13.7.07

Joie de vivre

Toda novidade é inventada, diria meu avô, e estas foram suas últimas palavras, ali, no leito da agonia, tadinho, já era, câncer no pulmão, fumante inveterado que vivia tragando a morte aos pouquinhos. Alinhavei a frase num pedacinho dourado de papel, guardei na dobra da carteira, fechei a carteira, guardei-a no bolso, tirei a calça, botei-a no cabide, fechei o armário para sempre ter o bolso com a carteira com a frase no papel dourado bem guardadinhos.

Dois meses antes de eu completar meus noventa anos, lembrei-me de tudo isso, noviventado vivido que estava, era, sou. Novivida, resmungou meu bisneto caçula, e eu, comovido, tristemente percebi que a infância é capaz de se perder em neologismos ricos porque pueris.

Ontem comemorei, modo de dizer pois não comemorei lhufas, noventa anos. Vieram poucos amigos, afinal a maioria já é morta, enterrada e apodrecida. Compareceram minha tartaruga de estimação, uns seis ou sete jogadores profissionais de dominó, o avô da garota mais bonita da rua e, talvez, uma ou outra lembrança gasta. Era proibida a entrada de menores de sessenta.

Na rodinha mais interessante da festa, enquanto Seu Osmar reclamava de dor nas costas, Seu Firmino do reumatismo e Seu Horácio ficava só hein hein hein porque já faz tempo que era o mais surdo da turma, eu me pus a contar como foi que matei, duas semanas atrás, o jardineiro do prédio da frente. Odiava aquele jardineiro, sempre de tesoura em punho, decepando as plantinhas verdes. Odiava aquele jardineiro, que pensava ele que era, Deus por acaso, para ficar decidindo qual o tamanho definitivo de cada criatura? Odiava aquele jardineiro, principalmente porque ele comia metade das mulheres do prédio, inclusive minha bisneta mais velha.

Todos encararam o fato com naturalidade, o que me deixou mais à vontade, posto que percebi que a juventude contemporânea também havia chegado às solertes mentes de meus antigos amigos, e embora não quisesse, poderia comentar com eles quaisquer novidades que ninguém se poria a reclamar que o mundo está perdido mesmo. Fiquei à vontade, como disse, para contar como foi que cometi diversos outros crimes, como enfartar o Dr. Ruberi, suicidar Godofredo, estuprar Maria Augusta e até mesmo sonegar o imposto de renda.

A noite nem estava na metade e não foi preciso mais nada para que as piadas desaparecessem.

Um comentário:

Giovanna Longo disse...

É poeta fingidor sim!!..rs

Bem, achei uma crônica muitíssimo interessante sobre a velhice. Gostei também do bom humor, é uma forma de encarar a velhice.
Mas, o que eu mais gostei foi de notar que quando se está muito velho, mas muito mesmo, nada mais surpreende. Tem gente que envelhece assim cedo demais.
Um beijo!!!