22.11.06

Esboços de uma estação passada (vol. 1)

Preciso escovar os dentes e lavar o cérebro também.
Lógica capitalista irreversível e nojenta: negue o ócio, negócio.

Hoje estou pra ontem.

A noite! A lua! As folhas caindo e ainda estamos na Primavera! Bauru!! Churros!!!
Que saudades de casa!! Mas...
Libertinagem, Edison!!

Bairro Fortunato. Nos meus ouvidos ressoa o verso de Camões: A fortuna não deve durar
Vou dormir triste. O sábado foi cheio de miséria numa rotina que grudou tristemente em minha retina.
Onde reina o amor?

Hoje acordei com vontade de escrever
principalmente porque dentro de mim há uma dor pungente
mas não tenho a menor idéia sobre o que escrever

..........................................
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..........................................
..........................................
..........................................
..........................................
ahahahahahahahahahahahah

Por mais que o mundo pareça perdido, há sempre o nada nadando feliz pelos rios que riem da gente.

20.11.06

Cegueira

Quem dera fizesse poemas visuais
e não versos sovinas,
vozes vazias
e viagens virgens;
Quem dera sobrevoasse alvissareiro
os vértices do mapa e da alma
avistasse, incólume,
a selvageria
dos vaticínios divinos.

Mas não;
vivo às voltas com meus vícios
de linguagem, da laringe e dos sonhos:
cicerones da vida, a faltar.

In Definição

Sem-teto, meus textos exclamam ao ver um vento cair. Eu, ensimesmado, não creio que vou amanhecer de novo.

16.11.06

Decálogo maravilhoso de Shacklee

1. Amar a Deus sobre todas as coisas.

Sempre que as luzes eram apagadas, Shacklee via as lampadinhas de natal pisca-piscando num exercício jingle bell. E assoviava baixinho a melodia que sabia de cor desde criança. Para a irritação dos seus 37 colegas de quarto, que chiavam e começavam logo a pancadaria.

Até que Shacklee tinha os miolos estourados, o sangue escorria por todo o quarto e os 37 colegas de quarto dormiam sorrindo, sonhando com a reconstrução de Shacklee no dia seguinte. Os nomes deles eram Santylli, Sarley, Sarlindson, Sattle, Saturnyn, Schuwawn, Seattlou, Sedaciou, Seen, Seenyour, Seenil, Seh, Seil, Sejarcovski, Semne, Sennix, Seoul, Seppya, Seqtawa, Serr, Sestafeyra, Seysse, Sezh, Shock, Shoun-tackle, Shytakee, Singarro, Singapuri, Souter, Sowterr, Suast, Suatjeklovz, Suaw, Sued, Syn, Swonnid e Tartaruga - os quartos organizavam- se por ordem alfabética, e eles ocupavam o de número 211C.

Shacklee olhava para os seu 37 colegas de quarto dormindo com o sorriso aberto, com um ronco tão alto de quebrar as vidraças, olhava para o quarto escuro e via as lampadinhas de natal pisca-piscando num exercício jingle bell, mas se continha para não assoviar de novo, olhava para o chão onde estava seu cérebro em pedaços. Olhava para cima, encontrava deus-pai-todo- poderoso, perdoava seus 37 colegas de quarto, amava seus 37 colegas de quarto, e orava e louvava.

Dia seguinte teria outros miolos para serem estourados.

***

Enquanto trabalhava cavando buracos para serem tapados pelo próximo da fila para serem cavados pelo próximo da fila para serem tapados pelo próximo da fila para serem cavados pelo próximo da fila para serem tapados pelo próximo da fila para serem cavados pelo próximo da fila para serem tapados pelo próximo da fila..., ficava medindo a distância que o separava dos demais colegas, todos organizados em ordem alfabética, tendo como critério de desempate, numa pouco provável hipótese de que dois ou mais dividissem o mesmo nome, o tipo sangüíneo, depois o número de dentes na boca e, por último, a quantidade de títulos de seu time de futebol. Se a distância fosse maior ou igual a 97 centímetros e meio, ele nem considerava o sujeito um ser de sua própria espécie. Entre 29 e 97 centímetros e meio, ora, era um conhecido. Próximos mesmo, só aqueles que suportassem, sol a pino, ficar em um raio menor ou igual a 29 centímetros dele.

2. Não tomar o nome de Deus em vão.

Shacklee usava duas gravatas ao mesmo tempo. Uma para sentir o nó e outra para se enforcar de vez. Sabia que era só no dia seguinte afrouxar para ser refeito novamente. Fácil como empilhar pedras e pilhar perdas. Quando Shacklee tinha sede, gritava Água. E chovia. Em todas, funcionava.

