19.10.07

Toda a dor que houver nesta vida

Edison não dorme direito mais. Vira-se, revira-se, não dorme.

Edison pensa que o mundo está errado, as pessoas são injustas. Edison também é injusto e há muito está errado. Edison não gosta que torturem aqueles que não acreditam, Edison não gosta de amarelo, Edison não gosta de falta de lealdade, Edison não gosta de água de coco, Edison não gosta de se sentir sozinho, Edison não gosta de animais nojentos que sujam o apartamento, Edison não gosta de livros chatos, Edison não gosta de música ruim, Edison não gosta que maltratem as criancinhas pobres natimortas, Edison não gosta do Corinthians, Edison não gosta de filmes nem feijão enlatados, Edison não gosta quando o escrevem Edson, Edison não gosta de guerras que acontecem sem ele estar lá cobrindo.

Edison sabe que jamais irá conseguir resolver os problemas que tiram seu sono. E isso é mais um problema a lhe tirar o sono.

Faz alguns meses que Edison sofre de insônia. Uns 270, para ser mais exato. A insônia é provocada pelo extrato da conta corrente, pelo telefonema ríspido, pelo soneto inconcluso, pela pauta bacana que não emplacou, pela solidão, pelo jogo que seu time perdeu, pelo peixinho morto no aquário, pela vida perfeita que era para ter sido e não foi.

Edison às vezes nem sabe o que o aturde, mas sente as lágrimas tristes - porque lágrima é um troço que existe alegre também - que escorrem em seu rosto. E aquele gosto de sal. Edison sofre como todos os humanos, mas para ele sua dor é maior.

Edison jura que não é egoísta. Edison jura que não é materialista - só não gosta de emprestar seus livros. Edison jura que ainda acredita na honestidade alheia. Mas Edison tem medo. Medo de não ser amado, medo de que roubem seus livros e levem junto suas idéias, medo de morrer antes de acabar de verdade, medo de que as pessoas estiquem a perna para que ele caia, por deslealdade mesmo.

Edison já caiu. E o tombo foi feio, passou cinco dias hospitalizado, dezessete pontos na testa, essas coisas. Desde então jamais voltou a ser o mesmo: perdeu 47% de sua criatividade, três quartos de sua esperança e quase toda a inocência.

Quando crescer, Edison vai comprar uma moto. Dessas grandes, velozes, com personalidade, barulhentas. Edison vai pilotar sua moto sem capacete, pelas estradas mais bonitas do Brasil. E então vai tentar esquecer que tem insônia.

Edison não dorme mais. Nunca mais.

3 comentários:

Solitário disse...

Você não é diferente de nenhum dos seres humanos... Todos nós temos um monte de coisas que não gostamos... mas aposto que existem um monte de outras que vc gosta...

Manny disse...

Nossa, eu nunca tinha me dado conta de que Edison era assim, tão melancólico...

Será que compro um peixe novo pra te alegrar?

giovanna longo disse...

Edison vai dormir sim. Edison precisa de uma garrafa de vinho e uma boa companhia!
bjs