Depois do atropelamento, sua vida não aprendeu mais a entrar nos eixos. Os problemas nasciam já ao acordar, como se o espelho do banheiro, agora testemunha única de suas abluções matinais, estivesse com uma trinca enorme. E cortante.
- Bom dia é o caralho!
O café da manhã solitário era de um tédio absoluto. E para quê escovar os dentes se não haveria mais quem beijar? Não, não, ninguém mais reparava se o laço da gravata estava mal feito ou se o paletó levemente amassado.
Então sair de casa. Então atravessar a rua. Então se queixar da demora do ônibus. Então chegar cinco minutos atrasado ao trabalho. Então reclamar do elevador sempre lotado e aquelas pessoinhas que exageram no perfume. Então aguentar a cara feia persistente do chefe. Então enrolar, fingir que trabalha.
O almoço era em grupo, com a patota toda, sempre. Ultimamente ele não desempenhava mais o papel de tagarela da turma. Ensimesmado, cutucava seus pensamentos, remexia as vísceras, transcendia desejos.
- Por que, meu Deus, por quê?
Então a repetição da manhã, o enrolar, o fingir que trabalha. Até o relógio marcar seis da tarde, as tarefas pela metade, o sol que não arde mais, que tal ir embora caminhando em vez de enfrentar ônibus lotado?
- Boa ideia. São só quatro quilômetros, são só quatro quilômetros. Caminhar refresca a alma.
No percurso, carros. Carros e mais carros. Alguns ônibus. Três caminhões. E a imensidão de rostos e rostos e corpos e corpos. Pessoas. Cada qual carrega na bolsa ou mochila sua vida - histórias, afeições, sorrisos, quebra-cabeças, canções. Antonio não se cansava de tentar decifrar esses segredos.
- Aquele ali, palmeirense. Palmeirense.
- Esse, tenho certeza que queria ser ator de teatro quando criança. Virou engenheiro civil.
- Aquela, aposto que teve uma infecção urinária na semana passada.
- Aquele outro, não, não tem mais clima em casa. Por isso anda querendo viver só com a amante.
O estranho hábito de colecionar pessoas inventadas o incomodava. Mas, desde a prematura viuvez, era o único prazer que conseguia experimentar.
(Continua aqui.)
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9.3.09
Cápsulas
Em forma de primavera, uma cicatriz bonita ela tinha perto do umbigo. Do lado esquerdo, como que apontando contra quem visse. Mas não um contra do mal; um contra para haver diálogo, simplesmente.
O resto era sobremesa. Em forma de cápsulas arrependidas, todos os doces do mundo.
O resto era sobremesa. Em forma de cápsulas arrependidas, todos os doces do mundo.
6.3.09
26.2.09
Ensaio abstrato sobre o poeta que era enorme
o poeta enorme
não tinha medo
não tinha fome
tinha só a ideia
absurda
absoluta
de que toda luta
são palavras
de que todo verso
são suas armas
o poeta enorme
não tinha rosto
não tinha nome.
não tinha medo
não tinha fome
tinha só a ideia
absurda
absoluta
de que toda luta
são palavras
de que todo verso
são suas armas
o poeta enorme
não tinha rosto
não tinha nome.
15.2.09
Fragmento de um céu sem nuvens
“Vem ser vento
Que o vento sopra
Só pra vencer”
Que o vento sopra
Só pra vencer”
A vida, suas dúvidas, minhas dívidas. Sobra um mantra mental, uma manta invisível a proteger-nos, mente, lástima, lamentos que minto lá adeus. Ontem fui ao mercado, hoje ao cinema, amanhã quem sabe. A vida, ávida por dúvidas e dívidas. À vida, este brinde, o último, o eterno. Como se a musa fosse música e o texto, pretexto. Lua cheia. Calma aí que não quero me perder entre pedras. Atire-as. Ela tinha um cu bonitinho para eu me perder. Ela tinha uma buceta quentinha para eu me perder. Ela tinha um par de peitos redondinhos para eu me perder. Eu não tinha nada e a perdi.
Um círculo, um ciclo, uma cloaca. Clitóris. Saudades de Tamires desenhada, ideada. Tamires. Tamires.
Da segunda vez que a encontrei não havia ônibus, não havia. Da segunda vez que a encontrei não havia vestes entre nós. Era como se a semana fosse cinema e o atraso, um abraço. E abraçar Tamires, nua, escondia delícias impossíveis.
13.2.09
O deus das pequenas coisas
O deus das pequenas coisas costurou um largo sorriso em mim. Para que eu jamais me esquecesse da dureza fria de sua agulha, caprichou no formato, na essência e no tamanho dos dentes pontiagudos.
Depois era o sétimo dia, então ele dormiu. Não sonhou com nada.
Depois era o sétimo dia, então ele dormiu. Não sonhou com nada.
Lua de fel
O casamento estava um fracasso e as tentativas de "tudo voltar a ser como antes", "viver uma nova lua-de-mel", "recomeçar" e outras balelas mostravam-se desastrosas e malogradas.
- Que tal irmos para Paris? - sugeriu ele, num arroubo forçado de romantismo. A Torre, o Sena, enfim...
- Nananinanão - suspirou ela, cada vez mais nojenta e pedante. Só se aproveitarmos para dar uma passadinha em Veneza, Berlim, Viena, Coimbra e Barcelona.
E foram. Egídio juntou todas as economias do último ano (é bem verdade que ambos ganhavam bem em seu escritório conjunto de advocacia - cível, familiar), tomou alguns euros emprestados, comprou as passagens via internet e, semana seguinte, lá ia o casal quarenta a bordo. Como duas serpentes, venenosas. Ester (gorda, irritantemente gorda que estava) reclamou do assento, desconfortável para a exuberância de seus 93 quilos porcamente distribuídos por 1,62 metro de corpinho. Egídio olhava e via nela um rascunho de mulher, um esboço, uma garatuja mal-acabada. E Ester suava, em bicas; não havia ar-condicionado suficiente para aplacar-lhe a fonte da fronte.
Em casa, deixaram os dois filhos, um casal. "Já sabem se virar", pensava ela. Doze e quatorze anos, iriam pousar na casa de uma tia-avó chata, não haveria problemas, imagina. "A prioridade é tentar salvar o casamento", raciocinava ele. E logo era surpreendido por aqueles pensamentos que lhe atormentavam, a impotência, a lacuna nervosa da não-realização, a frustração da vida.
- Amooor - ela chamava.
Era só ouvir essa voz de gralha rouca para Egídio compreender porque broxava.
- Que é?
- Fecha esse jornal, que está atrapalhando a minha visão...
Seria longa a viagem. Longuíssima e entediante. No caminho, ao contabilizar as perdas (muitas) e os ganhos (ínfimos), foi cravando uma agulha de ponta fina na banha soberba de Ester. Quanto mais enfiava, mais prazer sentia - quase tão grande quanto quando a deflorou, vinte anos atrás. E ela, anestesiada pela adiposidade somada à arrogância de não querer se virar, nada sentia. Nada. A agulha conquistava cada vez mais o corpo imenso, um centímetro, mais meio, outro centímetro, o terceiro...
