28.4.06

Van Gogh

Porque curtia ecos, tudo o que lhe pesava era o vazio no estômago e aquele ruído interminável e rouco. Sacolejava o nada quando e enquanto caminhava pelas ruas, madrugada afora, sem juízo, sem asco, sem virtude.

Assoviava o silêncio noturno, louvava a escuridão profana. Bastavam as primeiras riscas de sol surgirem para partir, eterna busca e fuga, eclipse impossível. Fé cega. Montanhas, amanhã, Maomé, manhã. Amígdalas. A protuberância exata entre o ir-vir, ser-descer. O soluço.

Na rua, um caco de vidro e um tropeço. Um cadáver sem jazigo, seu sangue ressequido. A podridão, a miséria, o caos metropolitano reverberando pelas reentrâncias absurdas do cimento. Guimbas, restos de camisinha, uma gilete. Tudo o que conta a breve história do segredo humano, com seus flagelos, prazeres e vociferações de ódio, acumulado em objetos abjetos. Ele circulando, oco, famélico. Desviando para não desmaiar. Ignorando. Como todos fazemos fingindo-nos cidadãos, atropelando a realidade vil.

Nenhuma moça bonita exalando sensualidade, nenhum rapaz corado com cheiro de meia-noite, sequer uma garota de programa na flor da idade ou um vigia bem-apessoado. Nenhum espírito com carne, nem sonâmbulo perdido ou notívago encontrado. Nem eu na rua. Nem eu.

Do eco interno, porque curtia ecos, tudo o que sentia era o que lhe pesava, o vazio no estômago, aquele ruído interminável e rouco. Examinava seus dentes e, desolado, percebia que ainda não sabiam o que ser definitivamente. Louco, Van Gogh ia pirar se não se aprendesse logo vampiro. Sangue na tela.

17.4.06

Nada

Esparadrapos.
Para remendar o tédio.
(Tão simples quanto scraps!)

12.4.06

Mariana

A cada te amo
penteio o poente
calibro a lua que vai encher

Meus pulmões
em que todo ar te respira
aspira
inspira
versos que todos me
pira.

Ensimesmado sou em ti
pleno
um altiplano impossível
de asa-delta
de vênus.

A cada te amo
minhas mãos trêmulas
persistem

Atiçam
o palpável
o paladar

Tilintam
o bem
o bemol.

A cada te amo
reitero os sonhos do amanhã
(adois)
esfrego os olhos do hoje
(prassempre)
sussurro a lembrança de um beijo
(sóvocê)

A cada te amo
depoisifico o antes
durante.

9.4.06

2. Coelhinho da Páscoa que trazes pra mim...

Internet é boa pra se deitar e embalar embalar embalar
Embaraçar
Enredar até se nos perder.

3.4.06

Minilouvor à olvidada obra

Não dava mais tempo de imprimir, dizia Verinha, e num gesto soberbo arrancou todas as folhas que sobravam e começou a colá-las de volta na primeira árvore com que se deparou. As pessoas estranharam, mas se não era ela a Verinha quem seria que erra sozinha pelas ruas desconhecidas de Sin City?

Súbito, táxi.

- Pra Lapa, por favor. E rápido.

Os sinais vermelhos ficaram para trás e, aos poucos, o Parque da Aclimação e seu lago sujo e seus cisnes brancos e suas árvores folhas folhas folhas foram se esquecendo pelo trânsito poluição buzinaço beéeeeéeeéem, ô, fóooooóó, cof cof cof.

Verinha era um braço direito, um esquerdo e um par de pernas. Outro dia lá estava costurando uma camisa para o pai. Noutro fazia a feira para a vó. Noutroutro ia com a mãe pro hospital. O namorado reclamava:

- Sobra tempo pra mim hoje à noite?

E lá ia ela novamente pra casa do dito cujo. Trepavam até alta madrugada e depois se quedavam exaustos, estarrecidos. E sonhavam com gosto de quero-mais, de-novo, mais-uma-vez. Às vezes acordavam. Outras esqueciam.

O cinema que esperasse. Filme novo em cartaz, como é mesmo o nome, que cabeça a minha? Aquele do Oscar. Não o que ganhou, mas aquele que todos diziam que era o favorito e tal. Sim, sim... Esse mesmo. Vai ficar para outro dia, porque meus olhos já não agüentam, fadigados de dia-e-noite sem parar.

O par de pernas não parava. Verinha no ônibus, Verinha no metrô, Verinha no táxiiiii. Verinha a pé. Verinha ao léu, voando, vento. Verinha no varal.

Era uma vez um poema bonito pintado na janela. Era uma vitrina para os sonhos. Era uma canção de amor e Verinha morava lá como exemplo avantajado. Era uma vez tudo isso que me esqueci o autor, as rimas e a imaginação.