Por isso que, quando ele teve fome, gritou Água também. Mas não houve caldo de feijão, nem arroz empelotado, nem bife gordo desabando do céu. De sorte que Shacklee compreendeu que não deveria gritar Água para tudo.

3. Guardar para a religião domingos e dias de festa.

No último dia de cada semana, que para Shacklee era ora o décimo-segundo, ora o vigésimo-quinto, descansava-se. Shacklee aproveitava a folga para tirar as duas gravatas de todos os dias e vestir um kit logo com uma dúzia delas. Ficava tão emperequitado que nenhum dos seus conhecidos assumia o conhecimento, e mesmo os seus próximos fingiam ignorá-lo. Ainda bem que era um dia nulo, em que não se tapava nem se cavava. Shacklee costumava passá-lo deitado no sofá, no máximo com uma revista pornô debaixo dos olhos.

E dormia, e chorava, e desmontava-se para ver o que tinha dentro de seu corpo.

E fugia toda vez que via alguns de seus 37 colegas de quarto, pois sabia que ou eles queriam quebrá-lo outra vez ou, ao menos, lhe tomariam a revista que fazia alegres seus poucos momentos ociosos.

***

Os buracos na folhinha tornavam-se lacunas nervosíssimas na cabeça de Shacklee. Sentia-se como se não fosse, não houvesse. Era nada mais que uma vida debaixo do tapete, varrida. Ou uma vassoura, varredora, atrás da porta. Sem trinco, sem nada.

E ouvia os 37 colegas de quarto com risinhos desgraçados. Vontade de devorá-los um a um, arrancando-lhes a cabeça e sorvendo, pelo pescoço, cada gota de sangue deles.

Todos os assassinatos que Shacklee tramava eram anotados em um papel, meticulosamente. O papel, amarelo e levemente amassado, ficava guardado sempre entre as páginas 32 e 33 da revista pornô.

4. Honrar pai e mãe.

Às vezes Shacklee sonhava com o dia de seu nascimento. Na ocasião, cada relógio marcava um horário: 0h45, 24:45, 0:45, 12:45PM... E, dentro da chocadeira, a maioria dos ovos gorou. Shacklee foi o primeiro a saltar fora do ovo, após quebrar direitinho toda a casca, conforme havia aprendido no curso de nascimento ministrado pelo professor japonês Yamura Kawassakaki. Assim, quando os dois únicos filhotinhos outros saíram de suas cascas, Shacklee já estava forte o suficiente para trucidá-los com o bico.

Bico este, aliás, que foi extinto quando as aves, antes répteis, viraram humanos. Ou alguma coisa parecida porque da evolução os registros são poucos, precários e confusos.

5. Não matar.

(Pula)

6. Não pecar contra a castidade.

Virou lenda o dia em que Shacklee saiu caçando todas, todas as mulheres do campo de concentração. Eram 3 997, àquela altura - hoje não restam 19. Trancou-as em um quarto com pouco mais de 27 metros quadrados, amontoadas uma sobre as outras, aglutinadas. Despiu-as com uma serra elétrica e, sem preservativo nem nada, tratou de penetrá-las raivosamente, em fila.

O processo todo levou mais de 14 horas e entrou para o famigerado livro dos recordes do local. Além, é claro, de provocar a inveja e a ira de seus 37 colegas de quarto, que decidiram linchá-lo por mau comportamento perante as damas da sociedade campo-de-concentraçã ozense.

***

Shacklee foi encontrado, no dia seguinte, com as pernas de uma cadeira dentro de sua cabeça. Seu tênis marronzinho, a 200 metros de seu corpo. Uma grelha de carne foi utilizada para queimar suas partes pudentes. E nada, mas nada teve a declarar quando, redivivo, percebeu que gostaria de repetir tudo de novo.

7. Não furtar.

No campo de concentração ninguém podia esquecer a bola, a carteira ou a sogra sobre o banco da pracinha. Shacklee ia lá e tomava, com a sua gigante boca. Ninguém podia deixar resto no prato. Shacklee devorava, com prato e tudo - adorava os pratos, sobretudo. Ninguém podia entrar nela não, porque na casa não tinha chão. Ninguém podia dormir na rede, porque na casa não tinha parede. Um dia Shacklee roubou, para si e sua coleção de objetos estranhos roubados, a parede e o chão. De quebra levou a pessoa que ia entrar nela e a rede dependurada.

Quando foram reclamar ao delegado de polícia, este contra-argumentou que nada havia visto e, portanto, nada houve. Nem a declarar.