Quando ela explodiu, o barulho foi parecido com o de uma bexiga estourando em festa de criança. Seus olhos, que primeiro saltaram fora, rolaram feito bolinhas de gude por entre as poltronas. Depois os dentes trincaram e as vísceras começaram a sair pelos nove orifícios naturais do corpo mais o décimo, de autoria da agulha. O cheiro forte chamou a atenção dos senhores passageiros, que ensaiaram um vômito coletivo. Suspenso, evidentemente, quando a explosão se completou e as paredes brancas do avião foram revestidas por uma camada espessa de sangue nervoso e estúpido.
Egídio sorria por dentro. E pensava que tinha se livrado do pior acordo que firmaram na vida: tê-la como advogada e, ao mesmo tempo, advogar por ela. Na audiência referente ao divórcio, óbvio.
- Que tal irmos para Paris? - sugeriu ele, num arroubo forçado de romantismo. A Torre, o Sena, enfim...
- Nananinanão - suspirou ela, cada vez mais nojenta e pedante. Só se aproveitarmos para dar uma passadinha em Veneza, Berlim, Viena, Coimbra e Barcelona.
E foram. Egídio juntou todas as economias do último ano (é bem verdade que ambos ganhavam bem em seu escritório conjunto de advocacia - cível, familiar), tomou alguns euros emprestados, comprou as passagens via internet e, semana seguinte, lá ia o casal quarenta a bordo. Como duas serpentes, venenosas. Ester (gorda, irritantemente gorda que estava) reclamou do assento, desconfortável para a exuberância de seus 93 quilos porcamente distribuídos por 1,62 metro de corpinho. Egídio olhava e via nela um rascunho de mulher, um esboço, uma garatuja mal-acabada. E Ester suava, em bicas; não havia ar-condicionado suficiente para aplacar-lhe a fonte da fronte.
Em casa, deixaram os dois filhos, um casal. "Já sabem se virar", pensava ela. Doze e quatorze anos, iriam pousar na casa de uma tia-avó chata, não haveria problemas, imagina. "A prioridade é tentar salvar o casamento", raciocinava ele. E logo era surpreendido por aqueles pensamentos que lhe atormentavam, a impotência, a lacuna nervosa da não-realização, a frustração da vida.
- Amooor - ela chamava.
Era só ouvir essa voz de gralha rouca para Egídio compreender porque broxava.
- Que é?
- Fecha esse jornal, que está atrapalhando a minha visão...
Seria longa a viagem. Longuíssima e entediante. No caminho, ao contabilizar as perdas (muitas) e os ganhos (ínfimos), foi cravando uma agulha de ponta fina na banha soberba de Ester. Quanto mais enfiava, mais prazer sentia - quase tão grande quanto quando a deflorou, vinte anos atrás. E ela, anestesiada pela adiposidade somada à arrogância de não querer se virar, nada sentia. Nada. A agulha conquistava cada vez mais o corpo imenso, um centímetro, mais meio, outro centímetro, o terceiro...
Quando ela explodiu, o barulho foi parecido com o de uma bexiga estourando em festa de criança. Seus olhos, que primeiro saltaram fora, rolaram feito bolinhas de gude por entre as poltronas. Depois os dentes trincaram e as vísceras começaram a sair pelos nove orifícios naturais do corpo mais o décimo, de autoria da agulha. O cheiro forte chamou a atenção dos senhores passageiros, que ensaiaram um vômito coletivo. Suspenso, evidentemente, quando a explosão se completou e as paredes brancas do avião foram revestidas por uma camada espessa de sangue nervoso e estúpido.
Egídio sorria por dentro. E pensava que tinha se livrado do pior acordo que firmaram na vida: tê-la como advogada e, ao mesmo tempo, advogar por ela. Na audiência referente ao divórcio, óbvio.
12.2.09
A volta das abóboras telúricas
O colecionador de abóboras decidiu também plantar gnomos. Os nove, lá da história do arquivo.
11.2.09
Cronopolitano
Saber esperar e depois pintar o seu retrato. Depois dependurar na parede, botar no lugar do espelho, considerar que a tela é mais generosa do que o mau-humor do espelho, saber do retrato, pensar que se é o retrato.
Vida era uma tristeza sem fim.
Quando se olhava ao espelho, o que via era apenas cronopolitano.
Cronopolitano não é sabor de sorvete nem marca de esparadrapo. Muito menos nativo de alguma cidade de nome estranho. Cronopolitano é um não-lugar que existe nos navegadores de internet. Qualquer um deles. Estando on-line, basta que se digite cronopolitano, precedido de três dáblios e um ponto, e sucedido por outro ponto, um blogspot, outro ponto, um com. Assim: www.cronopolitano.blogspot.com
Mas, como ia dizendo, ela era uma tristeza sem fim, feito cronopolitano. Tinha seus segredos, bem-guardados no sótão. E aquele gosto de fiapos de manga amarelando a boca.
Sim, vou apresentá-la. Vida era seu nome. Não, não era apelido. Nome mesmo. Você já deve ter ouvido a expressão "vidinha da silva". Então, anota aí: Vida da Silva, idade: 46; estado civil: divorciada; RG: XX.XXX.XXX-X; CPF: XXX.XXX.XXX-XX; etc. etc. etc.
Sem pretensão salarial.
Sem objetivo.
Sem cursos de pós-graduação.
Sem sorte, nem talento.
Ao lado do telefone, Vida exercita o saber esperar, saber esperar, saber esperar. Até que o retrato na parede desbote, seu quadro na parede acabe virando espelho.
Enquanto isso, www.cronopolitano.blogspot.com
Vida era uma tristeza sem fim.
Quando se olhava ao espelho, o que via era apenas cronopolitano.
Cronopolitano não é sabor de sorvete nem marca de esparadrapo. Muito menos nativo de alguma cidade de nome estranho. Cronopolitano é um não-lugar que existe nos navegadores de internet. Qualquer um deles. Estando on-line, basta que se digite cronopolitano, precedido de três dáblios e um ponto, e sucedido por outro ponto, um blogspot, outro ponto, um com. Assim: www.cronopolitano.blogspot.com
Mas, como ia dizendo, ela era uma tristeza sem fim, feito cronopolitano. Tinha seus segredos, bem-guardados no sótão. E aquele gosto de fiapos de manga amarelando a boca.
Sim, vou apresentá-la. Vida era seu nome. Não, não era apelido. Nome mesmo. Você já deve ter ouvido a expressão "vidinha da silva". Então, anota aí: Vida da Silva, idade: 46; estado civil: divorciada; RG: XX.XXX.XXX-X; CPF: XXX.XXX.XXX-XX; etc. etc. etc.
Sem pretensão salarial.
Sem objetivo.
Sem cursos de pós-graduação.
Sem sorte, nem talento.
Ao lado do telefone, Vida exercita o saber esperar, saber esperar, saber esperar. Até que o retrato na parede desbote, seu quadro na parede acabe virando espelho.
