5.2.08

feira livre

Oito dias depois da morte do nove, noves fora, foram os outros oito, quarta, pra feira.
- Olha a aaalma! Olha a aaalma! Apenas uum real!
O diabo foi lá e comprou todas.

4.2.08

mas eu tenho tudo o que você precisa

- Ah! Você fez geléia do nosso filho!? Te amo mesmo assim...O meu amor também é lindo, o amor é lindo, dizem que é lindo, deve ser lindo. M. De muito. Quem será que sou eu? O alfabeto tem ciúmes?
Parece mesmo. Pintura. A tiazinha que montou enquanto fazia as promessas pra não cumprir.
- Adorei. Bem diferente. Ponto.
Mas eu só acredito vendo ao vivo. Não curto coisas mortas. Logo teremos tudo de novo. Mãos que se tocam novamente. Vejo pink onde é punk. Maldito monitor!
Nosso céu eu também não consigo ver. Sim. Reconheço essa, tô chegando ao momento maravilhoso que foi esse.
- Logo teremos a vista de novo...
Tem gente que quer conhecer o fotógrafo, eu sou só saudades, morda a língua porque foi horrível ver o sol se pôr, parece que foi há anos, parece que é domingo, parece que vou resolver logo logo logo o problema.
- Eu dei palpites na criação.
Muito amor que eu adorei. No words, no picture, mas os comentários funcionam. But. Você não tem idéia, isso sim. Acaba uma saudade e aparece outra.
Meio MM (obrigada, somos lindos, saudades, falha nossa, parece nerd, gostou, poluição, viva o seu câmpus):
- Voltou ao normal? Gosta da idéia?
Quem é que vai pro hospício? Quem é quem é quem é?

3.2.08

scrap

Hoje estava tartamudeando sozinho por aqui e pensando como sou um homem triste, destes que se fabricavam antigamente, que choram em segredo e cantam quando vêem chover lá fora.
Sou o homem fabricado às antigas e minhas flores são mais frágeis que as de um ipê-roxo.
Então estava só como a fotografia. Uma sombra, um assombro, uma nesga de nada ou de talvez.
Acho que não sou nem metade daquilo.

2.2.08

não faz muito sentido

É essa louça que nada dia nada noite, aumenta e só-faz-aumentar. Por que não aprende a tomar banho sozinha?

***

Muda-planta pra cidade-muda onde me mudo.
Na cidade onde ninguém sabe falar eu também me calei.
.

***

São só sons

barro barulho baralho esbarro espirro esporro esparro espelho vermelho velho sem chapéu chovendo chuva molhada melado moída e torrada café cá fé lá dúvida dói vida válida desvalida pétala imprecisa vida vade retro projetor de luz cinema cena menos amena vertigem ver-te gente azul amarela verde madura mas dura que nem maria-mole tudo assim associado.

***

De repente eu era um garoto que montava um quebra-cabeça quase infinito. Uma peça por dia encaixava e a figura ia se formando. Uma vez, surpreso, constatei que estava montando o meu próprio retrato.
Quando, já bem velho, completei o quebra-cabeça, descobri que montara um espelho. O garoto do começo trazia rugas e idade avançada. Então, olhando estupefato para a obra concluída, vi a morte ao fundo, armada, pronta para me pegar e foi-se a vida. Missão cumprida.

1.2.08

capítulo 22, post-mortem

Um dos gnomos, que prefere não ser identificado, mas ele falou indetificado, cismou de costurar o cadáver do gnomo nove.
No dia seguinte, o mesmo gnomo que prefere não ser identificado mas falou indetificado cismou de costurar o cadáver do gnomo nove, de novo.
No outro dia ainda, o mesmo gnomo que prefere não ser identificado mas falou indetificado cismou de costurar o cadáver do gnomo nove de novo.

31.1.08

cine arte 01

Em dias de cinema está vazio e tédio mora o tempo todo na cabeça e na sala, dá vontade de chorar bastante, depois correr, depois correr, depois correr como se fugindo se fugisse também do que pulula dentro de si.
Em dias assim prefiro cruzar os braços e esperar o filme começar. Só pra ver se tem happy end.

30.1.08

hoje nasceu uma flor na minha janela

Não colhi nem comi porque preciso escovar meus dentes antes.