8. Não levantar falso testemunho.

Quando era criança, Shacklee gostava de brincar de bate-cara. Ou pique-esconde, de acordo com o regionalismo que mais convier, ser, fingir. Às vezes, piquenique. Sua mania era acabar de contar e gritar bem alto os podres dos amiguinhos, atualmente seus 37 colegas de quarto.

Por isso apanhava, sempre.

Por isso não tinha medo de escuro e preferia inventar lampadinhas de natal.

Para disfarças as estrelinhas. Nas entrelinhas.

9. Não desejar a mulher do próximo.

As 19 mulheres restantes no campo de concentração tinham dono. No calcanhar esquerdo de cada uma delas, um código de barras que, quando passado na maquininha de supermercado, acusam o seu proprietário - além de idade, telefone para recados, cor da pele e posição favorita para o coito.

Shacklee, que já possuiu todas elas e outras 3 978, havia ficado sem nenhuma.

10. Não cobiçar as coisas alheias.

Inventou-se um inventário minucioso pleonástico dos itens do campo de concentração:

· 2 487 meias de percal azuis
· 2 332 sapatos amarelos de couro maciço
· 2 198 cadáveres em putrefação
· 1 984 ossos para pentear os cabelos
· 1 870 telefones de latão
· 1 870 linhas telefônicas cortadas
· 1 869 livros de auto-ajuda sem valor comercial
· 1 850 cartilhas com o abecedário
· 1 549 sonetos para catar mulher do próximo
· 1 490 próximos sem mulher
· 1 377 gnomos de jardim de cócoras
· 1 376 gnomos de jardim sentados
· 1 370 gnomos de jardim em pé
· 1 369 gnomos de jardim em posição fetal
· 1 354 gnomos de jardim normais
· 1 350 brancas de neve de jardim
· 1 112 carros para ir embora
· 1 100 lampadinhas de natal
· 1 023 bandejas com comida macrobiótica
· 1 011 punhais ensangüentados
· 1 002 revistas pornô
· 913 grelhas de passar carne e matar pessoas linchadas
· 903 esperanças insones
· 901 cadeiras para enfiar na cabeça das pessoas
· 895 vassouras
· 876 papéis amarelos
· 857 redes em fiapos
· 857 canetas bic
· 856 paredes com a pintura descascada
· 850 sonhos, pesadelos e viagens alucinadas
· 803 folhinhas
· 802 carteiras
· 802 algemas
· 800 chocadeiras velhas
· 746 pratos quebrados mas um pouco inteiros
· 713 tênis marronzinhos
· 534 sogras
· 500 portas sem trinco nem nada
· 245 relógios de ponteiro
· 185 relógios de numerozinhos
· 101 livros dos recordes ultrapassados
· 97 bolas de capotão
· 37 colegas de quarto
· 19 mulheres vivas
· 14 gravatas
· 13 bancos de sentar
· 12 tapetes com muita sujeira debaixo deles
· 9 supermercados falidos
· 7 sofás cheios de restos de chips
· 5 casas engraçadas
· 3 versos brancos
· 2 delegados de polícia
· 1 rima rica
· 1 clips

Num arroubo certeiro, Shacklee matou os outros personagens e ficou com todos os pertences.

4.11.06

Estão

O certo é sertão
e não este tesão
onde estão contidos
os trejeitos tristes
na mira da
namorada.

O certo é ser tão
tesão
quanto os que estão
- pífia questão -
na mira da
namorada.

1.11.06

Ciclo

Abrupto
me entupir
de entorpecente
em torpes doses
crescentes
até o amanhã ser
sol otário
eu.

29.10.06

Fome de notícias

Famigeradas sopas de jornal continuavam sendo a base alimentar daquela família. Com uma importante diferença: o menino mais novo, sete anos, não sabia ler as manchetes que comia todos os dias.

- Cê precisa matriculá o Jeremia na iscola, cumádi... – dizia Filomena, a vizinha astuta.

- Deixa disso, cumádi. Perdê tempo pra quê? Qui im casa ele mi ajuda e dispois inda tem tempo pra ganhar uns troco como engraxate...

Todos os meses, Maria das Dores recebe a importância de 50 reais, a título de ajuda, do Governo Federal. O dinheiro, mero paliativo que não combate a pobreza estruturalmente, vem fácil, sem exigir nenhuma contrapartida – Jeremias continua analfabeto. A não ser, é claro, o voto, garantido. Maria das Dores já sabe quais botõezinhos apertar na urna eletrônica, muito bem, clap clap clap.

