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30.12.08
E quem foi que não pensou que Van Gogh podia ter vendido sua orelha para Beethoven? Pois se o músico frustrou-se pela maldição exata de ser surdo, morreu sem conhecer suas mais belas canções, o outro vai lá e decepa a orelha achando que para nada lhe servia aquele adorno horrível para as cabeças? Ora, ora, por isso a miséria nunca terá fim. Van Gogh egoísta, podia ter dado sua orelha arrancada para alegrar a existência de Beethoven. Quem sabe se assim, quando morreu, não ia ver Deus mais contente, com cara de bonachão, esperando ansioso sentado nalgum banco imerso no espaço sideral.
29.12.08
Van Gogh doido, coitado!, ou sorte, vai saber. Não tinha a menor consciência do que ocorria, ou fingia que não tinha, e pintou os seus melhores quadros nesse seu estágio final de torpor e loucura. Insensatez que queria às vezes Ana Clara ter, só para profanar os valores que eram lhe ditados desde criancinha, só para reclamar os direitos que sua condição de animal lhe pedia. Só para impedir que a fome fosse uma realidade no mundo.
28.12.08
E a miséria nunca terá fim. A frase, incrustada nos recantos perdidos da mente, fazia Ana Clara desabrochar em uma lágrima preguiçosa, que ia escorrendo devagar. As pessoas que andavam afoitas na rua não eram capazes nem de perceber a música de Beethoven, quanto menos as lágrimas lentas, quase nada, quase invisíveis do rosto dela. E Ana Clara sabia que a frase foi a última dita por Van Gogh, em seu leito de morte.
27.12.08
Mas, afora isso, afora as belezas que cercam a imaginação, Ana Clara percebia, não era tola ela, que era tudo ilusão, que o mundo anda complicado demais para caber a felicidade. E vai ver até a cicatriz do sol foi um tombo cruel e ele pode estar se reclamando para si mesmo ou para seus colegas do espaço: - Êta, êta, êta... Sei não até quando suportarei essa dor que não me mata de verdade mas me mata de dor. Êta, êta, êta... Acho que vou me aposentar.
26.12.08
Ana Clara se lembrou que era artista de pensamento. Isso porque nunca tinha sequer pintado um quadro, nem era boa em fazer desenhos, nunca se viu estampando figuras em lugares nenhuns, mas sentia por dentro um ímpeto de que tinha viço para deslumbrar o mundo com magníficas pinturas. E o dia merecia um quadro, óleo em tela, óleo em bela, óleo dela, óleo que lembrava o calor da sua cama quentinha, dela quentinha, dos devaneios da noite.
25.12.08
Via as pessoas como se fossem pessoas de verdade. E todos parados, olhando ao redor, eram um delírio sadio, engraçado. A luz que vinha de cima parecia opaca, como se o sol tivesse caído, levado três pontos, e mostrasse uma cicatriz simpática no meio da testa. Shhh, shhh, shhh, shhh, era o vento botando o dedo em riste no meio dos lábios, dizendo para as gentes andarem mais devagar, menos ruído, shhh, shhh, para não acordar neném, para não atrapalhar sinfonia de Beethoven, para não apagar os sonhos bons. Shhh, shhh, shhh, shhh... bem de levinho o vento avisando que a vida amanheceu bonita e pronta para ser vivida.
24.12.08
A diferença era que era ela quem pensava. E andando no meio da multidão vinha-lhe à cabeça uma sonata de Beethoven, como se a música privativa e muda fosse, que só ela ouvia e se deliciava. Os outros, no caos urbano, não percebiam os estímulos delicados do compositor alemão. Ana Clara sentia-se feliz por redescobrir o mundo dessa forma, e sua felicidade impregnada dos anos tenros de sua juventude, a completavam cheia de um riso sincero, sorriso, só riso. Nada de novo detrás do sol.
23.12.08
22.12.08
Ana Clara decidiu se vestir. Depois da noite maravilhosa, da chuva chovendo, da carta para Deus, era hora de pôr roupas e ser gente novamente. Agora até nome ela se lembrava que tinha e então era mais uma pessoa pronta para o convívio social. Não era mais nua em verso, em pêlo, em pele ruborizada e tranqüila. Não era mais quentinha, cheiro doce que emanava de sua cama e para sua cama. Agora era gente novamente, com toda a implicância que tal conceito traz consigo, sem pestanejar nem se revoltar com nada.
21.12.08
Enquanto isso, Eva, a garota experimental que vivia batendo as canelas nos móveis quando tropeçava no escuro, ponderava novas visões do cosmo:
- De que me vale um diploma se a miséria impera em todas as nações do mundo?
- De que me importa ser mal-vestida se minha honra pode ser aparente em uma sociedade hipócrita?
- Será que mais me valeria ser stripper de uma casa noturna ou protagonista dos sonhos eróticos de adolescentes imberbes?
- De que me vale fingir ser bêbada revoltada com os preconceitos que regem os costumes usuais do mundo se ao final das contas não passo de mais uma corrompida?
- Será que um dia ainda terei coragem de pular do alto da Torre Eiffel cantando Raul Seixas bem alto pra todo mundo ouvir?
