me ridículo. Eu, um ser humano. Dotado de massa encefálica altamente desenvolvida e dedos polegares opositores. Como Carolina, Moisés e a Mãe e a Filha que comem jornal. Como os jornalistas e os jornaleiros.
No espelho pude ver um cartaz amarelo dentro do meu cérebro, com a inscrição, em letras garrafais: JORNAL É QUE NEM SALSICHA: QUANDO VOCÊ SABE COMO É FEITO VOCÊ PERDE A VONTADE DE COMER. Estava convicto de que as pessoas não deveriam comer jornais.
Todos os dias são produzidos mais de dois milhões e meio de exemplares de jornal, no Brasil, somadas as tiragens de todos eles. Mais de mil toneladas de papel para saciar a fome de notícia, praia e sangue de todos nós, humanos dotados de massa encefálica altamente desenvolvida e dedos polegares opositores.
Os jornais são feitos por jornalistas e vendidos por jornaleiros. Jornalistas e jornaleiros comem com o dinheiro que ganham através dos jornais.
Os jornais são lidos por mim, Carolina e Moisés. Gostamos de lê-los tomando café da manhã e comendo pão com margarina vegetal hidrogenada, a fim de começarmos o dia com a falsa sensação de sermos cidadãos bem informados a respeito da cotação do dólar rumo ao penta, da bolsa que caiu e era vidro e se quebrou, do presidente dos USA que quer bombardear o mundo inteiro para assim, exterminando os famintos, resolver o problema da fome.
Os jornais não são lidos por Mãe e Filha, óbvio, que são analfabetas. Elas ficam torcendo para que chegue logo o dia de amanhã, as notícias fiquem velhas, e o calhamaço de papel seja jogado no lixo, onde elas vão buscar seu pão-nosso-de-cada-dia-nos-dai-hoje. Na sopa de jornal com água suja, qualquer página serve, embora a Filha prefira os desenhos coloridos do Estadinho e a Mãe goste mesmo é das fotos dos artistas de cinema do Caderno2 ou da Ilustrada. O estômago não tem olhos e, portanto, não faz questão de digerir a coluna do Jabor ou do Simão e nem mesmo é capaz de discernir as diferenças entre a fotografia do Serra, imberbe, e do Lula, hirsuto. O estômago, aliás, também não tem cérebro.
Todos os dias são assassinadas milhares de árvores para a extração da celulose para a fabricação do papel para a impressão do jornal para saciar a fome de notícia minha, da Carolina e do Moisés e a fome-fome de Mãe e Filha. Todos os envolvidos no processo somos seres humanos, dotados de massa encefálica altamente desenvolvida e dedos polegares opositores. Com o assassinato das árvores estamos contribuindo para o nosso próprio suicídio, lento e gradual.
Enquanto concatenava tão complexo raciocínio, refletindo enquanto minha imagem se refletia ao espelho, fiquei orgulhoso por ser tão brilhante na capacidade de encadear idéias lógicas. Em êxtase, conclui a importância de ser dotado de massa encefálica altamente desenvolvida e dedos polegares opositores.
A chuva parou de chover.
Pensando bem, matar Deus nem é tão grave assim.
26.6.07
Esta noite nem quero dormir
Alheio aos talvezes, estou mais para não sei. Não sei se a vida tem pressa ou corre devagar. Não sei quantos anos tenho. Não sei qual é meu caminho. Não sei os senões nem das vontades. Não sei de nada.
E, parafraseando aquele filósofo lá, tudo o que não sei é que, não sabendo, sei tudo o que não sei.
E, parafraseando aquele filósofo lá, tudo o que não sei é que, não sabendo, sei tudo o que não sei.
25.6.07
cada encontro no metrônibus é uma dúvida
um convite à vida
em dívida
um trambique
uma muleta ávida
para se aposentar
em suas dobras sempre sobra um pouco de tédio
um tanto de expectativa
um gole de poema
uma marca
e uma talvez saudade de reencontro
no metrônibus todo dia todo esbarrão
tem aspas
tem asas
mas as pessoas ainda não aprendemos a voar.
um convite à vida
em dívida
um trambique
uma muleta ávida
para se aposentar
em suas dobras sempre sobra um pouco de tédio
um tanto de expectativa
um gole de poema
uma marca
e uma talvez saudade de reencontro
no metrônibus todo dia todo esbarrão
tem aspas
tem asas
mas as pessoas ainda não aprendemos a voar.
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