31.1.09

Boa noite, mas eu fecho a porta.
Porque todos estão sob a responsabilidade alheia. E os sonhos alheios me interessam menos.

1. Teorias de Base - Poesia, um caso de primeiridade

Exemplo de melopéia: desde quadrinhas infantis, carregadas de ruídos onomatopaicos, até grandes obras-primas como Castro Alves dizendo “que a brisa do Brasil beija e balança” ou Vinícius de Moraes “no diz-que-diz-que macio”.

Ritmo
Na porta
a varredeira varre o cisco
varre o cisco
varre o cisco

Na sala
a escovadeira escova o piso
escova o piso
escova o piso

No tanque
a lavadeira lava a roupa
lava a roupa
lava a roupa

até que enfim
chega a seu cabo
a faina toda
e o mundo gira célere como um pião!
(Mário Quintana)

Para festejar a morte de um mito morto

Era noite quando se apagaram as luzes e ele foi conduzido para uma ante-sala vazia e fria. Tivera de aguardar até que onze badaladas e meia anunciassem sua chegada, então um mordomo franzino, de óculos, andar desajeitado e um tanto frouxo, avisou:

- Vai ter de esperar até amanhã. Hoje o Dr. Pedro, gerente do Departamento de Transições, precisou encerrar o expediente mais cedo.

Hoje só amanhã, resmungou por dentro. Ele que sempre odiara o hoje só amanhã, ele que sempre xingara seus funcionários de incompetentes quando se calcavam no hoje só amanhã, ele que extinguira de suas empresas o hoje só amanhã. Ironias da vida também há no pós-vida, constatou num misto de sorriso cínico e raiva interior.

Raiva interior anterior ao fato de que se apercebera logo em seguida: teria de passar a noite ali, provavelmente dormindo naquele chão escuro e gelado, um tanto úmido. Vai saber se não existem insetos nojentos por aqui?, pensava, mas ficava só no pensamento. E se tiver ratos?, mas não se atrevera de jeito algum a reclamar para o mordomo franzino que ia se retirando da ante-sala. Vai que ele fosse algum anjo, algum guardião-celestial... Melhor não se indispor com essa gente. Vai que ele fosse um delator, pronto a adulterar sua ficha comportamental... Melhor não se indispor com essa gente.

A noite não tem piedade dos insones. A noite é cruel com os workahoolics. A noite é faminta quando olha para os olhos dos que não sonham porque sequer dormem. Pensava em tudo isso quando a madrugada despontava para cair depois. Porque era esse o horário em que ele, recém-divorciado, mais rendia. Afrouxava o nó da gravata e, sozinho no escritório, dedilhava ininterrupto pelo teclado de seu computador, relatórios e relatórios, contas, extratos, sonhos.

Agachara-se. Faltava-lhe coragem para sentar, deitar, naquele chão fétido. Era a degradação e ele jamais compactuou com a degradação.

Foi se despindo e, desnudo, imaginou-se caso houvesse um espelho ali. Toda a pompa extinguira-se, acabara-se. Agora era só ele, em minúsculas, sem mistificação.

30.1.09

1. Teorias de Base - Poesia, um caso de primeiridade

Exemplo de fanopéia: maioria dos poemas de Baudelaire, com aquela profusão de imagens fortes e sinestésicas; textos parnasianos e simbolistas.

Vaso Chinês
Estranho mimo aquele vaso! Vi-o,
Casualmente, uma vez, de um perfumado
Contador sobre o mármor luzidio,
Entre um leque e o começo de um bordado.

Fino artista chinês, enamorado,
Nele pusera o coração doentio
Em rubras flores de um sutil lavrado,
Na tinta ardente, de um calor sombrio.

Mas, talvez por contraste à desventura,
Quem o sabe?... de um velho mandarim
Também lá estava a singular figura.

Que arte em pintá-la! A gente acaso vendo-a,
Sentia um não sei quê com aquele chim
De olhos cortados à feição de amêndoa.
(Alberto de Oliveira)
É na pausa que o arrependimento se estabelece.

Filminho de sexta



Viral, mas legal.

Have a Nietzsche day!

No silêncio, eu me encontro.
O resto são vazios.

