Abrupto
me entupir
de entorpecente
em torpes doses
crescentes
até o amanhã ser
sol otário
eu.
1.11.06
29.10.06
Fome de notícias
Famigeradas sopas de jornal continuavam sendo a base alimentar daquela família. Com uma importante diferença: o menino mais novo, sete anos, não sabia ler as manchetes que comia todos os dias.
- Cê precisa matriculá o Jeremia na iscola, cumádi... – dizia Filomena, a vizinha astuta.
- Deixa disso, cumádi. Perdê tempo pra quê? Qui im casa ele mi ajuda e dispois inda tem tempo pra ganhar uns troco como engraxate...
Todos os meses, Maria das Dores recebe a importância de 50 reais, a título de ajuda, do Governo Federal. O dinheiro, mero paliativo que não combate a pobreza estruturalmente, vem fácil, sem exigir nenhuma contrapartida – Jeremias continua analfabeto. A não ser, é claro, o voto, garantido. Maria das Dores já sabe quais botõezinhos apertar na urna eletrônica, muito bem, clap clap clap.
Nos últimos quatro anos muitos assuntos foram engolidos por Maria das Dores, Jeremias e seus outros oito filhos. Alguns, ela até chegou a bater o olho e tentou compreender as letrinhas. Outros, nem percebeu. Jeremias não entendeu nenhum deles. No dia em que almoçou uma página com a foto do Delúbio Soares, tinha ouvido umas coisas estranhas no rádio e perguntou:
- Manhê! Que qui é mensalão?
- Num sei, fio, num sei. Mais si é grande deve di sê coisa boa... Credite: vai miorá a vida da gente...
Achava engraçado quando no prato estava a careca reluzente do Marcos Valério e a sopa de jornal virava sopa de letrinhas com José Adalberto Vieira da Silva, aquele dos dólares na cueca. Devorava apetitosamente Palocci, Gedimar, Zé Dirceu e tantos outros homens, digo, nomes. Nomes feios, avessos.
Um dia, Jeremias ouviu discurso de político quando engraxava sapatos de algum bacana.
- Manhê! Que qui é honestidade?
- Ih, fio, num sei. Di onde cê tirô isso? Acho que num ixiste...
- I ética?
- Ai, essi minino, viu!? Ingora deu pra ficá doidinho, só inventano palavra...
E voltou para sua panelinha velha no barraco, a cozinhar o jornal de ontem com a foto de um presidente sorridente, gordo e barbudo, apedeuta a debochar da ignorância que o elegeu.
Ah, se a memória não fosse tão curta e a informação tão mal-distribuída, Maria das Dores entenderia que Fome Zero mesmo só nas comilanças da Granja do Torto, cujo churrasqueiro... Bem, ela não sabe de nada – e, nisso, se assemelha ao presidente. Agora tem que acabar logo seu almoço de jornal para, em seguida, correr para a escola onde seu filho jamais estudará. Sabe de cor quais numerozinhos apertar para que uma foto parecida com a de seu almoço apareça na tela. Aí é o verde. E mais quatro anos de paliativos para palitar os parcos dentes que lhe restam inteiros na boca.
- Cê precisa matriculá o Jeremia na iscola, cumádi... – dizia Filomena, a vizinha astuta.
- Deixa disso, cumádi. Perdê tempo pra quê? Qui im casa ele mi ajuda e dispois inda tem tempo pra ganhar uns troco como engraxate...
Todos os meses, Maria das Dores recebe a importância de 50 reais, a título de ajuda, do Governo Federal. O dinheiro, mero paliativo que não combate a pobreza estruturalmente, vem fácil, sem exigir nenhuma contrapartida – Jeremias continua analfabeto. A não ser, é claro, o voto, garantido. Maria das Dores já sabe quais botõezinhos apertar na urna eletrônica, muito bem, clap clap clap.
Nos últimos quatro anos muitos assuntos foram engolidos por Maria das Dores, Jeremias e seus outros oito filhos. Alguns, ela até chegou a bater o olho e tentou compreender as letrinhas. Outros, nem percebeu. Jeremias não entendeu nenhum deles. No dia em que almoçou uma página com a foto do Delúbio Soares, tinha ouvido umas coisas estranhas no rádio e perguntou:
- Manhê! Que qui é mensalão?
- Num sei, fio, num sei. Mais si é grande deve di sê coisa boa... Credite: vai miorá a vida da gente...
Achava engraçado quando no prato estava a careca reluzente do Marcos Valério e a sopa de jornal virava sopa de letrinhas com José Adalberto Vieira da Silva, aquele dos dólares na cueca. Devorava apetitosamente Palocci, Gedimar, Zé Dirceu e tantos outros homens, digo, nomes. Nomes feios, avessos.
Um dia, Jeremias ouviu discurso de político quando engraxava sapatos de algum bacana.
- Manhê! Que qui é honestidade?
- Ih, fio, num sei. Di onde cê tirô isso? Acho que num ixiste...
- I ética?
- Ai, essi minino, viu!? Ingora deu pra ficá doidinho, só inventano palavra...
E voltou para sua panelinha velha no barraco, a cozinhar o jornal de ontem com a foto de um presidente sorridente, gordo e barbudo, apedeuta a debochar da ignorância que o elegeu.
Ah, se a memória não fosse tão curta e a informação tão mal-distribuída, Maria das Dores entenderia que Fome Zero mesmo só nas comilanças da Granja do Torto, cujo churrasqueiro... Bem, ela não sabe de nada – e, nisso, se assemelha ao presidente. Agora tem que acabar logo seu almoço de jornal para, em seguida, correr para a escola onde seu filho jamais estudará. Sabe de cor quais numerozinhos apertar para que uma foto parecida com a de seu almoço apareça na tela. Aí é o verde. E mais quatro anos de paliativos para palitar os parcos dentes que lhe restam inteiros na boca.
24.10.06
20.10.06
Carnificina
Os mortos, com hora marcada,
Não sabem de nada.
Agora dormem, amanhã trabalham.
Banham-se, fazem a barba.
Tornam a dormir a última noite.
Não sabem de nada.
Nem imaginam que serão notícia.
Não sabem de nada.
Agora dormem, amanhã trabalham.
Banham-se, fazem a barba.
Tornam a dormir a última noite.
Não sabem de nada.
Nem imaginam que serão notícia.
