31.3.07

I could be right/ I could be wrong

Tropeço. Tombo. Vista anuviada. Viados. Aviso. Fatal error. Fim. Tropeço. Outro. Tombo. Claridez vespertina. Sobressalto. Pavor. Pânico. Terror. Mais viados. Avisos, avisos, avisos. Erros, desacertos. O que era paixão se transforma em fardo.

Tropeço. Tombo. Mais tombos. Vista cansada. Repetição. Tédio. Desapego. Estrago. Desentrega. Pavor. Favor. Mesmice, mesmice, mesmice. A mesma mesmice de sempre. Impaciência. Ansiedade. Palavras-chave. Doença. Ambigüidade. Constelação. Tudo o que foi dito já foi.

Tropeço. Três, já. Mais. Outros. Descaminhos. Separação. Aperto de mão. Aperto no coração. Aperto. Friozinho na barriga. Sossego. Sossego. Sossego. Cego. Saudade. Assim mesmo. Mesmice. Tudo outra vez de novo. Espaço. Distância. Saudade. Vontade. Desejo. Tropeço. Tombo. Vista anuviada. Viados.

Tropeço, aviso, fim. Solidão.

30.3.07

A vida, sem graça, olha-me ao espelho. Velho, diz-me, atulhada de impropérios. E lança-me quatro dados vermelhos, grandes, envilecidos de desprezo e neblina. Calhorda essa vida!
A vida, sem graça, olha-me ao espelho. Velho, diz-me, atulhada de impropérios. E lança-me quatro dados vermelhos, grandes, envilecidos de desprezo e neblina. Calhorda essa vida!

27.3.07

O malabarista atormentado (preâmbulo final)

Dezoito horas depois, um café atrás de outro, o piscar de olhos nem funciona mais. Mãos ao alto, diz seu subconsciente, nervoso, como que preenchendo mais uma lacuna mental. No bolso, as três prestações vencidas rimam com o pedido de aumento feito anteontem, e recusado, claro, porque o exército de reserva é maior do que qualquer sonho proletário. Círculos concêntricos no chão por onde pisa, desviando com o sorriso dos buracos constantes, buracos perdidos, buracos traidores. Cuidado para não cair neles, quebrar o pescoço, morrer no hospital dois meses depois, viver em coma nesses dois meses, família chorando pelo corpo vegetativo até o médico desligar os aparelhos, zuiiiiim. O velório é aquela coisa burocrática, primeiro tem o preço do caixão, exploração pecuniária avançada post mortem, tem também toda a papelada, certidões, obituário, testamento, anúncio pequenininho no jornal, depois vem a choradeira, tias velhas que nunca mais se viam, ironias briguentas e birrentas ao pé do morto, por último vem o enterro, aqueles suspiros finais da viúva, o luto guardado por sete dias, a missa derradeira e a alma na paz de nosso senhor.

João Euclides da Silva não tropeçou no buraco, não morreu, não teve enterro digno. Continua trabalhando como malabarista do mequetrefe circo que insiste em se apresentar pelo interior do país. Mas uma garrafa de vidro escorrega em seu número, atinge seus lábios, corta-lhe todo, deixa-lhe em coma profundo por três meses e meio, a família desesperada decide e o médico, zuiiiiim, desliga todos os aparelhos. Aí é aquela burocracia, velório, certidão de óbito, testamento, anúncio fúnebre no jornal, cheiro de morbidez, tias velhas chorando e assoando o nariz com muito barulho, ironias briguentas e birrentas ao pé do morto. No enterro, suspiros finais da viúva, que deve guardar o luto por sete dias, até a missa derradeira. Depois continuará traindo o marido, agora defunto, agora sem o mesmo sentimento de culpa que, uma vez por ano, povoava sua cabeça.

4.3.07

Croniqueta embaixo d'água

Agora que tenho quase a idade de meu pai, recordo-me que é saudável ficar olhando horas e horas para o aquário. Como se aquele pequeno mundinho sob nós soubesse que do lado de fora criamos Deus e todas as outras coisas num piscar de olhos e milênios de tradições.

No verão os pensamentos fluem num ritmo próprio, com o desejo auscultando, trágico, o que estiver submerso no degradado e decretado corpo derretido de calor e pálido de tanto se ensimesmar.

Borbulhos indicam que no aquário a água também ferve.

20.2.07

Porno-retratos sociais

Eu era contra a redução da maioridade penal. Contra. Até descobrir que o Lula também é contra. Agora, óbvio, sou a favor. Porque minha militância é contra o troglodita-reeleito. Sempre.

***

Washington Martins de Oliveira tem 43 anos, cinco filhos, um gol 88, dez dólares eternos na carteira, um CD do Roberto Carlos e umas sete prestações para pagar ainda este mês. Seis da manhã, acorda:
- Maldito despertador.

***

Já virou lugar-comum dizer que o troglodita-reeleito não sabe escrever. Eu acreditava, ainda, que ao menos soubesse contar. Nem que fosse para calcular o sem-limite de seu cartão de crédito oficial ou ajudar seus coleguinhas corruptos a contabilizar a grana toda... Mais uma vez fui traído por ele, que disse:
- Eu fico imaginando que, se a gente aceitar a diminuição da idade para puni-los, para 16 anos, amanhã estarão pedindo para 15, depois para 9, depois para 10...

***

Aperta o botão soneca do rádio-relógio e torce para nos próximos dez minutos o sol não invadir aquela frestinha chata da persiana. Faz que não ouve o barulho do trânsito ali na janela, tão pertinho da rua seu apartamento térreo. Ao seu lado, Josinete dorme. Uma morena bonita, apesar de o corpo já denunciar os 38 anos mal-vividos.