VINTE E NOVE DE JANEIRO

Sempre é assim: a expectativa, a desilusão e eu enxotando fragmentos de um amor perdido. Porque a história romântica ocidental resume-se ao tombo. Ou aos tombos, para ser menos específico e mais exato.
O importante é que tem futebol na televisão, Brahma na geladeira e água quente no chuveiro. Para distrair, coleciono pensamentos de todos os estilos. Dos musicais aos divertidos, dos cheirosos aos ricos, dos problemáticos aos poéticos.
Hoje não tem sexo.

Link legal

Obra completa de Fernando Pessoa.

11. Zumbi zureta, zzzZZZzzzZZZzzzZZZzzzZZZ

O pobreta, pobre poeta, acordou com elefantíase semântica. Para que isso jamais tornasse a se repetir, decidiu nem mais dormir nunca. Virou zumbi zureta.

- Tenho uma faca inutensílio para socorrear a você.

- E eu, uma espada multicolorida de hipnotizar.

- Então vamos falar de fotografia, porque adoro fotografar pensamentos. Pena, nem sempre eles se me revelam; por isso tenho preferido às vezes fotografar sentimentos e sabores.

- Você terapia ao rodopiar ou prefere tergiversar-me? Eu, verso.

- Na delícia de alimentar um balé de palavras, olvido os álibis para eleger sensações.

- Hum-hum.

- Nem-hum, nem-houtro. São sabor amora, porque sonoram maior.

- Preciso beber ao som de jazz. Lendo Neruda a dois. Enlouquecendo pétala-borboleta.

Zumbi, zureta, pobreta conversava consigo. Era pergunta e era resposta. Unívoco. Uníssono. Unílogo.

- Saudades de ser pedra. No sapato.

Nove meses

Depois do amor, nove meses, era um gemido grande e um berreiro maior ainda anunciando novo habitante no mundo, nova criatura pra respirar poluição, nova criança pra sofrer tudo o que a vida guarda.

Aí era aquele sorrisinho frouxo, ambiente asséptico, médico com cara de idiota olhando pras mãos tão acostumadas a bater em bundinha de neném. Cena 12.842/2004. Corta VT e o cordão umbilical junto. Pode levar.

Quem vê cara não vê coração, vê joelho e joelho amassado ainda por cima. Vermelho. Os olhinhos fechados não permitem nada de cutucar, nem um olhar de esguelha. Agulha já é vacina ou ainda é muito cedo pra injetar corpos estranhos dentro do estranho corpo cor de cor? Absurdo.

Depois do amor vem sempre aquela dor pontiaguda, aquele sentimento punk em cima da cabeça. O depois do amor não existe, se o amor for mesmo amor. A não ser que não haja sinal nem senha, que não se veja sanha nem sonho, que não se tenha amanhã. O amanhã não tem tamanho se há amor.

Hoje é o amanhã. Acordei chovendo pra rimar com as lágrimas do meu âmago. Eu te âmago. Depois do amor, nove meses, era um gemido grande e um estranho berreiro ainda anunciando tudo: aquilo vivo que há entre o nascer e o morrer. Um vampiro que escorre a espreita e uma montanha que sacode na esperança.

Agora é só uma dor pontiaguda que nem parece sombra de amor. Agora é só um suspiro, um jeito cibernético de olhar pra tela vazia, uma janela entreaberta. Agora é só saudade.

Eu só queria era o esperma escorrendo entre suas pernas.

29.1.09

1. Teorias de Base - Poesia, um caso de primeiridade

Exemplo de logopéia: maioria dos poemas de Fernando Pessoa, com aquela lógica argumentativa.

Autopsicografia
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.
(Fernando Pessoa)

Instante da estante

BANDEIRA, Pedro. A droga da obediência. São Paulo: Moderna, 1992.

Ainda quero fotografar

  • Pensamentos;
  • Vazios;
  • Aromas;
  • Tudos;
  • Um jogo do Palmeiras.

Aspiração

Queria entender de silêncios.

10. Diálogo acontecido dentro de meu sapato

- Vamos brincar de pedras?

- Como se faz? Com formigas caminhando sobre? Com cócegas no limo nascente?

- Mas a pedra pode ficar submersa em um aquário de neons. Aí nascerão algas.

- E terá um cascudo a se esfregar, sugar o verde, viver?

- Talvez.

(...)

- Não gostei dessa de brincar de pedras.

- Mas foi você quem sugeriu.

- Sim.

