26.6.07
Esta noite nem quero dormir
E, parafraseando aquele filósofo lá, tudo o que não sei é que, não sabendo, sei tudo o que não sei.
25.6.07
um convite à vida
em dívida
um trambique
uma muleta ávida
para se aposentar
em suas dobras sempre sobra um pouco de tédio
um tanto de expectativa
um gole de poema
uma marca
e uma talvez saudade de reencontro
no metrônibus todo dia todo esbarrão
tem aspas
tem asas
mas as pessoas ainda não aprendemos a voar.
23.6.07
18.6.07
Psiu de vaneios vários
Há braços, pernas, corpos todos a se perderem no encontro. Há calma, brilho nos olhares, literatura flamejante, um quê surpreendente. Há vidas, nos poros, nos poemas, nas idéias, na noite iminente.
Um gole de vinho? Um sorriso prometido? Os vieses muitas vezes desavisam, desviam, comprometem.
Regras preestabelecidas: * Letras não têm pé, posto cabeças. * Almas são corpos que se entregam. * Todo agrado contém um segredo. E vice-versa. * Fluir, fluir, fluir.
17.6.07
Sem gilete
umbigos,
amo
amão
amaço
amassos em redor.
calor
tosse
e dor
de ca
beça
Zumbidos, sorvetes, vazios vazios vazios.
15.6.07
LoriLori (À Primeira Vez)
primeiraveza
rimeiravezap
imeiravezapr
meiravezapri
eiravezaprim
iravezaprime
ravezaprimei
avezaprimeir
vezaprimeira
ezaprimeirav
zaprimeirave
àprimeiravez
13.6.07
Pequenas idéias sintomáticas de Olido Corc guardadas em um cubo de gelo alaranjado
Defenestrava desejos puramente instintivos. Não transava, não bebia água e nem lia. Caía de sono, mas se negava a dormir.
Se houvesse mais texto, escreveria aqui e preencheria páginas e páginas com a vida de Olido Corc. Mas como não, resta o desfecho: Olido Corc ficava guardado dentro do aquário. Ou em uma fôrma de gelo. Morto havia catorze anos, claro.
7.6.07
Breve
Dos sapatos brotaram as terras, das terras as sementes, das sementes a primavera, da primavera a vida, da vida, a morte. Os sapatos racharam-se sob o sol; as terras, as terras, as terras enterraram-se ensimesmadas.
Saí correndo antes que jogassem as sementes em minha cabeça. Tenho pavor de imaginar uma árvore gigantesca nascendo de mim, sugando meu sangue e condenando-me a ser raiz, para sempre. Ou ter minha pele cheia de hematomas-flores fúcsias. Ou ser jantado por pragas da lavoura ocidental. Ou ao invés de vacina receber altas doses de pesticidas. Ou viver em estado vegetativo – o que é pior hipótese.
Dos sapatos, bati as terras antes de entrar, de supetão:
- Ô de casa!
O silêncio, como convite a não entrar. O sábado, em si, sorridente. O sábado sozinho. Eu, solitário. Desassossego porque se eu entrasse depois viria o domingo e a segunda com todas as feiras dos dias úteis – eu, inútil. Pálido, entre a escolha. O cérebro é um algoritmo nervoso entre as orelhas.
Segunda tentativa.
Terras não brotam do sapato, terras não brotam. Delas é que são brotadas as sementes, plantadas ou que se plantam sós. Delas é que sai a primavera com a vida e nelas é que se morre a morte, até ser enterrada. Os sapatos é que se decompõem sob as terras.
Não viria, não viveria vegetativo. Antes arrancaria com os dentes vermelhos todos os hematomas de flores fúcsia que surgissem em meu escopo. Disse em meu corpo. Não posso ser raiz, desses que deixam a árvore nascer, crescer e se reproduzir em seu entorno. Não viveria vegetativo. As pragas aos pesticidas. Antes. Morte às hipóteses, basta de hipocondríacos.
Para entrar sem bater, sem limpar os pés, sem tapete, sem olá. Rápido, solerte. Um abismo entre a porta e o travesseiro, entre os pés e o lustre, entre o entra e o entre.
Terceira tentativa.
Costumo comer terras quando estou contente deveras. Elas têm um aspecto saudável de cor escura e mancham os dentes com a tintura que soltam. Terras são boas, férteis, em se plantando tudo dão. Sementes, elas acreditam somente. E daí germinam as plantas e sobre as plantas nascem os bichos que trepam e sobre eles eu não sei muito não. Os sapatos não aparecem do nada sobre as terras; são fabricados por mãos humanas ou mãos máquinas de metal. Os sapatos desaparecem no nada sob as terras, e ninguém se preocupa com isso, meu deus.
Se houvesse nascido vegetal, cana, digamos. Seria amputado de meu pé e morreria. Seria consumido por um carro? Servido a um bêbado? Adoçaria uma xícara de café? Estragaria todos os dentes e mataria teus filhos de cirrose. Todos os três.
Porque a morte não perdoa nem os vegetais. Ela leva para as terras todas as almas, assim de supetão, sem bater à porta, sem bater os pés no tapete. É entra, entre, e sai. Saí.
7.5.07
Sobre transas, transistores e clitóris
Atarantada, Tamires tomou outro trem lotado para cumprir sua obrigação de chegar ao trabalho três pras oito em ponto. O trânsito de trens é muito estranho se comparado ao fora dos trilhos. Não tem maloqueiro no sinal fechado vendendo bugigangas, não tem placa de proibido estacionar, não tem amarelinho, não tem multa pra quem entra na contramão. O trânsito de trens é um monte de não-tens. Só tem aquela gente nojenta, lotada, se esfregando no corpinho tenro de Tamires, dezessete anos, desde os treze tomando trem sozinha.
