6.12.06

Esboços de uma estação passada (vol. 4)

Vou chamar a polícia e o ladrão.
Minha mãe também virá.

Dormi hora e meia. No meu sonho tinha um revólver verde e quase enferrujado com o qual eu matava todas as pessoas chatas.
Matei-me.

Taquarituba, 21 de julho de 2003.
Pensando em toda a maluquice desta pós-modernidade na qual vivemos, sabendo-a efêmera e triste, embora recheada de pontos de felicidade - provocados por compostos físicos e/ou químicos.
Pensando se não é mais fácil jogar tudo pra cima e desistir. Certo de que é mais fácil, decido continuar: sempre optei pelos caminhos mais difíceis.
Pensando na imensa delícia de ser o que é. Pensando em pensar só mais um pouquinho. Apenas pensando.
Como será o próximo semestre que por aí vem? é sempre esse gosto de ansiedade e esse sabor de sorvete de laranja na boca. Alguém já tomou sorvete de laranja? Por que?
Estranho, né? Mas já dizia Shakespeare: "Há mais razões entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia".
Só. Acabou o papel.

fico aqui pensando e me lembro que você já me matou.
quando acordei vi meu corpo estirado junto ao seu. um pouco de sangue misturado ao resto de vinho. ambos mortos. primeiro eu, com um punhal no coração. depois você, com um suicídio na cabeça.
o amor tem dessas coisas.

Não adianta nada, não adianta nada.
No fim ninguém vai mesmo sair vivo desta história, desta histeria, este game-show sem graça no qual estamos imersos. Eu e você + todo mundo. É, minha nega, você também vai morrer!

Vou escrever compulsivamente, o que significa ficar horas, dias, semanas quiçá, a fio, teclando e bebendo, bebendo e teclando. Poemas, cartas de amor, problemas, crônicas, contos, tudo, tudo, tudo...
Vou escrever até morrer de cirrose hepática, aids ou lesão por esforços repetitivos mesmo! Vou escrever até ficar com a ponta dos dedos ensagüentadas e ela possa então colher a poesia que brota dos meus dentre unhas.
Ninguém segura. Senão me explodo!
Pode reclamar. Foda-se.

mundo moderno
pressa. pessoas passam.
posso? pode não,
aqui é sob pressão.

a pedra ronca?
não. é só o mar
que quebra.

Talvez porque minha costumeira indisciplina e essa preguiça macunaímica nunca me permitam cumprir sequer metade do que planejo. O fato é que até agora não li o tanto que havia imaginado ser capaz.
Além do mais, o violão continua encostado praticamente da mesma forma como o encontrei - como se por si só ele fosse fazer música ou mesmo aprendê-lo.
O calor é grande: ontem fui pentear os cabelos estabanados do sol e quase virei Ícaro; só não me converti em energia porque ainda não compreendemos muito bem aqueles papos do Einstein.
E o que mais me incomoda, incomoda de doer, é a total secura de inspiração. Eu, rodeado de páginas em branco, branco em páginas e na cabeça, produzindo pouco, pouquíssimo.
Até agora nenhuma carta dela.

Você já tomou chuva hoje?

Você dorme de meias?

Por que perdi assim o caminho do seu coração?

Você está com frio? Por quê?

Abro e cadabro meu coração: I need somebody to love, de verdade, não esses amores made in Taiwan que se locupletam com um sorriso falso e não entendem nada das coisas da vida.
Eu quero a poesia dos instantes e, acima de tudo, quero voltar logo pra Bahia porque a Bahia é o que o Brasil tem de bom, com exceção do Antonio Carlos Magalhães.
Tem dias que a gente é como que nem sente, passa feito nuvem e vai chover lá longe. Aí o sol se apaga feito vela de pavio curto e não sobram duendes pra colher o ouro porque nem arco-íris não há mais.
Onde está Wally?

Qual é a cor do céu azul?

Você confunde concorrer com correr? E confundir com fundir?

Véspera do nascimento. Vento. A chuva que molhou seu onde com lágrimas de felicidade só agora chegou a Taquarituba. Culpa do fuso horário ou do confuso andar dos dias na mente de Deus.
Véspera do nascimento. Execução da pena capital de todos os perus, leitões, panetones e outras flores e trevos de Natal. E Papai Noel, coitado!, vestido de coca-cola, vertendo suor por baixo de suas roupas nórdicas e suas barbas de algodão. Ainda se fosse algodão-doce...
Uma carta sua chegou-me - misto de alegria e desesperança crescente.
Mas isso não é importante: o mundo vai continuar sua vã existência.
Há uma alma em mim desgovernada como se dentro de um carro em alta velocidade eu risse cínico do perigo deletério de viver.

Não é perigoso ficar navegando na Internet?

Mais uns dias por aqui. Olhar fotográfico perscrutando o dia, os dias, dia-a-dia. Diáspora, eu diria, velhos amigos espalhados por esse espelho estranho chamado vida.
Subo pra colher a brisa do ar e cato um pouco de poesia no seu olhar. Só olhar, mais nada, nem alma, nem nada, mais nada.
Abro o guarda-chuva e salto lá de cima.

Sorvete de baunilha é gostoso?

Foi quando a beleza veio me visitar, irisdescendo meus olhos e dando novo alento às minhas retinas tão fatigadas. Veio num corpo ainda adolescente e tinha dois olhos castanhos que não me cansei de olhar melhor. Suas melenas escorriam pela face - o que tristemente impossibilitou o toque de meus lábios no beijo usual de recepção e despedida.
Pensei que viesse para ficar, ao menos uma noite. Mas não: almoçou e foi-se embora deixando para trás um suspiro já calejado de tanto perder as esperanças.
Na noite do mesmo dia conheci a versão safada da beleza. Uns dezessete anos, mas muito vivida, louca para me ceder os prazeres mais deliciosos da carne, trêmula carne que tanto gostamos. E usava saias que praticamente facilitavam a tarefa.
Day after: sorvete de acerola com gosto de saudade e overdose de Lula na TV. E eu torcendo para que a terceira menina, o terceiro olho da cara, a terceira margem do rio, me entenda, pois só ela é capaz de, em sua distância de onde está, sanar a sensaboria de meus dezoitos anos.

Você já nos mandou um vírus hoje?

Uma coisa é correr, outra é socorrer

Uma coisa é escorrer, outra é escorregar

Uma coisa é crescer, outra é ficar velho

você já levou seu cão pra passear hoje?

3 comentários:

Giovanna Longo disse...

Aos poucos, estou aprendendo a ler seus textos. O ritmo é absurdamente esquizofrênico e por isso, há pouco tempo para processar. Voltar para o parágrafo anterior, nem pensar.
Respondi mentalmente a todas as suas perguntas. Não, eu não tenho todas as respostas. Eu suponho.
Supor não quer dizer nada. Tenho as respostas apenas para mim.

E, mesmo não tendo a intenção - eu acho - vejo uma comicidade cotidiana no seu texto. As coisas que nos ocorrem e não rimos delas pq simplesmente não são engraçadas. Talvez, rimos quando nos contam ou quando acontecem com os outros.
Não sei....

Bjs,

Giovanna Longo disse...

Ah, entre no msn dia desses....

parla marieta disse...

tô com a giovanna!