Nos últimos quatro anos muitos assuntos foram engolidos por Maria das Dores, Jeremias e seus outros oito filhos. Alguns, ela até chegou a bater o olho e tentou compreender as letrinhas. Outros, nem percebeu. Jeremias não entendeu nenhum deles. No dia em que almoçou uma página com a foto do Delúbio Soares, tinha ouvido umas coisas estranhas no rádio e perguntou:

- Manhê! Que qui é mensalão?

- Num sei, fio, num sei. Mais si é grande deve di sê coisa boa... Credite: vai miorá a vida da gente...

Achava engraçado quando no prato estava a careca reluzente do Marcos Valério e a sopa de jornal virava sopa de letrinhas com José Adalberto Vieira da Silva, aquele dos dólares na cueca. Devorava apetitosamente Palocci, Gedimar, Zé Dirceu e tantos outros homens, digo, nomes. Nomes feios, avessos.

Um dia, Jeremias ouviu discurso de político quando engraxava sapatos de algum bacana.

- Manhê! Que qui é honestidade?

- Ih, fio, num sei. Di onde cê tirô isso? Acho que num ixiste...

- I ética?

- Ai, essi minino, viu!? Ingora deu pra ficá doidinho, só inventano palavra...

E voltou para sua panelinha velha no barraco, a cozinhar o jornal de ontem com a foto de um presidente sorridente, gordo e barbudo, apedeuta a debochar da ignorância que o elegeu.

Ah, se a memória não fosse tão curta e a informação tão mal-distribuída, Maria das Dores entenderia que Fome Zero mesmo só nas comilanças da Granja do Torto, cujo churrasqueiro... Bem, ela não sabe de nada – e, nisso, se assemelha ao presidente. Agora tem que acabar logo seu almoço de jornal para, em seguida, correr para a escola onde seu filho jamais estudará. Sabe de cor quais numerozinhos apertar para que uma foto parecida com a de seu almoço apareça na tela. Aí é o verde. E mais quatro anos de paliativos para palitar os parcos dentes que lhe restam inteiros na boca.

24.10.06

Para ver o mar
o melhor lugar
é dentro.

Para ver a terra
quem mais carrega
o vento.

Para ver o dia
qualquer melodia
invento.

Para ver a noite
assim de açoite
um tempo.

Para ver você
entender você
só eu mesmo.

20.10.06

Carnificina

Os mortos, com hora marcada,
Não sabem de nada.
Agora dormem, amanhã trabalham.
Banham-se, fazem a barba.
Tornam a dormir a última noite.

Não sabem de nada.
Nem imaginam que serão notícia.

16.10.06

Quadrinha

Que tudo que ainda me reste seja o teu sorriso
Na réstia estranha das lembranças luciluzidas
Que nada do que te sobre seja do meu vazio
Imenso na sacada onde mora o horizonte fundo

6.10.06

Puto

Sou um poeta morto
de cujo corpo, puto,
ressôo em coro cócegas
sem as quais o tudo
caminharia, ó ninharia
às cegas - e riria.

E a cada mínimo
minuto
que passa
digo adeus ao relógio
às horas, à lógica
e aos lábios que amei

Porque, poeta morto,
não sou mais refém do tempo
nem do corpo
nem escasso:
faço das pontes sobre o nada
o algoritmo destes versos
e, puto,
aprisiono cada minuto
em um ramalhete de nulo
tributo
sobre meu túmulo.

2.10.06

Caixa de entulhos

tudo o que a vida me acumulou
tratei de descartar:
trabalhos, amores, livros...

na ponta dos dedos
sobrou só o céu da boca
e um naco de língua

agora sou uma nesga de nada
nadando no vazio
do silêncio.

29.9.06

, e .

Vírgula no meio, ponto no final da frase. Era sempre assim. Às vezes, ela aparecia, sumia, tornava a aparecer. Noutras era só ele. Soberano. Repetitivo. Renitente. Ela era a mulher, alongava a conversa, fazia uma pausa sutil, quase sensual. Ele, o homem. Seco. Ríspido. Forte.

Quando se encontraram, por um acidente de gramática ou uma dobra da língua portuguesa, o ponto jogou a vírgula na cama, despiu-a e logo partiu para cima. Ela cedeu. Amaram-se, armaram-se; criou-se um novo problema na cabeça dos escritores: por que ponto e vírgula, meu Deus?

22.9.06

Cada

Cada verso
que vago
é um terço
que rezo
amém

Cada verso
que trago
é um vaso
que quebro
crec

Cada verso
que sonho
é um vício
que fumo
shhh

Cada verso
que sinto
é um você
que sou
fim.

7.9.06

Lâmina

Quando a polícia chegou, tudo que encontrou foi um gelado corpo de mulher sobre a cama. Seus cabelos louros sobre a tez delineavam os seios, fartos, lindos, quase extravagantes. Era possível ver um dos mamilos, descobertos, bicos rosados.

