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6.6.10

26. A luz que alumina incansavelmente

Para exercer a troca constante de fluidos corporais, dormiam um dentro do outro.

- Não nos cansamos.

- Aguentamos com prazer intenso.

- Amenzamos.

Já haviam combinado inclusive que a morte seria simultânea, num longo abraço, quando velhinhos se sentissem.

- Amamo-nos.

- Queremo-nos.

Porque só assim eram luz. Luzes. Sempre acesas.

5.5.10

25. Das lembranças

- Até quanto quando conta conta?

- Um mil, novecentos e cinquenta e seis.

- E depois que depois pois então depois?

- Acabou.

- Acabou por causa de quê?

- Espie dentro da caixa laranja. Não há mais palitos dentro da caixa laranja e nem laranjas se equilibrando sobre os palitos dentro da caixa laranja.

- Um mil, novecentos e cinquenta e seis.

- Acabou.

25.4.10

24. Dos sabores

Queria uma salada de flores, como se quaisquer delas de comer fossem. Não eram. Envenenou-se. Depois se jogou pela janela.

- Defenestrou-se.

- Isso. Dá no mesmo.

- Defenestrar é o verbo mais bonito da língua. Resume em única palavra toda uma ideia, toda uma expressão.

- Bonito, bonito.

Depois veio um chá de flores. Flores e flores. Flores no caixão.

Ezequiel era mesmo um sujeito bastante estranho, com suas manias de enciclopédia.

9.4.10

23. Das cores

Azul tentou passar adiante, viu branco, insistiu, viu preto, atravessou, viu verde, viu vermelho, viu vinho, virou ave, ceuzou.

Amarelo tentou dormir, foi branqueando, branqueando, branqueando, até que sumiu no meio do sofá bege.

Laranja amanheceu radiante, depois palideceu. Inventou brilho que nem sol, cegou olhos alheios, depois roseou, roseou, até roxear no horizonte. Enegreceu.

Verde igual à natureza. Pra ver. De novo. Verde.

Roxo está de luto porque morreu a esposa, ficaram os filhos, as tralhas, o resto da mortalha escura que nem o luto, do tamanho dos sonhos que agora se chamam pesadelos e são em preto-e-branco.

O burro fugiu.

Flicts teimou tanto até que existiu.

20.3.10

22. Quanto custa um recomeço?

Estridente mas intrépido, o voo tropeçou e caiu. Abrupto. Prático. Absolutamente tétrico. Nem trafegou muito de cima até aqui. Triste, caiu.

- Quanto custa um recomeço?

- Certas coisas não têm preço.

- Mesmo se eu apreciar bastante?

- O quanto basta o seu bastante?

- Do tamanho de um infinito... Um infinitinho, mas um infinito.

- Quanto custa um recomeço? Eu mereço só o que peço.

Através do outro tropeço, o voou caiu de novo. Atarantado que nem um pandemônio. Esquisito, escorregadio, esquálido, ex-funcionário.

- Quanto custa um recomeço?

- Está na tabela o justo preço.

16.10.09

21. Responsa e Sussa

- Sussa, tudo bem?

- Sissempre. E você?

- Nanunca.

- Quente não a cabeça, rapá!

- Tanta coisa prafazer, tanta vida praviver...

- Ou faça, ou pense. Ou viva, ou pense. Cêquesabe.

- Taí. Outracoisa prapensar, problema, problema, problema.

10.9.09

20. Das comparações tristes

- Dia triste como um estilingue.

- Dia triste como um poeta cego.

- Dia triste como um padre ateu.

- Dia triste como o avesso de um espelho.

- Dia triste como um céu nublado.

- Dia triste como um rei descalço.

- Dia triste como a morte de uma criança.

23.8.09

19. O silêncio não é exclusividade minha

- O silêncio não é exclusividade minha.

- Nem minha.

- Tanto que falamos, aliás. E falamos tanto que nos perdemos do próprio eco.

- Eco?

