15.4.08

(Li)TerAmor

Cai ao chão uma caixa e oferece a mim folhas soltas de Manoel de Barros que devoro como se fossem de alface. Uma a uma, a poesia escorrendo entre os dentes numa sutileza inversa à imagem lucubrada aqui de devorar-comer-saborear tão visceralmente.

O labirinto ainda só começa e adiante o que avisto é Joyce querendo me fazer sentir seu Ulisses se aliás eu lesse cada uma das suas páginas presas por um nó central de dar ódio de dar medo de dar tudo de dar nada. O labor de avistar o fim antes de começar o ínterim e perder de vista o início que nunca vai se acabar.

Se eu tropeço e avisto o obstáculo, sorrio. Porque a pedra no meio do meu caminho é a antologia de Drummond, recitando bem baixinho aqueles poemas que ninguém devia dessaber de cor. Mundo, mundo, vasto mundo, que as estantes ainda estão para serem desbravadas e o tempo é sempre inimigo da plenificação. Que o tempo é sempre dado à objeção.

Olho ao redor e as pessoas lêem em seus banquinhos em suas mesinhas em seus cafezinhos em seus colos em seus corações. Guimarães Rosa, Mario Prata, Machado de Assis, Julio Verne, José Saramago, Stephen King, J. K. Rowling, Pedro Bandeira, Elizabeth Bishop, Marcel Proust, Umberto Eco, Julio Cortázar, Ezra Pound, Cecília Meireles, Clarice Lispector, Italo Calvino, Chico Buarque... As pessoas lêem e levam, locupletam-se com os olhos e alimentam a alma. Afoitas, letra a letra, num liquidificador mental alimentado por livros.

Atormentadas, juram que viram Sartre.

Alucinadas, piram querendo saber de Deleuze.

Alienígenas, consumidas por Kant.

Atrevidas, na dose certa da dor e a dádiva vã da loucura de Foucault.

Se eu tivesse lareira levaria pra casa Hilda Hilst debaixo do braço, penso. Mas logo antevejo uma leitora gulosa com a obra completa de Sade, saindo.

Permito-me sonhar com uma biblioteca completa, com todos os livros que hoje não me lembrei. De Aristóteles a Zuenir Ventura. Ter em minhas estantes a capacidade dicionárica de aarónico a zwitteriônico. Comer tanta sopa de letrinhas até me sentir um Aurélio na sala de jantar.

Para tanto e portanto, sem mais e todavia, encontra-se aberta desde o mês passado a livraria Ferida. Ao número 107 da Rua Vinícius de Moraes.

4 comentários:

Anônimo disse...

Temo em saber a sua opinião sobre marian keyes e sophie kinsella...

tão à toa eu... rs

Outro dia tentei ser culta... comprei as travessuras da menina má... de mario vargas llosa... mesmo escrevendo sobre sacanagem, escreveu de um jeito chato... não me pegou...

voltei na livraria e troquei...

basta!! assumi meu lado fútil!!

fui ler livros pra meninas fúteis, compradoras compulsivas...

devorei o chá de bebe em dois dias... rs



saudades de vocês!!

bjoxx

Jacy

Andressa disse...

Muito legal o seu blog.
Os textos são muito inteligentes, leves e contestadores...adorei!

Parabéns!

Beijo!

Andressa Dantas

Energizaizer's Corporation disse...

manuel de barros, está lá, dentro das duas caixinhas da infância.

Não sei porque estou esperando para abrí-las.

Medo, talvez de ser atraída para dentro delas, como você.

Anônimo disse...

Pois é amiguinho, como disse um dia uma sábio nativo norte americano:

"Querem falar da alma humana, e não sabem nem caçar um castor???"

Pois bem, vivem de literatura sem saber de onde vem o aliento que leva à boca todos os dias ... muito sábia esta cultura, que beira o colapso.