O investigador Hamílton tentou disfarçar o misto de satisfação e constrangimento. Mas, em meio à morbidez da cena, reconheceu a beleza efêmera de quem partiu. Vinte e poucos anos, porte de modelo e - literalmente - fodida, pensou alto.

Ao lado, no criado mudo, uma carteira aberta sem nenhum tostão. No chão, uma camisinha usada e dois copos, que rolaram até pertinho da parede, cheirando à uísque barato.

A satisfação e o constrangimento cederam espaço ao incômodo. Hamílton tinha impressão de que a falecida seguia cada um de seus passos, com seus olhos verdes abertos, assustadores, e um pouco, digamos, lânguidos.

Súbito, defenestrou-se. Sequer notou como a lâmina que cortara o pescoço da moça aparecia no espelho do teto:

A N I M Â L

14.8.06

Fruta-e-flor

Quando leio um conto travestido de crônica, ou uma crônica com nuances de conto, e nele(a) percebo pitadas de autobiografia recente (semana passada minha empregada assaltou todas as minhas jóias; ontem fiz feira e encontrei duas cenouras estragadas; há quinze anos meu pai morreu; arranquei um dente e estou sentindo, assim, um vazio...; meu terapeuta já disse: é preciso tomar uma decisão se eu quiser mesmo reconquistar o prazer de viver; e picuinhas do gênero), sou tomado por uma ojeriza estranha. Talvez porque, pessoalmente, me apeteça discutir, nesta ordem: 1) as idéias; 2) as pessoas; 3) as coisas. E, por conseguinte, porque nesses excertos autobiográficos, em geral, primeiro afloram as coisas (só como chocolates belgas; o diabo veste Prada; olha só como são belos os cristais daquela mesa; meu cachorro, ultimamente, anda amuado; e fricotes afins); em seguida, as pessoas (notou só como a Sicrana anda deprê?; você não sabe, mas o Fulano foi demitido ontem; olha, não comente com ninguém sobre o Beltrano, só que a saúde dele está capengando; lembra do Tal? Morreu!; e burburinhos etc.); e, só em casos absolutamente excepcionais, as idéias.

Em minha cabeça anuviada moram alguns idioletos, sem pé nem letos, e um isoleto que jamais entendo sozinho. Todos eles, intrigantemente, concordam com uma coisa: os textos aborrecedores autobiográficos são como um quadro de fruta-e-flor. Explico já. Na desfaçatez loquaz da ignorância artística em que resido, criei um verbete especial para definir quadros de quem não é artista, mas, por modismo, inveja ou falta de que fazer, resolve pintar o sete cor-de-rosa mesmo sem saber fazer o zero com o (então) na areia. Assim, ó:

Fruta-e-flor: Adj. [de fruta e flor] 1. Diz-se da pintura que denota imperícia artística e falta de habilidade técnica. 2. Artesanato (não-arte) feito por pseudo-artistas de forno-e-fogão. 3. Arte sem criação.

Mas hoje me reservo ao direito de pintar meu quadro fruta-e-flor. Tudo o que sempre abominei sai-me feito um bilhete à mão, cacoete ilusório de escrevente mequetrefe aprendendo a driblar as linhas. É como se fosse um dia em que acordei pelo avesso e/ou após sonhar com três urubus desdentados sobre uma inspiração cadavérica. E então quero rasgar palavras a amigos, uns lembrados outros não, que deixarei fluírem ao sabor não-hierárquico do pensamento, a seguir:

Morar em Bauru, por exemplo, não foi estúpido só porque lá algumas pessoas passaram a fazer parte de mim. Giovana, a garota que desde o primeiro dia de aula falava inglês very well, acabou se revelando uma amiga daquelas. De colega a amiga a parceira de TCC a... sócia em um futuro empreendimento de sucesso. Aguardem!

Aretha atriz com seus sonhos e medos e carinho. Laura com seu colo. Vinícius com suas tiradas impagáveis e BrinQs, o Zebra, meu dileto irmão. Juliana com imprevisíveis lembranças atemporais de Sorocaba. O Bruninho, que me brinda hoje sendo hóspede hebdomadário – momentos de vida em movimento em minha quase sempre pacata casa vazia.

E a lista poderia continuar, continuar, continuar...

De Taquarituba, carrego na memória a Gabi, primamiga com quem compartilhava versos e reversos. Iarley, presente nas incursões noturnas muitas vezes vozes repletas de desventuras. Mas lá a existência pode ser dividida em fases, cada qual com suas amizades sinceras do momento, que eu não vou enumerar aqui por preguiça – não por desafeto, juro.