29.1.08

(____________) replaying

Me lembra tudo isso também e dessas coisas não dá para esquecer nunca. Não esquece também que eu te amo e que ninguém combina melhor com a gente que nós dois. Parecem fogos, parecem fotos, uma pintura, sei lá. Coitado do... bah, esquece!
Olha a comunidade feminina gostando. Lindo, como sempre. Hoje acordei sem palavras, mas você sabe o que este silêncio significa:
(a) Mais fãs por aí.
(b) Bizarrão!
(c) A minha então.
(d) Livro da criança que voltou a estudar.
(e) Roupas da que vai viajar.
Esta dá uma saudade prassempre. Estadia um soldado potente. Dia está ensolarado pragente.
São seus olhos.
- Você sabe que flores são essas ou vou ter que perguntar pra sua vó?
- Ai, esqueci de dar um oizinho pra ela. Fica pra próxima, tá?!

Todas as impressões são digitais, todos os sei-lás são o que parecem. Música pra dormir.
Mãos que se tocam em que estamos um do outro. Pés sou eu quem está. Acabou a folga – boa aula!
Pede um sorvete e impede um soviete. Blau, blau, blau. Everything is gonna be blue, alright?! Dica do dia: manter a vida atualizada e a morte irresoluta. Dia da dica: hoje ou amanhã são tododia.
- Te amo, mas será que beijo tem dia? – pergunto só pra dizer que te amo mesmo e pra perguntar será que beijo tem dia.
Vejo uma fantasia de carnaval. Vejo uma passarela. Vejo um jovem e uma espada. Vejo uma passada e uma uva-passa que me redime.
- O único carnaval bom da minha vida foi o último.
Que foto linda. Muito essa foto. Você.

28.1.08

último capítulo

Depois da morte do #9 os outros oito outros foram virando. O oito foi pra marte.
Depois de marte do #8 o assento sete vagou e sentindo muito lá se foram. O sete foi buscar o oito que só não pegou o nove porque do além tinha medo.
O nove, vocês sabem, morreu, noves fora.

27.1.08

último capítulo

Depois da morte do #9 os outros oito outros foram virando. O oito foi pra marte.
Depois de marte do #8 o assento sete vagou e sentindo muito lá se foram. O sete foi buscar o oito que só não pegou o nove porque do além tinha medo.
O nove, vocês sabem, morreu, noves fora.

26.1.08

carta desgnomificada

Há com tecer tudo o que acontecer com versões para as conversões comparadas com paradas da vida, esta dádiva cheia de dúvidas e pretextos pretos pra ninguém dormir porque têm medo temendo o escuro. Procuro e curo as mazelas de mim mesmo, mês momentâneo de minha mente tentando ser breve, brava e palavra.
Queria ter rios e critérios, almofadas e calmas fadas, tomar banho e rápido deixar de ser estranho, descer um buraco tamanho e me perder no espaço onde sub-ir o que se foi é subir.
Percorro o que escorre e persigo a fuga de seus olhos. Onde está você agora que minhas saudades tanto a necessitam?

25.1.08

amorcego

Feito sonar detecta tudo que é tátil de se pegar, tocar, apalpar, acariciar. Maior cego, refestela suas asas pelas brasas vermelhas de paixão: o que é uma coisa bela? Na escuridão latente, na lua cheia da gente, vampiriza-se e suga o sangue vermelho do pescoço sensual da moça que dorme tranqüila e sonha sonhos de amor na cama. Morcego:
- Não nego, carrego em mim a amálgama dor de ver verter sangue e ter prazer por cada gota que me sacia. O cálice sagrado. Meu segredo lhe agrada?
Agride. O sorriso matreiro da moça que revelava um sonho prestes a se converter em orgasmo vira um gemido, um ai, e agora o pesadelo é que ela é atracada contra a vontade. Saudade do instante imediatamente anterior. Alguma algema a ata à cama?
Morcego cabisbaixo. Morcego de cabeça pra baixo. Dependurado no teto, fino-trato, parece que traja um fraque suíço. Saboreia o sangue que escorre pelo canto da boca, saliva enquanto contempla a bela moça dormindo semi-transparente. Obra cumprida, só a marca dos dentes em seu pescoço. Vampiro:
- Firo a essência da vida porque persigo a alma. O sangue, organismo, não passa de adorno à minha missão. Uma hora eu consigo provar a todos, provando sangue visceral, vermelho, fogo, onde está o prazer.
Vermelho. O horizonte, vermelhando, anuncia o nascer de novo dia. Hora de ir embora, abrir as asas, dar adeus ao nada-testemunha. Amor cego é morcego: mama e voa.

