31.3.08

Para começar a semana

"Temos a arte para não morrer da verdade."

30.3.08

Domingo, foto

Murano, 2007
Clique de Carol Zaine (1985- )

29.3.08

Antônio

Antônio era o antônimo de íntimo, não por ser anônimo, mas por ser entrega. No óbvio que evitava, avistava Deus e suas antífonas; no êxito que aviltava, voava sobre as mentes antiquadas. Antônio tinha acento circunflexo, pra combinar com seu ar circunspecto.

Mesmo extrátimo, avesso do in, dentro do fora e assimétrico na identidade, tinha lá suas fraquezas. Revelava-as antes, ao espelho, no banheiro ou mesmo nas viagens no inverso de seus sonhos, através. Antônio, seu nome.

Na biblioteca, por exemplo: intrépido costumava vasculhar os descartes alheios, numa tara irrefreável por consumir a leitura recém-completada. Sua diária lida. Locupletou-se, a vida toda, no já lido. Semblante santo, sentava-se na cadeira mais próxima daquelas mesinhas onde há o recado estampado: “Por favor, depois do uso, deposite aqui o livro utilizado”. E, num gesto certeiro e rápido, antes que a tiazinha gorda da biblioteca passasse recolhendo os livros “pra estatística”, apanhava alguns deles e levava para o seu alcance, um gosto de deleite no rosto, um sorriso interior, um sarcasmo bem Antônio.

Daí era só revirar aquelas obras misteriosas. Leminski falando de Cristo, quem será que pegou pra ler isto? Olha só, um livro de Drummond cheio de anotações a lápis... Guimarães Rosa? Stendhal? Gabo? Nossa, eu sempre quis pegar essa história da coca-cola, mas nunca me lembrava de procurar!

Outra fraqueza íntima de Antônio era caçoar, interiormente, do exterior. Não do exterior estrangeiro, nem do exterior próximo outro, mas sim do exterior externo a si mesmo. Quando se via sozinho, no quarto ou na rua, coçava sua pele e pelamordedeus que lhe faltava blasfemava contra sua própria antonice. E começava a arrancar pedaços antônios, num exercício de autodestruição no mínimo interessante. Sem dúvida, não havia nele qualquer resquício de estima própria.

Antônio morava na Casa do Ó: as maluquices meio que loucanizam os olhares. Licores. Laços. Vaga-lumes luciluzindo em todas as esquinas. Um retrato pra alguém nunca mais olhar.

Uma vez deixou cair seu canhenho. Assim:
1) Suéter: Molhado dependurado no varal. Aquele da matemática. Aquele do tempo em que eu era ilusões e me perdia na trigonometria analítica.
Um prendedor, uma bolha de sabão. Dentro da bolha um menino iridescente, sorrindo só no canto da boca, cigarro entre os dedos. Depois ele pára de sorrir. Depois ele sussurra o mais alto que pode, no limite onde o sussurro quase se deita e deixa de ser sussurro pra se tornar gritinho histérico:
- Ahahaha! Eu vou queimar a bolha de sabão com a brasa do cigarro! Ahahaha! Eu vou me libertar daqui! Eu vou me vingar de vocês! Protejam suas filhas, seus viadinhos! Protejam-nas porque eu as projeto!

Mas o canhenho continuou caído. Assado:
2) Aforismo: errou quem disse que as pessoas são engraçadas. As pessoas são é desgraçadas.

E quem disse que o canhenho se levantava? Assunto:
3) Incrédito: custou, mas hoje descobri que a esperança morre de soluço e o sol não nasce de desgosto.
Custou, mas eu paguei.

Chamaram até os bombeiros, mas o canhenho, ah, o canhenho parecia grudado ao chão. Assento:
4) Egotrip: passo as tardes desobstruindo os mecanismos criados para auto-satisfação. Depois volto pra casa contando as estrelas que escorregaram e viraram paralelepípedos do caminho. Aí percebo que os caminhos são todos intransigentes mesmo!

O canhenho lá... Absinto:
5) Loucubrações: como estão as coisas quando o mar está estranho? As uvas, a chuva, o momento e a água...
A cura nunca há mais, senão a dor pela saudade do que nunca foi direito.
Saudade? Não... Não há cura que destrua o saudosismo. O resto é história. Por enquanto há só a morte das lembranças amargas.
Morrem sim. Junto com a esperança: sensual e etérea vicissitude dos que se afogam nela.
Hoje o dia está assim. Esquálido.
Não há salvação por trás do texto.
Pensando bem: não há salvação na frente também. Não há salvação no nexo, tampouco no contexto. Que é que somos?