Escrever dá uma saudade. Ser adulto é complicado: são responsabilidades, contas a pagar, gentes grandes pra pensar, falta de sossego, problemas. São Paulo é uma enormidade caótica, em si própria um antipoema transcendente, uma ferida sem cura, um atropelamento. Em algum momento eu ia dizer detrusor, mas agora não me lembro mais onde-quando.

Sei que, caso tivesse paciência sobrando, poderia continuar este texto por milhares de caracteres ainda. Só que não tenho. Tenho mas acabou.

E aqui finalizo meu horrível quadro fruta-e-flor.

Amém.

27.7.06

Imbróglio e Embrulho

Um dia, ou uma noite, não sei ao certo porque não vi, estavam todos os nove gnomos cor-de-abóbora deitados ao sol do meio-dia, ou à lua da meia-noite, não sei ao certo porque não vi, me contaram, e eles diziam sem parar bom dia, ou boa noite, não sei ao certo porque não vi, me contaram, mas eu dou fé, e começaram todos a tentar esquecer a pequenez daquele dia, ou daquela noite, não sei ao certo porque não vi, me contaram, mas eu dou fé, fonte confiável, só que não é nada fácil conseguir esquecer todo um dia, ou uma noite, não sei ao certo porque não vi, me contaram, mas eu dou fé, fonte confiável, não tem nem como contestar.

26.7.06

AmorCego

Feito sonar detecta tudo que é tátil de se pegar, tocar, apalpar, acariciar. Maior cego, refestela suas asas pelas brasas vermelhas de paixão: o que é uma coisa bela? Na escuridão latente, na lua cheia da gente, vampiriza-se e suga o sangue vermelho do pescoço sensual da moça que dorme tranqüila e sonha sonhos de amor na cama. Morcego:

- Não nego, carrego em mim a amálgama dor de ver verter sangue e ter prazer por cada gota que me sacia. O cálice sagrado. Meu segredo lhe agrada?

Agride. O sorriso matreiro da moça que revelava um sonho prestes a se converter em orgasmo vira um gemido, um ai, e agora o pesadelo é que ela é atracada contra a vontade. Saudade do instante imediatamente anterior. Alguma algema a ata à cama?

Morcego cabisbaixo. Morcego de cabeça pra baixo. Dependurado no teto, fino-trato, parece que traja um fraque suíço. Saboreia o sangue que escorre pelo canto da boca, saliva enquanto contempla a bela moça dormindo semi-transparente. Obra cumprida, só a marca dos dentes em seu pescoço. Vampiro:

- Firo a essência da vida porque persigo a alma. O sangue, organismo, não passa de adorno à minha missão. Uma hora eu consigo provar a todos, provando sangue visceral, vermelho, fogo, onde está o prazer.

Vermelho. O horizonte, vermelhando, anuncia o nascer de novo dia. Hora de ir embora, abrir as asas, dar adeus ao nada-testemunha. Amor cego é morcego: mama e voa.

17.7.06

Sua expectativa, meu expectorante

Quando chegar em casa, a porta entreaberta e os livros saqueados, não se esqueça de apagar a luz, para não dar na vista. É preciso avisar os vizinhos que estamos fugindo, a fim de evitar alarde maior, polícia nas costas, fotografia em jornal, mãe e pai chorando. Durante o percurso, economizemos os beijos. Os suores, deixemos para depois.

- Quantos passos ainda faltam?

- Não sei nada de contagem regressiva.

Eu olho para o relógio, os ponteiros me atordoam de fome. Lógica, religião, azulejos, aleijados, corante vermelho pintando o saguão. Você perdida, que nem nós dois.

- Quantos passos já fomos?

- Mais do que posso. Menos do que piso. O mesmo que passamos.

A sirene apita e nos lembra o que somos. Sequer torcida vale a pena se o único nó que precisamos não contém glúten. Só um gosto de sacolejo e um sentimento de escuridão. Gases por toda a parte anunciam a morte que foi ontem, anteontem, semana passada. Por instantes, sinto que pertencemos a um mundo extraordinário de canção, tédio, fantasia, fogo e lágrimas.

Carrego três cebolas cruas no bolso para que, alimentados, halitemos mal. Você traz a mala, onde estão roupas sujas, esperança e pavor. Voltemos à realidade que o trabalho nos espera nos classificados do Estadão.

21.6.06

Síntese

No percurso toda
pedra

é uma perda de
tempo


Intruso na vida não
percebo

nem as dobras nem as
cobras


É como se eu fosse
deus

ou qualquer totem em
desuso


É como se eu fosse
espelho

em uns sete cacos
refletido


Mas não, eu sou só
eu

e um ou outro resto de
ego.

