7.12.06

Esboços de uma estação passada (vol. 5)

"Os pássaros voam porque não têm ideologia"
(Millôr Fernandes)

Tudo o que eu queria agora era fazer um grande poema de amor
mas não acho poema pra tanto amor!
Eu ia falar uma grande besteira, só o naco de sensatez que ainda me existe pede pra deixar pra lá.

Resto de madrugada. Eu sem grana, procurando um novo buraco pra me esconder da chuva.
Descubro-me misântropo de última hora.
É sempre assim quando a noite começa e nada termina é sempre assim esse gosto de sem gosto agosto na boca e a secura de não te ter ao meu lado nas noites tristes é sempre assim mesmo porque não há salvação fora daqui nem dentro daqui não há salvação em lugar nenhum é tudo ilusão e toda ilusão é passageira porque isso eu aprendi desde pequenininho.

Pra falar a verdade eu nunca havia pensado nesse negócio de que todas as meninas amam as estrelas
Agora estou até com medo
Medo
de perder um ou outro dedo na conta insaciável dos astros do céu
seu céu
meu céu
céu

Pra falar a verdade eu nunca havia pensando que pensar demais podia doer um pouco
agora começo a bater cabeça
cabeça
cheia de idéias novas e sonhos velhos comprados no supermercado
próximos da data
do vencimento
Vem, cimento: concreta tudo o que se desfazia no ar!

Vi um relógio escorrendo de um galho e pensei que estava perdido dentro de um quadro de Dalí. Mal sabia eu, pálido ignorante, que aquilo era um pé de tempo e o que escorria era um fruto apodrecido porque não colhido no tempo certo.
Decidi mudar-me para um quadro do Escher. Ao menos seria mais divertido escorregar na perspectiva.

A mentira da forma como ela acontece:
- Legal né?
- O que?
- Tudo!
- É...

Descobrimento do Brasil: A terra, ninguém prometeu, ninguém cumpriu. Caminho entre pedras e vejo surgir cidades cheias de gente feliz e cores verdes, amarelas, azuis. Olho pra dentro das casas, pelas janelas que me sorriem, e o que são lá dentro senão faces me vendo alegres com as cabeças cheias de pensamentos de algodão-doce...
No país do meu sonho, todas as construções se esfacelam no ar. E dá pra sentir no vento tudo o que as pessoas sentem. Sabe quando a gente pega a casca de laranja e espreme, sai aquele sumo que nem um vaporzinho brilhando contra o sol? Assim, assim. Dá pra perceber o sentimento das pessoas como se fosse sumo de laranja.
Piso o chão. Mas piso bem de leve, para que ele não grite, não reclame, não doa. E vez em quando saio pra colher estrelas, enquanto a lua fica observando todos nós. As estrelas têm o jeito estranho de serem todas serelepes, enquanto a lua é rainha onipotente, clarão clareando tudo, esclarecendo o ser, esclarecendo a vida com sua magia de ser.
Aqui não tem pobreza, não tem fome. Não tem ignorância, não tem analfabetismo. Os livros pululam livres das estantes, e o que era antes senão somente instantes de sabedoria?
Meu país ainda vai ser descoberto.

Decidi que não quero ser felizinho.
Agora vai ser oito ou oitenta: só brinco se for feliz ou triste.

Um comentário:

Giovanna Longo disse...

"O poeta é um fingidor"[...] Você deve conhecer esse poema...
Bem, às vezes quando leio seus poemas, fico em dúvida até que ponto você é fingidor.

Quanto ao poema, gostei especialmente da ligação que você fez entre as meninas e as estrelas.
Espero que você seja feliz.

Um beijo,