Enquanto isso, www.cronopolitano.blogspot.com
10.2.09
Conjunto vazio
Na mesa, o prato vazio denunciava que as idéias estavam ficando velhas. Velhas, tristes, cansadas. Estevão era um lamento. Esther era uma lágrima. E as crianças brincavam no sofá da sala. As crianças nunca entendem nada do mundo dos adultos.
- Mulher, café!
- Quedê?
E o silêncio ecoava por todos os cinco cantos da casa.
Quando os cabelos começassem a cair, Estevão sonhava já ser um publicitário reconhecido. Detentor de dois Cannes, no mínimo. Eu disse dois? Ahaha... Detentor de oito Cannes. Nove, talvez.
A sua estante continuava vazia. Vinte anos depois, a estante vazia. Sobre ela, apenas uma placa com uns dizeres de reconhecimento. Dos formandos da faculdadezinha particular meia-boca onde ele leciona para completar o orçamento.
Tem aquela famosa frase que diz "se arrependimento matasse...". Pois se arrependimento matasse, seríamos todos convidados a velar pela alma do pobre Estevão. Porque quando ele recebeu a proposta para trabalhar no exterior não quis abandonar família. Tinha medo da cama vazia.
Agora Esther ameaçava abandoná-lo, levando junto os três meninos. Porque a crise ruiu tudo: amor, amizade, paixão. A crise é um diabo loiro que come a vida da gente pelas beiradas.
E Esther quer outra vida, outra cidade, outro apartamento... Esther quer outro homem.
A Estevão, a promoção: do sofá para a cama vazia.
Neste instante em que são três da madrugada e sua única e última companhia é a televisão fora do ar, Estevão torce para que o relógio parado não seja por falta de pilha. Porque ele acredita que no post-mortem as horas fiquem estáticas.
- Mulher, café!
- Quedê?
E o silêncio ecoava por todos os cinco cantos da casa.
***
Quando os cabelos começassem a cair, Estevão sonhava já ser um publicitário reconhecido. Detentor de dois Cannes, no mínimo. Eu disse dois? Ahaha... Detentor de oito Cannes. Nove, talvez.
A sua estante continuava vazia. Vinte anos depois, a estante vazia. Sobre ela, apenas uma placa com uns dizeres de reconhecimento. Dos formandos da faculdadezinha particular meia-boca onde ele leciona para completar o orçamento.
***
Tem aquela famosa frase que diz "se arrependimento matasse...". Pois se arrependimento matasse, seríamos todos convidados a velar pela alma do pobre Estevão. Porque quando ele recebeu a proposta para trabalhar no exterior não quis abandonar família. Tinha medo da cama vazia.
Agora Esther ameaçava abandoná-lo, levando junto os três meninos. Porque a crise ruiu tudo: amor, amizade, paixão. A crise é um diabo loiro que come a vida da gente pelas beiradas.
E Esther quer outra vida, outra cidade, outro apartamento... Esther quer outro homem.
A Estevão, a promoção: do sofá para a cama vazia.
***
Neste instante em que são três da madrugada e sua única e última companhia é a televisão fora do ar, Estevão torce para que o relógio parado não seja por falta de pilha. Porque ele acredita que no post-mortem as horas fiquem estáticas.
9.2.09
Ela
Era pregressa e, portanto, já nascera condenada a ruminar reminiscências nada aprazíveis. Troglodita, mas não poliglota, amaldiçoava os idioletos irreversíveis e sonhava com as vivências de antemão.
Havia sido de tudo: secretária, aeromoça, modelo, professora da quarta série, bióloga, curadora da exposição do Picasso no Brasil, jardineira e aquela mulher que se queda na janela com um sorriso natimorto a contemplar a efemeridade do cotidiano.
Quando completou certa idade, cismou de ser atriz. Assim, enfeitando a existência de personagens imaginários, conseguia se tornar mais semelhante aos seus semelhantes, por mais irônico que possa parecer. Não carecia salário; só o ser lhe bastava. Ficou nessa por quatrocentos e vinte e dois dias, até que tropeçou numa pedra grande e, ao bater a cabeça no chão ou no cabo de uma enxada, lembrou-se que estava enjoada de tudo e bom mesmo era ser astronauta.
Pisou na Lua em 1969, vestindo pesadas roupas que flutuavam. Retornou com a boca ressequida pelo trauma do sabor cumprido e a ressaca do prazer experimentado. Era uma bela história, que certamente seria compartilhada, contada e recontada a seus filhos, netos, bisnetos... Se herdeiros ela legasse ao mundo.
Nos tempos de faculdade, passou o curso todo na necessária porém entediante função de organizar a sala em equipes, em grupos, em duplas, em unidades, sempre para promover seminários, debates, solilóquios, elucubrações, partidas de pingue-pongue, campeonatos de truco, bacanais (que, etimologicamente, são idênticos aos seminários!) e afins. Como prêmio e mostra de reconhecimento, foi laureada com um diploma de bordas douradas. Extremamente démodé em seu figurativismo desprovido de apuro estético, mas é inevitável ressaltar que ela derrubou lágrimas emotivas durante a cerimônia.
Na Queda do Muro, ela foi a pedra. Depois o vãozinho, depois o cimento, depois o chão. Nas eleições, ela foi o xis, depois o branco, depois o nulo, depois o botão verde. No conclave do Papa ela foi o senão, o porém, a chave.
Ela sempre esteve presente, como vítima, como protagonista ou como figurante, em todos os momentos da História.
Em seu primeiro emprego, apaixonou-se. Chamava-o de Mor, mas seu nome era Morte. Ele era um pobre desdentado, responsável, na empresa, pelo ingrato Departamento de Conserto de Clipes Destroçados. Desdentado, desvalido e feio. Vestia preto o tempo todo, que, segundo o próprio, era para "poupar tempo na escolha". Na verdade se tratava de recurso para que ninguém reparasse no irrisório número de exemplares de seu guarda-roupa.
Em seu primeiro emprego ela era bailarina de enfeite. Ficava na mesa do chefe e dançava quando ele ligava a caixinha de música. Ele sonhava com ela. Ele não sabia que ela era só do Morte. Ele não sabia que ela teria o Morte como revés, como companheiro, como indissolúvel, como alma gêmea, por toda a eternidade. Ele não sabia que amar era esse se completar onde um só é possível sendo dois.
Ela gostava de cozinhar mas nunca sabia direito a porção de água pra cada naco de arroz, ou o inverso, ou o desverso. Recitava versos sobre as panelas, como se as rimas fossem de feitiçaria. O marido não dizia nada, fingia que acreditava. No fundo compreendia a essência de ser marido.
No acordar era doce. No dormir, selvagem.
No soluço era um sossego. No orgasmo, um desespero.
Cabiam em si todas as antíteses, desde as mais gastas até as mais belas.
Poderia se chamar Poesia. Mas seu nome era Vida e, cheia de surpresas, aceitou ser capa da Playboy aos 47 anos.
Havia sido de tudo: secretária, aeromoça, modelo, professora da quarta série, bióloga, curadora da exposição do Picasso no Brasil, jardineira e aquela mulher que se queda na janela com um sorriso natimorto a contemplar a efemeridade do cotidiano.
