3.8.08

Sobre verdades indesculpáveis e seus múltiplos sofismas cor-de-abóbora

Trinta e duas horas sem dormir. No outro cômodo, só o resmungo renitente do barbeador elétrico a aparar as arestas do nada. O nada não sabe se barbear. O nada cultiva infinitas barbas, brancas. Por serem infinitas, é óbvio que são grandes o suficiente para a gente se dependurar nelas. Trinta e duas horas sem dormir e, agora, mais alguns minutos. As pálpebras doem. As mãos também doem de tanto computar. LER, a sigla maldita. A vista cansa, a miopia pede calma, a córnea seca, também pela estiagem. O cérebro é o único que funciona sem reclamar. Ou melhor: é o único que ainda reclama pela lerdeza e insolência do resto do corpo. Olho para a cama gelada e percebo que não sou mais bem-vindo nela. A cama cansou-se; não quer mais dormir nela. A cama cansou-se-me; não quero mais dormir em ela. Da janela vejo o céu, o barulho da rua, as torres coloridas piscantes anti-aviões ao longe, as buzinas dos carros distantes de mim, o tédio dos que se jogam do prédio da frente. Da janela vejo o precipício convidativo e, aos poucos, ouso me perguntar: quantos metros medem dezoito andares?
Dali a pouco serão trinta e três horas sem dormir.

2 comentários:

Giovanna Longo disse...

procure no livro dos recordes.

32 horas certamente deve ser algum recorde...

beijos.

Carol Zaine disse...

Gostei! Meio angustiante, mas vc é bom nisso!

Bjos