O corpinho tenro de Tamires é um capítulo. Para entender, basta tirar suas roupas. Ela treme um pouco – frio – e fica outro pouco trêmula – vergonha – mas tudo bem. Os bicos intumecidos de seus peitinhos rosados de caber na mão encantam tanto que dá vontade que o momento congele num talvez, só pra que a vista não se interrompa nunca. E há os claros pêlos eriçados, fininhos, bem no entremeio abdômen-púbis. E há – vire-se um pouco, Tamires – a redondidade perfeita da bunda. Durinha como deve ser. Macia como deve ser. Com uma marca de biquíni, sutil, que entrega onde ela curtiu o último feriado e também revela que, precavida, Tamires passou protetor solar fator vinte.
Voltemos ao capítulo chato, o trânsito Tamires casa-trabalho, diário na ida, noturno na volta, semântico em ambos. Ali as pessoas se amontoam, os contatos camuflam a necessidade antifísica de dois corpos compartilharem o mesmo fútil espaço útil. Tamires não namora, só teve uns atiradinhos esporádicos, nunca nada sério. Tamires não tem namorado mas não lhe faltam candidatos. E não é que ela seja por demais seletiva – talvez até o contrário. Tamires é seduzida o tempo todo pelos embalos aflitos e incontritos. E Tamires, não nos esqueçamos, tem um corpinho tenro, lindo. Que, no fundo, gosta de contrariar a física ao dividir com outro o mesmo espaço.
O corpinho tenro de Tamires, não nos esqueçamos, não nos esqueçamos, é o mesmo que deixamos sem roupa para a mais profunda análise. Contém feromônios bastante atraentes. Há uma simetria perceptível e alguns segredos, tais como uma pequena pinta logo acima do umbigo e uma manchinha à toa, natural sob o seio direito. Tem também uma cicatriz solitária e minúscula, de quando tropeçou e cortou um pouquinho a testa, bem perto de onde começam os fios de cabelos castanhos. Tamires é um tentador corpo. Não passa disso, tolinha. Eu mesmo, na privilegiada condição de escritor atento, só estou esperando o próximo verão. Com dezoito anos, Tamires estará pronta até perante a lei.
Novamente, Tamires de frente. É possível contemplar as suas saliências, seus contornos alvissareiros que da doçura do queixo vão terminar no tornozelo do pé esquerdo. Bem no centro do mundo – e engana-se quem pensa que é no geograficamente central umbigo – está a maior fonte natural de prazer. Um transistor, o clitóris. Pelo dela passaram até agora três mãos, duas línguas e apenas um você-sabe. Nenhum deles cuidadoso a ponto de em encantá-la como deveria, como ela merece. Todos principiantes, precipitados, principalmente injustos. Egóicos em exagero. Indispostos ao. Ineptos ao. Inéditos idiotas.
Tamires, que sequer alimenta a cabeça com isso, desce do trem e já está vestida novamente. Pronta para mais um duro dia de trabalho.
3.5.07
A morte jamais convida a vida para se retirar.
16.4.07
Mefistófeles Morgado, Memo (fragmento)
Por que não discordar dele? Memo era deveras sábio. Costurava o vento quando queria calmaria, atiçava trovões quando queria barulhar um pouquinho. Não negava favores, tampouco os evitava; mas ai de quem não reconhecesse sua prelazia. Memo era capaz de rogar a todos os santos para que uma pólvora brotasse no travesseiro de cada um dos seus desafetos. E a danada da pólvora explodia, mais noite menos dia. Memo era o cara: quando fazia flexões, empurrava o planeta para baixo; decidia que horas eram para o relógio marcar; o médico media sua pressão pela escala Richter; e, quando queria, levava vinte minutos para passar uma hora. Memo jamais conseguiu fazer a barba, porque era só dar as caras no espelho que o reflexo abaixava a cabeça, em sinal de respeito. Por falta do que fazer, cismou contar até o infinito – três vezes. Sabe o Mar Morto? Eis o assassino.
Aposto minha barba que o leitor até aqui está confuso. Que caráter tinha Memo? Era o pleonasmo vicioso ou o maniqueu arrependido? Memo driblava os pecados e se escondia dos degredos. Memo colecionava segredos, agrados e palavras.
Implacável, Memo ria.
31.3.07
I could be right/ I could be wrong
Tropeço. Tombo. Mais tombos. Vista cansada. Repetição. Tédio. Desapego. Estrago. Desentrega. Pavor. Favor. Mesmice, mesmice, mesmice. A mesma mesmice de sempre. Impaciência. Ansiedade. Palavras-chave. Doença. Ambigüidade. Constelação. Tudo o que foi dito já foi.
Tropeço. Três, já. Mais. Outros. Descaminhos. Separação. Aperto de mão. Aperto no coração. Aperto. Friozinho na barriga. Sossego. Sossego. Sossego. Cego. Saudade. Assim mesmo. Mesmice. Tudo outra vez de novo. Espaço. Distância. Saudade. Vontade. Desejo. Tropeço. Tombo. Vista anuviada. Viados.
Tropeço, aviso, fim. Solidão.