Quando completou certa idade, cismou de ser atriz. Assim, enfeitando a existência de personagens imaginários, conseguia se tornar mais semelhante aos seus semelhantes, por mais irônico que possa parecer. Não carecia salário; só o ser lhe bastava. Ficou nessa por quatrocentos e vinte e dois dias, até que tropeçou numa pedra grande e, ao bater a cabeça no chão ou no cabo de uma enxada, lembrou-se que estava enjoada de tudo e bom mesmo era ser astronauta.
Pisou na Lua em 1969, vestindo pesadas roupas que flutuavam. Retornou com a boca ressequida pelo trauma do sabor cumprido e a ressaca do prazer experimentado. Era uma bela história, que certamente seria compartilhada, contada e recontada a seus filhos, netos, bisnetos... Se herdeiros ela legasse ao mundo.
Nos tempos de faculdade, passou o curso todo na necessária porém entediante função de organizar a sala em equipes, em grupos, em duplas, em unidades, sempre para promover seminários, debates, solilóquios, elucubrações, partidas de pingue-pongue, campeonatos de truco, bacanais (que, etimologicamente, são idênticos aos seminários!) e afins. Como prêmio e mostra de reconhecimento, foi laureada com um diploma de bordas douradas. Extremamente démodé em seu figurativismo desprovido de apuro estético, mas é inevitável ressaltar que ela derrubou lágrimas emotivas durante a cerimônia.
Na Queda do Muro, ela foi a pedra. Depois o vãozinho, depois o cimento, depois o chão. Nas eleições, ela foi o xis, depois o branco, depois o nulo, depois o botão verde. No conclave do Papa ela foi o senão, o porém, a chave.
Ela sempre esteve presente, como vítima, como protagonista ou como figurante, em todos os momentos da História.
Em seu primeiro emprego, apaixonou-se. Chamava-o de Mor, mas seu nome era Morte. Ele era um pobre desdentado, responsável, na empresa, pelo ingrato Departamento de Conserto de Clipes Destroçados. Desdentado, desvalido e feio. Vestia preto o tempo todo, que, segundo o próprio, era para "poupar tempo na escolha". Na verdade se tratava de recurso para que ninguém reparasse no irrisório número de exemplares de seu guarda-roupa.
Em seu primeiro emprego ela era bailarina de enfeite. Ficava na mesa do chefe e dançava quando ele ligava a caixinha de música. Ele sonhava com ela. Ele não sabia que ela era só do Morte. Ele não sabia que ela teria o Morte como revés, como companheiro, como indissolúvel, como alma gêmea, por toda a eternidade. Ele não sabia que amar era esse se completar onde um só é possível sendo dois.
Ela gostava de cozinhar mas nunca sabia direito a porção de água pra cada naco de arroz, ou o inverso, ou o desverso. Recitava versos sobre as panelas, como se as rimas fossem de feitiçaria. O marido não dizia nada, fingia que acreditava. No fundo compreendia a essência de ser marido.
No acordar era doce. No dormir, selvagem.
No soluço era um sossego. No orgasmo, um desespero.
Cabiam em si todas as antíteses, desde as mais gastas até as mais belas.
Poderia se chamar Poesia. Mas seu nome era Vida e, cheia de surpresas, aceitou ser capa da Playboy aos 47 anos.
8.2.09
Passa perto!
thaís entrava no banco de trás e trazia um papel amassado na mão. estava triste, a deglutição matinal de seus sonhos não fora tão boa como de costume.
::thaís tramava viajar para longe, e sabia que o táxi era apenas o começo. depois viria o check-in, o avião, os porquês, a alfândega, o barulho todo, as nádegas doloridas. o táxi e o taxista de bigodes felpudos era só o começo de um trajeto rumo ao front.
::thaís era a rainha das predileções: queria de tudo, desde apertar o botão do elevador até tocar violoncelo. só não queria era começar outra vez o que já dera errado por nascimento mesmo.
::thaís trazia no papel amassado o endereço de um homem importante que morava no final de sua viagem. ele calçava sapatos lustrosos e trabalhava sob a forca de uma gravata listrada. não tinha filhos nem tatuagem, mas sua motocicleta fazia um ronco inconfundível.
::thaís não gostava de carregar bagagem e sua vida era uma infinitude de desapegos e choros. a cada momento, novidades; em cada porto, um canto e uma ilusão.
::thaís tinha o rosto de quem brilha, o corpo de quem crê, a alma de quem sabe e o coração, ah, o coração de quem é. mas não sabia sambar e estava muito longe de ler neruda. era antítese do medo e certeza do segredo.
::thaís sentiu que, nos seus dentes, ainda havia restos do café-da-manhã. passou a língua pra disfarçar, ao que o motorista espiou pelo retrovisor. ela escondeu instintivamente o decote.
::thaís sorriu.
::thaís sorria.
::thaís era daquelas mulheres que não tinham passaporte.
::thaís tramava viajar para longe, e sabia que o táxi era apenas o começo. depois viria o check-in, o avião, os porquês, a alfândega, o barulho todo, as nádegas doloridas. o táxi e o taxista de bigodes felpudos era só o começo de um trajeto rumo ao front.
::thaís era a rainha das predileções: queria de tudo, desde apertar o botão do elevador até tocar violoncelo. só não queria era começar outra vez o que já dera errado por nascimento mesmo.
::thaís trazia no papel amassado o endereço de um homem importante que morava no final de sua viagem. ele calçava sapatos lustrosos e trabalhava sob a forca de uma gravata listrada. não tinha filhos nem tatuagem, mas sua motocicleta fazia um ronco inconfundível.
::thaís não gostava de carregar bagagem e sua vida era uma infinitude de desapegos e choros. a cada momento, novidades; em cada porto, um canto e uma ilusão.
::thaís tinha o rosto de quem brilha, o corpo de quem crê, a alma de quem sabe e o coração, ah, o coração de quem é. mas não sabia sambar e estava muito longe de ler neruda. era antítese do medo e certeza do segredo.
::thaís sentiu que, nos seus dentes, ainda havia restos do café-da-manhã. passou a língua pra disfarçar, ao que o motorista espiou pelo retrovisor. ela escondeu instintivamente o decote.
::thaís sorriu.
::thaís sorria.
::thaís era daquelas mulheres que não tinham passaporte.
1.2.09
Obsolescência, obso-excelência, observação à ciência
No reino do beleléu eu era um garoto que sonhava com um Atari 2600, um computador de letrinhas verdes e com o dia em que os telefones não mais teriam fio. No reino do beleléu a velha tinha um arco bem mais bonito do que o arco-íris.
O tempo passou de repente. Na verdade, temos a impressão de que ele passa sempre e cada vez mais rápido. São os traumas da evolução tecnológica e suas máquinas que em três dias já estão obsoletas - a pós-modernidade só tem servido para descartabilizar o novo, envelhecer o que ainda não funciona bem, corromper nossos sonhos.
- Logo o homem estará obsoleto! - comemora o cientista maluco, como se já não estivéssemos.
- Logo o homem estará obsoleto! - comemora o cientista maluco, olhando para seu novo robô-invento. Como se não percebesse estar se suicidando.