30.3.06

Acinte

como chocolates
mastigar os minutos
oras!

despretensos
grudar chicletes nos
ponteiros nus

estilhaçar
tique-taques de espelho
retrovisor.

27.3.06

Lágrimas de março

Infinitas
As pessoas se consomem
nas lágrimas de março abrindo o outono.

Ou,
tona a derivar em sal,
solzinho só
do frio
Vazio

que começa
com essa
sina vespertina
Que sucede-nos
assustadoramente.

22.3.06

Os ânimos jamais são apaziguados quando há uma cerveja estragada entre nós dois

Arrancou uma folha. Dessas com cheiro de infância traquinas. Uma folha que não servia para fumar nem ler nem escrever nem sonhar. Arrancou.

Todos-dias Jeremias come alface. Tempera com açúcar e olha feio para as pessoas que estranham. Destrambelhadas são todas-pessoas que estranham, azedam, brincam de couve-flor quando se são brócolis despenteados.

Ele tem uma horta no quintal. Planta salsinha, açafrão, cenoura, manjericão, espinafre, almeirão, bacon, filarmônica, macacos e gente de verdade. Nunca colhe. Espera chover e cair-tudo na sua mesa. Sobremesa.

Jeremias um-dia acordou de bom-humor:

- Amor, traz mais café por favor?

Jeremias outro-dia acordou de mau-humor:

- Mulher, café!

Jeremias nunca dorme. É desses homens que sonambulam acordados, se recusam a contar os carneirinhos (designam empregados para tal árdua tarefa) e riscam lousas verdes em todos os semáforos da imaginação. Jeremias nunca dorme.

Era vinte e três de fevereiro quando seu pai morreu.

Arrancou outra folha. Daquelas com cheiro de saudades reformuladas. Uma folha que já nem era mais verde nem espelhava a realidade nem carregava orvalho nem ressequido. Arrancou.

Todas-noites Jeremias toma café. Joga sal aos baldes dentro da xícara e zanga-se se algum feladap olha torto para ele. Aliás, alheias são todas-pessoas que não deveriam existir, porque assobradam e assombram, deveriam obradar os assoalhos dos-outros, aqueles quem dobram. Os sinos também.

Ele tem um carro velho que parece uma Brastemp aposentada. Dentro, um bocadinho de-tudo: bancos, porta-luvas, toca-fitas, acelerador, câmbio, freio-de-mão, enxada, velas-de-sete-dias, furadeira, fio-dental, hífens e outras-palavras-compostas. Em compotas.

Jeremias uma-noite saiu, beber:

- Garçom! Manda outra!

Jeremias outra-noite saiu, beber:

- Pendura!

Jeremias sabe o que acontece com os bichos-papões que moram no telhado.

17.3.06

Despedida

Vim ver o tempo passar
raspar ótimo
o vento. Ore.

Vim torcer
forte.
Pra que tudo acabe e
baca, beca, batuque
tudo.

5.3.06

Bagulhos e bugalhos

O joelho está crescendo. Nanny suspira toda vez que vê, e é que com desvelo que leva a vela, e vela até o amanhã ser hoje, ódio.

No caramanchão, do mesmo em que Aurélia de Alencar conduziu o marido na chácara de "Senhora", um homem rude de nome cru esperava. No caramanchão, a revanche. Era o que diziam os anúncios em todos os jornais.

Nanny não lia. Fazia que nem sopa de letrinhas, chupava como se não houvesse diferença entre as e bês e cês.

Quando o joelho está crescendo, Nanny sabe que o problema é a falta de gilete. Vai embarcar noutras.

21.2.06

Solidão, que nada

Atrás do balcão nojento, um cálice respinga sabedoria. Só. A redescoberta do acaso está de joelhos no Brasil, em São Paulo, na Aclimação, no nada. Descaminhos. Solilóquios. Pecilotérmicos.
A abstração termina quando abril começa e leva junto o avião que decola, sobe, alto, longe.

18.2.06

Sobre o jornalismo

Cortar palavras, era feliz assim. De cada três, uma fora. Mais três, outra fora. E a lixeira grande, crescendo, grande, crescendo, grande. Até estourar. Cataploft! e jogar todas as letrinhas no céu da redação que, como vocês sabem, é de vidro.

***

Seu pai dizia escolher esta profissão aziaga é viver condenado ter que matar um leão por dia. Em alguns, dois.
Teimei.

***

Cartesiano, o deadline me olha procurando um lead.
Rio do quase fevereiro.

17.2.06

Retícula

Mascava horizontes feito chiclete. Cada bola que estourava era um sol se pondo.

À noite, todas as linhas são do Equador.