24.1.08

armadilha de natal

Pessoas são comerciais de tevê tomando coca-cola e rindo alto de piadinhas insossas e amanhecidas. Lúgubres como um serviço hipócrita. Sensuais como a moça da propaganda de cerveja. Tão sinceras quanto a Constituição.
Na escada de espelhos as pessoas se entreolham quando vêem a si mesmas. Num misto de tímidos e estupefação. Pessoas escorrem labirínticas, como se descer fosse um exercício de engolir, como se ir-embora implicasse um trago profundo laringe abaixo, como se fosse preciso des-ser para sub-ir aonde sequer se haja.
Pessoas? São comerciais de tevê que nesta época do ano só falam no velho gordo de barbas brancas e saco vermelho de dor e cólera. Tomando coca-cola.

23.1.08

ana

Mas quem diabos seria Ana?
- Ana não existe – tranqüilizou-me o gnomo dois.
- Ana é um palíndromo bem pequenininho – acrescentou o gnomo três.
Então eu tive a certeza de que todos eram loucos e ficavam inventando pessoas.

22.1.08

resumo pra quem não entendeu - ou parabéns para quem corre da carranca do carimbo, caramba!

Dormi hora e meia. No meu sonho tinha um revólver verde e quase enferrujado com o qual eu matava todas as pessoas chatas. Matei-me.

***

Um dos gnomos acordou bravo e chutou o microfone do repórter de tevê que tentava entrevistá-lo já há três dias e fazia plantão em frente ao manicômio.
Era dou-me-em-gol mas para ele todos os dias eram segundas-fúrias. O repórter insistia que eram terças-férias ou, no mínimo, quartas-frias.
- Quinta-fora! Hoje é quinta-fora!
Eu ficava no meu canto, torcendo pra que todos os dias inclusive hoje fossem mesmo é sextas-folgas. Mas era sabido.
Todo ano era coelhinho-da-páscoa-que-trazes-pra-mim. E a gnomidade louca corria se esconder os ovos para que os ovos se mostrassem espertos rápidos e encontrassem os gnomos primeiro. Aí cada ovo se escondia onde antes houvera gnomo e a criançada doida corria pra achar-comer ovo.
Eu enganei um bobo na casca do ovo.
Então.
Lembro-me do meu bambu do qual brotei em sua ponta esquerda. Lembro que ele era mamãe e me contava historinhas pra boi e gnomo dormir cor-de-abóbora. O boi ficava cor-de-burro-quando-foge mas eu sempre de-abóbora. Diabo borá.
Não acredito em aniversários.

***

Sabe por que chato matei-me? Porque Ana dá o cu. Porque o ânus é seu. Porque licor de anis é bebida de gnomo. Porque anus voam feito urubus. Porque os anais da história não guardam memória. Porque animais!
Porque aniversário.