19.6.06

Senão sina sim, não!

Defino em três
os álibis que habito:
o último filme em cartaz
meu poeta favorito
e a inépcia perspicaz.

Se quero dormir,
fabrico sonhos;
Se preciso sorrir,
invento cócegas;
E o tempo todo
não me canso
de ser quem
um dia me penso
ou sequer soube.

Sou o et cetera
que jamais
se completou.

Suave como uma dobra

Era estranho morar numa dobra. Ali onde os ponteiros do tempo jamais se cruzavam e o remelexo do vazio podia ser sentido às folhas da pele, em arrepios que não títeres nem alicerçados. Morar numa dobra, sem sombra, sem sobra, era estranho.

Mas dava para brincar eternamente de pique-esconde, escorregar nos vincos, colher pó, visitar esperanças enrustidas, dormir sem travesseiro. Sistófeles se aproveitava:

- Cada obra é uma dobra que abrocadabro.

- Cadoquê?

- Porque se assopro, voa. Ué?!

- Sabinão?

E o maior medo era quando a dobra ia esticando, esticando, esticando. Se deixasse de ser dobra, passada assim a ferro quente, a existência sumiria. Eram os mais doces instantes de melancolia que Deus inventava.

16.6.06

Suado ensaio de viver sem paz (ou Deus me livre!)

meus olhares melhores perdidos aos milhares
contracenam contra sonhos:
quero me livrar
das praças
dos preços
das pedras
das perdas

entrementes entre atritos e baralhos cortados
meu corpo subtrai entreluzido:
quero me livrar
dos cremes
dos crimes
das dobras
das curvas

no álibi do estribilho recito três versos tristes
sugados pela luz e pelo calor:
quero me livrar
das sobras
das sogras
das cobras
dos planos

estranhos suores percorrem-me como interrogações
pululando as blasfêmias das fêmeas:
quero me livrar
das tramas
dos tratos
dos braços
dos hífens

ensimesmado me contento com os círculos estrábicos
que alimentam pesadelos invertidos:
quero me livrar
dos fracos
das zebras
dos trecos
dos terços

ai de mim me quedar só numa contramão qualquer
longe dos atalhos e dos dissabores:
quero me livrar
dos prazos
das presas
dos presos
das placas

no espelho sempre encontrar a glória passada
nó na garganta de saudade triste:
quero me livrar
dos troços
das traças
dos extras
das lindas

durante madrugadas ociosas de tédio e gravidezes
venham-me vôos vívidos desvirtuosos:
quero me livrar
dos átrios
dos astros
dos livros
dos fortes

para repousar pálido e sorridente feito um feto
natimorto que se recusa a morrer:
quero me livrar
das febres
das fibras
dos privês
das terças

e então me sentir um crocodilo branco um tanto
maltrapilho de cansaço e tinta:
quero me livrar
das tripas
das trupes
dos cromos
das vestes

porque dentro de cada vida há um atributo secreto
repleto do mais acre sabor:
quero me livrar
dos antros
das tremas
das trenas
dos ternos

por fim sobreviver na embaixada mais próxima
contente por ser traste
aflito por ser gente
obtusa de sofrer.
para me livrar
das traves
das tampas
das gordas
dos testes
dos tontos
dos filhos
das chuvas
dos nada de mais.

6.6.06

Simples, o nada se inventa depois

rasgo fiascos para não dormir
enquanto o rádio toca uma valsa
que ninguém dança

do outro lado da lua
um codinome imberbe
me espia
me aflige

adorado
suspiro
e me quedo:
- donde vêm os soluços
que me soçobram?

saudações!

26.5.06

Sortimento

Um amor que se preza, a surpresa burila:
Na lida há tempo pra cerzir amanheceres
E na alcova cego sossego em suaves prazeres.
Hoje não sei se tem lua
- a cidade apagou -
Não entendo de ventos
- a rosa já era -
Nem mais quero chorar
- meu relógio murchou!

Ao atravessar a rua quero encontrar o pensamento
antigo
- e nem por isso esquecido ou avesso -
guardado bem dobradinho
com três tantos de carinho
no canto do teu bolso esquerdo
- talvez protegido sob um guarda-chuva.
É nele que se apóia a crença
- nem mambembe, nem mambira -
naquele quê de eterno
quasenada, diz tudo:
- Eu te amo!

22.5.06

Solilóquio

Atadas as mãos, era ateu por convicção porque, à toa, se atou ao credo de crer na não-existência de Deus. Verbudivino qual-o-quê, vou costurar meu salário baixo atrás da escada! Não quero mais vender o almoço para comprar duas entradas de cinema.