30.3.07
27.3.07
O malabarista atormentado (preâmbulo final)
João Euclides da Silva não tropeçou no buraco, não morreu, não teve enterro digno. Continua trabalhando como malabarista do mequetrefe circo que insiste em se apresentar pelo interior do país. Mas uma garrafa de vidro escorrega em seu número, atinge seus lábios, corta-lhe todo, deixa-lhe em coma profundo por três meses e meio, a família desesperada decide e o médico, zuiiiiim, desliga todos os aparelhos. Aí é aquela burocracia, velório, certidão de óbito, testamento, anúncio fúnebre no jornal, cheiro de morbidez, tias velhas chorando e assoando o nariz com muito barulho, ironias briguentas e birrentas ao pé do morto. No enterro, suspiros finais da viúva, que deve guardar o luto por sete dias, até a missa derradeira. Depois continuará traindo o marido, agora defunto, agora sem o mesmo sentimento de culpa que, uma vez por ano, povoava sua cabeça.
4.3.07
Croniqueta embaixo d'água
No verão os pensamentos fluem num ritmo próprio, com o desejo auscultando, trágico, o que estiver submerso no degradado e decretado corpo derretido de calor e pálido de tanto se ensimesmar.
Borbulhos indicam que no aquário a água também ferve.
20.2.07
Porno-retratos sociais
***
Washington Martins de Oliveira tem 43 anos, cinco filhos, um gol 88, dez dólares eternos na carteira, um CD do Roberto Carlos e umas sete prestações para pagar ainda este mês. Seis da manhã, acorda:
- Maldito despertador.
***
Já virou lugar-comum dizer que o troglodita-reeleito não sabe escrever. Eu acreditava, ainda, que ao menos soubesse contar. Nem que fosse para calcular o sem-limite de seu cartão de crédito oficial ou ajudar seus coleguinhas corruptos a contabilizar a grana toda... Mais uma vez fui traído por ele, que disse:
- Eu fico imaginando que, se a gente aceitar a diminuição da idade para puni-los, para 16 anos, amanhã estarão pedindo para 15, depois para 9, depois para 10...
***
Aperta o botão soneca do rádio-relógio e torce para nos próximos dez minutos o sol não invadir aquela frestinha chata da persiana. Faz que não ouve o barulho do trânsito ali na janela, tão pertinho da rua seu apartamento térreo. Ao seu lado, Josinete dorme. Uma morena bonita, apesar de o corpo já denunciar os 38 anos mal-vividos.
***
Em seus quatro primeiros anos de governo, as maiores realizações do troglodita-reeleito – pelo menos aquelas que lhe dão mais orgulho e são proporcionalmente mais dispendiosas – foram a nova churrasqueira para a Granja do Torto e o suntuoso Aerolula.
***
O dia será cheio. Washington levanta-se e corre para o banheiro. Josinete prepara o café preto. O menino mais novo, ainda bebê, abre um berreiro – acordou fora de hora, esse menino não dorme direito há semanas! O dia será difícil. Na cozinha, cheiro de café fresco abre o estômago jejuno enquanto, na parede, o relógio indica o atraso: dez para as sete.
- Hoje vou falar com o patrão.
- Fico torcendo.
Washington é mecânico da Oficina São Luiz. Ganha dois salários e meio mais cesta básica por mês. A isso, somam-se os 350 reais que Josinete traz para a casa porque trabalha como doméstica ali no mesmo bairro. As cinco crianças ficam sozinhas todos os dias – Marina, a mais velha, já tem 12 anos e sabe cuidar bem da molecada.
***
Em sua vadiagem absurda, o troglodita-reeleito mostrou bem o que rima com esse fajuto pacote de aceleração do crescimento: quase dois meses do novo desgoverno e nada de anunciar o ministério. Como se o país estivesse às moscas. Receio que esteja.
***
Nos últimos anos, a vida de Washington só piorou. Ninguém o ensinou a ler e a escrever e quanto mais a Oficina São Luiz cresce, mais chegam mecânicos com formação técnica ganhando mais. Seu salário é o mesmo desde sempre. Marina não vai à escola porque precisa cuidar dos irmãozinhos. Que também não vão à escola porque precisam ficar com a Marina. Pois Josinete tem que trabalhar.
***
Mas, claro, o ministério vem depois. Ele precisa antes descansar (de novo). Imagino mesmo que não fazer nada canse. Ah, como é boa a vida do troglodita-reeleito...
Lula poderia assumir logo esse desejo abusivo do direito ao descanso e, para o bem do Brasil, descansar em paz. Sob um túmulo bem bonitinho. Eu iria ao enterro, disfarçando a alegria. E, em seguida, participaria da imensa festa de alforria.
***
Washington não lê, portanto não lê jornais, nem revistas, nem livros, nem bulas de remédio. Washington não gosta de ver noticiários na televisão porque não compreende muito bem tanta notícia junta. Só vê futebol, corintiano. Josinete só vê novela das oito – que começa quase sempre pontualmente às nove – e esse negócio de biguebroder. Eles trepam três vezes por semana. Rápidos. Sem muito carinho, sem frescura. Depois, cada um para seu lado.
Quando um universitário bateu em sua casa e disse:
- Tô fazendo uma pesquisa, o senhor pode responder algumas perguntas?
Ele topou.
Não soube o que era mensalão, valerioduto, corrupção. Nem idéia de um sinônimo para falcatruas, lulopetismo, liberdade de expressão. Só sabia explicar o que significava mentira:
- É quando a pessoa fala que é, mas não é.
Washington acredita nas propagandas do governo. Na última eleição ele apertou treze na urna eletrônica. Foi um dos sessenta e tantos milhões que, iludidos, contribuíram para que o Brasil afundasse de vez.
***
E por falar em redução da maioridade penal, crime hediondo mesmo cometeu quem votou no troglodita-reeleito. Tão Brasil...