21.1.08

conto, mas não conto

Após ascender, assentei-me e acendi o cadafalso. Vendo-o em chamas, ainda lembrava-me do cadafalco acentuado, pra onde fui depois do acidente incidental. Assertei rapidamente que era hora de acertar-me. Afeado estava quando afiei com afinco minha ansiedade curiosa. Na verdade não era afim daquilo. A fim de quê busquei este fim?
E, em um instante, um súbito alvoroço alvorotou por mim, já augusto, naquele local angusto, inóspito. Vi uma anunciação enunciada.
Embora em vida não tivesse sido imoral, encontrava-me totalmente amoral naquela situação singular. Reconheci a área e conhecia a ária. Arriei os pálidos sentimentos. Livre estava dos arreios.
Foi quando então, percebi a origem da cantiga. O bocal da flauta bucal incessava, por detrás do verde buxo, com um bucho assoprando. Avistei todos os falecidos cabidos, que também tomavam parte naquele cenário estranho. Alguns trajavam finas roupas recém-retiradas dos cabides. E o cardíaco defunto cardeal apenas acompanhava, saindo da cela, montado na sua sela amarela.
A forte cerração prejudicava o tardio censo celestial, enquanto a serração sem senso continuava incessante sobre a carnificina da oficina vizinha. No longínquo chalé, ao mesmo tempo, estava o xá, já morto também, tomando chá serrado do dono do xale, que ostentava sabiamente, chistoso.
Existia, ao fundo, um belo campo xistoso, onde floresciam muitas cidras com sabor adocicado de sidra. No lago, ao lado, um gracioso corso. À margem, um corço embebedando-se de água, enquanto um sério sírio segurava círios, misteriosamente.
Dentro da chácara, uma sessão seccional cedia bonitas xácaras concertadas, sem mínimos consertos. As moças jovens cosiam coisas na cozinha, cúpidas da conjuntura cupida, o que acredito ser apenas uma conjetura.
Diferi o olhar, deferindo a pedidos, agradando aos desgraçados degredados degradados. Todavia, com muita discrição, me aventurei a continuar a descrição, descriminando, indiscriminadamente, todos os envolvidos.
E meu julgamento? Não sei, creio que fui dispensado. E, pasme, já me encontrava na despensa do local, onde entrei despercebido, e totalmente desapercebido.
Dissequei o local, dessecando as lágrimas tristes que ainda emergiam de meus olhos imergentes. Iminentemente me deparei com o eminente-mor, continuando, mesmo assim, a considerá-lo imérito. Ele imitiu-me oficialmente, emitindo edito próprio. Aproveitei para espiá-lo, expiando-me em seguida.
Minha estadia estava por deveras longa, informava a estádia. Esperto era, ora, mas não experto o suficiente. Permaneci estático, extático, na estância instada. As estratos alertavam-me como se fossem extratos de doces perfumes azuis. Estripei, extirpando-me.
Estava completamente fasto. Apesar dos pesares, sentia-me fausto em meio a tanta aridez férvida, fervida. As fragâncias por mim captadas flagravam as flores floridas e flóridas próximas dali. Aquele aroma fútil e fúsil fuzilava os fusíveis de meu coração, libertando das guaridas as mais dolorosas lembranças.
Das guaritas saíam os incertos guardas insertos, incipiando atitudes insipientes. Incontinenti, correram incontinentes e indefensos, como verdadeiros indefessos infringindo as regras. Tudo bem, depois seriam corretamente infligidos por tal desobediência, já que não eram mais intemeratos, mas sim somente intimoratos.
Continuei por ali, vagando vagabundo, por toda a eternidade. Este foi meu destino sem tino, vadiar pelo paraíso obscuro, desprovido da beleza inexata do Éden. Talvez fosse melhor não ter morrido, continuar um inválido valido nas mãos do velho mundo terreno.

20.1.08

é

O gnomo de número sete sentou-se e pensou um bocado antes de meter a boca no de número três trêmulo que trouxe um doce de chocolate para o de número um que fez hum-hum e voou lá perto do de número cinco que botou fivela no cinco e fugiu.
Os outros eram pares menos o de número nove que se enforcou de inveja.

19.1.08

o que passou, passou

O descapítulo anterior foi a primeira participação dela por aqui, quase sem querer. Haverá outras.
A seguir, cenas do próximo capítulo.

18.1.08

(____________)

Era minha foto favorita. Enquanto batiam as saudades do churrasco do meu sogro, ele assado se batendo as saudades.
- Estou aqui para deixar um comentário. Te prometi um cretino, mas não sei se vou conseguir.
E você veio, e tudo ficou perfeito. Enquanto eu achei um professor de Photoshop e logo logo me perdi do Photoshop porque havia nele o professor.
Adoro os cachos e as massas e a comunidade feminina aprova. Tá parecendo aquelas fotos de espírito. Vade retro!
- Só passei aqui para deixar um beijo nessas suas bolas psicodélicas.
Aulas de Photoshop, já eram ainda que se foram sido tivessem. Ficou legal mesmo. È só você fazer essas coisas legais que já aparece fã-clube. Eu sou a presidente, vitalícia. Cuidado, tenha medo do DNA. Te amo mais que as outras fãs.
Lindo o que você tirou.
- Passei por aqui para registrar a minha saudade. Feliz Ano Novo e Bom Natal, que tudo se realize no Carnaval.
Consegui comentar desta vez, no meio da aula de biologia. Não era Photoshop?
- Olha só quem apareceu por aqui! Mudei de nome, mas estou ouvindo um CD certo, uma adorável surpresa pontiaguda...
Tô tomando sundae. O que isso te lembra?
- Consegui comentar aqui.

17.1.08

teste2

Eram felizes idéias dos deveres compridos de verem cumpridos. Traziam-lhes aparados os discos e tvs e mentes belos. Os gnomos mais famosos dos mundos, agora e nas horas de nossas mortes amém, inventores de telefones e tele-senas públicos param anões. Os gnomos mais folgados dos mundos delgados dos gados, agora e nas horas de nossas mortes amém, inventores de controles remotos e motos controladoras de pensamentos e mentos sabores vários. Os gnomos mais gordos dos gor mundos, agora e nas horas de nossas mortes amém, uns gomos de mexericas mexericadas.
Eram felizes idéias e seus nomens homes eram “Eram felizes idéias”.
(Achamos mas não encontramos que as idéias não se vingaram das mortes que se experimentaram!)