- Por que o diálogo e não o monólogo? Por que o diálogo troglodita? Queria poder ser um ponto de interrogação, desses que se entortam, cabisbaixos, narigudos, indecisos.

- Pois saiba que você é o narigudo em pessoa.

- Mentira!

- Verdade...

- E onde está minha indecisão? Onde está minha cabeça abaixada? Onde estou?

- Inútil tentar convencer os cegos a enxergar.

- Pois é. Dia está triste como um poeta cego.

- Dia está triste como um padre ateu.

(Ainda bem que ele já morreu.)

3.8.09

18. A volta de Verinha ao varal

Arriscava um acidente, ali, dependurada novamente, a se secar, pois adiantava-se-lhe um aceno, assim, afinco, alimentando-se de tédio, abrupto, do tédio, absurdo, que era estar sozinha sob o sol, quarando, ao léu, ao vento, ao deus-dará, se é que dará, quem sabe, o fato é que Verinha estava esticada, ao céu, ou melhor, sob o céu, tão seu, tão meu, assim tantificado entrementes, amiúde, cerzindo-se, empanando-se, enquanto a água evaporava de si, abracadabrava-se, era o que importava e, óbvio, não havia diálogo porque a solidão é um silêncio absoluto fora de si.

1.7.09

17. Trêmulo, atrevido, intrépido, atrasado

Três coisas o atordoavam no metrô: a porta se abrindo, o trem correndo, o túnel. Atirava seu espírito contra o vidro da janelinha. Cuspia no banco. Quase vomitava.

- Trinta e dois, trinta e três, trinta e...

Contava carneiros pretos para disfarçar o pânico. Tremia. Pernas e braços. Cabeça.

Aproveitava a pausa de cada estação para gozar um instante ótimo do trajeto. E atrevia-se a trocar olhares maliciosos com cada uma das gostosas que avistava. As que correspondiam, pronto, logo estavam na sua lista. Telefônica. Cópula. Masturbatória. Outra cópula. Tesão.

Outra vez o metrô corria. Velocidade. Aumentando.

- Atchim! Atchim! Atchim!

Com uma garota presa em seu pau, ele sempre se atrasava para outro dia de trabalho.

11.6.09

16. As cidades, às cidades

Por onde passei, deixei alguns de meus pedaços. Porque, dizem, as células morrem o tempo todo, um pouco por vez.

- Um nariz!

- Um olho!

- Um pênis! (- É meu, é meu, é meu!, gritam meninas histéricas.)

Os agrados, segredados, jazem natimortos nas gavetas velhas, griladas, de antanho. Nelas, os grilos foram segregados, só para caberem os agrados.

- Agrido.

As gavetas não têm endereço fixo. Percorrem a totalidade das cidades onde me fiz. As mesmas que tumulam meus pecados, pedaços, cadarços e petardos.

19.5.09

15. Outro encontro

Estava frio quando Schaklee encontrou-se com Nelson, o morador da Rua Sem Dentes:

- Fazendo nada?

- Já foi feito.

- O que já foi feito?

- Fazendo nada, já foi feito.

- Mais velho que andar para a frente?

- Sim, quando as pessoas caminhavam em estágio rebobinar.

- E a existência era segura.

- E a poesia era automática.

- E os sonhos viviam de verdade.

- E a rua tinha dentes.

- A rua não tem dentes?

- Tem?

- Quem não tem dentes é você.

- Então o começo está errado. Certo seria morador da rua sem dentes.

- É no computador, dá para corrigir.

- Não acredito em correções.

16.4.09

14. Daltonismos morais

O sol era no céu um ponto amarelo como seu rosto. De novo. Mas agora quando o velho tarado que suicidou a namorada de vinte anos encontrou-se com o velhinho caolho que mora no meu cérebro inventando palavras (absolinto, tragidéia, cronopolitano):

- Para mim, amarelo é verde.

- Amarelo é vermelho, penso eu.

E assim, desse pequeno detalhe coloritransitivo, a diferença brota clara. Tão clara como um amarelo de sol. Como seu rosto no céu.