16.10.06
Quadrinha
Que tudo que ainda me reste seja o teu sorriso
Na réstia estranha das lembranças luciluzidas
Que nada do que te sobre seja do meu vazio
Imenso na sacada onde mora o horizonte fundo
Na réstia estranha das lembranças luciluzidas
Que nada do que te sobre seja do meu vazio
Imenso na sacada onde mora o horizonte fundo
6.10.06
Puto
Sou um poeta morto
de cujo corpo, puto,
ressôo em coro cócegas
sem as quais o tudo
caminharia, ó ninharia
às cegas - e riria.
E a cada mínimo
minuto
que passa
digo adeus ao relógio
às horas, à lógica
e aos lábios que amei
Porque, poeta morto,
não sou mais refém do tempo
nem do corpo
nem escasso:
faço das pontes sobre o nada
o algoritmo destes versos
e, puto,
aprisiono cada minuto
em um ramalhete de nulo
tributo
sobre meu túmulo.
de cujo corpo, puto,
ressôo em coro cócegas
sem as quais o tudo
caminharia, ó ninharia
às cegas - e riria.
E a cada mínimo
minuto
que passa
digo adeus ao relógio
às horas, à lógica
e aos lábios que amei
Porque, poeta morto,
não sou mais refém do tempo
nem do corpo
nem escasso:
faço das pontes sobre o nada
o algoritmo destes versos
e, puto,
aprisiono cada minuto
em um ramalhete de nulo
tributo
sobre meu túmulo.
2.10.06
Caixa de entulhos
tudo o que a vida me acumulou
tratei de descartar:
trabalhos, amores, livros...
na ponta dos dedos
sobrou só o céu da boca
e um naco de língua
agora sou uma nesga de nada
nadando no vazio
do silêncio.
tratei de descartar:
trabalhos, amores, livros...
na ponta dos dedos
sobrou só o céu da boca
e um naco de língua
agora sou uma nesga de nada
nadando no vazio
do silêncio.
29.9.06
, e .
Vírgula no meio, ponto no final da frase. Era sempre assim. Às vezes, ela aparecia, sumia, tornava a aparecer. Noutras era só ele. Soberano. Repetitivo. Renitente. Ela era a mulher, alongava a conversa, fazia uma pausa sutil, quase sensual. Ele, o homem. Seco. Ríspido. Forte.
Quando se encontraram, por um acidente de gramática ou uma dobra da língua portuguesa, o ponto jogou a vírgula na cama, despiu-a e logo partiu para cima. Ela cedeu. Amaram-se, armaram-se; criou-se um novo problema na cabeça dos escritores: por que ponto e vírgula, meu Deus?
Quando se encontraram, por um acidente de gramática ou uma dobra da língua portuguesa, o ponto jogou a vírgula na cama, despiu-a e logo partiu para cima. Ela cedeu. Amaram-se, armaram-se; criou-se um novo problema na cabeça dos escritores: por que ponto e vírgula, meu Deus?
22.9.06
Cada
Cada verso
que vago
é um terço
que rezo
amém
Cada verso
que trago
é um vaso
que quebro
crec
Cada verso
que sonho
é um vício
que fumo
shhh
Cada verso
que sinto
é um você
que sou
fim.
que vago
é um terço
que rezo
amém
Cada verso
que trago
é um vaso
que quebro
crec
Cada verso
que sonho
é um vício
que fumo
shhh
Cada verso
que sinto
é um você
que sou
fim.
7.9.06
Lâmina
Quando a polícia chegou, tudo que encontrou foi um gelado corpo de mulher sobre a cama. Seus cabelos louros sobre a tez delineavam os seios, fartos, lindos, quase extravagantes. Era possível ver um dos mamilos, descobertos, bicos rosados.
O investigador Hamílton tentou disfarçar o misto de satisfação e constrangimento. Mas, em meio à morbidez da cena, reconheceu a beleza efêmera de quem partiu. Vinte e poucos anos, porte de modelo e - literalmente - fodida, pensou alto.
Ao lado, no criado mudo, uma carteira aberta sem nenhum tostão. No chão, uma camisinha usada e dois copos, que rolaram até pertinho da parede, cheirando à uísque barato.
A satisfação e o constrangimento cederam espaço ao incômodo. Hamílton tinha impressão de que a falecida seguia cada um de seus passos, com seus olhos verdes abertos, assustadores, e um pouco, digamos, lânguidos.
Súbito, defenestrou-se. Sequer notou como a lâmina que cortara o pescoço da moça aparecia no espelho do teto:
A N I M Â L
O investigador Hamílton tentou disfarçar o misto de satisfação e constrangimento. Mas, em meio à morbidez da cena, reconheceu a beleza efêmera de quem partiu. Vinte e poucos anos, porte de modelo e - literalmente - fodida, pensou alto.
Ao lado, no criado mudo, uma carteira aberta sem nenhum tostão. No chão, uma camisinha usada e dois copos, que rolaram até pertinho da parede, cheirando à uísque barato.
A satisfação e o constrangimento cederam espaço ao incômodo. Hamílton tinha impressão de que a falecida seguia cada um de seus passos, com seus olhos verdes abertos, assustadores, e um pouco, digamos, lânguidos.
Súbito, defenestrou-se. Sequer notou como a lâmina que cortara o pescoço da moça aparecia no espelho do teto:
A N I M Â L
14.8.06
Fruta-e-flor
Quando leio um conto travestido de crônica, ou uma crônica com nuances de conto, e nele(a) percebo pitadas de autobiografia recente (semana passada minha empregada assaltou todas as minhas jóias; ontem fiz feira e encontrei duas cenouras estragadas; há quinze anos meu pai morreu; arranquei um dente e estou sentindo, assim, um vazio...; meu terapeuta já disse: é preciso tomar uma decisão se eu quiser mesmo reconquistar o prazer de viver; e picuinhas do gênero), sou tomado por uma ojeriza estranha. Talvez porque, pessoalmente, me apeteça discutir, nesta ordem: 1) as idéias; 2) as pessoas; 3) as coisas. E, por conseguinte, porque nesses excertos autobiográficos, em geral, primeiro afloram as coisas (só como chocolates belgas; o diabo veste Prada; olha só como são belos os cristais daquela mesa; meu cachorro, ultimamente, anda amuado; e fricotes afins); em seguida, as pessoas (notou só como a Sicrana anda deprê?; você não sabe, mas o Fulano foi demitido ontem; olha, não comente com ninguém sobre o Beltrano, só que a saúde dele está capengando; lembra do Tal? Morreu!; e burburinhos etc.); e, só em casos absolutamente excepcionais, as idéias.