- Será que os franceses vão entender a genialidade do Raul, em português?
- Estou olhando o mundo pela janela.
- De que me vale um diploma se a miséria impera em todas as nações do mundo?
- De que me importa ser mal-vestida se minha honra pode ser aparente em uma sociedade hipócrita?
- Será que mais me valeria ser stripper de uma casa noturna ou protagonista dos sonhos eróticos de adolescentes imberbes?
- De que me vale fingir ser bêbada revoltada com os preconceitos que regem os costumes usuais do mundo se ao final das contas não passo de mais uma corrompida?
- Será que um dia ainda terei coragem de pular do alto da Torre Eiffel cantando Raul Seixas bem alto pra todo mundo ouvir?
- Será que os franceses vão entender a genialidade do Raul, em português?
- Estou olhando o mundo pela janela.
12.12.08
11.12.08
“Caro Deus
(sinceramente, até hoje não aprendi se tenho que o tratar por você, senhor, vossa excelência ou outros pronomes antiquados e feios)
Hoje amanheci com vontade de escrever um bilhete para as estrelas. Então me disseram que a estrela não tem vida e eu fiquei pensando assustada porque a gente se fia em papo de astrônomo que garante estarem vivas várias estrelas e não todas estarem mortas e nós aqui sem sabermos por causa da morosa velocidade da luz. Já pensou se amanhã ou depois a gente acorda e está tudo escuro porque as estrelas já morreram e a luz já se cansou e cumpriu todo o caminho até nossos olhos? Um apagão intergaláctico culminaria com o fim de tudo ou a tristeza seria, como sempre, só passageira?
Acho que você não deve ter a resposta para esse meu dilema, pois já perguntei até para o garoto mais inteligente da turma e ele também não soube me responder, de tal forma que não seria você o sabe-tudo capaz de solucionar a questão. Um dia eu vou conhecer algum gênio americano de Harvard, daqueles que aparecem em filmes de ficção científica, e então obterei a certeira.
Agora me explica uma coisa? Para que servem os anjos? Quando ocorrem as fatalidades eles estão de férias ou apenas tirando um costumeiro cochilo depois do almoço? Como vou saber o nome do meu anjo? É sempre o mesmo ou de vez em quando eles são trocados? Quando eu morrer ele se aposenta ou recebe outra missão de defesa para cumprir? Os anjos são filhos de quem?
Ando preocupada com outro ponto fundamental da história. Sempre aprendi que você, sendo criador, existia antes de tudo. Então você é filho de quem?
Vou terminando por aqui, pois tenho uma porção de grandes coisas a conquistar e não posso ficar aqui parada. Espero ansiosamente que me responda, senão quando eu morrer e chegar aí vou lhe dar um puxão de orelhas.
Beijos de
Ana Clara.”
(sinceramente, até hoje não aprendi se tenho que o tratar por você, senhor, vossa excelência ou outros pronomes antiquados e feios)
Hoje amanheci com vontade de escrever um bilhete para as estrelas. Então me disseram que a estrela não tem vida e eu fiquei pensando assustada porque a gente se fia em papo de astrônomo que garante estarem vivas várias estrelas e não todas estarem mortas e nós aqui sem sabermos por causa da morosa velocidade da luz. Já pensou se amanhã ou depois a gente acorda e está tudo escuro porque as estrelas já morreram e a luz já se cansou e cumpriu todo o caminho até nossos olhos? Um apagão intergaláctico culminaria com o fim de tudo ou a tristeza seria, como sempre, só passageira?
Acho que você não deve ter a resposta para esse meu dilema, pois já perguntei até para o garoto mais inteligente da turma e ele também não soube me responder, de tal forma que não seria você o sabe-tudo capaz de solucionar a questão. Um dia eu vou conhecer algum gênio americano de Harvard, daqueles que aparecem em filmes de ficção científica, e então obterei a certeira.
Agora me explica uma coisa? Para que servem os anjos? Quando ocorrem as fatalidades eles estão de férias ou apenas tirando um costumeiro cochilo depois do almoço? Como vou saber o nome do meu anjo? É sempre o mesmo ou de vez em quando eles são trocados? Quando eu morrer ele se aposenta ou recebe outra missão de defesa para cumprir? Os anjos são filhos de quem?
Ando preocupada com outro ponto fundamental da história. Sempre aprendi que você, sendo criador, existia antes de tudo. Então você é filho de quem?
Vou terminando por aqui, pois tenho uma porção de grandes coisas a conquistar e não posso ficar aqui parada. Espero ansiosamente que me responda, senão quando eu morrer e chegar aí vou lhe dar um puxão de orelhas.
Beijos de
Ana Clara.”
10.12.08
Por isso era só ver chuva chovendo que logo desabrochava a vontade de escrever uma carta. E para Deus a carta desta vez tinha de ser bem caprichada, para ver se ele respondia. Será que tinha caligrafia bonita? Achava que não, um homem ocupado como ele não ia ter tempo disponível para ter letra enfeitada. Mas também não podia ser letra de médico, afinal nem todo mundo é farmacêutico para entender aquelas garatujas. Será que Deus fala português? Com essa onda de globalização é perigoso ele ter que apelar para algum intérprete, pois deve ter aprendido apenas o inglês...
