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10.7.12
Oração
Não há segredo. Nem tudo o que agrada, agride. Nem tudo o que degrada, estraga.
O que secreta, entretanto, atiça, maltrata de bem, solapa o que deseja, seja, beija.
Amém.
16.12.09
27.11.09
18.11.09
16.11.09
Ok, confesso: sou um colecionador de medos. De todos os tamanhos, formatos, cores. Uns vêm quase natimortos. Outros se demoram a crescer, engordar, matar e, depois, morrer. Nenhum me absolve, ninguém me condena; medos existem para serem vividos.
Em geral, os medos são principalmente injustificáveis. Porque, assim como preconceitos, surgem antes, bem antes, dos problemas existirem de fato. São um prenúncio, uma introdução, um prólogo -- da árvore, a semente; do sexo, a conquista. Por isso, são medos. Pressupõem a possibilidade da perda, do fracasso, do erro.
Queria ter um espantalho de medos. Plantado, imóvel, de braços abertos e cara feia. Dentro de cada narina.
Em geral, os medos são principalmente injustificáveis. Porque, assim como preconceitos, surgem antes, bem antes, dos problemas existirem de fato. São um prenúncio, uma introdução, um prólogo -- da árvore, a semente; do sexo, a conquista. Por isso, são medos. Pressupõem a possibilidade da perda, do fracasso, do erro.
Queria ter um espantalho de medos. Plantado, imóvel, de braços abertos e cara feia. Dentro de cada narina.
14.2.09
Retrato do jornalista quando jovem
Aos 21 anos, não é muito comum escrever uma autobiografia. Faltam cabelos brancos a guardar lembranças e histórias, faltam rugas onde a vida se inscreve, falta aquela sisudez própria de quem já levou muitos tropeços.
Semana passada, uma amiga olhou para mim e disse:
- Edison, o jornalismo nasceu para você!
Exageros à parte, tenho consciência de que todos os fatos marcantes de minha vida implicam no futuro jornalista que quero ser.
Cresci com a tranqüilidade característica das cidadezinhas do interior. Em Taquarituba (região sudoeste do estado), jogava bola na rua, brincava de gude e construía minha fazenda imaginária com bichinhos de chuchu e batata. Mas o deslumbramento vinha à noite, quando meu pai me pegava ao colo e abria um verbete ilustrado da Enciclopédia Barsa. Sem o saber, ele desenvolvia em mim a fascinação pelo conhecimento e o prazer da leitura.
E foi só aprender a ler para inaugurar o meu vício. Dos gibis e do Monteiro Lobato aos poemas de Leminski e à filosofia de Kant, foram anos entre as páginas. No meio do caminho, definia-me jornalista.
Em casa havia, no quartinho dos fundos, uma Olivetti antiqüíssima. E eu, aos 12 anos, mesmo com o computador sobre a mesa, achava que para ser jornalista era preciso máquina de escrever. Aquele charme romântico. E, idiota, corri pra desenterrar a velharia. Na volta, escorreguei no tapete e levei um tombo fenomenal: Olivetti e eu sofremos escoriações leves, mas suficientes para que eu entendesse que o computador já instalado ao canto da sala era bem mais prático para minhas primeiras aventuras com as palavras.
Quando tinha 14 anos, participei de um concurso para jovens repórteres, promovido pelo jornal O Estado de S. Paulo, e fui classificado entre os 20 melhores. Ao voltar para Taquarituba, com o resultado, consegui uma vaga no semanário local. Começava a realizar meu sonho. Da pauta à fotografia, foram reportagens e reportagens. Em jornal pequeno a gente aprende de tudo, porque acumula funções: cobra o escanteio, corre pra cabecear e, às vezes, ainda tem que defender o gol para o time adversário.
Na 16.ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, no ano 2000, vi meu Enigma deixar de ser só meu. Aquele sentimento de “vai, filho, vai ser livro no mundo”. A obra foi lançada. Continuei me dedicando à literatura, nas horas vagas, o que me rendeu uma boa quantidade de prêmios e participações em diversas antologias.
Penso que todo jornalista deve cultivar uma veia leonardesca. Afinal, mesmo buscando ser especialista em determinado assunto, é fundamental possuir a visão do todo, acumulando conhecimentos os mais variados possíveis. Só assim se consegue o cultivo diário da curiosidade e o desenvolvimento necessário das diferenciadas pautas. E foi com tal ânimo que fui monitor do Laboratório de Ciências do colégio, onde aprendi muito de química, física e biologia. E fiquei em 12.º lugar na Olimpíada Paulista de Química. E fui medalha de bronze na Olimpíada Brasileira de Astronomia.