- Logo o homem estará obsoleto! - comemora o cientista maluco, brincando de brincar de Deus, em seu laboratório de bilhões de dólares financiado pela Nasa. Enquanto isso, crianças morrem de fome no Afeganistão, na China ou em qualquer lugar do Brasil.
- Logo o homem estará obsoleto! - comemora o cientista maluco. E deitado ele sonha. E sonhando:
"Acordei porque estar na mídia é moda. Toc-toc-toc:
- Sai da frente porque já falei que não estou! Mas eu continuava insistindo, nsistindo, sistindo, istindo, stindo, tindo, indo, ndo, do, o. Chato.
Abordei porque estar na moda é mídia: Toca, eu não sei. Mulhervilhosa me perguntou. Disse, toca eu não sei, disse. Te amão.
- Você é meu parfeito para mim.
Eu sentei e chorei." Mas isso foi no reino do beleléu, quando sonhar era de verdade. Isso foi no reino do beleléu, quando o homem ainda existia. Isso foi no reino que já foi pro beleléu.
O tempo passou de repente. Na verdade, temos a impressão de que ele passa sempre e cada vez mais rápido. São os traumas da evolução tecnológica e suas máquinas que em três dias já estão obsoletas - a pós-modernidade só tem servido para descartabilizar o novo, envelhecer o que ainda não funciona bem, corromper nossos sonhos.
*****
- Logo o homem estará obsoleto! - comemora o cientista maluco, como se já não estivéssemos.
*****
- Logo o homem estará obsoleto! - comemora o cientista maluco, olhando para seu novo robô-invento. Como se não percebesse estar se suicidando.
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- Logo o homem estará obsoleto! - comemora o cientista maluco, brincando de brincar de Deus, em seu laboratório de bilhões de dólares financiado pela Nasa. Enquanto isso, crianças morrem de fome no Afeganistão, na China ou em qualquer lugar do Brasil.
*****
- Logo o homem estará obsoleto! - comemora o cientista maluco. E deitado ele sonha. E sonhando:
"Acordei porque estar na mídia é moda. Toc-toc-toc:
- Sai da frente porque já falei que não estou! Mas eu continuava insistindo, nsistindo, sistindo, istindo, stindo, tindo, indo, ndo, do, o. Chato.
Abordei porque estar na moda é mídia: Toca, eu não sei. Mulhervilhosa me perguntou. Disse, toca eu não sei, disse. Te amão.
- Você é meu parfeito para mim.
Eu sentei e chorei." Mas isso foi no reino do beleléu, quando sonhar era de verdade. Isso foi no reino do beleléu, quando o homem ainda existia. Isso foi no reino que já foi pro beleléu.
31.1.09
Para festejar a morte de um mito morto
Era noite quando se apagaram as luzes e ele foi conduzido para uma ante-sala vazia e fria. Tivera de aguardar até que onze badaladas e meia anunciassem sua chegada, então um mordomo franzino, de óculos, andar desajeitado e um tanto frouxo, avisou:
- Vai ter de esperar até amanhã. Hoje o Dr. Pedro, gerente do Departamento de Transições, precisou encerrar o expediente mais cedo.
Hoje só amanhã, resmungou por dentro. Ele que sempre odiara o hoje só amanhã, ele que sempre xingara seus funcionários de incompetentes quando se calcavam no hoje só amanhã, ele que extinguira de suas empresas o hoje só amanhã. Ironias da vida também há no pós-vida, constatou num misto de sorriso cínico e raiva interior.
Raiva interior anterior ao fato de que se apercebera logo em seguida: teria de passar a noite ali, provavelmente dormindo naquele chão escuro e gelado, um tanto úmido. Vai saber se não existem insetos nojentos por aqui?, pensava, mas ficava só no pensamento. E se tiver ratos?, mas não se atrevera de jeito algum a reclamar para o mordomo franzino que ia se retirando da ante-sala. Vai que ele fosse algum anjo, algum guardião-celestial... Melhor não se indispor com essa gente. Vai que ele fosse um delator, pronto a adulterar sua ficha comportamental... Melhor não se indispor com essa gente.
A noite não tem piedade dos insones. A noite é cruel com os workahoolics. A noite é faminta quando olha para os olhos dos que não sonham porque sequer dormem. Pensava em tudo isso quando a madrugada despontava para cair depois. Porque era esse o horário em que ele, recém-divorciado, mais rendia. Afrouxava o nó da gravata e, sozinho no escritório, dedilhava ininterrupto pelo teclado de seu computador, relatórios e relatórios, contas, extratos, sonhos.
Agachara-se. Faltava-lhe coragem para sentar, deitar, naquele chão fétido. Era a degradação e ele jamais compactuou com a degradação.
Foi se despindo e, desnudo, imaginou-se caso houvesse um espelho ali. Toda a pompa extinguira-se, acabara-se. Agora era só ele, em minúsculas, sem mistificação.
- Vai ter de esperar até amanhã. Hoje o Dr. Pedro, gerente do Departamento de Transições, precisou encerrar o expediente mais cedo.
Hoje só amanhã, resmungou por dentro. Ele que sempre odiara o hoje só amanhã, ele que sempre xingara seus funcionários de incompetentes quando se calcavam no hoje só amanhã, ele que extinguira de suas empresas o hoje só amanhã. Ironias da vida também há no pós-vida, constatou num misto de sorriso cínico e raiva interior.
Raiva interior anterior ao fato de que se apercebera logo em seguida: teria de passar a noite ali, provavelmente dormindo naquele chão escuro e gelado, um tanto úmido. Vai saber se não existem insetos nojentos por aqui?, pensava, mas ficava só no pensamento. E se tiver ratos?, mas não se atrevera de jeito algum a reclamar para o mordomo franzino que ia se retirando da ante-sala. Vai que ele fosse algum anjo, algum guardião-celestial... Melhor não se indispor com essa gente. Vai que ele fosse um delator, pronto a adulterar sua ficha comportamental... Melhor não se indispor com essa gente.
A noite não tem piedade dos insones. A noite é cruel com os workahoolics. A noite é faminta quando olha para os olhos dos que não sonham porque sequer dormem. Pensava em tudo isso quando a madrugada despontava para cair depois. Porque era esse o horário em que ele, recém-divorciado, mais rendia. Afrouxava o nó da gravata e, sozinho no escritório, dedilhava ininterrupto pelo teclado de seu computador, relatórios e relatórios, contas, extratos, sonhos.
Agachara-se. Faltava-lhe coragem para sentar, deitar, naquele chão fétido. Era a degradação e ele jamais compactuou com a degradação.
Foi se despindo e, desnudo, imaginou-se caso houvesse um espelho ali. Toda a pompa extinguira-se, acabara-se. Agora era só ele, em minúsculas, sem mistificação.