14.2.07
Reportando o dia do poema
tomou um gole de café amargo afoito e foi tomar o ônibus quase atrasado
depois tomaria naquele lugar ouvindo o chefe bravo tomando coca diet
no meio do ônibus as pessoas se chafurdavam umas nas outras
o poema sentiu-se meio perdido no meio do ônibus mas achou bom
e era legal ser um estranho no meio apenas para sentir as mãos e pernas perdidas
no ponto o poema desceu e viu que já estava no ponto para mais um dia
o sol ensandecido parecia que tinha levado três pontos na testa
e cansado iluminava todos os pontos de ônibus, outros pontos, e points do hemisfério
o poema olhou para a hora e viu que ainda não era hora de entrar
tinha quinze minutos para fazer hora e como a hora passa devagar quando se espera
decidiu acender um cigarro para acompanhá-lo nos tique-taques da hora
na espera desesperada o poema encontrou o amor e foram fazer amor
porque o amor inespera e chega nos momentos mais tediamente amáveis
e o poema amou o amor perdendo todos os sentidos como quem ama de verdade
já eram mais de duas da tarde quando o poema despediu-se do amor
e a despedida ficou com um gosto de quero mais despida e o amor piscou
quando o poema voltou a si, voltou à vida, voltou ao trabalho, foi despedido.
9.2.07
Gênese
Sempre odiei a professora Bárbara do Carmo:
- Edison, não disse que se você chegasse atrasado mais uma vez, estouraria em faltas?
- Mas professora, a senhora precisa entender...
- Entender o quê, menino?
- A senhora sabe que eu tenho uma tartaruga, né? O nome dela é Tar, de tartaruga. Na verdade não é bem uma tartaruga, assim, mas é um réptil quelônio, só que terrestre. É um jabuti. Jabuti-piranga, se eu não me engano. Veio lá da Bahia, do sertão.
- E o que que tem isso a ver?
- Deixe-me acabar. Daí que um bicho desses deve viver mais de cem anos. E, como a Tar completou seu quinto aniversário mês passado, tinha a certeza de que ela seria legada aos meus netos. Só que, esta manhã, a Tar morreu. Você não pode imaginar a tristeza...
- Ahn.
- Daí que velório, essas coisas, tomam tempo. Daí que atrasei. Juro que não estava dormindo até às 9h40 quando a sua importante aula começa pontualmente às 8h, 8h15...
- Sei...
Sempre odiei a professora Bárbara do Carmo. Fazia questão de lhe assoprar baforadas de bons cigarros na cara, escolhia a dedo minhas roupas amarelas para satisfazê-la e caprichava nos comentários avessos à sua ideologia francesa. Sempre. Porque sempre odiei a professora Bárbara do Carmo. Ela vestia um par de óculos cor de superbonder e, pela espessura aparente, devia sofrer com uns oito graus de miopia do lado direito e uns seis e setenta e cinco do lado esquerdo. Se narizes também fossem passíveis de miopia, ela a teria em suas narinas salientes, disformes, certamente. Como não as são, preferia exibir um leve desvio de septo.
Sempre odiei a professora Bárbara do Carmo, principalmente dois dias depois de ela ter me dito que jamais se deitaria com um homem branco como eu, ainda que fosse dotado do mais capaz objeto direto. Sempre odiei a professora Bárbara do Carmo, e meu sonho era escrever esta frase umas cem mil vezes, para que toda a humanidade a decorasse. E quando ela, mais uma vez, se botar a ler Thomas Mann ou qualquer autor de sua predileção, antes iria encontrar na contracapa: "sempre odiei a professora Bárbara do Carmo".
Mas foi em seu ventre que se nasceram os nove gnominhos de minha imaginação.
4.2.07
Pelo avesso
Asfixiado, afixado, aficionado, afiado, uma afronta aos paradigmas pré-enraizados na vertigem doce de ser casa. Não sou daqui, diz. Não quero ficar aqui, diz. Não sei o que vim parar aqui, diz. Não, não, não, diz mais alto. E então se acorcunda de viés e rasga as roupas próprias vermelhas e quase rasga a pele também mas pára. Não adianta tanto assim brigar consigo mesmo.
Amanhã estará no jornal, em letras garrafais de primeira página, mas no jornal popular, sensacional, estrago. Amanhã estará no jornal, talvez até com foto sangrenta e tudo, a história do estrangeiro que de tanto se adaptar virou morto. Porque o desespero mata de suicídio.
7.1.07
20.12.06
Esboços de uma estação passada (vol. último)
Um babaca de nariz adunco - que conheço de vista mas não sei o nome - me interpelou hoje, aí pelas 11 horas da madrugada. Primeiro tirou um sarrinho do tamanho de minhas barbas, com uma daquelas piadinhas medíocres.
[SEMI-SONETO TOSCO, SEM MÉTRICA NEM RIMA PORQUE PÓS-MODERNO]
Todos os linques estão quebrados
Todos os imeios retornam ao servidor
Todos os saites foram invadidos
Todos os computadores acordaram com bug
Todos os bológues estão desatualizados
Todas as romipeiges foram desativadas
Todas as figuras não carregaram
Todos os arquivos atachados trouxeram vírus
Todos os messenes se perderam no ciberespaço
Todos os modens queimaram com a tempestade
Todos os contatos foram deletados
Todos os arquivos FTP viraram pó virtual
Todos os favoritos simplesmente sumiram
Toda a internet foi brincar de rede de dormir.
Pra não dizer que não falei dos ursinhos inocentes e sem vida que resplandecem nos quartos das meninas bonitas:
Muda-planta pra cidade-muda onde me mudo
Na cidade onde ninguém sabe falar eu também me calei.