Mas não é só o que irrita. Irrita também o suposto esmero em se vestir e a falsidade que nos exigem: barbear-se todas as manhãs, não arrotar em público, jamais vomitar na cara do entrevistado... À meia-noite, todos os jornalistas são castos e castigados.

18.5.06

Soldo

Estranho silêncio me percorre
Enquanto tento respirar-te

Onde? Por quem?

Debaixo da cama, em coma,
o cio repousa atado ao solo.

14.5.06

Solidão

o alvoroço
que me consome
a alma

não é um espasmo
nem um soluço

a falta
de um lenço para assoar
um rosto para olhar:
- estou com sono!

faz frio no cobertor esta noite.

12.5.06

Separação

Confirmar se o mar era mesmo aquela distância enorme cansava meus ensimesmados olhos de exatidão e cemitério. Parado na praia, feria-me com o soslaio de pensamentos: sonhar com Deus, correr na chuva, casar, comer uma torta de limão, me perder nas rimas de um poema velho assinado por Leminski. Ler mais.

Gosto. Mas tem sempre uns instantes de dor e sobra. Sombras para me esconder são poucas. Procurei por você todas as noites esta semana, na segunda esmagada num pesadelo, na terça borboleta azul, na quarta um punhal no peito, na quinta solidão. Hoje não sei como vai ser.

- Vamos pegar um cinema?

- Ah... Tá frio, melhor sorrir em casa.

Entre nós dois foi se firmando um continente. Depois, as lágrimas, um oceano. Atlântico. Eu África, você América. Pacífico. Eu uma ilhota a ver navios.

9.5.06

Von Rich

Por que isso na cabeça?

Era ela quem lhe fazia todos os regalos, desde alimentar no peito até aquela ula-ula de viagem louca pra Somália - ao preço de estelionatários sei lá quantos mil ou milhões de xelins. Era ela quem costurava a meia furada, era ela quem contava histórias pra menina dormir, era ela quem esperava acordada em noites de lua repleta quando lobisomem é colega da faculdade que só quer papar.

Aline, ali, ensimesmada. Olhava e não enxergava mãe. Entendia o mundo como, adolescente, tudo diferente. Mãe igual à oligarquia de seres adultos chatos cheios de regras, regalias, impostos e álibis. Nunca do bem.

Um dia cismou que queria ganhar um escorregador. Dia seguinte, lá estava, novinho em folha e caule, plantado no jardim de seu quarto cor-de-rosa. Depois vieram barbie, kit de vamos-brincar-de-cozinha, modess, coleção de camisinhas, muita muita muita roupa de grife, sempre um namoradinho novo ou importado, grana pra balada, carro novo carro novo carro novo pra rodar por aí. E uma bolsa obtusa. E sessões semanais em salão de beleza, terapia, acupuntura, massagem, escambau.

Mauro, um dos namorados. O mais inteligente de todos, corajoso e entendido de drogas psicodélicas. Alucinados, viam juntos: sete anõezinhos, gnomos cor-de-abóbora, estátuas reluzentes da liberdade que nada, cds dos beatles lucy-in-the-skies, putas suecas vestidas como marcianas, sinônimos de zumbidos, alcachofras fosforescentes, ets de todos os tamanhos, muitos anéis para pouco saturno. Endoidecidos, viajavam juntos, não só Somália: Islândia, Malásia, Tailândia, Holanda, Suazilândia, Mongólia, Groenlândia, Flórida, Alabama, Florianópolis, São Paulo, Holambra, Águas de Lindóia e até América Latina.

Mãe não se reconhecia mais no espelho, em sete pedaços e nenhum caroço. Trêmula como se fosse maldição ou um estranho sentimento premonitório. Mãe e o terço na mão, o diabo na cabeça, a foice cutucando as costas.

No quarto ao lado toneladas de ervas daninhas. Travesseiro. Cheiro. O plano esboçado no papel de pão: mapa, lapiseira, borracha, setinhas indicativas de eu-vou-aqui-você-por-ali-vai-pra-lá. Todos os dias, mentalizando. Depois fumando o mapa, cavando a veia com a lapiseira. Cansando, transando, dormindo.

Era noite de 31 de outubro. Mauro entrou na casa armado com um estilingue e pedrinhas pontiagudas envenenadas. Mãe e pai na cama, dormindo pela décima sétima vez. Sangue na cabeça dos dois. Dor. Sangue. Aline sorriu.

E é por isso, minha filha, por causa dessa história que aconteceu há tanto tempo, que hoje sua mãe e eu dormimos de capacete.