16.1.08

teste

Era feliz a idéia do dever comprido de ver cumprido. Trazia-lhe aparatos indiscutivelmente belos. O gnomo mais famoso do mundo, agora inventor de telefones públicos para anões. O gnomo mais folgado do mundo, agora inventor de controles remotos de pensamento. O gnomo mais gordo do mundo, agora um gomo de mexerica.
Era feliz a idéia e seu nome era “Era feliz a idéia”.
(Acho que a idéia não vingou!)

15.1.08

o homem que dobrou o carro pela metade

Não achava lugar pra estacionar mas queria descer, precisava descer, descer, descer, afinal a festa era do lado de fora do carro.
Dobrou o carro e guardou no bolso.

14.1.08

o sonho do homem que dobrou o carro pela metade

Experimentar, e se matou também. No sonho as pessoas eram tristes mas no meio do mato havia um homem havia um cachorro havia um fora, nove foras, todos todos todos. Experimentar, e se matou também. No sonho na sanha no absurdo todos surdos. Experimentar, e se matou também. Também matou se e, experimentar.
Uma noite sonhei que tinha sonhado um sonho, no sonho as pessoas eram tristes eram trastes mas no meio do mato mato um homem. Também matou se e, experimentar.
Mentar.

13.1.08

chapeuzinho verde

Era uma vez, e só era porque nunca mais há de ser de novo, como aqueles sonhos bons que não voltam jamais, uma menininha muito bonitinha ainda adolescente mas muito linda. Ela tinha por volta de alguns poucos anos de vivência na primavera da vida e andava contente saltitante pelas estradas afora dos bosques mais inventados da literatura e sua vida se resumia nesse retrato como se as fadas existissem mesmo e os contos não passassem de histórias verídicas.
Era uma vez um belo dia, porque em todas as histórias da carochinha o dia tem que começar belo virar feio e por fim ter um desfecho belo que é para não assustar as criancinhas inocentes que vão ouvir as histórias da carochinha que foram criadas lá no tempo do arco da velha que ninguém se lembra mais. O nome da menininha muito bonitinha era Maria Lúcia mas todos a chamavam de Chapeuzinho Verde porque ela era palmeirense como seu falecido pai e adorava pensar que podia agradar ao defunto usando sempre a mesma vestimenta verde.
A mãe de Chapeuzinho Verde ficava sempre brava com ela por usar aquele chapeuzinho verde ridículo e dizia que qualquer dia uma vaca ainda iria confundir o gorro com capim e ela voltaria sem gorro para casa, quiçá mesmo sem cabeça se não tomasse cuidado. Na verdade a mãe de Chapeuzinho Verde só queria dissuadi-la da idéia de homenagear o falecido pai porque no fundo ela não acreditava que uma vaca inocente pudesse ter a perspicácia de atacar uma criancinha ainda adolescente mas muito linda. Na verdade a mãe de Chapeuzinho Verde não queria mesmo é se lembrar do defunto porque ela, ao contrário de todas as viúvas da literatura infantil, não era dessas viúvas resignadas que guardam luto para a vida inteira. Na verdade a mãe de Chapeuzinho Verde já tinha ardentes relacionamentos extraconjugais, primeiro com o leiteiro e outros eiros, depois com pessoas interessantes que ela conhecia pela Internet, tudo isso antes do falecido vir a falecer. Depois então ela descambou de vez e assumiu toda a sua veia adúltera incontrolável, agora que era viúva e via de regra não devia nada a ninguém. Por isso a mãe de Chapeuzinho Verde ficava sempre brava com ela por usar aquele chapeuzinho verde ridículo. A história da vaca era só pretexto bobo para enganar criancinha ainda adolescente mas muito linda.
A mãe de Chapeuzinho Verde mandou Chapeuzinho Verde ir visitar a vovó que morava numa cidade muito velha onde ainda não tinha Internet. Era para ela levar umas comidas novas e importadas para a vovó se deliciar porque a vovó adorava guloseimas, parecia criancinha ainda adolescente mas muito linda. A mãe de Chapeuzinho Verde na verdade inventou que a Chapeuzinho Verde precisava passar uns tempos com a vovó, que precisava levar comidas novas para vovó velha, que precisava ver vovó, fazer vovó sorrir, porque na verdade a mãe de Chapeuzinho Verde já estava enjoada um pouco da filha e só queria distância da filha mesmo que a filha fosse uma menininha ainda adolescente mas muito linda.