- Mas e a Linha Amarela?

- Verde, fácil.

- Vermelha, ou vai se perder por aí.

Era Jéssica o nome dela. Vinte anos. Seios rosados.

- Amarelos?

- Não, quase vermelhos.

- Verdes, então.

O velho tarado que suicidou a namorada de vinte anos recusava-se a acreditar que uma marciana tivesse trepado em sua cama.

- O nome disso é escapomoralissenciato.

2.4.09

13. Pequeno monólogo assombroso em um sebo sujo

No sebo sujo, um monólogo enviesado:

- Quero um livro que me ensine Cálculo Integral. Tem?

Silêncio.

- Por que não tem nada que ensine Cálculo Integral?

Silêncio novamente.

- Por favor, um livro de Cálculo Integral?

Silêncio persistente.

- Como é que se faz Cálculo Integral, moça?

Silêncio absoluto, inegável, insistente.

6.3.09

12. Nadas de arame

A cidade assim dá de comer aos pobres, enquanto os ricos passam fome em seus castelos rodeados por macacos endiabrados. Agilberto, um reles catador de lixo, entretém-se colecionando belos nadas de arame, um mais bonito que o outro, um mais perfeito que nenhum. É ele quem os constrói.

- Que tanto faz?

- Nada.

- Isso que não estou vendo não pode ser nada.

- Mas é.

- Você vende?

- Não, só vejo. Se vendesse precisaria pôr à venda.

- E por que não põe?

- Porque se colocasse, não mais veria.

- Como?

- A venda me taparia os dois olhos humanos, os dois olhos de vidro e os dois olhos de pensamento.

- Você só tem dois olhos de pensamento?

- Só.

- Dizem que a mosca tem quatro mil pares de olhos...

- Mentira.

- Não é não. Eu li numa revista.

- Mais mentira ainda.

- Talvez...

- E depois, você leu errado. O que ela tem é quatro mil facetas em cada olho.

- Descarada!

- Descarada.

- Para olhar melhor, minha netinha. Para olhar melhor... E crau!

- Ahn?

- Pior mesmo sou eu, que tenho quatro mil moscas em cada olho.

- Cada um, cada um.

- Cada quatro mil, cada quatro mil, cada quatro mil...

- Cada um tem o olhar que merece.

- Matei uma!

Agilberto continuou construindo nadas de arame.

30.1.09

11. Zumbi zureta, zzzZZZzzzZZZzzzZZZzzzZZZ

O pobreta, pobre poeta, acordou com elefantíase semântica. Para que isso jamais tornasse a se repetir, decidiu nem mais dormir nunca. Virou zumbi zureta.

- Tenho uma faca inutensílio para socorrear a você.

- E eu, uma espada multicolorida de hipnotizar.

- Então vamos falar de fotografia, porque adoro fotografar pensamentos. Pena, nem sempre eles se me revelam; por isso tenho preferido às vezes fotografar sentimentos e sabores.

- Você terapia ao rodopiar ou prefere tergiversar-me? Eu, verso.

- Na delícia de alimentar um balé de palavras, olvido os álibis para eleger sensações.

- Hum-hum.

- Nem-hum, nem-houtro. São sabor amora, porque sonoram maior.

- Preciso beber ao som de jazz. Lendo Neruda a dois. Enlouquecendo pétala-borboleta.

Zumbi, zureta, pobreta conversava consigo. Era pergunta e era resposta. Unívoco. Uníssono. Unílogo.

- Saudades de ser pedra. No sapato.

29.1.09

10. Diálogo acontecido dentro de meu sapato

- Vamos brincar de pedras?

- Como se faz? Com formigas caminhando sobre? Com cócegas no limo nascente?

- Mas a pedra pode ficar submersa em um aquário de neons. Aí nascerão algas.

- E terá um cascudo a se esfregar, sugar o verde, viver?

- Talvez.

(...)

- Não gostei dessa de brincar de pedras.