Em minha cabeça anuviada moram alguns idioletos, sem pé nem letos, e um isoleto que jamais entendo sozinho. Todos eles, intrigantemente, concordam com uma coisa: os textos aborrecedores autobiográficos são como um quadro de fruta-e-flor. Explico já. Na desfaçatez loquaz da ignorância artística em que resido, criei um verbete especial para definir quadros de quem não é artista, mas, por modismo, inveja ou falta de que fazer, resolve pintar o sete cor-de-rosa mesmo sem saber fazer o zero com o (então) na areia. Assim, ó:
Fruta-e-flor: Adj. [de fruta e flor] 1. Diz-se da pintura que denota imperícia artística e falta de habilidade técnica. 2. Artesanato (não-arte) feito por pseudo-artistas de forno-e-fogão. 3. Arte sem criação.
Mas hoje me reservo ao direito de pintar meu quadro fruta-e-flor. Tudo o que sempre abominei sai-me feito um bilhete à mão, cacoete ilusório de escrevente mequetrefe aprendendo a driblar as linhas. É como se fosse um dia em que acordei pelo avesso e/ou após sonhar com três urubus desdentados sobre uma inspiração cadavérica. E então quero rasgar palavras a amigos, uns lembrados outros não, que deixarei fluírem ao sabor não-hierárquico do pensamento, a seguir:
Morar em Bauru, por exemplo, não foi estúpido só porque lá algumas pessoas passaram a fazer parte de mim. Giovana, a garota que desde o primeiro dia de aula falava inglês very well, acabou se revelando uma amiga daquelas. De colega a amiga a parceira de TCC a... sócia em um futuro empreendimento de sucesso. Aguardem!
Aretha atriz com seus sonhos e medos e carinho. Laura com seu colo. Vinícius com suas tiradas impagáveis e BrinQs, o Zebra, meu dileto irmão. Juliana com imprevisíveis lembranças atemporais de Sorocaba. O Bruninho, que me brinda hoje sendo hóspede hebdomadário – momentos de vida em movimento em minha quase sempre pacata casa vazia.
E a lista poderia continuar, continuar, continuar...
De Taquarituba, carrego na memória a Gabi, primamiga com quem compartilhava versos e reversos. Iarley, presente nas incursões noturnas muitas vezes vozes repletas de desventuras. Mas lá a existência pode ser dividida em fases, cada qual com suas amizades sinceras do momento, que eu não vou enumerar aqui por preguiça – não por desafeto, juro.
Escrever dá uma saudade. Ser adulto é complicado: são responsabilidades, contas a pagar, gentes grandes pra pensar, falta de sossego, problemas. São Paulo é uma enormidade caótica, em si própria um antipoema transcendente, uma ferida sem cura, um atropelamento. Em algum momento eu ia dizer detrusor, mas agora não me lembro mais onde-quando.
Sei que, caso tivesse paciência sobrando, poderia continuar este texto por milhares de caracteres ainda. Só que não tenho. Tenho mas acabou.
E aqui finalizo meu horrível quadro fruta-e-flor.
Amém.
Em minha cabeça anuviada moram alguns idioletos, sem pé nem letos, e um isoleto que jamais entendo sozinho. Todos eles, intrigantemente, concordam com uma coisa: os textos aborrecedores autobiográficos são como um quadro de fruta-e-flor. Explico já. Na desfaçatez loquaz da ignorância artística em que resido, criei um verbete especial para definir quadros de quem não é artista, mas, por modismo, inveja ou falta de que fazer, resolve pintar o sete cor-de-rosa mesmo sem saber fazer o zero com o (então) na areia. Assim, ó:
Fruta-e-flor: Adj. [de fruta e flor] 1. Diz-se da pintura que denota imperícia artística e falta de habilidade técnica. 2. Artesanato (não-arte) feito por pseudo-artistas de forno-e-fogão. 3. Arte sem criação.
Mas hoje me reservo ao direito de pintar meu quadro fruta-e-flor. Tudo o que sempre abominei sai-me feito um bilhete à mão, cacoete ilusório de escrevente mequetrefe aprendendo a driblar as linhas. É como se fosse um dia em que acordei pelo avesso e/ou após sonhar com três urubus desdentados sobre uma inspiração cadavérica. E então quero rasgar palavras a amigos, uns lembrados outros não, que deixarei fluírem ao sabor não-hierárquico do pensamento, a seguir:
Morar em Bauru, por exemplo, não foi estúpido só porque lá algumas pessoas passaram a fazer parte de mim. Giovana, a garota que desde o primeiro dia de aula falava inglês very well, acabou se revelando uma amiga daquelas. De colega a amiga a parceira de TCC a... sócia em um futuro empreendimento de sucesso. Aguardem!
Aretha atriz com seus sonhos e medos e carinho. Laura com seu colo. Vinícius com suas tiradas impagáveis e BrinQs, o Zebra, meu dileto irmão. Juliana com imprevisíveis lembranças atemporais de Sorocaba. O Bruninho, que me brinda hoje sendo hóspede hebdomadário – momentos de vida em movimento em minha quase sempre pacata casa vazia.
E a lista poderia continuar, continuar, continuar...
De Taquarituba, carrego na memória a Gabi, primamiga com quem compartilhava versos e reversos. Iarley, presente nas incursões noturnas muitas vezes vozes repletas de desventuras. Mas lá a existência pode ser dividida em fases, cada qual com suas amizades sinceras do momento, que eu não vou enumerar aqui por preguiça – não por desafeto, juro.
Escrever dá uma saudade. Ser adulto é complicado: são responsabilidades, contas a pagar, gentes grandes pra pensar, falta de sossego, problemas. São Paulo é uma enormidade caótica, em si própria um antipoema transcendente, uma ferida sem cura, um atropelamento. Em algum momento eu ia dizer detrusor, mas agora não me lembro mais onde-quando.
Sei que, caso tivesse paciência sobrando, poderia continuar este texto por milhares de caracteres ainda. Só que não tenho. Tenho mas acabou.
E aqui finalizo meu horrível quadro fruta-e-flor.