Em 2002, chegou a hora de arrumar minha tralha e sair da casa dos meus pais. Comecei a cursar Jornalismo, na Universidade Estadual Paulista, em Bauru (centro-oeste paulista). Sempre entendi que o bom aprendizado vem de uma mistura do que ocorre dentro com o que ocorre fora da sala de aula. E, pensando nisso, expandi minhas atuações o quanto pude. Durante o curso, desenvolvi dois projetos de iniciação científica, ambos fomentados pelo CNPq. Participei de todos os congressos, simpósios e seminários que me apareceram. Desenvolvi mais meu hábito de leitura, chegando a devorar quatro livros por semana.
Estive no Fórum Social Mundial, em 2003, integrando a equipe de estudantes que fez a cobertura do evento. Uma experiência inesquecível: as discussões teóricas importantes, o gigantismo do Fórum, o ar Woodstock do acampamento e a miscelânea de nações, bandeiras e ideais.
Em meus quatro anos de Unesp, dois prêmios jornalísticos: o 2.º lugar no Intercom e o 1.º no Circuito Estado de Jornalismo. Este me rendeu uma bolsa de pós-graduação (curso Master em Jornalismo para Editores).
Agora, tendo concluído as aulas da faculdade, mudei-me para São Paulo. Em busca de meu espaço. Por que quero ser jornalista? Minha história de vida é a resposta. E não pretendo que os pontos sejam confundidos com reticências.
(Escrito em meados de 2005)
Semana passada, uma amiga olhou para mim e disse:
- Edison, o jornalismo nasceu para você!
Exageros à parte, tenho consciência de que todos os fatos marcantes de minha vida implicam no futuro jornalista que quero ser.
Cresci com a tranqüilidade característica das cidadezinhas do interior. Em Taquarituba (região sudoeste do estado), jogava bola na rua, brincava de gude e construía minha fazenda imaginária com bichinhos de chuchu e batata. Mas o deslumbramento vinha à noite, quando meu pai me pegava ao colo e abria um verbete ilustrado da Enciclopédia Barsa. Sem o saber, ele desenvolvia em mim a fascinação pelo conhecimento e o prazer da leitura.
E foi só aprender a ler para inaugurar o meu vício. Dos gibis e do Monteiro Lobato aos poemas de Leminski e à filosofia de Kant, foram anos entre as páginas. No meio do caminho, definia-me jornalista.
Em casa havia, no quartinho dos fundos, uma Olivetti antiqüíssima. E eu, aos 12 anos, mesmo com o computador sobre a mesa, achava que para ser jornalista era preciso máquina de escrever. Aquele charme romântico. E, idiota, corri pra desenterrar a velharia. Na volta, escorreguei no tapete e levei um tombo fenomenal: Olivetti e eu sofremos escoriações leves, mas suficientes para que eu entendesse que o computador já instalado ao canto da sala era bem mais prático para minhas primeiras aventuras com as palavras.
Quando tinha 14 anos, participei de um concurso para jovens repórteres, promovido pelo jornal O Estado de S. Paulo, e fui classificado entre os 20 melhores. Ao voltar para Taquarituba, com o resultado, consegui uma vaga no semanário local. Começava a realizar meu sonho. Da pauta à fotografia, foram reportagens e reportagens. Em jornal pequeno a gente aprende de tudo, porque acumula funções: cobra o escanteio, corre pra cabecear e, às vezes, ainda tem que defender o gol para o time adversário.
Na 16.ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, no ano 2000, vi meu Enigma deixar de ser só meu. Aquele sentimento de “vai, filho, vai ser livro no mundo”. A obra foi lançada. Continuei me dedicando à literatura, nas horas vagas, o que me rendeu uma boa quantidade de prêmios e participações em diversas antologias.
Penso que todo jornalista deve cultivar uma veia leonardesca. Afinal, mesmo buscando ser especialista em determinado assunto, é fundamental possuir a visão do todo, acumulando conhecimentos os mais variados possíveis. Só assim se consegue o cultivo diário da curiosidade e o desenvolvimento necessário das diferenciadas pautas. E foi com tal ânimo que fui monitor do Laboratório de Ciências do colégio, onde aprendi muito de química, física e biologia. E fiquei em 12.º lugar na Olimpíada Paulista de Química. E fui medalha de bronze na Olimpíada Brasileira de Astronomia.