- Mas foi você quem sugeriu.

- Sim.

- E por que não?

- Pela frieza. Pela rigidez. Pelo cadáver que sinto em você-sendo-pedra.

- Como cadáver se nunca houve vida?

- Pela dureza. Pela falta de expressão.

- Como a vida?

- Sim. Mas é preciso vivê-la, apesar dos dissabores. Só assim a vida finge que vale a pena.

- E a pedra? Chora?

- A pedra serve para tapar o túmulo.

- Feito lápide?

- Com inscrição e tudo.

- Aqui jaz Fulano de Tal?

- Aqui jaz Fulano de Tal. E a beleza pétrea está justamente na identidade do Fulano de Tal, que pode ser eu ou você.

- Vamos brincar de pedras?

- Ganhei.

17.12.08

9. Noite contente

- A noite de Natal tem netos?

- Não. Só papais. Noéis.

- Todos trajam preto?

- Não. Só os mortos. Vivos.

- E tentam atirar presentes?

- Não. Só aos bons. Meninos.

- Tanto tentam que até atentam?

- Não. Só os amigos. Secretos.


- A noite de Natal tem estrelas?

- Não. Só as anãs. Vermelhas.

- Todas saltam com botas?

- Não. Só as astros. Nautas.

- E tentam tirá-las também?

- Não. Só os tiros. Livres.

- Tão tontas que até acreditam?

- Não. Só as vagas. Lumes.


- A noite de Natal tem atrasos?

- Não. Só os rádios. Relógios.

- Todos despertam terça e quarta?

- Não. Só às quintas. Feiras.

- E tentam trapacear os tolos?

- Não. Só os joões. Bobos.

- Tanto que o tempo até inventam?

- Não. Só os passa. Tempos.


- A noite de Natal tem infinitos?

- Não. Só os buracos. Negros.

- Todos tragam e trazem tudo?

- Não. Só os versos. Brancos.

- E tentam tardar até o infinito?

- Não. Só as rodas. Gigantes.

- Tão espertos até até até tombam?

- Não. Só os cata. Ventos.

10.11.08

8. Sentimental demais

- Alimento silêncios.

- Tem pra mim?

- Não sei. Por que quer, se vive quebrando-o?

- Porque não suporto o barulhar eterno. Agride, não agrada. Degrada, segrega. Não segreda.

- Alimento silêncios.

- Com o quê?

- Com senãos.

- Tem pra mim?

- Não sei. Por que quer? Para quebrar?

- Gosto do tilintar seco de cristais.

- Precisa de luminária?

- Não, só de um decibelímetro.

- Eletrônico?

- Analógico.

- Alimento silêncios.

- Tem pra mim?

- Não sei. Por que quer? Para perturbar? Para provocar? Para se despir?

- O silêncio lambe. Alimente-o se gostar de minha língua.

- Onde a boca guarda o silêncio cabe a língua?

- Na boca que ri onde o silêncio se ocupa o universo inteiro cabe.

- Como vai sua vida se o universo inteiro caberia onde eu só queria a língua?

- .

- Você silencia e eu sigo colecionando enquantos.

5.11.08

7. No princípio, era o verbo

Alguns diálogos, a vida esquece pelo caminho.

Talvez porque fossem primitivos:

- U-u-u.

- Gugu-gu?

- Ic, bibi!

- A-a-a.

Talvez porque fossem inusitados:

- Quantos céus batem no fundo do mar?

- Tantos couberem na mão.

- E quanto custa uma mão nova?

Talvez porque fossem sentimentais demais:

- E tudo você leva aí dentro?

- Sim. De amores atrasados a suspiros pontuais.

Talvez porque fossem horripilantes:

- Comi sopa de ratazanas ao molho de sangue hoje.

- Sério? E nem deixou um pouco para eu requentar pra mim?

- Não. Ratazanas ao molho de sangue é um prato que deve ser saboreado frio, como a vingança.

Talvez porque nem fossem:

- .