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5.4.11

a quem deu a mão
sou adeus

a quem senão ser
nasci ideia
e sou céu

a quem se sereia
fiz-me aldeia
descobri-me deus
vi-me idiota

e na esteira de vime
olhei-me outro
no espelho do oceano:
- sou nós que somos
na garganta.

3.12.10

Perspectivas.
Combinam tão bem com frustrações
Que até dói.

30.11.10

inquietude

vivo de contagens regressivas, doutor
é grave
sei que é grave
do tipo de gravidade que até ecoa
- ave, ave, ave...

vivo de reminiscências nubladas, doutor
é triste
sei que é triste
do tipo de tristeza que até parece
um chiste.

vivo de presentes repreensivos, doutor
é fato
sei que é fato
e ponto.

22.11.10

10ânimo

com o olhar amanhecido
o poeta nem mais sorri:

pede alforria
de toda mais-valia
nem todo ganha-pão

porque entre sim e não
com o corpo anoitecido
a vida era para ter sido
e não foi, não foi, não foi.

pede alforria
o poeta
pede alforria
e decreta:

sem estrela nem vela
nada que valha a pena.

7.11.10

o retrato que escorre feito montanha e arranha o amanhã
como
um espaço em branco
preenche-me.

6.11.10

sem eco

tudo o que eu precisava
era fechar para balanço

como se houvesse
feito ranço
um encanto
que pronto se espreguiçasse
na minha vida de quebrantos

não há, mas.

2.10.10

Dosafetos

em que não creio
só leio

e range meu ventre
sedento sempre
como uma dobradiça gasta
velha massa
corpórea
inútil

coleciono bênçãos
feito sacristão
apavorado

em que não creio
só leio.

29.9.10

Amanhã

Ninguém pode enterrar o amanhã.
Porque ele não espera
Porque ele não se cansa
Porque ele simplesmente
acontece.

Ninguém pode carregar as pás,
trazer todas as ferramentas e,
depois de vetusto velório,
procissão fúnebre,
enterrar o amanhã.
Ele não se encerra assim.

O amanhã não permite tropeço
e jamais admite ser pulado.

5.9.10

no deserto de absurdos, várias
rosas
muitos beijos
seus lábios
escorrendo
sobre
mim.

catatônico, absoluto, resignado
sou um erro
como se errante
pudesse-me.

1.8.10

Fragmentos

No fundo é nisso que me espelho: escondo pequenezes, persigo tristezas, desinvento traços de paz; como se tudo o que já não nasce feito, completo, sonolento, fosse possível; como se o desdém se autodigerisse incólume dentro de tanta burrice; como se eu, solitário, soubesse contar cada passo e eles coubessem na menor cabeça do menor alfinete do mundo.

Mas, nada. O espelho coleciona pedaços.

26.6.10

Luar

sofrendo caladas as pessoas estão lá exercendo suas vidas
paternidades hematomas atletismos ócios leituras prazeres
a lua não para para vê-las apontar com o dedo
a lua do alto de sua nobreza permanece alheia a tudo

pasmaceira
a vida inteira correndo atrás de uma pontuação que fosse adequada
como se houvesse
as emoções o amor as lágrimas a vitória o tédio tudo tudo tudo
não cabe

por isso a lua finge que nem ri
fica lá toda cheia de si alumiando os que nela insistem em namorar.

17.6.10

Breve relato do lugar-comum

a técnica do ponteiro
não tem segredo
nem escanteio:

eu fico sempre olhando fixamente
como se o relógio não tivesse lógica
e meu olhar pudesse adiantá-lo
num pulo do tempo
atento
abrupto.

enquanto o ponteiro não adianta
cada letra é uma dor
cada palavra, um tormento:
o tempo parado não tem pena
dos olhos vidrados no silêncio.

17.5.10

se eu pudesse

se eu pudesse
pularia minha vez,
nem que eu fosse
uma tosse
dessas que passam
em três dias.

se eu pudesse
seria dois, seria três.
ou logo dez
de uma vez:
abriria uma franquia
de mim mesmo.

mas não sou texto
nem presto.
então não posso nada:
meu resto
só suspira
colhendo madrugadas.

14.4.10

Over

com
uma
over
dose
de traumas

a
doe
ço
em cada umas

que
às
vezes
penso
não
existo

nem
isto.

16.3.10

Panaceia

Sofrimentos não podem ser consumidos sem muito remoer. São nós, indesatáveis, complexos, entreabertos por dois sorrisos que de repente choram inexplicavelmente.

Primeiro vem a dor incontestável. Seguida de lágrimas secas, dessas que muito custam a molhar, escorregar, chorar.

Depois, a saudade enorme de ser a antítese, o oximoro, a inverdade inventada só para regar sentimentos.

Então os versos mais infantis são lembrados. Bem aqueles em que já não há crença nem consequência. Os idiotas, por assim dizer -- se é que se pode ousar os definir tão simploriamente.

Por último, o adeus parece absoluto.

15.2.10

Rasgo

quantos
haveres
pra uma
morte

prazeres
sorte
fortuna
cadáveres

em cada haver
um cadáver.

10.2.10

Acerca das constatações humanas possíveis

O mundo é um problema porque há muita beleza acumulada pelos cantos. Então a gente fica se distraindo, distraindo. E quando vê, já foi.

4.2.10

Ensaio para não sonhar

Escorre pelas mãos tudo aquilo que não escorrega das mãos:
arranhões
amanhãs
erros
berros
textos ateus à-toa, à-toa.

O que sobra, soçobra, é um pedaço amassado de mim:
ferido
arisco
monobloco
troglodita
restos degringolados de uma rima.

As invenções, se boas, são por acaso.

26.1.10

À guisa do desabafo

Acho tão inúteis essas chuvas que desabam sobre a cidade grande. Não têm muitas hortas para molhar, nem sequer muitas vidas para adiantar. Só servem para complicar a labuta jornalística. Como se imprimir mais papel fosse resolver -- e não piorar ainda mais -- o problema. Como se o povo estivesse interessado em ler tanta tragédia -- se já não bastasse vivê-las.

18.5.09

Desafios

os desafios não existem mais porque os deuses os inutilizaram:
há abraços que são infinitos,
abruptos braços,
extremos
traços.

comprei outro revólver
verde
(esverdeado, na verdade)
para revolver o tédio,
resolver,
extirpar
o medo.

crua, a carne alimenta-me.
e sua lua nua
ilumina ali
os lábios,
as línguas,
o clitóris,
a libido.

os desafios resumem-se nos abraços infinitos dos deuses e seus abrutos braços.