Linhas recheadas de línguas
Tec-tec-tec-tec-tec. Teclando. Entre bits e bytes minha língua míngua ou ainda deságua porque a língua não se acaba?
O guarda-língua assustou-se quando descobriu que a língua é uma grande metamorfose. Mas a língua, espevitada e linguaruda que só ela, não se fez de rogada: deu uma de Emília, mostrou-lhe a língua e virou as costas.
Tec-tec-tec-tec-tec. High-tech. Século XXI d. C. Depois do Computador? Não, ainda não. Apenas, depois de Cristo. E o mundo já nos veio pronto, estruturado, organizado linearmente como se nem coubesse um hipertexto nem pedacinho de poesia.
O guarda-língua ficou tão sem graça que decidiu fugir rapidamente para o meio da guerra. Dizem as más-línguas, todas vermelhas e grandes, que ele fica lá deitado o dia todinho, esperando que alguma bomba colorida acerte sua cabeça e exploda sua língua junto. Enquanto isso, deixa a barba crescer em pensamento.
Tec-tec-tec-tec-tec. Trec. Se o computador quebrou, não tem mais tec-tec, mas ainda há toda a piração que nunca se sabe se é ins ou trans. Porque é urgentemente preciso des-ser o que sempre fomos e sub-ir aonde sempre fomos.
O guarda-língua, casmurro, taciturno e sorumbático, irritou-se com a lenga-lenga da guerra. Entre fogo cruzado, pisou na pedra mais alta e pontiaguda e desatou a gritar.
- A história da língua é tão longa quanto a língua da girafa. Ninguém chega num acordo, mas não vale a pena brigar, já que as espadas seriam línguas afiadas.
A língua é apenas um rótulo de maionese que colamos para poder viajar nas coisas? Puro convencionalismo que nos ajuda a perceber o mundo tal e qual ele nos parece? Ou a língua nasce do mundo de maneira natural e assim suas palavras estão diretamente relacionadas ao seu significado?
No fundo o importante é cheirar os frutos e comer as flores. Inverter e subverter os paradigmas. Trabalhar nus. Depois todos caímos na mais profunda modorra, pensando sabermos a verdade e curtindo a estranha mentira de nos acharmos felizes. Talvez o importante mesmo da língua sejam os beijos.
(Alheio ao processo lingüístico, um garotinho ficou espantado ao ver o tamanho da língua de boi dependurada no açougue. Com o impacto, mordeu a língua.)
Hoje não tem poema
Porque eu não consegui fazer o soneto que queria.
Uma carta doutros tempos
[achada entre meus arquivos de computador, uma carta que foi escrita há quase três anos]
Taquarituba, maio de 2001.
Século XIX. Dois anos depois de Auguste Comte ter afirmado categoricamente que jamais o ser humano conheceria a composição das estrelas – e isso era um conceito que iria provocar para sempre a existência da humanidade –, Gustav Kirchhoff inventou o espectroscópio, assassinando a idéia do seu contemporâneo. Logo depois, o jovem Albert Einstein divertia-se na escola Politécnica suíça, imaginando um dia viajar atrelado a um raio de luz.
São meras coisas. Fatos banais talvez de um dia que não nos chega ou já nos passou. Que importa? Marcas do que se foi e do que nunca será... Queria ser estrela para morrer e me tornar gigante vermelha, agonizante, depois morrer mesmo de verdade, anã vermelha, anã branca, anã negra, buraco negro, um buraco na parede, corpos selvagens...
Século XXI. Você me pergunta o que tenho feito. O que faço? Penso, logo existo; existo, logo penso. Isso não é resposta que se espere de um cara da minha idade com a nescilidade que me é característica primária. Quem sou? O que faço?
Faço poemas, mentiras, retratos, estranhos esboços. Pinto um quadro que não é surreal nem traça os sonhos do mundo. Às vezes, dormindo, ouço o repicar dos sinos da igreja e penso no racionamento de energia. Às vezes, dormindo, finjo que estou acordado para ver para crer para se ver, para te ter no fundo em meus braços num longo abraço de não mais saber.
Você já olhou para a lua com os olhos que lacrimejam paixão? Já encarou a face estreita que parece conter São Jorge e sua prosopopéia dragão – o dragão carrega em seus ombros o peso dos desvarios de toda a idade da raça humana.
Devo estar chato hoje. Mas pensei em te escrever justamente depois de ler que “o inferno são os outros”. Só Drummond acreditava, em meio a um oceano de filósofos pessimistas, que a convivência é boa, é proveitosa, é divertida – qual era mesmo a palavra que ele usava, sábio? não me lembro, não sei, minha cabeça está à toa...
Devo estar chato hoje. Desculpe-me; juro que não tinha a intenção de te aborrecer tampouco de ser inconveniente. Apenas queria desabafar, e o papel tem aceitado essas coisas medíocres que escrevo na vastidão incólume do giramundo vastomundo raimundo imundo (se o mundo fosse raimundo seria uma rima não uma explicação).
Devo estar chato hoje. Renitente, sem saúde, não estou tributável. Tinha vontade de comprar conhecimento na lojinha de 1,99, mas lá não são vendidos livros. Que pena, amor, que pena. E pensar que a saudade é diretamente proporcional ao avesso da simetria que nos prende e nos confunde... E pensar que somos tão jovens... E pensar que sequer pensamos direito.
Devo estar chato hoje. Esse meu discurso não servirá para nada. Será mais uma carta que passará por suas mãos e será arremessada pela janela – defenestrada – ou, pior, encestada na lixeirinha do banheiro.
