12.12.06

Desconto de Natal

Durante o ano todo, ele se comportou direitinho. Seguiu todos os dez mandamentos, inventou outros três, respeitou mais alguns. Nem era cristão, mas achou melhor não brincar com essas coisas. Também deu provas de cidadania: jogou o lixo no lixo, não andou na contramão, não fumou no elevador, ajudou as velhinhas decrépitas a atravessarem a rua e, principalmente, não sonegou o imposto de renda. Ah, o imposto de renda.

Seu bom comportamento valeu até no futebol com os amigos - não foi desleal em nenhum lance e resistiu a quebrar os tornozelos do atacante adversário mesmo quando este sobraria cara-a-cara com o gol, goleiro já vendido - e no de verdade, quando no estádio não xingou a mãe do bandeirinha corrupto e nem pediu a cabeça do técnico do seu time, mesmo perdendo de 4.

Tratava os funcionários de sua fábrica de brinquedos a pão-de-ló, como se diz. Ganhavam bem, comparando-se à concorrência, recebiam décimo-terceiro, décimo-quarto e décimo-quinto salário, tinham tíquete-refeição, vale-transporte, cesta-básica, o escambau. Em casa, era um marido exemplar: cobria a mulher de afagos e mimos, nunca falhava na cama.

Pensou que por ter sido um bom menino mereceria um belo presente debaixo da árvore. Quase esqueceu que era ele o Papai Noel.

2 comentários:

Bruno Pessa disse...

bunitinhu. Papai Noel tb é gente!

Giovanna Longo disse...

Ah Edison, juro que nem desconfiei que o dito cujo era o bom velhinho...!!
E para humanizá-lo, nada como colocá-lo como vítima do imposto de renda. Adorei! Algumas poucas coisas igualam as pessoas.... e uma delas, certamente é o IR.