- E por que não?

- Pela frieza. Pela rigidez. Pelo cadáver que sinto em você-sendo-pedra.

- Como cadáver se nunca houve vida?

- Pela dureza. Pela falta de expressão.

- Como a vida?

- Sim. Mas é preciso vivê-la, apesar dos dissabores. Só assim a vida finge que vale a pena.

- E a pedra? Chora?

- A pedra serve para tapar o túmulo.

- Feito lápide?

- Com inscrição e tudo.

- Aqui jaz Fulano de Tal?

- Aqui jaz Fulano de Tal. E a beleza pétrea está justamente na identidade do Fulano de Tal, que pode ser eu ou você.

- Vamos brincar de pedras?

- Ganhei.

VINTE E OITO DE JANEIRO

Porque sou um completo idiota. E fico contando os feixes de fumaça que saem dos cigarros alheios.

Devaneios da razão

( os devaneios da razão devem ser aqueles momentos inexplicáveis em que a parte pensante se liberta da parte responsável do nosso ser e então os pensamentos ganham asas, cruzam a exosfera e vão se encontrar com Deus ou alguma espécie de energia onipresente que mora ao lado das estrelas / os devaneios da razão existem em todas as religiões, em todas as filosofias, em todas as ciências, sob os mais diversos nomes e codinomes; o que ninguém percebe é que os devaneios da razão não precisam de nenhuma religião, filosofia, ciência, nem nada / os devaneios da razão são essência )

Ana Clara era Ana mas não era clara. Porque sua mente, apavorada de novavelha, há muito andava opaca, reverberando a cor do mundo que a cercava.

Ela não queria perder de todo a razão porque, no fundo, preocupava-se muito com a idéia de acabar ensandecida em um hospício, feito cobaia humana de psiquiatras doidos e suas elétricas teorias experimentais para curar a loucura. Mas onde estava a razão? Havia mesmo algum lugar, nos recônditos escuros do cérebro, entre reações químicas e conexões neuróticas dos neurônios, onde se alojava a consciência?

Ana Clara procurou a resposta em Freud, já faz tempo. Não encontrou.

A razão podia ser alma, bem desalmada, sem calma, virar energia, vir do pó e ao lodo voltar depois da chuva? Se Deus existisse a razão podia ser brinquedo de Deus, esse bonachão!, se divertindo com a gente. Vai que fosse o castelo de Franz Kafka, aquela angústia impermeável e longe do alcance dos aldeões?

Uma vez ela tinha lido que o pensamento era uma coisa à-toa. E tem um cientista português de renome, um nome que não vem ao caso nem à memória, que jura pela mãe mortinha que todas as células do corpo, e não só o cérebro, pensam!

Ana Clara decidiu ir mais longe, ou porque preferia ela girar a contemplar o mundo parado ou porque sim. Percebeu, inconformada, num misto de êxtase e decepção, que a alma, a consciência, o pensamento, a razão, nada disso tinha fórmula molecular fixa, tampouco forma geométrica constante. Não são ondas nem partículas. Hoje parecem sereias indefesas, amanhã terríveis monstros onipotentes. Talvez não sejam nem energia, não possam ser convertidos em massa pelo célebre raciocínio lógico einsteiniano e=mc2, e nem existam de fato.

Ela percebeu que a alma, a consciência, o pensamento, a razão têm a espessura exata do infinito. E achou isso tão bonito que fez brotarem rosas em seu coração!

Se a razão coubesse no palpável, como explicar que toda reta não passa de um círculo de raio infinito? Como supor que a luz é a quarta dimensão métrica, o tempo podendo ser representado por metros elevados à quarta potência? Como saber que todo número divido por zero é igual ao infinito, provando de vez assim a possibilidade bíblica da multiplicação máxima de qualquer pouco?

Ana Clara sorriu quando descobriu o segredo do Universo: a razão é maior do que parece e a consciência humana está situada, bem guardadinha, num oásis profundo de perseverança em dor.

Sem querer, Ana Clara descobriu que há um esconderijo mais seguro do que o do Bin Laden. E fica pertinho. Dentro do infinito.