Amém.
27.7.06
Imbróglio e Embrulho
Um dia, ou uma noite, não sei ao certo porque não vi, estavam todos os nove gnomos cor-de-abóbora deitados ao sol do meio-dia, ou à lua da meia-noite, não sei ao certo porque não vi, me contaram, e eles diziam sem parar bom dia, ou boa noite, não sei ao certo porque não vi, me contaram, mas eu dou fé, e começaram todos a tentar esquecer a pequenez daquele dia, ou daquela noite, não sei ao certo porque não vi, me contaram, mas eu dou fé, fonte confiável, só que não é nada fácil conseguir esquecer todo um dia, ou uma noite, não sei ao certo porque não vi, me contaram, mas eu dou fé, fonte confiável, não tem nem como contestar.
26.7.06
AmorCego
Feito sonar detecta tudo que é tátil de se pegar, tocar, apalpar, acariciar. Maior cego, refestela suas asas pelas brasas vermelhas de paixão: o que é uma coisa bela? Na escuridão latente, na lua cheia da gente, vampiriza-se e suga o sangue vermelho do pescoço sensual da moça que dorme tranqüila e sonha sonhos de amor na cama. Morcego:
- Não nego, carrego em mim a amálgama dor de ver verter sangue e ter prazer por cada gota que me sacia. O cálice sagrado. Meu segredo lhe agrada?
Agride. O sorriso matreiro da moça que revelava um sonho prestes a se converter em orgasmo vira um gemido, um ai, e agora o pesadelo é que ela é atracada contra a vontade. Saudade do instante imediatamente anterior. Alguma algema a ata à cama?
Morcego cabisbaixo. Morcego de cabeça pra baixo. Dependurado no teto, fino-trato, parece que traja um fraque suíço. Saboreia o sangue que escorre pelo canto da boca, saliva enquanto contempla a bela moça dormindo semi-transparente. Obra cumprida, só a marca dos dentes em seu pescoço. Vampiro:
- Firo a essência da vida porque persigo a alma. O sangue, organismo, não passa de adorno à minha missão. Uma hora eu consigo provar a todos, provando sangue visceral, vermelho, fogo, onde está o prazer.
Vermelho. O horizonte, vermelhando, anuncia o nascer de novo dia. Hora de ir embora, abrir as asas, dar adeus ao nada-testemunha. Amor cego é morcego: mama e voa.
- Não nego, carrego em mim a amálgama dor de ver verter sangue e ter prazer por cada gota que me sacia. O cálice sagrado. Meu segredo lhe agrada?
Agride. O sorriso matreiro da moça que revelava um sonho prestes a se converter em orgasmo vira um gemido, um ai, e agora o pesadelo é que ela é atracada contra a vontade. Saudade do instante imediatamente anterior. Alguma algema a ata à cama?
Morcego cabisbaixo. Morcego de cabeça pra baixo. Dependurado no teto, fino-trato, parece que traja um fraque suíço. Saboreia o sangue que escorre pelo canto da boca, saliva enquanto contempla a bela moça dormindo semi-transparente. Obra cumprida, só a marca dos dentes em seu pescoço. Vampiro:
- Firo a essência da vida porque persigo a alma. O sangue, organismo, não passa de adorno à minha missão. Uma hora eu consigo provar a todos, provando sangue visceral, vermelho, fogo, onde está o prazer.
Vermelho. O horizonte, vermelhando, anuncia o nascer de novo dia. Hora de ir embora, abrir as asas, dar adeus ao nada-testemunha. Amor cego é morcego: mama e voa.
17.7.06
Sua expectativa, meu expectorante
Quando chegar em casa, a porta entreaberta e os livros saqueados, não se esqueça de apagar a luz, para não dar na vista. É preciso avisar os vizinhos que estamos fugindo, a fim de evitar alarde maior, polícia nas costas, fotografia em jornal, mãe e pai chorando. Durante o percurso, economizemos os beijos. Os suores, deixemos para depois.
- Quantos passos ainda faltam?
- Não sei nada de contagem regressiva.
Eu olho para o relógio, os ponteiros me atordoam de fome. Lógica, religião, azulejos, aleijados, corante vermelho pintando o saguão. Você perdida, que nem nós dois.
- Quantos passos já fomos?
- Mais do que posso. Menos do que piso. O mesmo que passamos.
A sirene apita e nos lembra o que somos. Sequer torcida vale a pena se o único nó que precisamos não contém glúten. Só um gosto de sacolejo e um sentimento de escuridão. Gases por toda a parte anunciam a morte que foi ontem, anteontem, semana passada. Por instantes, sinto que pertencemos a um mundo extraordinário de canção, tédio, fantasia, fogo e lágrimas.
Carrego três cebolas cruas no bolso para que, alimentados, halitemos mal. Você traz a mala, onde estão roupas sujas, esperança e pavor. Voltemos à realidade que o trabalho nos espera nos classificados do Estadão.
- Quantos passos ainda faltam?
- Não sei nada de contagem regressiva.
Eu olho para o relógio, os ponteiros me atordoam de fome. Lógica, religião, azulejos, aleijados, corante vermelho pintando o saguão. Você perdida, que nem nós dois.
- Quantos passos já fomos?
- Mais do que posso. Menos do que piso. O mesmo que passamos.
A sirene apita e nos lembra o que somos. Sequer torcida vale a pena se o único nó que precisamos não contém glúten. Só um gosto de sacolejo e um sentimento de escuridão. Gases por toda a parte anunciam a morte que foi ontem, anteontem, semana passada. Por instantes, sinto que pertencemos a um mundo extraordinário de canção, tédio, fantasia, fogo e lágrimas.
Carrego três cebolas cruas no bolso para que, alimentados, halitemos mal. Você traz a mala, onde estão roupas sujas, esperança e pavor. Voltemos à realidade que o trabalho nos espera nos classificados do Estadão.
21.6.06
Síntese
No percurso toda
é uma perda de
Intruso na vida não
nem as dobras nem as
É como se eu fosse
ou qualquer totem em
É como se eu fosse
em uns sete cacos
Mas não, eu sou só
e um ou outro resto de
pedra
é uma perda de
tempo
Intruso na vida não
percebo
nem as dobras nem as
cobras
É como se eu fosse
deus
ou qualquer totem em
desuso
É como se eu fosse
espelho
em uns sete cacos
refletido
Mas não, eu sou só
eu
e um ou outro resto de
ego.
