20.7.07

Eu era um homem que tinha uma árvore

“Maybe I’m a man and maybe you’re the only woman
who could ever help me
baby won’t you help me understand”
(Paul McCartney)

Eu era um homem que tinha uma árvore.

E minha existência era feliz, por conta disso, pela árvore estar em minhas mãos, por ser minha, por estar minha, por me pertencer enquanto vida em minha vida. Eu era um homem, e tinha uma árvore. Como a regaria todos os dias e a adubaria semana sim, semana não, como contaria segredos ao seu pé que nem ouvido, como escreveria iniciais de todos os nomes em seu caule quando ela estivesse crescidinha e pudesse abrigar amores.

Eu era um homem que tinha uma árvore, repito, e esta verdade consolidava a minha existência.

– Eu quero!

– Quer não!

– Eu quero!

– Quer não!

– Onde você vai plantar? – Onde? – Tenho quintal! – Eu não. – Vou plantar no Ibirapuera! – Eu, na praia. – Praia não tem árvore, tem coqueiro! – Ah, é!? – É. – Vou plantar num sítio, então. – Até lá vai morrer, já tá murchinha...

Odeio mortes. Olhei para minha árvore, agora ameaçada de morte. Eu odeio mortes. Olhei para minha árvore, agora ameaçada de morte, como se um fuzil houvesse apontado em sua direção. Eu odeio muito mortes. Se pudesse, mataria todas as mortes enforcadas, para que nunca mais importunassem ninguém. Mas que chato seria a humanidade eterna, viver pra sempre, mais que vegetal, mais que mineral.

(Desconfio que odeio mortes só dos outros.)

– Toma, a árvore é sua, será mais feliz solta no mundo. Plante-a bem. Cuide-a. Toma, a árvore é sua, não mais minha, não tenho mais uma árvore, não tenho mais uma árvore, não tenho mais que disfarçar essas lágrimas, não tenho mais minha fábrica particular de fotossínteses, não sou mais ecologicamente correto, não tenho mais minha cota de reciclagem de carbono para dormir com a consciência em paz.

Não sei onde ela está agora. Se chora de saudades, se dorme bem, se tem companhia, se passa frio, se vai casar. A ausência precoce de minha árvore, que partiu para ganhar o mundo ainda novinha, meio sem se despedir, me perturba. É com a insônia de um pai que abro a janela e saio gritando pelo seu nome. Um nome que me esqueci de lhe dar.

No CD player, Paul cantarola, incansável, alheio, quase feliz.

Um comentário:

Debora disse...

Edison, querido!
As árvores, assim como os filhos, não são nossos. São do mundo! hahaha
Não sofra.