28.1.09

1. Teorias de Base - Poesia, um caso de primeiridade

Melopéia, som. Fanopéia, imagem. Logopéia, idéia. Ezra Pound é o criador desta classificação consagrada, sagrado pilar para a compreensão da poesia com os olhos fixados no século vinte, embora olhando para a totalidade precedente. Para Pound, contudo e com nada, a logopéia é a maior delas, porque raciocina. Pensamos numa boneca russa: dentro da logopéia cabe a fanopéia cabe a melopéia. Aglutinando valores a logopéia realmente é a maior, pois nela estão as outras. Mas pensando na essência, no âmago da poesia: melopéia. Desde o princípio: melopéia.

Almas

cada alma que me escorre
-- e não é a sua, nem a minha --
nos distancia?

cadê o toque? cadê o olhar?
-- aquilos que suam, alegram --
de mais um dia.

cada alma que me foge
-- e não é a sua, só a minha --,
minha agonia.

Um quadro às quartas

Nomeio mistério semântico no meu ministério romântico no meio

Mas eu não sei como dizer o que sinto. Assim: falta-me o ar, perco os pulsos, meu corpo desfalece... Refém de seus sonhos, vítima voluntária de seus anseios, coadjuvante de seus planos, protagonista de suas curvas. Indo e vindo, vivendo, voando.

Ainda me faltam, porém, as palavras certas para dizer a ela o que sinto. Não sei como dizer: os verbos exatos perecem, os substantivos abstratos desaparecem, os advérbios não têm a intensidade de que preciso, os numerais não satisfazem. Ah, quem dera eu fosse poeta de verdade e soubesse escrever-lhe o que ela tanto merece. Escrevê-la, quiçá.

Uma palavra apenas eu queria, uma palavra. Traduziria eu em uma palavra tudo o que sinto, quero dizer e não consigo? Existe tal palavra perfeita? As minhas inquietações caminham sozinhas pelo vácuo intransponível do silêncio, sem eco, sem resposta.

Mereceria eu um amor que, de tão grande, sou incapaz de definir? Ouso perguntar, quase que por acaso.

Mas é silêncio, sempre silêncio que encontro, ainda que no sorriso da amada. Um silêncio que arranha, quase um barulho mudo. Isto é: um violão sem cordas, um coral de surdos, um quarto sem cantos, uma cor cega, um triângulo de uma reta só.

(...)

Tem sim a palavra! Ou a palavra não seria, simplesmente, amor?

27.1.09

VINTE E SETE DE JANEIRO

Que poderia se chamar "Do futebol e seus estranhos redondos poderes de arranhar o tédio, promover a paz e criar lides". Ou "Da impossibilidade técnica de a fotografia digital superar a analógica e suas veleidades quotidianas".

1. Teorias de Base - Poesia, um caso de primeiridade

Amor à primeira vista. Poesia. Jornali(ri)smo em toda a sua essência. O poeta percebe. O poeta apreende. O poeta se rende à beleza majestosa e sonora da palavra e lavra seus versos por misericórdia, retratando e pincelando a vida. O poeta é o repórter que lida a palavra-objeto. O poeta é o repórter do texto não-objeto.

Terça sonora



"Cá estou carente
Manda novamente algum cheirinho de alecrim"

Os irmãos Andrade

Juca-Ansado se divertia com o que lia, mesmo quando não gostava. Sua mente era povoada de heróis psicodélicos, damas sofrendo por amor, gatos presos nas árvores, bombeiros apagando incêndios causados pela bituca de cigarro que seu pai sempre fumava. Porque o pai de Juca-Ansado fumava direto. E quando alguém dizia que ele ia morrer de câncer, ele concordava mesmo. Mas quando alguém lhe perguntava o porquê dele fumar desvairadamente daquele jeito, ele respondia que tinha comprado algumas ações da Souza Cruz e queria valorizar o seu produto especulatário.

Juca-Ansado era diferente de seus colegas por dois motivos. O primeiro é o mais óbvio de todos: já ninguém mais costumava ler livros no tempo de Juca-Ansado, só ele que lia, e lia assim de uma maneira obstinada e quase sexual. O outro motivo é que Juca-Ansado não se apaixonava pela história do livro, mas ficava fã mesmo era dos autores dos livros. Ou seja: sua mente era povoada de heróis psicodélicos, damas sofrendo por amor, gatos presos nas árvores, bombeiros apagando incêndios causados pela bituca de cigarro que seu pai sempre fumava, e todos esses personagens eram os autores de suas próprias histórias. Os heróis psicodélicos escreviam tudo com os laptops de última geração, as damas sofrendo por amor pegavam a pena romântica e rabiscavam cartas patéticas, os gatos presos não escreviam porque gatos não sabem escrever, os bombeiros eram na verdade contistas de primeira qualidade.