Em 2002, chegou a hora de arrumar minha tralha e sair da casa dos meus pais. Comecei a cursar Jornalismo, na Universidade Estadual Paulista, em Bauru (centro-oeste paulista). Sempre entendi que o bom aprendizado vem de uma mistura do que ocorre dentro com o que ocorre fora da sala de aula. E, pensando nisso, expandi minhas atuações o quanto pude. Durante o curso, desenvolvi dois projetos de iniciação científica, ambos fomentados pelo CNPq. Participei de todos os congressos, simpósios e seminários que me apareceram. Desenvolvi mais meu hábito de leitura, chegando a devorar quatro livros por semana.
Estive no Fórum Social Mundial, em 2003, integrando a equipe de estudantes que fez a cobertura do evento. Uma experiência inesquecível: as discussões teóricas importantes, o gigantismo do Fórum, o ar Woodstock do acampamento e a miscelânea de nações, bandeiras e ideais.
Em meus quatro anos de Unesp, dois prêmios jornalísticos: o 2.º lugar no Intercom e o 1.º no Circuito Estado de Jornalismo. Este me rendeu uma bolsa de pós-graduação (curso Master em Jornalismo para Editores).
Agora, tendo concluído as aulas da faculdade, mudei-me para São Paulo. Em busca de meu espaço. Por que quero ser jornalista? Minha história de vida é a resposta. E não pretendo que os pontos sejam confundidos com reticências.
(Escrito em meados de 2005)
26.1.09
Sem título, sem crônica
Gastei o dia tentando caçar uma borboleta tão bonita que coubesse nesta crônica. Mas não encontrei: todas elas eram bem maiores do que esta crônica e fiquei com pena de caçá-las.
Então hoje não tem crônica.
Então hoje não tem crônica.
22.1.09
Quase um poema
totalmente
p
e
r
d
i
d
o
quase encontrei o amor
mas o amor
ah! o amor
o amor f
u
g
i
u
-
m
e rapidinho.
p
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d
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quase encontrei o amor
mas o amor
ah! o amor
o amor f
u
g
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u
-
m
e rapidinho.
17.1.09
Das negações
Nunca fui a Paris, nem vi Cortázar, nem chorei ao pé de um túmulo. Nunca li Sartre, nem ouvi o hino mexicano, nem vesti camisa cáqui. Nunca comprei salvação, nem sonhei acordado, nem hipnotizei alguém.
1.12.08
Pequeno balanço
Toda semana recebo um e-mail com as ofertas da Livraria Martins Fontes e penso que já não cabem mais livros em minha estante - mas cabem muitos, infinitos, em meus olhos tremendamente míopes;
Todo mês tem lua cheia;
Toda semana prometo para mim mesmo que vou organizar minha vida: responder centenas de e-mails pendentes, acabar aquele projeto, costurar um lembrete mental para não me afundar em outros, ir ao médico cuidar do estômago - desnecessário dizer, evidentemente, que jamais cumpro promessas que faço a mim mesmo;
Todo ano completo aniversário, mas isso não é importante porque é assim com todo mundo que não morre antes;
Toda noite eu choro;
Todo dia alguém me liga com alguma história estapafúrdia do tipo "você precisa fazer uma denúncia porque meu filhinho teve o sapato engolido pela escada rolante do Shopping Morumbi" - sinto muito por ter educação para ouvir tudo antes de desligar;
Todo mês eu queria viajar para onde o dinheiro desse, mas o dinheiro nunca dá então eu fico em casa;
Todo dia eu escrevo;
Toda hora sonho com aquele seu olhar.
Todo mês tem lua cheia;
Toda semana prometo para mim mesmo que vou organizar minha vida: responder centenas de e-mails pendentes, acabar aquele projeto, costurar um lembrete mental para não me afundar em outros, ir ao médico cuidar do estômago - desnecessário dizer, evidentemente, que jamais cumpro promessas que faço a mim mesmo;
Todo ano completo aniversário, mas isso não é importante porque é assim com todo mundo que não morre antes;
Toda noite eu choro;
Todo dia alguém me liga com alguma história estapafúrdia do tipo "você precisa fazer uma denúncia porque meu filhinho teve o sapato engolido pela escada rolante do Shopping Morumbi" - sinto muito por ter educação para ouvir tudo antes de desligar;
Todo mês eu queria viajar para onde o dinheiro desse, mas o dinheiro nunca dá então eu fico em casa;
Todo dia eu escrevo;
Toda hora sonho com aquele seu olhar.