Chapeuzinho Verde entendeu direitinho as intenções de sua mãe mas como ela ainda não sabia que podia discutir das idéias de sua mãe ela decidiu que era melhor ir. Ela também estava interessada em ir ver a vovó porque ela nem se lembrava direito da vovó, pois ela só tinha visto a vovó pela última vez em mil novecentos e noventa e pouco e ainda era século passado. Como será que está vovó? Será que ainda não morreu? Será que sente dores, reumatismo, osteoporose, caduquice e outras coisas de velho? Vovó devia estar uma quinquilharia...
Chapeuzinho Verde estava afoita pois queria porque queria ir logo ver vovó. Mesmo porque um dia lhe falaram que a casa que vovó morava era numa cidade muito diferente da cidade que eles moravam e ela já estava mesmo de saco cheio e queria conhecer novos ares. Um dia ela ficou sabendo pelo computador que as cidades que ainda não tinham Internet eram pacatas mas ela achava que isso não era verdade pois um outro dia ela tinha lido que os mais velhos são sábios porque já viveram bastante e entendem melhor as coisas da vida, então ela concluiu que a vovó não ia morar num lugar chato porque afinal ela era muito velha e devia entender muito das coisas da vida.
No dia da partida, Chapeuzinho Verde começou a arrumar todos os preparativos para a viagem. Queria saber se ia de avião, mas a sua mãe disse que não porque o avião podia cair na cabeça de alguém e ia machucar, e também tinha que a casa da vovó ficava numa cidade velha que nem tinha aeroporto mas não era tão longe assim, dava para ir de cavalo, mas cavalos estavam raros numa cidade como a de Chapeuzinho Verde e ela ia demorar três dias para achar um cavalo e mais três para a viagem, então Chapeuzinho Verde decidiu ir de carro e arrumou um motorista. O motorista do carro era um dos amantes preferidos da mãe de Chapeuzinho Verde que ficou toda emocionada e triste por vê-lo partir com seus bigodes charmosos, e no fundo também tinha um pouco de medo que ocorresse algum acidente no trânsito perigoso de hoje em dia e matasse o seu amante.
No dia da partida, Chapeuzinho Verde começou a arrumar todos os preparativos para a viagem. Deu um beijo no rosto do motorista e pediu para que ele rezasse para São Cristóvão antes da viagem, porque um dia ela ficou sabendo que São Cristóvão protege os motoristas que viajam. Pegou um par de meias novas e molhou pela última vez as suas plantinhas de estimação, que eram todas mudas e não reclamariam por água, e morreriam em seguida porque a mãe de Chapeuzinho Verde não gostava de plantas que não falavam, mas Chapeuzinho Verde gostava de falar com plantas. Chapeuzinho Verde pegou algumas comidas novas importadas para a vovó e pôs na mala no meio das roupas para que o calor derretesse os doces e fizesse a maior meleca em tudo e assim inutilizasse ao mesmo tempo as roupas e a comida.
O motorista vestia um terno azul escuro com uma gravata toda colorida e ficava parecendo um daqueles motoristas de filmes de Hollywood. Um dia Chapeuzinho Verde leu na Internet que era tudo mentira os filmes de Hollywood e que os personagens eram apenas interpretados por pessoas que eram chamadas de atores e era tudo falso, ensaiado, não tinha nada de verdade. E quando ela ficou sabendo que as pessoas recebiam dinheiro para fazer personagens achou tudo uma prostituição horrível de valores. Mas o motorista era mesmo bonito e a Chapeuzinho Verde que era uma menininha ainda adolescente mas muito linda não era boba e já entendia das coisas e pensava que sua mãe não era boba não e sabia muito bem escolher com quem amar.
O motorista parecia um daqueles galãs de cinema. Não parecia mais o motorista, parecia galã de cinema, e Chapeuzinho Verde viu que era melhor parar de pensar naquelas coisas porque senão ela ia acabar se apaixonando pelo motorista e o motorista era motorista de sua mãe e não ia ficar legal se ela roubasse o motorista de sua mãe mesmo que sua mãe fosse chata com ela às vezes. Então ela não olhava muito para o motorista durante toda a viagem e o bosque que ficava dos dois lados da estrada era sua distração, onde ela via coelhos saltitantes e via que a natureza ainda sobrevivia, às escondidas, no novo século.
