13.2.06

Sina repórter

No corre-corre que cansa, perdura a dúvida dependurada de ponta-cabeça pelo ponto do ponto de interrogação. Já almocei, mas meu estômago ainda reclama cada sacolejo que o caleja, machuca, raspa, contramão. Quando passava pela Doutor Arnaldo, uma menina me sorriu do lado de fora do ônibus, sonhou um senão e mascou o horizonte espelhado que as pessoas avistam nas janelas desavisadas. Desvairado, avilto. Olho sempre para a aliança que, embora prata, carrego no dedo. Decidido. Consumado. Nem tenho mais que pensar nisso tudo.

Eram dois os pêssegos da sobremesa. Semelhantes, em textura e gosto e forma a, bem, você sabe do que estou falando. Pedi um adeus. Você sorriu. Roguei até breve. Você sorriu.

De leve, pensei que você só sorrisse.

E eu, chorando, cansado, maltrapilho, jogando descalço no chão quente, lacrimejando por você. Procurando o espaço entre nós dois onde foi que eu me perdi. Experimentando a distância, cada vez maior, cada vez mais distância. Esquecendo que você não gosta de gerúndios, nunca, mesmo quando eles são aplicados de maneira correta, estética e exata.

Acendi o primeiro cigarro. A fumaça reverberando o ar embaça, desmemoria. A brasa escorre, lembra-me que também é líquida, como o ar, como a luz, como o nada. Estranho só-estar, quando o possível era estar, apenas. O abraço feito elemento contíguo esquece-se. De antemão, um vulto alenta-me que sobrados não cabem os que se escondem porões, lareiras, foguetes de São João e confetes de outras festas.

Já estava descendo a Cardeal quando contei as pombas pelo chão. Nojentas. Procurei andorinhas equilibristas nos fios da Eletropaulo, nos fios da Telefônica, nos fios... Elas já morreram, há muito. Acendi o segundo cigarro, enlutado, como se fosse uma vela pras almas. Lembro-me de minha vozinha repreendendo “e bicho lá tem alma, menino?”.

No último dia, quero me encontrar com Deus. De bloco em punho, anotarei todas as respostas que o farei dizer. Então, expurgada angústia, serei o homem mais feliz do mundo.

5 comentários:

marta disse...

Edison!Adorei,adorei o texto!
Um dos teus melhores textos sem duvida;varias partes me tocaram,mas as ultimas palavras tiveram maior poder sobre mim,"No último dia, quero me encontrar com Deus. De bloco em punho, anotarei todas as respostas que o farei dizer. Então, expurgada angústia, serei o homem mais feliz do mundo." penso que evocaste exactamente aquilo que todo o mundo gostaria da fazer,o que todos sentimos..
beijos,
boa semana,
marta.

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