19.6.06
Senão sina sim, não!
Defino em três
os álibis que habito:
o último filme em cartaz
meu poeta favorito
e a inépcia perspicaz.
Se quero dormir,
fabrico sonhos;
Se preciso sorrir,
invento cócegas;
E o tempo todo
não me canso
de ser quem
um dia me penso
ou sequer soube.
Sou o et cetera
que jamais
se completou.
os álibis que habito:
o último filme em cartaz
meu poeta favorito
e a inépcia perspicaz.
Se quero dormir,
fabrico sonhos;
Se preciso sorrir,
invento cócegas;
E o tempo todo
não me canso
de ser quem
um dia me penso
ou sequer soube.
Sou o et cetera
que jamais
se completou.
Suave como uma dobra
Era estranho morar numa dobra. Ali onde os ponteiros do tempo jamais se cruzavam e o remelexo do vazio podia ser sentido às folhas da pele, em arrepios que não títeres nem alicerçados. Morar numa dobra, sem sombra, sem sobra, era estranho.
Mas dava para brincar eternamente de pique-esconde, escorregar nos vincos, colher pó, visitar esperanças enrustidas, dormir sem travesseiro. Sistófeles se aproveitava:
- Cada obra é uma dobra que abrocadabro.
- Cadoquê?
- Porque se assopro, voa. Ué?!
- Sabinão?
E o maior medo era quando a dobra ia esticando, esticando, esticando. Se deixasse de ser dobra, passada assim a ferro quente, a existência sumiria. Eram os mais doces instantes de melancolia que Deus inventava.
Mas dava para brincar eternamente de pique-esconde, escorregar nos vincos, colher pó, visitar esperanças enrustidas, dormir sem travesseiro. Sistófeles se aproveitava:
- Cada obra é uma dobra que abrocadabro.
- Cadoquê?
- Porque se assopro, voa. Ué?!
- Sabinão?
E o maior medo era quando a dobra ia esticando, esticando, esticando. Se deixasse de ser dobra, passada assim a ferro quente, a existência sumiria. Eram os mais doces instantes de melancolia que Deus inventava.
16.6.06
Suado ensaio de viver sem paz (ou Deus me livre!)
meus olhares melhores perdidos aos milhares
contracenam contra sonhos:
quero me livrar
das praças
dos preços
das pedras
das perdas
entrementes entre atritos e baralhos cortados
meu corpo subtrai entreluzido:
quero me livrar
dos cremes
dos crimes
das dobras
das curvas
no álibi do estribilho recito três versos tristes
sugados pela luz e pelo calor:
quero me livrar
das sobras
das sogras
das cobras
dos planos
estranhos suores percorrem-me como interrogações
pululando as blasfêmias das fêmeas:
quero me livrar
das tramas
dos tratos
dos braços
dos hífens
ensimesmado me contento com os círculos estrábicos
que alimentam pesadelos invertidos:
quero me livrar
dos fracos
das zebras
dos trecos
dos terços
ai de mim me quedar só numa contramão qualquer
longe dos atalhos e dos dissabores:
quero me livrar
dos prazos
das presas
dos presos
das placas
no espelho sempre encontrar a glória passada
nó na garganta de saudade triste:
quero me livrar
dos troços
das traças
dos extras
das lindas
durante madrugadas ociosas de tédio e gravidezes
venham-me vôos vívidos desvirtuosos:
quero me livrar
dos átrios
dos astros
dos livros
dos fortes
para repousar pálido e sorridente feito um feto
natimorto que se recusa a morrer:
quero me livrar
das febres
das fibras
dos privês
das terças
e então me sentir um crocodilo branco um tanto
maltrapilho de cansaço e tinta:
quero me livrar
das tripas
das trupes
dos cromos
das vestes
porque dentro de cada vida há um atributo secreto
repleto do mais acre sabor:
quero me livrar
dos antros
das tremas
das trenas
dos ternos
por fim sobreviver na embaixada mais próxima
contente por ser traste
aflito por ser gente
obtusa de sofrer.
para me livrar
das traves
das tampas
das gordas
dos testes
dos tontos
dos filhos
das chuvas
dos nada de mais.
contracenam contra sonhos:
quero me livrar
das praças
dos preços
das pedras
das perdas
entrementes entre atritos e baralhos cortados
meu corpo subtrai entreluzido:
quero me livrar
dos cremes
dos crimes
das dobras
das curvas
no álibi do estribilho recito três versos tristes
sugados pela luz e pelo calor:
quero me livrar
das sobras
das sogras
das cobras
dos planos
estranhos suores percorrem-me como interrogações
pululando as blasfêmias das fêmeas:
quero me livrar
das tramas
dos tratos
dos braços
dos hífens
ensimesmado me contento com os círculos estrábicos
que alimentam pesadelos invertidos:
quero me livrar
dos fracos
das zebras
dos trecos
dos terços
ai de mim me quedar só numa contramão qualquer
longe dos atalhos e dos dissabores:
quero me livrar
dos prazos
das presas
dos presos
das placas
no espelho sempre encontrar a glória passada
nó na garganta de saudade triste:
quero me livrar
dos troços
das traças
dos extras
das lindas
durante madrugadas ociosas de tédio e gravidezes
venham-me vôos vívidos desvirtuosos:
quero me livrar
dos átrios
dos astros
dos livros
dos fortes
para repousar pálido e sorridente feito um feto
natimorto que se recusa a morrer:
quero me livrar
das febres
das fibras
dos privês
das terças
e então me sentir um crocodilo branco um tanto
maltrapilho de cansaço e tinta:
quero me livrar
das tripas
das trupes
dos cromos
das vestes
porque dentro de cada vida há um atributo secreto
repleto do mais acre sabor:
quero me livrar
dos antros
das tremas
das trenas
dos ternos
por fim sobreviver na embaixada mais próxima
contente por ser traste
aflito por ser gente
obtusa de sofrer.
para me livrar
das traves
das tampas
das gordas
dos testes
dos tontos
dos filhos
das chuvas
dos nada de mais.