E a torcida toda gritando: ca-nhêee-nho, ca-nhêee-nho, ca-nhêee-nho! Absorto:
6) Sobre cronópios e famas: um manual para viver à toa. Dois manuéis para sorrir atéia. Três menudos para cair no atchim!

Saem os bombeiros, entra a maca. Canhenho permanece em estado autômato. Mas desligado. Abduzido:
7) Definição: quando descobri que os seres humanos não vinham com manual de instruções, deitei a cabeça no travesseiro e chorei por mais de duas horas sem parar. Depois voltei a mim e passei a encarar o mundo do jeito que as coisas se me apresentam mesmo.
Quando descobri a inexorabilidade da Lei da Gravidade, primeiro fiquei com raiva, depois fiquei com uma inveja desgraçada desses vereadores celestiais que podem tudo com suas leis que jamais serão revogadas.
Quando desperto de meus sonhos, sempre acho que a vida vale menos a pena.
Mas, mesmo assim, continuamos com nossas dúvidas e inquietações. Que são o que nos movem, não é mesmo?

O canhenho murmura pedindo água, mas ninguém mais se lembrava a fórmula dos dois hidrogênios para cada oxigênio. Abraço:
8) Mente oca: no silêncio sai o cio nervoso das palavras que hoje não quero escrever. Xô! Assim a sina persegue e a vida segue cega na invirtude efêmera dos não-seres.

Tentam pregar um esparadrapo na boca do canhenho, mas ele não usa mais cadarços. Ábaco:
9) Ao espelho: e diga-me, o que fomos ontem se nada estávamos por dentro de agora? Diga-me...

Idéiam pegar o canhenho e meter-lhe num balde de água fria. Mas ele foge. Aberto:
10) Ensaio para uma oração: maremoto ou destruição?
Olho para o horizonte e não percebo o que está nem onde.
Liga não. Isto de não ter ninguém no caminho só pode ser uma rede balouçando vazia. O resto se inventa, se vinga, se viceja. Amém.


***


Nunca mais ninguém acreditou nessa história de que Antônio era o antônimo de íntimo. Vai ver ele, tornando-se público, deixou de ser pudico.

- Tão abismada...

No meu canto, embebido de solilóquios e manifestações de apreço por mim mesmo, rezo todo-dia pra que ninguém me julgue ser seu alter. Antônio...

28.3.08

Filminho de sexta



Ah, a matemática.

27.3.08

Instante da estante

BARROS, Manoel de. Memórias inventadas: a infância. São Paulo: Planeta, 2003.

À melhor, mulher

Respeito o teu silêncio mesmo quando ele quebra as bordas de meu âmago. Ele chega devagarinho e vai dormindo, é um verso avesso, é uma lembrança triste. Respeito o teu silêncio assim como respeitas minhas lágrimas, minhas rimas, meus desencantos.

Mulher: cose a minha vida para eu me perder nos teus braços!

Mulher: deslumbra-te em meus sonhos para que eu persiga os teus rastos!

Mulher: não sumas, pelamordedeus, pelamordemeuspais, pelamor...

Caminho ao teu lado, mesmo que não me perceba. Quando precisardes de um sorriso, solicita-me; um carinho, um afago, um senão, um talvez, sempre cá estarei. Sou tua sombra, sou teu ventre. Sou teu amante e teus sapatos, tuas chaves e teu amparo. Sou tua muralha, teu pedágio; mas também sei ser portal, pernas e janelas. Sou ponte.

Meu coração palpita, ausculta-me; sou tua desinência verbal, teu útero grávido, teu marido vivo, teu presente. Sou tua companhia inclusive na solidão e prometo sempre ser a luminescência exata dos teus pensamentos escuros e obtusos.

Às vezes acordo com uma vontade incrível de ser, para sempre, o brilho de teus olhos ou mesmo o cantinho inconfundível do teu sorriso sincero. Tem outros dias que o mau-humor nos domina e o mundo parece errado e o sol não tem graça nem a música que estou ouvindo. Mesmo assim, quero-te ao meu lado, e é injusto demais essa distância absurda que nos lacuna.