O carro era meio velho mas era bonito porque era vermelho e Chapeuzinho Verde gostava muito de vermelho, cor do sangue de quem come carne e beterraba, cor do amor, se é que amor e paixão têm lá suas cores, que devem ser multicores, que devem ser cores de muitas cores, que devem ser a soma e a subtração de todas as cores. Tinha um som dentro do carro que tocava uma música do Beethoven que ela já tinha ouvido há algum tempo atrás, e a música era bonita porque trazia lembranças para ela porque todas as músicas trazem lembranças do que se passou, sejam alegres ou tristes.
O carro era meio velho mas era bonito porque tinha quatro rodas grandes, imponentes, botando medo em todos os outros carros que ficavam andando na estrada como que intrusos do caminho de Chapeuzinho Verde. A buzina do carro, ela não sabia o porquê, fazia Chapeuzinho Verde se lembrar de um quadro do Van Gogh que ela tinha visto na casa da vovó em mil novecentos e noventa e pouco e já fazia muito tempo para ela que era nova mas ela conseguia se lembrar do quadro. E ela foi olhando para a buzina e vendo a mão bonita do motorista enquanto ouvia Beethoven e pensava na injustiça do mundo em deixar um músico surdo amargurado e um pintor decepar a própria orelha ao invés de vender para o músico que precisa muito mais ouvir.
Quando ela chegou à cidade da casa da vovó ela viu que a cidade estava mesmo pequenininha, parecia que tinha parado com o tempo e um faroleiro que contava vantagem disse que a única coisa que crescia na cidade era o cemitério que também estava muito velho. Chapeuzinho Verde ficou com medo de que sua vovó estivesse debaixo de sete palmos de terra no cemitério velho. O carro era um carro velho no meio de uma cidade velha atrás de uma velha velha que podia estar debaixo de uma terra velha de um cemitério velho, mas ela não se importava em ser a única coisa nova, uma menininha ainda adolescente mas muito linda, no meio de tanta quinquilharia velha. E o motorista era bonito, garboso, galã.
Quando ela chegou à cidade ela se decepcionou e viu que o que ela tinha lido no computador devia ser mais verdade do que o que ela pensava a respeito dos velhos. A cidade era mesmo pacata e os velhos não deviam entender nada da vida porque sua vovó era bem velhinha e morava numa cidade velha e pacata. Então ela queria mesmo era saber quem era o dono da cidade para dar uma sova na cara dele pedindo explicações para toda a tristeza do lugar, afinal o dono da cidade tinha que arcar com suas responsabilidades e saber também onde era a casa da vovó de Chapeuzinho Verde, e Chapeuzinho Verde já estava começando a se preocupar com o estado de sua mala, que devia estar fedendo meleca de doces derretidos.
Foi quando o motorista se lembrou que sabia onde a vovó morava, e foi fácil de achar porque a cidade tinha poucas ruas, umas duas ou três só, e em frente de toda casa tinha uma plaquinha com o nome de quem morava em vez de um simples número como na cidade normal. E na frente da casa da vovó de Chapeuzinho Verde estava escrito que lá morava a vovó de Chapeuzinho Verde, como se a vovó de Chapeuzinho Verde não tivesse nome nenhum e sua existência só se desse por ser a vovó de Chapeuzinho Verde. Chapeuzinho Verde pensou que isso fosse mimo de vovó e entrou correndo abrindo portão e porta e deixando cair mala e comidas novas importadas derretidas pelo calor e melecadas no meio das roupas.
Foi quando dentro da casa tinha um lobo mau parecido com aqueles das histórias da carochinha mas ele estava armado com uma pistola automática e tinha acabado de matar a vovó para vender os órgãos velhos da vovó para algum traficante de órgãos. Chapeuzinho Verde foi ficando com o rosto verde e verde e verde de raiva e medo e gritou bem alto estourando os vidros e os tímpanos do lobo e do motorista. Então o lobo mau se matou com um tiro no coração porque ele era pior do que o Beethoven e não suportaria a idéia de viver surdo. Então o motorista entrou lá dentro e surdo também decidiu se matar. Então a Chapeuzinho Verde percebeu que não saberia voltar sozinha para casa e achou legal aquele monte de gente morta e decidiu morrer também, só um pouquinho, para ver se era bom, pelo menos para experimentar, e se matou também.