6.6.06
Simples, o nada se inventa depois
rasgo fiascos para não dormir
enquanto o rádio toca uma valsa
que ninguém dança
do outro lado da lua
um codinome imberbe
me espia
me aflige
adorado
suspiro
e me quedo:
- donde vêm os soluços
que me soçobram?
saudações!
enquanto o rádio toca uma valsa
que ninguém dança
do outro lado da lua
um codinome imberbe
me espia
me aflige
adorado
suspiro
e me quedo:
- donde vêm os soluços
que me soçobram?
saudações!
26.5.06
Sortimento
Um amor que se preza, a surpresa burila:
Na lida há tempo pra cerzir amanheceres
E na alcova cego sossego em suaves prazeres.
Hoje não sei se tem lua
- a cidade apagou -
Não entendo de ventos
- a rosa já era -
Nem mais quero chorar
- meu relógio murchou!
Ao atravessar a rua quero encontrar o pensamento
antigo
- e nem por isso esquecido ou avesso -
guardado bem dobradinho
com três tantos de carinho
no canto do teu bolso esquerdo
- talvez protegido sob um guarda-chuva.
É nele que se apóia a crença
- nem mambembe, nem mambira -
naquele quê de eterno
quasenada, diz tudo:
- Eu te amo!
Na lida há tempo pra cerzir amanheceres
E na alcova cego sossego em suaves prazeres.
Hoje não sei se tem lua
- a cidade apagou -
Não entendo de ventos
- a rosa já era -
Nem mais quero chorar
- meu relógio murchou!
Ao atravessar a rua quero encontrar o pensamento
antigo
- e nem por isso esquecido ou avesso -
guardado bem dobradinho
com três tantos de carinho
no canto do teu bolso esquerdo
- talvez protegido sob um guarda-chuva.
É nele que se apóia a crença
- nem mambembe, nem mambira -
naquele quê de eterno
quasenada, diz tudo:
- Eu te amo!
22.5.06
Solilóquio
Atadas as mãos, era ateu por convicção porque, à toa, se atou ao credo de crer na não-existência de Deus. Verbudivino qual-o-quê, vou costurar meu salário baixo atrás da escada! Não quero mais vender o almoço para comprar duas entradas de cinema.
Mas não é só o que irrita. Irrita também o suposto esmero em se vestir e a falsidade que nos exigem: barbear-se todas as manhãs, não arrotar em público, jamais vomitar na cara do entrevistado... À meia-noite, todos os jornalistas são castos e castigados.
Mas não é só o que irrita. Irrita também o suposto esmero em se vestir e a falsidade que nos exigem: barbear-se todas as manhãs, não arrotar em público, jamais vomitar na cara do entrevistado... À meia-noite, todos os jornalistas são castos e castigados.
18.5.06
Soldo
Estranho silêncio me percorre
Enquanto tento respirar-te
Onde? Por quem?
Debaixo da cama, em coma,
o cio repousa atado ao solo.
Enquanto tento respirar-te
Onde? Por quem?
Debaixo da cama, em coma,
o cio repousa atado ao solo.
14.5.06
Solidão
o alvoroço
que me consome
a alma
não é um espasmo
nem um soluço
a falta
de um lenço para assoar
um rosto para olhar:
- estou com sono!
faz frio no cobertor esta noite.
que me consome
a alma
não é um espasmo
nem um soluço
a falta
de um lenço para assoar
um rosto para olhar:
- estou com sono!
faz frio no cobertor esta noite.
12.5.06
Separação
Confirmar se o mar era mesmo aquela distância enorme cansava meus ensimesmados olhos de exatidão e cemitério. Parado na praia, feria-me com o soslaio de pensamentos: sonhar com Deus, correr na chuva, casar, comer uma torta de limão, me perder nas rimas de um poema velho assinado por Leminski. Ler mais.
Gosto. Mas tem sempre uns instantes de dor e sobra. Sombras para me esconder são poucas. Procurei por você todas as noites esta semana, na segunda esmagada num pesadelo, na terça borboleta azul, na quarta um punhal no peito, na quinta solidão. Hoje não sei como vai ser.
- Vamos pegar um cinema?
- Ah... Tá frio, melhor sorrir em casa.
Entre nós dois foi se firmando um continente. Depois, as lágrimas, um oceano. Atlântico. Eu África, você América. Pacífico. Eu uma ilhota a ver navios.
Gosto. Mas tem sempre uns instantes de dor e sobra. Sombras para me esconder são poucas. Procurei por você todas as noites esta semana, na segunda esmagada num pesadelo, na terça borboleta azul, na quarta um punhal no peito, na quinta solidão. Hoje não sei como vai ser.
- Vamos pegar um cinema?
- Ah... Tá frio, melhor sorrir em casa.
Entre nós dois foi se firmando um continente. Depois, as lágrimas, um oceano. Atlântico. Eu África, você América. Pacífico. Eu uma ilhota a ver navios.
9.5.06
Von Rich
Por que isso na cabeça?
Era ela quem lhe fazia todos os regalos, desde alimentar no peito até aquela ula-ula de viagem louca pra Somália - ao preço de estelionatários sei lá quantos mil ou milhões de xelins. Era ela quem costurava a meia furada, era ela quem contava histórias pra menina dormir, era ela quem esperava acordada em noites de lua repleta quando lobisomem é colega da faculdade que só quer papar.
Aline, ali, ensimesmada. Olhava e não enxergava mãe. Entendia o mundo como, adolescente, tudo diferente. Mãe igual à oligarquia de seres adultos chatos cheios de regras, regalias, impostos e álibis. Nunca do bem.
Um dia cismou que queria ganhar um escorregador. Dia seguinte, lá estava, novinho em folha e caule, plantado no jardim de seu quarto cor-de-rosa. Depois vieram barbie, kit de vamos-brincar-de-cozinha, modess, coleção de camisinhas, muita muita muita roupa de grife, sempre um namoradinho novo ou importado, grana pra balada, carro novo carro novo carro novo pra rodar por aí. E uma bolsa obtusa. E sessões semanais em salão de beleza, terapia, acupuntura, massagem, escambau.
Mauro, um dos namorados. O mais inteligente de todos, corajoso e entendido de drogas psicodélicas. Alucinados, viam juntos: sete anõezinhos, gnomos cor-de-abóbora, estátuas reluzentes da liberdade que nada, cds dos beatles lucy-in-the-skies, putas suecas vestidas como marcianas, sinônimos de zumbidos, alcachofras fosforescentes, ets de todos os tamanhos, muitos anéis para pouco saturno. Endoidecidos, viajavam juntos, não só Somália: Islândia, Malásia, Tailândia, Holanda, Suazilândia, Mongólia, Groenlândia, Flórida, Alabama, Florianópolis, São Paulo, Holambra, Águas de Lindóia e até América Latina.