29.1.09
Devaneios da razão
( os devaneios da razão devem ser aqueles momentos inexplicáveis em que a parte pensante se liberta da parte responsável do nosso ser e então os pensamentos ganham asas, cruzam a exosfera e vão se encontrar com Deus ou alguma espécie de energia onipresente que mora ao lado das estrelas / os devaneios da razão existem em todas as religiões, em todas as filosofias, em todas as ciências, sob os mais diversos nomes e codinomes; o que ninguém percebe é que os devaneios da razão não precisam de nenhuma religião, filosofia, ciência, nem nada / os devaneios da razão são essência )
Ana Clara era Ana mas não era clara. Porque sua mente, apavorada de novavelha, há muito andava opaca, reverberando a cor do mundo que a cercava.
Ela não queria perder de todo a razão porque, no fundo, preocupava-se muito com a idéia de acabar ensandecida em um hospício, feito cobaia humana de psiquiatras doidos e suas elétricas teorias experimentais para curar a loucura. Mas onde estava a razão? Havia mesmo algum lugar, nos recônditos escuros do cérebro, entre reações químicas e conexões neuróticas dos neurônios, onde se alojava a consciência?
Ana Clara procurou a resposta em Freud, já faz tempo. Não encontrou.
A razão podia ser alma, bem desalmada, sem calma, virar energia, vir do pó e ao lodo voltar depois da chuva? Se Deus existisse a razão podia ser brinquedo de Deus, esse bonachão!, se divertindo com a gente. Vai que fosse o castelo de Franz Kafka, aquela angústia impermeável e longe do alcance dos aldeões?
Uma vez ela tinha lido que o pensamento era uma coisa à-toa. E tem um cientista português de renome, um nome que não vem ao caso nem à memória, que jura pela mãe mortinha que todas as células do corpo, e não só o cérebro, pensam!
Ana Clara decidiu ir mais longe, ou porque preferia ela girar a contemplar o mundo parado ou porque sim. Percebeu, inconformada, num misto de êxtase e decepção, que a alma, a consciência, o pensamento, a razão, nada disso tinha fórmula molecular fixa, tampouco forma geométrica constante. Não são ondas nem partículas. Hoje parecem sereias indefesas, amanhã terríveis monstros onipotentes. Talvez não sejam nem energia, não possam ser convertidos em massa pelo célebre raciocínio lógico einsteiniano e=mc2, e nem existam de fato.
Ela percebeu que a alma, a consciência, o pensamento, a razão têm a espessura exata do infinito. E achou isso tão bonito que fez brotarem rosas em seu coração!
Se a razão coubesse no palpável, como explicar que toda reta não passa de um círculo de raio infinito? Como supor que a luz é a quarta dimensão métrica, o tempo podendo ser representado por metros elevados à quarta potência? Como saber que todo número divido por zero é igual ao infinito, provando de vez assim a possibilidade bíblica da multiplicação máxima de qualquer pouco?
Ana Clara sorriu quando descobriu o segredo do Universo: a razão é maior do que parece e a consciência humana está situada, bem guardadinha, num oásis profundo de perseverança em dor.
Sem querer, Ana Clara descobriu que há um esconderijo mais seguro do que o do Bin Laden. E fica pertinho. Dentro do infinito.
Ana Clara era Ana mas não era clara. Porque sua mente, apavorada de novavelha, há muito andava opaca, reverberando a cor do mundo que a cercava.
Ela não queria perder de todo a razão porque, no fundo, preocupava-se muito com a idéia de acabar ensandecida em um hospício, feito cobaia humana de psiquiatras doidos e suas elétricas teorias experimentais para curar a loucura. Mas onde estava a razão? Havia mesmo algum lugar, nos recônditos escuros do cérebro, entre reações químicas e conexões neuróticas dos neurônios, onde se alojava a consciência?
Ana Clara procurou a resposta em Freud, já faz tempo. Não encontrou.
A razão podia ser alma, bem desalmada, sem calma, virar energia, vir do pó e ao lodo voltar depois da chuva? Se Deus existisse a razão podia ser brinquedo de Deus, esse bonachão!, se divertindo com a gente. Vai que fosse o castelo de Franz Kafka, aquela angústia impermeável e longe do alcance dos aldeões?
Uma vez ela tinha lido que o pensamento era uma coisa à-toa. E tem um cientista português de renome, um nome que não vem ao caso nem à memória, que jura pela mãe mortinha que todas as células do corpo, e não só o cérebro, pensam!
Ana Clara decidiu ir mais longe, ou porque preferia ela girar a contemplar o mundo parado ou porque sim. Percebeu, inconformada, num misto de êxtase e decepção, que a alma, a consciência, o pensamento, a razão, nada disso tinha fórmula molecular fixa, tampouco forma geométrica constante. Não são ondas nem partículas. Hoje parecem sereias indefesas, amanhã terríveis monstros onipotentes. Talvez não sejam nem energia, não possam ser convertidos em massa pelo célebre raciocínio lógico einsteiniano e=mc2, e nem existam de fato.
Ela percebeu que a alma, a consciência, o pensamento, a razão têm a espessura exata do infinito. E achou isso tão bonito que fez brotarem rosas em seu coração!
Se a razão coubesse no palpável, como explicar que toda reta não passa de um círculo de raio infinito? Como supor que a luz é a quarta dimensão métrica, o tempo podendo ser representado por metros elevados à quarta potência? Como saber que todo número divido por zero é igual ao infinito, provando de vez assim a possibilidade bíblica da multiplicação máxima de qualquer pouco?
Ana Clara sorriu quando descobriu o segredo do Universo: a razão é maior do que parece e a consciência humana está situada, bem guardadinha, num oásis profundo de perseverança em dor.
Sem querer, Ana Clara descobriu que há um esconderijo mais seguro do que o do Bin Laden. E fica pertinho. Dentro do infinito.
27.1.09
Os irmãos Andrade
Juca-Ansado se divertia com o que lia, mesmo quando não gostava. Sua mente era povoada de heróis psicodélicos, damas sofrendo por amor, gatos presos nas árvores, bombeiros apagando incêndios causados pela bituca de cigarro que seu pai sempre fumava. Porque o pai de Juca-Ansado fumava direto. E quando alguém dizia que ele ia morrer de câncer, ele concordava mesmo. Mas quando alguém lhe perguntava o porquê dele fumar desvairadamente daquele jeito, ele respondia que tinha comprado algumas ações da Souza Cruz e queria valorizar o seu produto especulatário.
Juca-Ansado era diferente de seus colegas por dois motivos. O primeiro é o mais óbvio de todos: já ninguém mais costumava ler livros no tempo de Juca-Ansado, só ele que lia, e lia assim de uma maneira obstinada e quase sexual. O outro motivo é que Juca-Ansado não se apaixonava pela história do livro, mas ficava fã mesmo era dos autores dos livros. Ou seja: sua mente era povoada de heróis psicodélicos, damas sofrendo por amor, gatos presos nas árvores, bombeiros apagando incêndios causados pela bituca de cigarro que seu pai sempre fumava, e todos esses personagens eram os autores de suas próprias histórias. Os heróis psicodélicos escreviam tudo com os laptops de última geração, as damas sofrendo por amor pegavam a pena romântica e rabiscavam cartas patéticas, os gatos presos não escreviam porque gatos não sabem escrever, os bombeiros eram na verdade contistas de primeira qualidade.