9.12.08
- Deus é onipresente, onipotente e onisciente – dizia, mesmo sem convicção, o patético professor de religião. E quando ela perguntava se tinha sido Deus que havia dito aquilo ele ficava desconcertado e gaguejava que estava na bíblia ou no livro do catecismo. E tudo ficava por aquilo mesmo, afinal com autoridade ninguém se mete para não levar castigo feio na frente de todo mundo. E podiam pensar que ela estava possuído pelo demônio ou falando em nome de algum discípulo de satã.
8.12.08
Por isso era só ver chuva chovendo, neurônios mais rápidos catalisados pelos íons chovidos, vontade louca de pegar um papel e escrever. Escrever uma carta para alguém que talvez ninguém conhecesse. Uma carta pra quem? Para Deus? Escrever uma carta para Deus parecia ser uma idéia interessante pois ela sempre tinha desejado falar com Deus para saber se de fato ele existiria. Mas quem entregaria a carta a Deus? Qual o endereço de Deus?
6.12.08
- Professora, por que as pessoas escrevem? Eu nunca vi um cachorro escrever e parece ele ser muito feliz do jeito que é... É verdade que os animais não escrevem? Quem inventou lápis, papel, caneta, giz de cera, pincel atômico, bomba atômica, equações do segundo grau, números complexos? – Num surto parecia que vinham à tona todas as perguntas cruciais de sua existência, exatamente as mesmas dúvidas não respondidas que têm o poder de transformar a concepção do universo, os conceitos de mundo e submundo, a sujeira que ninguém limpou ou que foi varrida pra debaixo do tapete da sala de estar onde a burguesia se reúne para tomar café e maldizer a vida alheia.
5.12.08
Por isso era só ver chuva chovendo, e a chuva chovia tão bonita naquele dia que não parecia nem água, mas sim diamantes feitos na melhor sala do laboratório-natureza, era só ver chuva chovendo bonita que ela tinha vontade de botar para fora todos os sentimentos contidos. Segundo a sua crença própria, essa era a maneira que o seu organismo encontrava para manifestar o poder catalisador dos íons da chuva. Então dá-lhe papel e vamos escrever uma carta para alguém. Quem será esse alguém?
4.12.08
Uma vez disseram que a chuva quando chovia mexia num não-sei-quê e liberava ou produzia, não tinha entendido muito bem, um monte de íons que eram partículas elétricas. Então ela sempre achava que os íons tinham a função de catalisar as reações dos seus neurônios. Talvez fosse, aliás, o único ponto em que ela acreditava nas ciências aprendidas na escola, mesmo porque era o único ponto que ela poetizava as ciências apreendidas por seu cérebro.
2.12.08
Enquanto isso, Eva, a garota experimental que naufragara feito Dinamene de Camões na leveza tormenta do Atlântico meridional, monofilosofava pensamentos originais e perturbadores:
- Quem inventou a pena de morte pensa que com a morte de quem matou vai resgatar a vida de quem morreu matado?
- E o carrasco por ser matador também não merece a morte da pena instituída?
- Fico pensando... A agulha da injeção letal tem de ser desinfetada, descartável, diabo a quatro, ou não?
- Quem vai ter coragem de revolucionar os valores pré-existentes para quebrar a ordem estabelecida?
- Tem gente que tem medo de fantasma. Por que é tão difícil assim ter gente que tem medo da gente? Ou estou equivocada?
- Quem vai prostituir os neurônios em busca de uma neo-análise crucial da existência humana?
- Quem inventou o trabalho não estava contente em não ter mais o que fazer?
- Vou tomar banho. Quer vir comigo?
- Quem inventou a pena de morte pensa que com a morte de quem matou vai resgatar a vida de quem morreu matado?
- E o carrasco por ser matador também não merece a morte da pena instituída?
- Fico pensando... A agulha da injeção letal tem de ser desinfetada, descartável, diabo a quatro, ou não?
- Quem vai ter coragem de revolucionar os valores pré-existentes para quebrar a ordem estabelecida?
- Tem gente que tem medo de fantasma. Por que é tão difícil assim ter gente que tem medo da gente? Ou estou equivocada?
- Quem vai prostituir os neurônios em busca de uma neo-análise crucial da existência humana?
- Quem inventou o trabalho não estava contente em não ter mais o que fazer?
- Vou tomar banho. Quer vir comigo?
25.10.08
Só que se a chuva não fosse nada disso, se resumisse àquela idéia física de que o ciclo da água é algo natural e normal, sem nenhuma possibilidade dos desvarios seus serem realidade, então é que ela teria descoberto mesmo o motivo para se jogar dali do nono andar e virar espírito solto quando cair no meio da rua, atrapalhando o trânsito. Onde estariam então os gnomos? E os sentimentos do mundo? Não! Seria deveras triste para ser verdade: imagine que pacato o mundo intrínseco em reações químicas que tentam em vão explicar a evaporação da água e os fenômenos da chuva que chove. Chove e pronto.
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