Mãe não se reconhecia mais no espelho, em sete pedaços e nenhum caroço. Trêmula como se fosse maldição ou um estranho sentimento premonitório. Mãe e o terço na mão, o diabo na cabeça, a foice cutucando as costas.
No quarto ao lado toneladas de ervas daninhas. Travesseiro. Cheiro. O plano esboçado no papel de pão: mapa, lapiseira, borracha, setinhas indicativas de eu-vou-aqui-você-por-ali-vai-pra-lá. Todos os dias, mentalizando. Depois fumando o mapa, cavando a veia com a lapiseira. Cansando, transando, dormindo.
Era noite de 31 de outubro. Mauro entrou na casa armado com um estilingue e pedrinhas pontiagudas envenenadas. Mãe e pai na cama, dormindo pela décima sétima vez. Sangue na cabeça dos dois. Dor. Sangue. Aline sorriu.
E é por isso, minha filha, por causa dessa história que aconteceu há tanto tempo, que hoje sua mãe e eu dormimos de capacete.
Era ela quem lhe fazia todos os regalos, desde alimentar no peito até aquela ula-ula de viagem louca pra Somália - ao preço de estelionatários sei lá quantos mil ou milhões de xelins. Era ela quem costurava a meia furada, era ela quem contava histórias pra menina dormir, era ela quem esperava acordada em noites de lua repleta quando lobisomem é colega da faculdade que só quer papar.
Aline, ali, ensimesmada. Olhava e não enxergava mãe. Entendia o mundo como, adolescente, tudo diferente. Mãe igual à oligarquia de seres adultos chatos cheios de regras, regalias, impostos e álibis. Nunca do bem.
Um dia cismou que queria ganhar um escorregador. Dia seguinte, lá estava, novinho em folha e caule, plantado no jardim de seu quarto cor-de-rosa. Depois vieram barbie, kit de vamos-brincar-de-cozinha, modess, coleção de camisinhas, muita muita muita roupa de grife, sempre um namoradinho novo ou importado, grana pra balada, carro novo carro novo carro novo pra rodar por aí. E uma bolsa obtusa. E sessões semanais em salão de beleza, terapia, acupuntura, massagem, escambau.
Mauro, um dos namorados. O mais inteligente de todos, corajoso e entendido de drogas psicodélicas. Alucinados, viam juntos: sete anõezinhos, gnomos cor-de-abóbora, estátuas reluzentes da liberdade que nada, cds dos beatles lucy-in-the-skies, putas suecas vestidas como marcianas, sinônimos de zumbidos, alcachofras fosforescentes, ets de todos os tamanhos, muitos anéis para pouco saturno. Endoidecidos, viajavam juntos, não só Somália: Islândia, Malásia, Tailândia, Holanda, Suazilândia, Mongólia, Groenlândia, Flórida, Alabama, Florianópolis, São Paulo, Holambra, Águas de Lindóia e até América Latina.
Mãe não se reconhecia mais no espelho, em sete pedaços e nenhum caroço. Trêmula como se fosse maldição ou um estranho sentimento premonitório. Mãe e o terço na mão, o diabo na cabeça, a foice cutucando as costas.
No quarto ao lado toneladas de ervas daninhas. Travesseiro. Cheiro. O plano esboçado no papel de pão: mapa, lapiseira, borracha, setinhas indicativas de eu-vou-aqui-você-por-ali-vai-pra-lá. Todos os dias, mentalizando. Depois fumando o mapa, cavando a veia com a lapiseira. Cansando, transando, dormindo.
Era noite de 31 de outubro. Mauro entrou na casa armado com um estilingue e pedrinhas pontiagudas envenenadas. Mãe e pai na cama, dormindo pela décima sétima vez. Sangue na cabeça dos dois. Dor. Sangue. Aline sorriu.
E é por isso, minha filha, por causa dessa história que aconteceu há tanto tempo, que hoje sua mãe e eu dormimos de capacete.
28.4.06
Van Gogh
Porque curtia ecos, tudo o que lhe pesava era o vazio no estômago e aquele ruído interminável e rouco. Sacolejava o nada quando e enquanto caminhava pelas ruas, madrugada afora, sem juízo, sem asco, sem virtude.
Assoviava o silêncio noturno, louvava a escuridão profana. Bastavam as primeiras riscas de sol surgirem para partir, eterna busca e fuga, eclipse impossível. Fé cega. Montanhas, amanhã, Maomé, manhã. Amígdalas. A protuberância exata entre o ir-vir, ser-descer. O soluço.
Na rua, um caco de vidro e um tropeço. Um cadáver sem jazigo, seu sangue ressequido. A podridão, a miséria, o caos metropolitano reverberando pelas reentrâncias absurdas do cimento. Guimbas, restos de camisinha, uma gilete. Tudo o que conta a breve história do segredo humano, com seus flagelos, prazeres e vociferações de ódio, acumulado em objetos abjetos. Ele circulando, oco, famélico. Desviando para não desmaiar. Ignorando. Como todos fazemos fingindo-nos cidadãos, atropelando a realidade vil.
Nenhuma moça bonita exalando sensualidade, nenhum rapaz corado com cheiro de meia-noite, sequer uma garota de programa na flor da idade ou um vigia bem-apessoado. Nenhum espírito com carne, nem sonâmbulo perdido ou notívago encontrado. Nem eu na rua. Nem eu.
Do eco interno, porque curtia ecos, tudo o que sentia era o que lhe pesava, o vazio no estômago, aquele ruído interminável e rouco. Examinava seus dentes e, desolado, percebia que ainda não sabiam o que ser definitivamente. Louco, Van Gogh ia pirar se não se aprendesse logo vampiro. Sangue na tela.
Assoviava o silêncio noturno, louvava a escuridão profana. Bastavam as primeiras riscas de sol surgirem para partir, eterna busca e fuga, eclipse impossível. Fé cega. Montanhas, amanhã, Maomé, manhã. Amígdalas. A protuberância exata entre o ir-vir, ser-descer. O soluço.