Procuro-te nas estrelas mais distantes e me dá um frio na barriga lembrar que elas já não estão mais. Fico preocupado com essas ausências e, se pego o telefone, não é para importunar-te nem nada; é para sossegar-me com a certeza de que não és tão estrela a ponto de extinguires-te.

Encontro-te num quadro de Monet, míope que sou. Depois viras a nitidez de uma fotografia bem tirada e assolas meu sentimento. Encontro-te numa carta de um ano atrás. Encontro-te nos e-mails velhos que tanto necessito.

Encontro-te. E cada vez com mais certeza, meu peito exclama:

- Minha mulher, sou-te.

26.3.08

Um quadro às quartas

La bouteille de vin, 1925
Obra de Pablo Ruiz Picasso (1881-1973)

25.3.08

queria mesmo era ser um computador. só para poder lerdear.

Agosto

"Agosto, mês de cachorro louco e ventania, passou
- mas passou por onde e onde ficará até ser hora de voltar?
Há gosto a gosto de Deus"
(Thaís Emília)

Gosto do teu gosto, teu rosto, teu resto, teu rasto,
teu jeito estranho de gostar do meu desgosto;
Gosto do infinito quando dorme dentro dos teus olhos
a olharem o nada e o tudo - é tão bonito!
Gosto somente do sentimento, semente da paixão
que plantei mas não entendo de agricultura pra colher;

Gosto quando psicografas Guimarães Rosa
e sempre cabe mais poesia na tua prosa
pra que uma rosa murche meu coração vermelho.

Gosto até da fera preferida fora de tua esfera
ainda que me fira pensar que fora assim feito;
Gosto da cor do silêncio quando te calas
e do sabor do sussurro quando murmuras;

Gosto sobretudo se me convidas a colher estrelas
e escolhes logo as mais belas para pôr nomes
e no meio de tanto nome que nomeias
há sempre um espaço que some, consome,
uma espaço vazio, escasso, quase fome,
onde cabem os nossos nomes.

Gosto quando o dia vai amanhecendo e me perguntas:
- Como vamos lamber a lua na poça d´água
se a claridade flutua nossa mágoa?

Terça sonora



"Os átomos todos dançam
Madruga"

24.3.08

Para começar a semana

"Se alguém te perguntar o que quiseste dizer com um poema, pergunta-lhe o que Deus quis dizer com este mundo."

23.3.08

Domingo, foto

Cicl(nud)ista, 2007
Clique de Denis Russo Burgierman (1973- )

22.3.08

as melhores idéias sempre escorrem pelo ralo;
as piores, apodrecem em nossos bolsos.

Quatro bregas antes

  1. Antes que alguém me acorde quero ter motivos para me perder nos acordes desta canção insone;
  2. Antes que o sol nasça quero sentir o abraço descompromissado dos notívagos perdidos;
  3. Antes que alguém me escute quero fazer ecoar o silêncio nobre pelos cantos recônditos sem voz;
  4. Antes que a lua se esconda não quero despertar hoje não.

21.3.08

Filminho de sexta



Um comercial bem bacana.

20.3.08

Instante da estante

TALESE, Gay. Fama e anonimato. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

19.3.08

SÉCULO 21, TEC-TEC HIGH-TECH

tec-tec-tec-tec-tec
silêncio
o eco tec-teclando detecta mais um poema
ou um novo bug-problema?

impossível saber ao certo
se perto de bits e bytes tudo é fiasco
o tecno-asco global redireciona os valores

formata-se o hard disk
mata-se o ser humano
e a língua portuguesa
míngua minha mágoa

tec-tec-tec-tec-tec
silêncio
entre bits e bytes o poeta faz um poema
pensando na amada virtual
quase uma paixão cibernética
no meio do e-mail
quase um prazer carnal
teclando-se?

acessa-se uma home page
cessa-se o sono para sempre
noites perdidas, versos chocos
sina vespertina de não dormir

tec-tec-tec-tec-tec
silêncio
silêncio todos por favor, ouçam-me senhores
minha voz metálica robotizada quer falar
quer reclamar a preservação da espécie
da língua, dos beijos, do poema
antes que tudo vire vício de silício