Devo estar chato hoje. Deve ser a saudade, o clima gélido... o cheiro do seu perfume que imagino em minhas narinas como se você estivesse ao meu lado agora... Mas você não está... Por que será?
Beijos do perturbado chato.
Idiota mesmo sou eu que fui reinstalar minha impressora e, por falta de atenção, acabei deixando-a em alemão. Então que sou supreendido por mensagens deste tipo:
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Vocês não têm idéia de como isso me deixa feliz.
Trechos
de umas coisas que ando escrevendo
1) Mas para que ninguém saia por aí pedindo o dinheiro de volta, dizendo que “como assim o protagonista morrer bem no comecinho?”, eu vou mostrar as duas linhas que eu escrevi antes de morrer:
Decidi que não quero ser felizinho.
Agora vai ser oito ou oitenta: só brinco se for feliz ou triste.
2)
– Que cabeça você quer?
– A mais bonitona e cheia de recheio por favor!
– Serve Ezra Pound?
– Não sei... Preferia algo nacional... Tem Clarah Averbuck?
– Tem mas acabou. Por que você não leva Leminski?
Tudo. Tudo. Menos o tem mas acabou. Odeio o tem mas acabou.
3) Tinha cinco dedos em cada uma das mãos. Não era, portanto, presidente. Falava inglês, alemão e não-sei-mais-o-quês. Amava cinco namoradas, sendo fiel a todas elas. Era doutor em embromations factus e ganhava 15 mil dólares por mês. Andava sempre num carro importado, que não sei a marca porque não entendo de carros. Bebia só uísque escocês e ria dos pobres para quem jogava esmolinhas com desdém.
Um dia, tropeçou no ego e morreu de traumatismo craniano.
4)
- Manhê! Manhê! Manheeeeeeeeeeeeeeeeeeê!
...
- Mãe!?
O mundo anda bem doidão. Parece que fumou uns três quilos de maconha e agora bateu uma larica desgraçada nele. Então começou a devorar pessoas, umas com quéti-chupe, outras com queijo ralado. As mais rechonchudas, in natura mesmo.
Você já experimentou conectar dois caleidoscópios, um diferente de outro, um em cada olho, ao mesmo tempo? Experimente: talvez seja o melhor jeito de se lembrar de esquecer que o mundo não está mais valendo a pena.
Antes que alguém me pergunte: Não, o inferno ainda não voltou a funcionar!
Eu? Sou só um cara sensível tentando compreender a dureza do mundo.
Não, não estou bem. Acho que estou pirando. Sábado sem graça e, agora, prenúncio de um domingo indigesto.
Não sei o que vou fazer. Mas alguma coisa grande pode acontecer.
Vou-me embora da Terra dos Emboras?
Embora o Governo não saiba contar direito até dez e nos obrigue a manter o equilíbrio na ponta dos pés, o Brasil vai caminhando; embora a Televisão mo-dele a pública opinião e padronize até mesmo o nosso coração, há nichos de resistência criando novas formas artísticas; embora nossa escola venda um saber sem sabor que nos atola e nos restrinja a um universo sem verso nem de esmola, cresce o número de interessados por uma educação de nível superior; embora a nossa seleção de futebol ande capengando no cenário mundial e jogando mediocremente faça chuva ou faça sol, o povo não perdeu o amor pelo esporte; embora não haja uma política de incentivo suficiente para um ativo processo de revitalização do que outrora foi cenário de gláuberes e as blockbusters pasteurizadas por americanismos sejam abundantes, o nosso cinema está renascendo.
Embora não tenha cumprido sequer as promessas do vento da campanha, o presidente ousa prometer que vai fazer muito mais do que promete. E a fo-me? Zero é a nota que sacode no prato vazio do faminto que, embora tenha confiado seu voto ao ex-metalúrgico, ainda não viu realizado seu sonho do pão-nosso-de-cada-dia. Embora a realidade para ele seja triste, amanhece ca-da dia com força para trabalhar em busca de sua utopia.
Embora o frio esteja chegando bravo este ano, os sonhos continuam quentinhos dentro do peito de cada um; embora ao passarinho custe migrar porque grandes são as distâncias, sabe que no final de sua trajetória um porto seguro encontrará nos braços de sua amada; embora a dor e a saudade sejam incomensuráveis e cutuquem o amargo âmago feito piercing que não se perce-be, reside na alma o consolo de novo reencontro e tantos e tantos e tantos e quantos forem e houver.
Embora todo adágio pelo uso seja gasto e não passe de lugar-comum e a língua tenha se tornado cada vez mais comum com o baixo nível de entropia cultural alçado pelo povo, é preciso dizer que quem canta seus males apronta, que antes só do que mau no mercado, que em terra de cego quem tem um olho é gay, que quem com ferro fere com ferro será fedido, que se conselho fosse bom eu te vendava e ventava porque quem semeia vento colhe solidão.
Embora haja tantas ironias no seu dia-a-dia e tanta desilusão na sua noi-te-a-noite, note, o brasileiro não perde a esperança.
Bom dia, sol!
(Mas a janela vai ficar fechada porque eu não quero te ver não!)
Vazio como meu dia.
Vem uma dor aqui. Triste.
Talvez.
E o sol nascendo é tão bonito, tão diferente da tristeza que toma conta de mim, que às vezes tenho medo de preferi-lo ao poente, de inverter assim minha vida como se não houvesse.
O que que tem atrás da porta?
Sentado em um sorriso indefeso, ponho-me a observar as pessoas que não sabem voar. Elas são tapadas e não me vêem aqui do alto, enquanto eu procuro minha escova de dentes para continuar defendendo meu sorriso.