12.8.08
são paulo, meu amor
quando são paulo nasceu
eu era menino e oscar me recebia na barra funda
com suas curvas de mulher
um encantamento
nenhuma decepção
quando são paulo nasceu
o ritmo a fumaça a calçada o trânsito o desejo o tamanho
tudo me agradava
até o sacolejo dos ônibus
até o medo de ser assaltado
ou assassinado
eu era um menino imberbe
e trazia na bagagem de férias uma porção de sonhos
que sei
que nunca
irei
realizar
(portanto, nem os sonho mais)
eu era menino e oscar me recebia na barra funda
com suas curvas de mulher
um encantamento
nenhuma decepção
quando são paulo nasceu
o ritmo a fumaça a calçada o trânsito o desejo o tamanho
tudo me agradava
até o sacolejo dos ônibus
até o medo de ser assaltado
ou assassinado
eu era um menino imberbe
e trazia na bagagem de férias uma porção de sonhos
que sei
que nunca
irei
realizar
(portanto, nem os sonho mais)
21.7.08
Hoje
Quando acordei, vi-me transformado em um chafariz. Quebrado. Ao redor, os mendigos vinham procurar água e voltavam de boca seca, salivando nada. A praça toda aos meus pés, como se eu fosse o rei. Um rei morto. Um ditador deposto. Um semideus vilipendiado.
Foi então que um menininho de sete anos incompletos mijou em minha bacia. Quentinho, nojento. Lembrei-me que, além de tudo e mais um pouco, sou um completo perdedor.
Foi então que um menininho de sete anos incompletos mijou em minha bacia. Quentinho, nojento. Lembrei-me que, além de tudo e mais um pouco, sou um completo perdedor.
17.7.08
Misantropia assumida
Assíduo declinador, Edison Costa da Veiga Junior se apresentou em retirada. Do lado de fora, capitaneará a debandada das tropas, assistirá a queda do império nosocômico e, em seguida, correrá contra a enxurrada de infames freqüentadores.
2.7.08
(antigo) poema pra fazer você dormir
Quero um poema macio
quase vazio
pra te embalar no frio
desta solidão de verão
e fazer você dormir
Quero um poema eterno
quase terno
pra te embalar no inferno
desta vida sofrida
e fazer você dormir
E você dormindo é tão linda!
Assim despreocupada na sutileza do cetim...
quase um oceano sem fim no lençol!
O corpo esparramado é só alma
e mais nada!
O sonho parece um ano de calma
e não carece mais planos:
O amanhã então não te preocupa!
quase vazio
pra te embalar no frio
desta solidão de verão
e fazer você dormir
Quero um poema eterno
quase terno
pra te embalar no inferno
desta vida sofrida
e fazer você dormir
E você dormindo é tão linda!
Assim despreocupada na sutileza do cetim...
quase um oceano sem fim no lençol!
O corpo esparramado é só alma
e mais nada!
O sonho parece um ano de calma
e não carece mais planos:
O amanhã então não te preocupa!
29.4.08
Imaginação
É bonito construir pessoas, na imaginação. Umas têm histórias, outra só futuro; umas feias, outras um ponto escuro; umas com parentes por todo lado. Gosto de construir pessoas, na imaginação. Só para poder matá-las, uma a uma.
28.4.08
Ar-tamanho
vomito jeitos de esganar o céu:
* quedar-me até o inverso agir;
* colecionar gotas de chuva;
* saltar de pára-quedas e não abrir o pára-quedas;
* irritar raios, relâmpagos e trovões;
* sair procurando por deus no mundo;
* subir lá em cima e apagar a luz;
uma noite, conseguirei
não chorar
pelos males do universo.
* quedar-me até o inverso agir;
* colecionar gotas de chuva;
* saltar de pára-quedas e não abrir o pára-quedas;
* irritar raios, relâmpagos e trovões;
* sair procurando por deus no mundo;
* subir lá em cima e apagar a luz;
uma noite, conseguirei
não chorar
pelos males do universo.
23.4.08
Artimanha
invento jeitos de enganar o tédio:
* remendar bolhas de sabão estouradas;
* fotografar pensamentos alheios;
* vituperar tatuzinhos de jardim;
* gostar de algumas coisas só na teoria;
* odiar outras por precipitação;
* fingir que tédios são tesões.
um dia, conseguirei
não rir
da desgraça própria.
* remendar bolhas de sabão estouradas;
* fotografar pensamentos alheios;
* vituperar tatuzinhos de jardim;
* gostar de algumas coisas só na teoria;
* odiar outras por precipitação;
* fingir que tédios são tesões.
um dia, conseguirei
não rir
da desgraça própria.
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