ANÍSIO, Chico. Feijoada no Copa. São Paulo: Círculo do Livro, 1987.11.6.09
16. As cidades, às cidades
Por onde passei, deixei alguns de meus pedaços. Porque, dizem, as células morrem o tempo todo, um pouco por vez.
- Um nariz!
- Um olho!
- Um pênis! (- É meu, é meu, é meu!, gritam meninas histéricas.)
Os agrados, segredados, jazem natimortos nas gavetas velhas, griladas, de antanho. Nelas, os grilos foram segregados, só para caberem os agrados.
- Agrido.
As gavetas não têm endereço fixo. Percorrem a totalidade das cidades onde me fiz. As mesmas que tumulam meus pecados, pedaços, cadarços e petardos.
- Um nariz!
- Um olho!
- Um pênis! (- É meu, é meu, é meu!, gritam meninas histéricas.)
Os agrados, segredados, jazem natimortos nas gavetas velhas, griladas, de antanho. Nelas, os grilos foram segregados, só para caberem os agrados.
- Agrido.
As gavetas não têm endereço fixo. Percorrem a totalidade das cidades onde me fiz. As mesmas que tumulam meus pecados, pedaços, cadarços e petardos.
VINTE E NOVE DE MAIO
Breve relação das dores:
- Separação
- Siso
- Fome
- Saudade
- Tombo
- Parto
- Rim (com pedra)
- Rim (durante a litotripsia)
- Cansaço
- Infarto
- Tédio
- Arrependimento
- Acidente de moto
- Fissura óssea
- Distensão ou estiramento muscular
- Falta de planejamento.
- Separação
- Siso
- Fome
- Saudade
- Tombo
- Parto
- Rim (com pedra)
- Rim (durante a litotripsia)
- Cansaço
- Infarto
- Tédio
- Arrependimento
- Acidente de moto
- Fissura óssea
- Distensão ou estiramento muscular
- Falta de planejamento.
VINTE E OITO DE MAIO
Diminutivos demonstram afeição, reza o hábito popular. Motivo? Consequência? Causa? Efeito? Sentimento?
Na praia chegam todos os corpos flutuantes.
Na praia chegam todos os corpos flutuantes.
10.6.09
Nuvens
Nuvens, a matéria-prima dos sonhos,
são das coisas mais lindas que já inventaram.
Disformes, matéria-poema das senhas.
Etéreas, mistério-pronto das sanhas.
Gostaria eu de comê-las.
são das coisas mais lindas que já inventaram.
Disformes, matéria-poema das senhas.
Etéreas, mistério-pronto das sanhas.
Gostaria eu de comê-las.
VINTE E SETE DE MAIO
Uma praça e seu apreço. Um sorriso e uma gagueira. Um olhar e um gravador. O entre e a vista. O off.
- Eu também gosto de escrever.
- Mas nem tenho um blog.
- Você dorme às vezes?
- Sim, três filhos. Mas nenhum mora mais comigo.
- E você faz isso com frequência?
- Vou de bicicleta. É pertinho.
- Mas pode encontrar um bicho-papão.
- Não consigo aproveitar a cidade tanto quanto gostaria.
- Não tem vontades secretas?
- Corro. Uma hora cada vez.
- E quando morrer?
- Coleciono árvores e suas estações favoritas.
- Interessante a infinitude das pessoas.
- Achei que ali estava estagnada.
- Imagina...
- Sempre neste bairro.
- É belo.
- É belo.
- É bela.
- Eu também gosto de escrever.
- Mas nem tenho um blog.
- Você dorme às vezes?
- Sim, três filhos. Mas nenhum mora mais comigo.
- E você faz isso com frequência?
- Vou de bicicleta. É pertinho.
- Mas pode encontrar um bicho-papão.
- Não consigo aproveitar a cidade tanto quanto gostaria.
- Não tem vontades secretas?
- Corro. Uma hora cada vez.
- E quando morrer?
- Coleciono árvores e suas estações favoritas.
- Interessante a infinitude das pessoas.
- Achei que ali estava estagnada.
- Imagina...
- Sempre neste bairro.
- É belo.
- É belo.
- É bela.
9.6.09
Semana
Domingos têm sol
Segundas fazem sono
Terças contêm trilha sonora
Quartas, silêncio
Quintas são de algodão-doce
Sextas demoram o infinito
Sábados nada sabem.
Segundas fazem sono
Terças contêm trilha sonora
Quartas, silêncio
Quintas são de algodão-doce
Sextas demoram o infinito
Sábados nada sabem.
8.6.09
7.6.09
6.6.09
Porque hoje é sábado
Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive
E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada
Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar
E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.
(Manuel Bandeira)
Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive
E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada
Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar
E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.
(Manuel Bandeira)
5.6.09
4.6.09
Instante da estante
RAMOS, Anna Claudia. Nos bastidores do imaginário: criação e literatura infantil e juvenil. São Paulo: DCL, 2006. Poema de duas pernas
no duro espaço amargo
que me consome inteiro
persigo a malícia
e o afago
de ser meio
do jeito que se me vicia.
insone, luto.
finjo que me esqueço
e não mais escuto
toda a dor que sou:
avesso, invejo-me.
sou o homem.
que me consome inteiro
persigo a malícia
e o afago
de ser meio
do jeito que se me vicia.
insone, luto.
finjo que me esqueço
e não mais escuto
toda a dor que sou:
avesso, invejo-me.
sou o homem.
3.6.09
VINTE E CINCO DE MAIO
Das origens. Não do ser humano, entidade coletiva, mas do homem único, individual, indivíduo. Não da espécie, mas do espécime.
- De onde vim?
- Com quem sempre sonhei?
- Por que escrevo?
- Onde adquiri meus medos?
- De quem comprei a existência?
- De onde vim?
- Com quem sempre sonhei?
- Por que escrevo?
- Onde adquiri meus medos?
- De quem comprei a existência?
VINTE E TRÊS DE MAIO
Funciona assim: a produção aumenta desnecessariamente, sem nenhum motivo interessante.
Então vem o caos, com aquele pouquinho de ódio e exclama:
- Uia!
Então vem o caos, com aquele pouquinho de ódio e exclama:
- Uia!
VINTE DE MAIO
O silêncio, este longo hiato sem vogais nem consoantes. O silêncio, como meus pensamentos o invejam. O silêncio.
DEZENOVE DE MAIO
Cada nova pontada dolorida em minha cabeça, cada inédito verso dolorido em meu coração ,cada sincera prece ardente em minha alma, cada um, cada um. Arde.
2.6.09
1.6.09
Para começar a semana
"Um romance, um livro é inesgotável, você o revisita e aquilo ganha sentidos diferentes em diferentes momentos da sua vida. Você pensa em quem era da primeira vez que leu aquele livro, na diferença dessa segunda leitura, dessa terceira leitura."João Paulo Cuenca (1978- )
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