Eu ando com raiva da chuva.
Eu vou fugir.
Eu fico aqui torcendo pro meu ventilador, 24 horas por dia trabalhando, não pifar. Senão, como irei terminar de criar as infinitas vidas?
15.12.06
Eterno retorno
Lula chora ao ser diplomado e vai rir por outros quatro anos.
Nós assistimos. E teremos quatro anos para continuar com os prantos.
A única diferença é a sujeira acumulada no currículo do presidente.
12.12.06
Desconto de Natal
Seu bom comportamento valeu até no futebol com os amigos - não foi desleal em nenhum lance e resistiu a quebrar os tornozelos do atacante adversário mesmo quando este sobraria cara-a-cara com o gol, goleiro já vendido - e no de verdade, quando no estádio não xingou a mãe do bandeirinha corrupto e nem pediu a cabeça do técnico do seu time, mesmo perdendo de 4.
Tratava os funcionários de sua fábrica de brinquedos a pão-de-ló, como se diz. Ganhavam bem, comparando-se à concorrência, recebiam décimo-terceiro, décimo-quarto e décimo-quinto salário, tinham tíquete-refeição, vale-transporte, cesta-básica, o escambau. Em casa, era um marido exemplar: cobria a mulher de afagos e mimos, nunca falhava na cama.
Pensou que por ter sido um bom menino mereceria um belo presente debaixo da árvore. Quase esqueceu que era ele o Papai Noel.
7.12.06
Esboços de uma estação passada (vol. 5)
"Os pássaros voam porque não têm ideologia"
(Millôr Fernandes)
Tudo o que eu queria agora era fazer um grande poema de amor
mas não acho poema pra tanto amor!
Eu ia falar uma grande besteira, só o naco de sensatez que ainda me existe pede pra deixar pra lá.
Resto de madrugada. Eu sem grana, procurando um novo buraco pra me esconder da chuva.
Descubro-me misântropo de última hora.
É sempre assim quando a noite começa e nada termina é sempre assim esse gosto de sem gosto agosto na boca e a secura de não te ter ao meu lado nas noites tristes é sempre assim mesmo porque não há salvação fora daqui nem dentro daqui não há salvação em lugar nenhum é tudo ilusão e toda ilusão é passageira porque isso eu aprendi desde pequenininho.
Pra falar a verdade eu nunca havia pensado nesse negócio de que todas as meninas amam as estrelas
Agora estou até com medo
Medo
de perder um ou outro dedo na conta insaciável dos astros do céu
seu céu
meu céu
céu
Pra falar a verdade eu nunca havia pensando que pensar demais podia doer um pouco
agora começo a bater cabeça
cabeça
cheia de idéias novas e sonhos velhos comprados no supermercado
próximos da data
do vencimento
Vem, cimento: concreta tudo o que se desfazia no ar!
Vi um relógio escorrendo de um galho e pensei que estava perdido dentro de um quadro de Dalí. Mal sabia eu, pálido ignorante, que aquilo era um pé de tempo e o que escorria era um fruto apodrecido porque não colhido no tempo certo.
Decidi mudar-me para um quadro do Escher. Ao menos seria mais divertido escorregar na perspectiva.
A mentira da forma como ela acontece:
- Legal né?
- O que?
- Tudo!
- É...
Descobrimento do Brasil: A terra, ninguém prometeu, ninguém cumpriu. Caminho entre pedras e vejo surgir cidades cheias de gente feliz e cores verdes, amarelas, azuis. Olho pra dentro das casas, pelas janelas que me sorriem, e o que são lá dentro senão faces me vendo alegres com as cabeças cheias de pensamentos de algodão-doce...
No país do meu sonho, todas as construções se esfacelam no ar. E dá pra sentir no vento tudo o que as pessoas sentem. Sabe quando a gente pega a casca de laranja e espreme, sai aquele sumo que nem um vaporzinho brilhando contra o sol? Assim, assim. Dá pra perceber o sentimento das pessoas como se fosse sumo de laranja.
Piso o chão. Mas piso bem de leve, para que ele não grite, não reclame, não doa. E vez em quando saio pra colher estrelas, enquanto a lua fica observando todos nós. As estrelas têm o jeito estranho de serem todas serelepes, enquanto a lua é rainha onipotente, clarão clareando tudo, esclarecendo o ser, esclarecendo a vida com sua magia de ser.
Aqui não tem pobreza, não tem fome. Não tem ignorância, não tem analfabetismo. Os livros pululam livres das estantes, e o que era antes senão somente instantes de sabedoria?
Meu país ainda vai ser descoberto.
Decidi que não quero ser felizinho.
Agora vai ser oito ou oitenta: só brinco se for feliz ou triste.
Considerações
6.12.06
Esboços de uma estação passada (vol. 4)
Minha mãe também virá.
Dormi hora e meia. No meu sonho tinha um revólver verde e quase enferrujado com o qual eu matava todas as pessoas chatas.
Matei-me.
Taquarituba, 21 de julho de 2003.
Pensando em toda a maluquice desta pós-modernidade na qual vivemos, sabendo-a efêmera e triste, embora recheada de pontos de felicidade - provocados por compostos físicos e/ou químicos.
Pensando se não é mais fácil jogar tudo pra cima e desistir. Certo de que é mais fácil, decido continuar: sempre optei pelos caminhos mais difíceis.
Pensando na imensa delícia de ser o que é. Pensando em pensar só mais um pouquinho. Apenas pensando.