Os que mais fascinavam Juca-Ansado eram os modernistas. Gostava sobretudo dos irmãos Andrade: Mario de Andrade, Oswald de Andrade e Carlos Drummond de Andrade. Sabia de cor vários poemas do trio parada dura que para ele eram os três mosqueteiros menos Dartagnan que poderia muito bem ser o Manuel Bandeira, manézinho do coração dele.
Quando Juca-Ansado ficou crescido o suficiente para ser irresponsável e sair aprontando por aí, ele experimentou ácido lisérgico pela primeira vez. E começou a ver coisas maravilhosas em seus livros que lia e aí foram vacas caindo da constelação de Órion, cenas de cinema brotando do palco do Odeon, os Beatles em carne e osso pedindo autógrafo para ele. Juca-Ansado chegou em casa numa noite abraçado com o extintor de incêndio e cantando come on baby, light my fire numa piração estonteante.
E os irmãos Andrade eram parceiros nessas aventuras por outros mundos. LSD, irmãos Andrade, Manuel Bandeira vestido de Dartagnan.
Juca-Ansado foi ficando cada vez mais descansado pois a vida era-lhe se não bela ao menos confortável. Pelo menos o sol brilhava até em penumbrosos dias de chuva e todas as garotas eram bonitas mesmo aquelas desengonçadas com caras de nerd.
Um dia ele decidiu acabar com o LSD, e com o conto. Assim, sem mais nem menos. Quase briguei com ele, dizendo que o conto ainda estava pela metade, faltava o conflito, faltava o desfecho, faltava tudo. Nem parecia um conto ainda.
- Se quiser pode continuar. Mas terá que ser sem mim!, disse-me Juca.
Mas como? Como continuar sem o protagonista? Logo agora que a história vai ficando legal, talvez até emplacasse um Nobel de Literatura, se fosse filme tinha certeza que levaria o Oscar, o conto ia ficar sensacional. Não. Não acredito.
- Ok. Você não precisa acreditar. Estou saindo.
Não pode me abandonar assim. Seu ingrato! Não se esqueça que você é minha criação e...
- Não mandei você me dar autonomia. Vida própria, inteligência artificial, capacidade de ser irreverente.
E agora? O que fazer? Ao menos me diga o porquê disso tudo.
- É que fiquei frustrado. Descobri que você é um tremendo mentiroso. Os irmãos Andrade nunca foram irmãos.
Fiquei só, olhando estático para o computador, resmungando qualquer coisa revoltado. Meu personagem tinha fugido. Em seu quarto restavam apenas um resto de LSD, duas garotas até que bonitinhas e uma vaca das que tinham caído do céu. Os Beatles dormiam ao canto, e roncavam alto os desgraçados! Peguei um livro do Modernismo Brasileiro que repousava, alheio a tudo, sobre a mesa. Fui ver os irmãos Andrade e o Manézinho Dartagnan.
Juca-Ansado era diferente de seus colegas por dois motivos. O primeiro é o mais óbvio de todos: já ninguém mais costumava ler livros no tempo de Juca-Ansado, só ele que lia, e lia assim de uma maneira obstinada e quase sexual. O outro motivo é que Juca-Ansado não se apaixonava pela história do livro, mas ficava fã mesmo era dos autores dos livros. Ou seja: sua mente era povoada de heróis psicodélicos, damas sofrendo por amor, gatos presos nas árvores, bombeiros apagando incêndios causados pela bituca de cigarro que seu pai sempre fumava, e todos esses personagens eram os autores de suas próprias histórias. Os heróis psicodélicos escreviam tudo com os laptops de última geração, as damas sofrendo por amor pegavam a pena romântica e rabiscavam cartas patéticas, os gatos presos não escreviam porque gatos não sabem escrever, os bombeiros eram na verdade contistas de primeira qualidade.
Os que mais fascinavam Juca-Ansado eram os modernistas. Gostava sobretudo dos irmãos Andrade: Mario de Andrade, Oswald de Andrade e Carlos Drummond de Andrade. Sabia de cor vários poemas do trio parada dura que para ele eram os três mosqueteiros menos Dartagnan que poderia muito bem ser o Manuel Bandeira, manézinho do coração dele.
Quando Juca-Ansado ficou crescido o suficiente para ser irresponsável e sair aprontando por aí, ele experimentou ácido lisérgico pela primeira vez. E começou a ver coisas maravilhosas em seus livros que lia e aí foram vacas caindo da constelação de Órion, cenas de cinema brotando do palco do Odeon, os Beatles em carne e osso pedindo autógrafo para ele. Juca-Ansado chegou em casa numa noite abraçado com o extintor de incêndio e cantando come on baby, light my fire numa piração estonteante.
E os irmãos Andrade eram parceiros nessas aventuras por outros mundos. LSD, irmãos Andrade, Manuel Bandeira vestido de Dartagnan.
Juca-Ansado foi ficando cada vez mais descansado pois a vida era-lhe se não bela ao menos confortável. Pelo menos o sol brilhava até em penumbrosos dias de chuva e todas as garotas eram bonitas mesmo aquelas desengonçadas com caras de nerd.
Um dia ele decidiu acabar com o LSD, e com o conto. Assim, sem mais nem menos. Quase briguei com ele, dizendo que o conto ainda estava pela metade, faltava o conflito, faltava o desfecho, faltava tudo. Nem parecia um conto ainda.
- Se quiser pode continuar. Mas terá que ser sem mim!, disse-me Juca.
Mas como? Como continuar sem o protagonista? Logo agora que a história vai ficando legal, talvez até emplacasse um Nobel de Literatura, se fosse filme tinha certeza que levaria o Oscar, o conto ia ficar sensacional. Não. Não acredito.
- Ok. Você não precisa acreditar. Estou saindo.
Não pode me abandonar assim. Seu ingrato! Não se esqueça que você é minha criação e...
- Não mandei você me dar autonomia. Vida própria, inteligência artificial, capacidade de ser irreverente.
E agora? O que fazer? Ao menos me diga o porquê disso tudo.
- É que fiquei frustrado. Descobri que você é um tremendo mentiroso. Os irmãos Andrade nunca foram irmãos.
Fiquei só, olhando estático para o computador, resmungando qualquer coisa revoltado. Meu personagem tinha fugido. Em seu quarto restavam apenas um resto de LSD, duas garotas até que bonitinhas e uma vaca das que tinham caído do céu. Os Beatles dormiam ao canto, e roncavam alto os desgraçados! Peguei um livro do Modernismo Brasileiro que repousava, alheio a tudo, sobre a mesa. Fui ver os irmãos Andrade e o Manézinho Dartagnan.
18.1.09
A viúva
Viúva há dois meses, a mulher de Caieiras procura em blogs receitas para guardar luto no Natal. Traída pelo Google, foi a visitante de número 8 910 de meu www.cronopolitano.blogspot.com, em 3 de agosto de 2007, às 2h20min59s. Seu falecido marido, um Papai Noel bonachão de 180 quilos, barba espessa fedida, diabetes, nunca acreditou que houvesse vida depois do Ano-Novo. Agora, apodrece tranqüilo, esquecido sob o túmulo 203 de um cemitério comum.