16.2.06

Misto-ério

Tranças tosadas
Estou saindo de suas semanas tensas
Inseminais

Antimínimo
Quasanônimo
Anfitrião de sonhos colecionados colados em postes
Sonho-me bisonho

Em três quartos de hora cultivo todos os segundos.

13.2.06

Sina repórter

No corre-corre que cansa, perdura a dúvida dependurada de ponta-cabeça pelo ponto do ponto de interrogação. Já almocei, mas meu estômago ainda reclama cada sacolejo que o caleja, machuca, raspa, contramão. Quando passava pela Doutor Arnaldo, uma menina me sorriu do lado de fora do ônibus, sonhou um senão e mascou o horizonte espelhado que as pessoas avistam nas janelas desavisadas. Desvairado, avilto. Olho sempre para a aliança que, embora prata, carrego no dedo. Decidido. Consumado. Nem tenho mais que pensar nisso tudo.

Eram dois os pêssegos da sobremesa. Semelhantes, em textura e gosto e forma a, bem, você sabe do que estou falando. Pedi um adeus. Você sorriu. Roguei até breve. Você sorriu.

De leve, pensei que você só sorrisse.

E eu, chorando, cansado, maltrapilho, jogando descalço no chão quente, lacrimejando por você. Procurando o espaço entre nós dois onde foi que eu me perdi. Experimentando a distância, cada vez maior, cada vez mais distância. Esquecendo que você não gosta de gerúndios, nunca, mesmo quando eles são aplicados de maneira correta, estética e exata.

Acendi o primeiro cigarro. A fumaça reverberando o ar embaça, desmemoria. A brasa escorre, lembra-me que também é líquida, como o ar, como a luz, como o nada. Estranho só-estar, quando o possível era estar, apenas. O abraço feito elemento contíguo esquece-se. De antemão, um vulto alenta-me que sobrados não cabem os que se escondem porões, lareiras, foguetes de São João e confetes de outras festas.

Já estava descendo a Cardeal quando contei as pombas pelo chão. Nojentas. Procurei andorinhas equilibristas nos fios da Eletropaulo, nos fios da Telefônica, nos fios... Elas já morreram, há muito. Acendi o segundo cigarro, enlutado, como se fosse uma vela pras almas. Lembro-me de minha vozinha repreendendo “e bicho lá tem alma, menino?”.

No último dia, quero me encontrar com Deus. De bloco em punho, anotarei todas as respostas que o farei dizer. Então, expurgada angústia, serei o homem mais feliz do mundo.

5.2.06

Puxão de Horário

No tapete estirado
estão
os restos
do relógio.

Porque na
Curiocidade
traguei o ócio
que trouxe
em cio
lêncio
negócio.

Cada codinome um anfitrião.

3.2.06

Pétalas

feriu-se a calma, viajou,
feriado da alma,
vício,
flor

cronos, o deus-pai
consumou o tempo
destruiu
a esperança

hoje
despetalados
sossegam ansiosos
os habitantes dos arcabouços
que nem posso
sou louco
soluço

ensimesmado
ensaio a cena
do fim.

31.1.06

[cronopolitano]

Picolé de internet, meu sorvete está aqui cheio de mentiras estranhas, gravetos que pegam fogo, sonhos mal-dormidos, segredos ao pé da cama e sinceridades pelo avesso.

O endereço tem cara metropolitana, mas soterra as esperanças construídas e depois remenda tudo com esparadrapo. Um scrap cai bem, mas o orkut virou soluço. Então leia agora.

27.1.06

Às vezes me sinto uma dobra cabisbaixa
ou uma esquina de espelho
Sem esparadrapo, nem nada
cada passo é um salto de desespero.

Onde está Wally?

26.1.06

Pessoas não são de plástico

Cansei-me de repetir que pessoas não são descartáveis, seus corpos não são de plástico, suas vidas não podem ser defenestradas sem justificativa.

Cansei-me de chorar, descer, des-ser. Cansei-me de sentimentar. Cansei-me de procurar eco no vazio das palavras. Cansei-me de tudo o que é impronunciável mas nos incomoda.

Reconheço que as almas também merecem um feriado.

21.1.06

Todo suco de tomate é vermelho e nojento, parte Emiliano; ou apenas a saga do homem que, virado ao avesso, morreu na contramão do trem das onze

Capítulo quarenta e um. A bruxa. Emiliano devorava o livro como fosse um pacote de batata chips salgadinhas crocantes deliciosas. A cada final de frase, um suspiro ou um assovio, não não, um “ufa” aliviado porque sobrevivera à trama. Todo domingo toda terça. Nos outros dias não lia não. Nos outros dias não lia nada.