Como será o próximo semestre que por aí vem? é sempre esse gosto de ansiedade e esse sabor de sorvete de laranja na boca. Alguém já tomou sorvete de laranja? Por que?
Estranho, né? Mas já dizia Shakespeare: "Há mais razões entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia".
Só. Acabou o papel.
fico aqui pensando e me lembro que você já me matou.
quando acordei vi meu corpo estirado junto ao seu. um pouco de sangue misturado ao resto de vinho. ambos mortos. primeiro eu, com um punhal no coração. depois você, com um suicídio na cabeça.
o amor tem dessas coisas.
Não adianta nada, não adianta nada.
No fim ninguém vai mesmo sair vivo desta história, desta histeria, este game-show sem graça no qual estamos imersos. Eu e você + todo mundo. É, minha nega, você também vai morrer!
Vou escrever compulsivamente, o que significa ficar horas, dias, semanas quiçá, a fio, teclando e bebendo, bebendo e teclando. Poemas, cartas de amor, problemas, crônicas, contos, tudo, tudo, tudo...
Vou escrever até morrer de cirrose hepática, aids ou lesão por esforços repetitivos mesmo! Vou escrever até ficar com a ponta dos dedos ensagüentadas e ela possa então colher a poesia que brota dos meus dentre unhas.
Ninguém segura. Senão me explodo!
Pode reclamar. Foda-se.
mundo moderno
pressa. pessoas passam.
posso? pode não,
aqui é sob pressão.
a pedra ronca?
não. é só o mar
que quebra.
Talvez porque minha costumeira indisciplina e essa preguiça macunaímica nunca me permitam cumprir sequer metade do que planejo. O fato é que até agora não li o tanto que havia imaginado ser capaz.
Além do mais, o violão continua encostado praticamente da mesma forma como o encontrei - como se por si só ele fosse fazer música ou mesmo aprendê-lo.
O calor é grande: ontem fui pentear os cabelos estabanados do sol e quase virei Ícaro; só não me converti em energia porque ainda não compreendemos muito bem aqueles papos do Einstein.
E o que mais me incomoda, incomoda de doer, é a total secura de inspiração. Eu, rodeado de páginas em branco, branco em páginas e na cabeça, produzindo pouco, pouquíssimo.
Até agora nenhuma carta dela.
Você já tomou chuva hoje?
Você dorme de meias?
Por que perdi assim o caminho do seu coração?
Você está com frio? Por quê?
Abro e cadabro meu coração: I need somebody to love, de verdade, não esses amores made in Taiwan que se locupletam com um sorriso falso e não entendem nada das coisas da vida.
Eu quero a poesia dos instantes e, acima de tudo, quero voltar logo pra Bahia porque a Bahia é o que o Brasil tem de bom, com exceção do Antonio Carlos Magalhães.
Tem dias que a gente é como que nem sente, passa feito nuvem e vai chover lá longe. Aí o sol se apaga feito vela de pavio curto e não sobram duendes pra colher o ouro porque nem arco-íris não há mais.
Onde está Wally?
Qual é a cor do céu azul?
Você confunde concorrer com correr? E confundir com fundir?
Véspera do nascimento. Vento. A chuva que molhou seu onde com lágrimas de felicidade só agora chegou a Taquarituba. Culpa do fuso horário ou do confuso andar dos dias na mente de Deus.
Véspera do nascimento. Execução da pena capital de todos os perus, leitões, panetones e outras flores e trevos de Natal. E Papai Noel, coitado!, vestido de coca-cola, vertendo suor por baixo de suas roupas nórdicas e suas barbas de algodão. Ainda se fosse algodão-doce...
Uma carta sua chegou-me - misto de alegria e desesperança crescente.
Mas isso não é importante: o mundo vai continuar sua vã existência.
Há uma alma em mim desgovernada como se dentro de um carro em alta velocidade eu risse cínico do perigo deletério de viver.
Não é perigoso ficar navegando na Internet?
Mais uns dias por aqui. Olhar fotográfico perscrutando o dia, os dias, dia-a-dia. Diáspora, eu diria, velhos amigos espalhados por esse espelho estranho chamado vida.
Subo pra colher a brisa do ar e cato um pouco de poesia no seu olhar. Só olhar, mais nada, nem alma, nem nada, mais nada.
Abro o guarda-chuva e salto lá de cima.
Sorvete de baunilha é gostoso?
Foi quando a beleza veio me visitar, irisdescendo meus olhos e dando novo alento às minhas retinas tão fatigadas. Veio num corpo ainda adolescente e tinha dois olhos castanhos que não me cansei de olhar melhor. Suas melenas escorriam pela face - o que tristemente impossibilitou o toque de meus lábios no beijo usual de recepção e despedida.
Pensei que viesse para ficar, ao menos uma noite. Mas não: almoçou e foi-se embora deixando para trás um suspiro já calejado de tanto perder as esperanças.
Na noite do mesmo dia conheci a versão safada da beleza. Uns dezessete anos, mas muito vivida, louca para me ceder os prazeres mais deliciosos da carne, trêmula carne que tanto gostamos. E usava saias que praticamente facilitavam a tarefa.
Day after: sorvete de acerola com gosto de saudade e overdose de Lula na TV. E eu torcendo para que a terceira menina, o terceiro olho da cara, a terceira margem do rio, me entenda, pois só ela é capaz de, em sua distância de onde está, sanar a sensaboria de meus dezoitos anos.
Você já nos mandou um vírus hoje?
Uma coisa é correr, outra é socorrer
Uma coisa é escorrer, outra é escorregar
Uma coisa é crescer, outra é ficar velho
você já levou seu cão pra passear hoje?