Na rua, um caco de vidro e um tropeço. Um cadáver sem jazigo, seu sangue ressequido. A podridão, a miséria, o caos metropolitano reverberando pelas reentrâncias absurdas do cimento. Guimbas, restos de camisinha, uma gilete. Tudo o que conta a breve história do segredo humano, com seus flagelos, prazeres e vociferações de ódio, acumulado em objetos abjetos. Ele circulando, oco, famélico. Desviando para não desmaiar. Ignorando. Como todos fazemos fingindo-nos cidadãos, atropelando a realidade vil.
Nenhuma moça bonita exalando sensualidade, nenhum rapaz corado com cheiro de meia-noite, sequer uma garota de programa na flor da idade ou um vigia bem-apessoado. Nenhum espírito com carne, nem sonâmbulo perdido ou notívago encontrado. Nem eu na rua. Nem eu.
Do eco interno, porque curtia ecos, tudo o que sentia era o que lhe pesava, o vazio no estômago, aquele ruído interminável e rouco. Examinava seus dentes e, desolado, percebia que ainda não sabiam o que ser definitivamente. Louco, Van Gogh ia pirar se não se aprendesse logo vampiro. Sangue na tela.
17.4.06
12.4.06
Mariana
A cada te amo
penteio o poente
calibro a lua que vai encher
Meus pulmões
em que todo ar te respira
aspira
inspira
versos que todos me
pira.
Ensimesmado sou em ti
pleno
um altiplano impossível
de asa-delta
de vênus.
A cada te amo
minhas mãos trêmulas
persistem
Atiçam
o palpável
o paladar
Tilintam
o bem
o bemol.
A cada te amo
reitero os sonhos do amanhã
(adois)
esfrego os olhos do hoje
(prassempre)
sussurro a lembrança de um beijo
(sóvocê)
A cada te amo
depoisifico o antes
durante.
penteio o poente
calibro a lua que vai encher
Meus pulmões
em que todo ar te respira
aspira
inspira
versos que todos me
pira.
Ensimesmado sou em ti
pleno
um altiplano impossível
de asa-delta
de vênus.
A cada te amo
minhas mãos trêmulas
persistem
Atiçam
o palpável
o paladar
Tilintam
o bem
o bemol.
A cada te amo
reitero os sonhos do amanhã
(adois)
esfrego os olhos do hoje
(prassempre)
sussurro a lembrança de um beijo
(sóvocê)
A cada te amo
depoisifico o antes
durante.
9.4.06
2. Coelhinho da Páscoa que trazes pra mim...
Internet é boa pra se deitar e embalar embalar embalar
Embaraçar
Enredar até se nos perder.
Embaraçar
Enredar até se nos perder.
3.4.06
Minilouvor à olvidada obra
Não dava mais tempo de imprimir, dizia Verinha, e num gesto soberbo arrancou todas as folhas que sobravam e começou a colá-las de volta na primeira árvore com que se deparou. As pessoas estranharam, mas se não era ela a Verinha quem seria que erra sozinha pelas ruas desconhecidas de Sin City?
Súbito, táxi.
- Pra Lapa, por favor. E rápido.
Os sinais vermelhos ficaram para trás e, aos poucos, o Parque da Aclimação e seu lago sujo e seus cisnes brancos e suas árvores folhas folhas folhas foram se esquecendo pelo trânsito poluição buzinaço beéeeeéeeéem, ô, fóooooóó, cof cof cof.
Verinha era um braço direito, um esquerdo e um par de pernas. Outro dia lá estava costurando uma camisa para o pai. Noutro fazia a feira para a vó. Noutroutro ia com a mãe pro hospital. O namorado reclamava:
- Sobra tempo pra mim hoje à noite?
E lá ia ela novamente pra casa do dito cujo. Trepavam até alta madrugada e depois se quedavam exaustos, estarrecidos. E sonhavam com gosto de quero-mais, de-novo, mais-uma-vez. Às vezes acordavam. Outras esqueciam.
O cinema que esperasse. Filme novo em cartaz, como é mesmo o nome, que cabeça a minha? Aquele do Oscar. Não o que ganhou, mas aquele que todos diziam que era o favorito e tal. Sim, sim... Esse mesmo. Vai ficar para outro dia, porque meus olhos já não agüentam, fadigados de dia-e-noite sem parar.
O par de pernas não parava. Verinha no ônibus, Verinha no metrô, Verinha no táxiiiii. Verinha a pé. Verinha ao léu, voando, vento. Verinha no varal.
Era uma vez um poema bonito pintado na janela. Era uma vitrina para os sonhos. Era uma canção de amor e Verinha morava lá como exemplo avantajado. Era uma vez tudo isso que me esqueci o autor, as rimas e a imaginação.
Súbito, táxi.
- Pra Lapa, por favor. E rápido.
Os sinais vermelhos ficaram para trás e, aos poucos, o Parque da Aclimação e seu lago sujo e seus cisnes brancos e suas árvores folhas folhas folhas foram se esquecendo pelo trânsito poluição buzinaço beéeeeéeeéem, ô, fóooooóó, cof cof cof.
Verinha era um braço direito, um esquerdo e um par de pernas. Outro dia lá estava costurando uma camisa para o pai. Noutro fazia a feira para a vó. Noutroutro ia com a mãe pro hospital. O namorado reclamava:
- Sobra tempo pra mim hoje à noite?
E lá ia ela novamente pra casa do dito cujo. Trepavam até alta madrugada e depois se quedavam exaustos, estarrecidos. E sonhavam com gosto de quero-mais, de-novo, mais-uma-vez. Às vezes acordavam. Outras esqueciam.
O cinema que esperasse. Filme novo em cartaz, como é mesmo o nome, que cabeça a minha? Aquele do Oscar. Não o que ganhou, mas aquele que todos diziam que era o favorito e tal. Sim, sim... Esse mesmo. Vai ficar para outro dia, porque meus olhos já não agüentam, fadigados de dia-e-noite sem parar.
O par de pernas não parava. Verinha no ônibus, Verinha no metrô, Verinha no táxiiiii. Verinha a pé. Verinha ao léu, voando, vento. Verinha no varal.
Era uma vez um poema bonito pintado na janela. Era uma vitrina para os sonhos. Era uma canção de amor e Verinha morava lá como exemplo avantajado. Era uma vez tudo isso que me esqueci o autor, as rimas e a imaginação.
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