17.1.09
Retrato estático
Hermenegildo era um protótipo de homem. Não bastasse seu nome no RG, não bastasse seu crachá dependurado o dia todo no lado esquerdo do peito, não bastasse o não bastasse sempre pulando irreversível em sua mente.
- Vai tomar no c...!
- Pô, Menê, pega leve...
Trabalhava como encaixotador, no final da linha de produção da indústria X, na rua Y, do bairro Z, da cidade Alfa. À noite, em sua casa, encontrava Mulher.
23 anos, morena, lábios carnudos, corpo esbelto. Hermenegildo nunca entendeu como conseguira aquele filé. E todo dia agradecia a Deus, Buda, Padinho Ciço, Jeová, Amon-Rá, Galinha Preta, Saci Pererê e tudo o mais que lhe vinha à cabeça. Até ao Lula, como se Mulher lhe tivesse sido garantida por Medida Provisória.
Encaixotador era profissão ingrata. Ficava trabalhando e remoendo o som encaixotador. Tentava encaixar um substantivo pervertido. Pra sobrar esperança. Pra produzir gozo. Pra antecipar Mulher - esperando-o, sorrindo, na casinha simples de número 123, da rua A, no bairro B, subúrbio escuro e úmido da mesma cidade Alfa.
Se era calor, Mulher o esperava nua. Hermenegildo sempre se perguntou se ela ficava assim pela casa o dia todo, mas nunca teve coragem de confirmar com Mulher. Tinha ciúmes das janelas. Tinha orgulho de Mulher ser sua. Do muro, em cima.
Se era frio, Mulher o esperava com um café quente, pão, manteiga. E, enquanto conversavam, preparava sopa ou purê. De acordo com o humor.
Na indústria X, encaixotador:
- M... de caixa que não se encaixa.
- Calma, Menê, calma...
- P.. que o p..., c...!
Enquanto isso, Mulher ficava ansiosa por um enredo que não vinha. Suas vidas eram a mesmice, condenados. Casara-se com Hermenegildo para pagar promessa. Penitência. Tinha de ser com o primeiro que dobrasse a esquina da rua Y, no bairro Z, da cidade Alfa. Tinha de ser um ritual: achamento, olhar, bilhete jogado no bolso esquerdo, encontro à meia-noite depois de uma semana, exata. Depois, entrega, volúpia, selvageria gostosa. Às seis da manhã, um convite: casamento. Com a condição de que uma negativa custaria ao felizardo a própria vida.
Ela, 23 anos. Ele, 28. Aprenderam a se gostar, amar até.
Hermenegildo procurava não parar pra pensar em sua sorte grande. Seus nervos, em nó, provocavam uma arritmia cardíaca quando se dava a filosofias baratas. Preferia compensar com retidão o desmesurado de sua relação: não se dava a excessos, recusava esticadinhas com os amigos, sequer olhava para o traseiro rechonchudo da copeira da indústria X, era todo-carinhos com Mulher, fazia juras de amor todos os dias.
Mulher era a loucura. Sem reticências.
- Vai tomar no c...!
- Pô, Menê, pega leve...
Trabalhava como encaixotador, no final da linha de produção da indústria X, na rua Y, do bairro Z, da cidade Alfa. À noite, em sua casa, encontrava Mulher.
23 anos, morena, lábios carnudos, corpo esbelto. Hermenegildo nunca entendeu como conseguira aquele filé. E todo dia agradecia a Deus, Buda, Padinho Ciço, Jeová, Amon-Rá, Galinha Preta, Saci Pererê e tudo o mais que lhe vinha à cabeça. Até ao Lula, como se Mulher lhe tivesse sido garantida por Medida Provisória.
Encaixotador era profissão ingrata. Ficava trabalhando e remoendo o som encaixotador. Tentava encaixar um substantivo pervertido. Pra sobrar esperança. Pra produzir gozo. Pra antecipar Mulher - esperando-o, sorrindo, na casinha simples de número 123, da rua A, no bairro B, subúrbio escuro e úmido da mesma cidade Alfa.
Se era calor, Mulher o esperava nua. Hermenegildo sempre se perguntou se ela ficava assim pela casa o dia todo, mas nunca teve coragem de confirmar com Mulher. Tinha ciúmes das janelas. Tinha orgulho de Mulher ser sua. Do muro, em cima.
Se era frio, Mulher o esperava com um café quente, pão, manteiga. E, enquanto conversavam, preparava sopa ou purê. De acordo com o humor.
Na indústria X, encaixotador:
- M... de caixa que não se encaixa.
- Calma, Menê, calma...
- P.. que o p..., c...!
Enquanto isso, Mulher ficava ansiosa por um enredo que não vinha. Suas vidas eram a mesmice, condenados. Casara-se com Hermenegildo para pagar promessa. Penitência. Tinha de ser com o primeiro que dobrasse a esquina da rua Y, no bairro Z, da cidade Alfa. Tinha de ser um ritual: achamento, olhar, bilhete jogado no bolso esquerdo, encontro à meia-noite depois de uma semana, exata. Depois, entrega, volúpia, selvageria gostosa. Às seis da manhã, um convite: casamento. Com a condição de que uma negativa custaria ao felizardo a própria vida.
Ela, 23 anos. Ele, 28. Aprenderam a se gostar, amar até.
Hermenegildo procurava não parar pra pensar em sua sorte grande. Seus nervos, em nó, provocavam uma arritmia cardíaca quando se dava a filosofias baratas. Preferia compensar com retidão o desmesurado de sua relação: não se dava a excessos, recusava esticadinhas com os amigos, sequer olhava para o traseiro rechonchudo da copeira da indústria X, era todo-carinhos com Mulher, fazia juras de amor todos os dias.
Mulher era a loucura. Sem reticências.
10.1.09
Cemitério da Consolação
Paulo Prado, Mario de Andrade, Líbero Badaró, Monteiro Lobato, Antonieta Rudge, Cesário Mota Júnior, Luís Gama, Marquesa de Santos, Mário Zan, Oswald de Andrade, Paulo Machado de Carvalho, Caetano de Campos, Armando Bogus, Júlio de Mesquita, Franco da Rocha, Roberto Simonsen, Geremia Lunardelli, Jorge Street, Caio Prado Júnior, Cândido Fontoura, Francisco Matarazzo, Antoninho da Rocha Marmo, Paulo Emílio Sales Gomes, Rubens de Falco, Itália Fausta, Ramos de Azevedo, Pérola Byington, Anália Franco, Tarsila do Amaral, Marcelo Tupynambá, Olívia Guedes Penteado, Cícero Pompeu de Toledo, Guiomar Novaes, Flávio Império, João Mendes, Emílio Ribas, Antônio da Silva Prado, Altino Arantes, Carvalho Pinto, Lucas Nogueira Garcez, Marquês de Monte Alegre, Barão de Antonina, Armando de Sales Oliveira, Carlos de Campos, José Maria Whitaker, Abreu Sodré, Campos Sales, Anhaia Melo, Couto de Magalhães, Washington Luís, Bernardino de Campos, Ademar de Barros, Jorge Tibiriçá, etc. Principalmente o etc.
30.12.08
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