Um quadro às quartas

Industrialização do Brasil, 1960
Obra de Candido Torquato Portinari (1903-1962)

18.3.08

Terça sonora


"Oh Lord, won’t you buy me a Mercedes Benz?
My friends all drive Porsches, I must make amends"

Poema do centenário de Drummond

no meio do caminho tinha um retrato de poeta
e as pessoas passavam pisoteando sem dó a cabeça oca do poeta louco, coitado!
porque este é um país em evolução:
quase mais ação do que emoção
oitenta e oito por cento têm controle remoto
e pensam possuir o poder nas mãos...

no meio do caminho tinha um retrato de poeta
tinha um retrato de poeta no meio do caminho
e eu, sozinho, nunca me esquecerei desse acontecimento
quem traga a droga pode ver a vida ventando diante dos olhos
grande dragão caolho, esse drummond!

no meio do caminho tinha um retrato de poeta
e eu, anacoreta, parecia um vaso de flor
no dia em dor que descobri que pirlim-pim-pim
era alucinógeno-mor do reino encantado.

17.3.08

Para começar a semana

"Quantas vezes, desde o início da tradição romântica lá pelo final do século XVIII, o entusiasmo de um grupo de jovens que combinava promessas, talentos de primeira grandeza, excêntricos em estado puro e meros circunstantes, unidos pelo desconforto na sociedade e pela disposição de inovar, não acabou deixando marcas duradouras? Em quantas ocasiões não se repetiu o padrão do sturm und drang, ou do círculo bironiano, dos simbolistas em sua associação com os "malditos", das diferentes vanguardas e modernismos, do surrealismo em sua fase heróica, dos britânicos de Bloomsbury, da geração beat em sua origem?"

Claudio Willer (1940- )

16.3.08

Metrópole

Cansado de tanto esperar sentado
O passarinho deitou-se no fio elétrico
E dormiu.

Questão de pontuação 3

Entre parênteses
Soltamos exclamações violentas
E somos travessos travessões.

Questão de pontuação 2

Passo minha vírgula
Em seus dois pontos:
Só reticências.

Questão de pontuação 1

Escorrego no ponto de interrogação
Só vou me exclamar
Quando você chegar ao ponto final.

Domingo, foto

A vista da sacada do Hotel Chile, 2008
Clique de Daniela Toviansky (1978- )

14.3.08

Eu vi

nuvens tiravam um racha no céu cinza
o vento vinha, roubava a poeira posta no chão
logo a chuva traficaria novas gotas de ilusão
(parece que tem uma lei de mil novecentos e tal,
número tal, artigo tal,
que proíbe o comércio legal de ilusões).

malandros disfarçados de pássaro praticavam a punga
batendo a carteira de sementes alimentares
dos pomares e outras coisas mais de se comer.
gafanhotos surfistas assaltavam ao léu.
e uma águia decolava feliz em excesso de velocidade.

piolhos contentes brincavam de pique-esconde no bigode de deus
e era um charme o bigode de deus.

enquanto isso, policiais militares descansavam
tomando caldo-de-cana no acostamento da sp-255.

predifícil

correndo da carranca do carimbo, caramba!

correndo somos nós/ a carranca é a cara de mau do carrasco/ o carimbo é a burro-burocracia/ o caramba é a interjeição nossa mesmo.

eis o começo que meço que remeço que arremesso pra de volta do começo, recomeço, come, come, começo.

correndo, carranca, cara de mau, carrasco, carimbo, caramba.

“brás cubas inventa emplastro genérico”

“bispo sardinha é deglutido novamente por poetas antropófagos”

“jornal estampa mentiras neomodernistas”

sangue, sangue, sangue, a morte da poesia, os versos in prosa in verso inversos, tchau virou bai bai brasil, vai vai vrasil!

agora é tudo internet, internei-me na internet.

ocorrendo somos nozes/ a barranca é a barra de cal do penhasco/ o limbo não-limo é lambido pela burrocracia/ caramba! – tá na hora tá na hora de arremessar os lança-chamas e as lanchas-amas, flâmula nacional.

quanta abobrinha pra encher um prefácio dificílimo.

Filminho de sexta

Uma pitada de poética visual. Arquitetura.

13.3.08

Instante da estante

BRANDÃO, Ignácio de Loyola. Não verás país nenhum. São Paulo: Círculo do Livro, 1982.