Emiliano atravessa a rua devagar para que o sinal feche antes que dê tempo. Então mostra o dedo do meio para os motoristas putos que querem passar. E quase é atropelado por um motoqueiro, ziguezagueador do caos urbano. “Me vê uma Super?”, pede ao jornaleiro do outro lado da rua. E depois joga duas moedinhas de dez centavos dentro do chapéu oferecido do pedinte sonolento semimorto ao canto da sarjeta.

Avenida Paulista e a revolta dos pássaros. Onde estão os fios-poleiros os cocôs as penas os nacos de pão e os alpistes? Nos tacos de pedra que ladrilham a polêmica calçada dos solavancos absurdos às damas de salto alto, apaixonados caçam mensagens de amor, poetas tropeçam em mensagens concretas, desavisados não ligam e pisam em mensagens de paz. Paixão. Sexo. Carnaval.

Perigo da cabeça aos pés. Emiliano distraído é rendido “mãos ao alto”. Levam sua Super, sua carteira vazia com menos os vinte centavos do mendigo, levam seu bilhete único seu ônibus de volta seu múltiplo de dez do metrô seu trem selvagem. Trazem sua vontade de ir embora pra Passárgada.

Outro final de semana e a alegria é substituída pela dor. Inventamos viagens, vertigens, vacinas e vísceras. Emiliano nunca entrou numa casa de bonecas mas quando era criança via a irmã brincando. Emiliano nunca entendeu casa de bonecas travesseiro de penas de galinha pétalas murchas pratos cheios de vazio. Emiliano.

Emiliano. Quando crescer vai virar guerrilheiro. Pegar em armas. Honrar pai e mãe. Ler a bíblia e fundar uma nova religião.

Emiliano. Calça as botas e estranha a liberdade. A morte é assim? É assim? Assim?

Emiliano. Com seus dentes maciços e originais abre a boca e morde bem forte, ouve um trique, depois um traque, depois grita o hino nacional, Emiliano é homem, Emiliano não vai morrer, Emiliano não vai perder, Emiliano é o campeão mundial de desvio de obstáculos e pingos da chuva, Emiliano não é made in Paraguay, Emiliano é cabra macho sim senhor.

Brahma bem gelada. No balcão. Saúde! Saúúúde!! Saúúúúúde!!!

Sem nunca terminar de ler a bruxa, Emiliano virou herói de estimação.

16.1.06

Endereço e telefone

Sob a atmosfera terrestre, sobram sombras de nuvens endeusadas condenadas ao desuso.

Quando um mortal espirra, pronto: "atchô", e o mundo parece vir abaixo procurando uma praga para aviltamento.

Sem senões, um beijo.

15.1.06

Diáspora ao contrário

Não sei o que faço aqui. Pergunto às minhas lágrimas, que se quedam sem resposta. Eu não sou daqui. Eu não tinha que estar aqui. Meu lugar é lá longe, meu lugar é calmo, meu lugar é em paz.

Não sei o que faço aqui. Estou colhendo flores nas frestas das calçadas, estou chovendo no concreto, estou me perdendo poeta.

Não sei o que faço aqui. Se pudesse, pularia a linha ou viraria a página. Se pudesse, tomaria o primeiro ônibus. Se pudesse, ah! se pudesse, quanta coisa faria. Menos ficar aqui.

Porque não sei o que faço aqui.

12.1.06

Meu nome: Expectativa

Expectorante. Cada detalhe encabeça um alfinete que prende o botão. Uma lenda. Além da cisma do oriente, quebro-me a cabeça. Tonto. Conto até dez, noventa, cinqüenta e sete. Sento. Levanto-me e parto pra cima, porque o mundo ainda não acabou para mim.

10.1.06

Preferia não pagar pedágio da vida a condenar minha existência aos pares.

8.1.06

Quando o caos dorme

Cada respiro é um atrito.

6.1.06

Abelhas

Um curioso virou para o outro e perguntou: que que ocorreu com o curió que cada um tinha na gaiola?

Não se ouviu um pio.

2.1.06

Coisas esquecidas

Atrás do armário, a cabeça cortada. Da geladeira, três pares de meias. Do sofá, um coração duro e frio.

Dentro da gaveta, um dedo com aliança. Da caixa de sapatos, apenas um pé do par. Do forno, um pedaço de criança.

Embaixo do tapete, um monte de sujeira. Da mesa, a bola de futebol. Da cama, uma camisinha furada.

Em cima do muro, um ponto de interrogação. Da tevê, um pingüim de geladeira. Da escrivaninha, toda a coleção de miniaturas de jazigos.

No poema, um travesseiro.

28.12.05

Neandertal

Artur carregava a sacola amarela com propaganda de supermercado. Dentro, uma embalagem cinza com três camisinhas cheias de vácuo.

25.12.05

Máximas mínimas

Nem todo sacolejo é um sacrilégio, assim como nem todo relógio é lógico.