Os que mais fascinavam Juca-Ansado eram os modernistas. Gostava sobretudo dos irmãos Andrade: Mario de Andrade, Oswald de Andrade e Carlos Drummond de Andrade. Sabia de cor vários poemas do trio parada dura que para ele eram os três mosqueteiros menos Dartagnan que poderia muito bem ser o Manuel Bandeira, manézinho do coração dele.

Quando Juca-Ansado ficou crescido o suficiente para ser irresponsável e sair aprontando por aí, ele experimentou ácido lisérgico pela primeira vez. E começou a ver coisas maravilhosas em seus livros que lia e aí foram vacas caindo da constelação de Órion, cenas de cinema brotando do palco do Odeon, os Beatles em carne e osso pedindo autógrafo para ele. Juca-Ansado chegou em casa numa noite abraçado com o extintor de incêndio e cantando come on baby, light my fire numa piração estonteante.

E os irmãos Andrade eram parceiros nessas aventuras por outros mundos. LSD, irmãos Andrade, Manuel Bandeira vestido de Dartagnan.

Juca-Ansado foi ficando cada vez mais descansado pois a vida era-lhe se não bela ao menos confortável. Pelo menos o sol brilhava até em penumbrosos dias de chuva e todas as garotas eram bonitas mesmo aquelas desengonçadas com caras de nerd.

Um dia ele decidiu acabar com o LSD, e com o conto. Assim, sem mais nem menos. Quase briguei com ele, dizendo que o conto ainda estava pela metade, faltava o conflito, faltava o desfecho, faltava tudo. Nem parecia um conto ainda.

- Se quiser pode continuar. Mas terá que ser sem mim!, disse-me Juca.

Mas como? Como continuar sem o protagonista? Logo agora que a história vai ficando legal, talvez até emplacasse um Nobel de Literatura, se fosse filme tinha certeza que levaria o Oscar, o conto ia ficar sensacional. Não. Não acredito.

- Ok. Você não precisa acreditar. Estou saindo.

Não pode me abandonar assim. Seu ingrato! Não se esqueça que você é minha criação e...

- Não mandei você me dar autonomia. Vida própria, inteligência artificial, capacidade de ser irreverente.

E agora? O que fazer? Ao menos me diga o porquê disso tudo.

- É que fiquei frustrado. Descobri que você é um tremendo mentiroso. Os irmãos Andrade nunca foram irmãos.

Fiquei só, olhando estático para o computador, resmungando qualquer coisa revoltado. Meu personagem tinha fugido. Em seu quarto restavam apenas um resto de LSD, duas garotas até que bonitinhas e uma vaca das que tinham caído do céu. Os Beatles dormiam ao canto, e roncavam alto os desgraçados! Peguei um livro do Modernismo Brasileiro que repousava, alheio a tudo, sobre a mesa. Fui ver os irmãos Andrade e o Manézinho Dartagnan.

VINTE E SEIS DE JANEIRO

Um dia em tópicos que dialogam:
- Saí para caçar uma alma bonita.
- Não sei mais escrever poemas.
- Existe remédio para gripe?
- A tinta da caneta está no fim.
- Por que a TV só está falando de futebol carioca?
- Vou visitar a Biblioteca Mario de Andrade.
- Ainda não descobri o paradeiro da alma bonita.
- Para que quero?
- Para fazer cócegas nela tão profundamente que até o olhar vai sorrir.

26.1.09

1. Teorias de Base - Noções de Gestalt

Os princípios gestaltianos mais comuns são a Proximidade, a Continuidade e o Fechamento. Alguns conceitos são muito importantes:

· Manter a coerência
· Evitar transições bruscas
· Manter objetos que atuam como referências visuais
· Organizar a informação de modo que se distribua a geral primeiro, para depois especificar os detalhes.

Sem título, sem crônica

Gastei o dia tentando caçar uma borboleta tão bonita que coubesse nesta crônica. Mas não encontrei: todas elas eram bem maiores do que esta crônica e fiquei com pena de caçá-las.

Então hoje não tem crônica.