12.1.08

contos da carochinha

Lembro-me do meu bambu do qual brotei em sua ponta esquerda. Lembro que ele era mamãe e me contava historinhas pra boi e gnomo dormir cor-de-abóbora. O boi ficava cor-de-burro-quando-foge mas eu sempre de-abóbora. Diabo borá.
Asseguir amostra à mostra.

11.1.08

des-sendo

De pronto, quebro a ponte e destruo tudo mais o que traduzia, em trêmulos trâmites, a minha vida de vidro. Começo pelo bilhete em cujo ínterim há a dobra do mundo, passo pela máquina de lavar pensamentos e desconstruo a fábrica pragmática de sentimentos – todos imperceptivelmente repetitivos.
Dois ais, um ui, meio senão e nem meio contudo, meu tudo já não tem mais chão e o recheio absurdo do nada é meu éter e meu gueto. Arrisco assoviar uma melodia mas os pardais que atravancam os postes de minha imaginação não ma permitem: egoístas – ou melhor, corporativistas – não admitem concorrência.
Assuo a narina direita e o que escorre de mim é uma meleca verde infinita. Desespero-me porque não pára, não pára, não pára e para mim aquilo ainda terminará extinguindo-me.
De vidro, a minha vida em trâmites trêmulos se traduz em mais tudo o que destruo: a ponte quebrada de pronto.

10.1.08

a mãe às vezes morreu

Ah mãe ahn!?
Tudo tem ligação entre si. A realidade em cima da cama, o sonho debaixo do travesseiro, a dor nas costas. Tudo tem ligação entre si.
O dicionário guardando verbetes que ainda hão de ser usados pra depois jogados fora no mundo. Impressão confirmada, agendar gráfica. Sugestão não-acatada b.
Meias são de areia, mesmo que inteiras. Ou o par. Sempre estivemos com eles. Mesmo quando eles teimam em fugir.
Palavras têm gosto e cheiro, não tenho culpa se você nunca experimentou. Têm som, cor, forma também.
Que título? De nobreza? Do Visconde de Sabugosa?
Fumar nem sempre é necessário. A fumaça pode atrapalhar tudo, pode cancelar a visão, pode encher o saco. Crateras formam caretas e vice-versa. Drummond são borboletas, não deu nada não, prefiro rosas vermelhas, paixão.
Mesmo que as palavras morem num parque de diversões, não sei se seria bom controlar o sentir – aí o sentir não seria sentir, seria pensar. E eu nunca sei o que pensar. Eu juro que é atirar pela janela.
Estou cheio da lua cheia de mim cheio da lua cheia de mim cheio da lua cheia de mim... Todos os textos são pravocê, se os leu. Se não leu, o...

9.1.08

gnomos no divã vadio da vida no vídeo cheio de dúvidas sem dádivas

:: primeiro :: “não, não fique com receio do que eu possa pensar sendo seus comentários, prometo não ficar chateado, não sou tão mal assim, gosto de ameixa com amor e não perco a deixa pra ser brega; não, não fique com receio; não, não fique não; não”

:: segundo :: “preciso apenas de elogios verdadeiros, sinceridade é fundamental, não hesite em xingar o lixo ou botar o lixo pra fora: o latão amarelo que está no hall é serventia da casa”

:: terceiro :: “procure na internet; você vai gostar e viajar bastante”

:: quarto :: “a desvida e outras palavras poderiam estar contidas em orwell 1984, mas não estão não – desconfio que ele era meio preguiçoso”

:: quinto :: “os sacis verdes brotaram de minha cartola onde os coelhos morreram”

:: sexto :: “da necessidade das viagens; da necessidade das morais das histórias serem extirpadas das histórias; do fim do divã”

:: sétimo :: “por que um revólver verde se pra ver de verdade é só revolver a vida?”

:: oitavo :: “não quero pedir desculpas; não vale uma vida eterna”

:: nono :: “comprei duas cabeças pelo preço de uma, tava em promoção, não resisti”

:: décimo :: “ainda não nasci”

8.1.08

excerto d’alma

O eu-lírico se esconde atrás da porta
e fica rogando praga pras visitas.

7.1.08

luneta

Sentado em um sorriso indefeso, ponho-me a observar as pessoas que não sabem voar. Elas são tapadas e não me vêem aqui do alto, enquanto eu procuro minha escova de dentes para continuar defendendo meu sorriso.