***

Em seus quatro primeiros anos de governo, as maiores realizações do troglodita-reeleito – pelo menos aquelas que lhe dão mais orgulho e são proporcionalmente mais dispendiosas – foram a nova churrasqueira para a Granja do Torto e o suntuoso Aerolula.

***

O dia será cheio. Washington levanta-se e corre para o banheiro. Josinete prepara o café preto. O menino mais novo, ainda bebê, abre um berreiro – acordou fora de hora, esse menino não dorme direito há semanas! O dia será difícil. Na cozinha, cheiro de café fresco abre o estômago jejuno enquanto, na parede, o relógio indica o atraso: dez para as sete.
- Hoje vou falar com o patrão.
- Fico torcendo.
Washington é mecânico da Oficina São Luiz. Ganha dois salários e meio mais cesta básica por mês. A isso, somam-se os 350 reais que Josinete traz para a casa porque trabalha como doméstica ali no mesmo bairro. As cinco crianças ficam sozinhas todos os dias – Marina, a mais velha, já tem 12 anos e sabe cuidar bem da molecada.

***

Em sua vadiagem absurda, o troglodita-reeleito mostrou bem o que rima com esse fajuto pacote de aceleração do crescimento: quase dois meses do novo desgoverno e nada de anunciar o ministério. Como se o país estivesse às moscas. Receio que esteja.

***

Nos últimos anos, a vida de Washington só piorou. Ninguém o ensinou a ler e a escrever e quanto mais a Oficina São Luiz cresce, mais chegam mecânicos com formação técnica ganhando mais. Seu salário é o mesmo desde sempre. Marina não vai à escola porque precisa cuidar dos irmãozinhos. Que também não vão à escola porque precisam ficar com a Marina. Pois Josinete tem que trabalhar.

***

Mas, claro, o ministério vem depois. Ele precisa antes descansar (de novo). Imagino mesmo que não fazer nada canse. Ah, como é boa a vida do troglodita-reeleito...
Lula poderia assumir logo esse desejo abusivo do direito ao descanso e, para o bem do Brasil, descansar em paz. Sob um túmulo bem bonitinho. Eu iria ao enterro, disfarçando a alegria. E, em seguida, participaria da imensa festa de alforria.

***

Washington não lê, portanto não lê jornais, nem revistas, nem livros, nem bulas de remédio. Washington não gosta de ver noticiários na televisão porque não compreende muito bem tanta notícia junta. Só vê futebol, corintiano. Josinete só vê novela das oito – que começa quase sempre pontualmente às nove – e esse negócio de biguebroder. Eles trepam três vezes por semana. Rápidos. Sem muito carinho, sem frescura. Depois, cada um para seu lado.
Quando um universitário bateu em sua casa e disse:
- Tô fazendo uma pesquisa, o senhor pode responder algumas perguntas?
Ele topou.
Não soube o que era mensalão, valerioduto, corrupção. Nem idéia de um sinônimo para falcatruas, lulopetismo, liberdade de expressão. Só sabia explicar o que significava mentira:
- É quando a pessoa fala que é, mas não é.
Washington acredita nas propagandas do governo. Na última eleição ele apertou treze na urna eletrônica. Foi um dos sessenta e tantos milhões que, iludidos, contribuíram para que o Brasil afundasse de vez.

***

E por falar em redução da maioridade penal, crime hediondo mesmo cometeu quem votou no troglodita-reeleito. Tão Brasil...

14.2.07

Reportando o dia do poema

era dia de semana e às 6h45 da manhã o poema despertou
tomou um gole de café amargo afoito e foi tomar o ônibus quase atrasado
depois tomaria naquele lugar ouvindo o chefe bravo tomando coca diet

no meio do ônibus as pessoas se chafurdavam umas nas outras
o poema sentiu-se meio perdido no meio do ônibus mas achou bom
e era legal ser um estranho no meio apenas para sentir as mãos e pernas perdidas

no ponto o poema desceu e viu que já estava no ponto para mais um dia
o sol ensandecido parecia que tinha levado três pontos na testa
e cansado iluminava todos os pontos de ônibus, outros pontos, e points do hemisfério

o poema olhou para a hora e viu que ainda não era hora de entrar
tinha quinze minutos para fazer hora e como a hora passa devagar quando se espera
decidiu acender um cigarro para acompanhá-lo nos tique-taques da hora

na espera desesperada o poema encontrou o amor e foram fazer amor
porque o amor inespera e chega nos momentos mais tediamente amáveis
e o poema amou o amor perdendo todos os sentidos como quem ama de verdade

já eram mais de duas da tarde quando o poema despediu-se do amor
e a despedida ficou com um gosto de quero mais despida e o amor piscou
quando o poema voltou a si, voltou à vida, voltou ao trabalho, foi despedido.

9.2.07

Gênese

Sempre odiei a professora Bárbara do Carmo. Porque ela ensinava semiótica francesa, quando devia se ater somente aos solecismos jornalísticos; porque ela ensinava semiótica francesa e eu sempre preferi a norte-americana. Porque ela fumava cigarros que não da minha marca favorita. Porque ela defenestrava os alunos que apareciam vestidos de amarelo - mesmo em dia de copa do mundo.

Sempre odiei a professora Bárbara do Carmo:

- Edison, não disse que se você chegasse atrasado mais uma vez, estouraria em faltas?

- Mas professora, a senhora precisa entender...

- Entender o quê, menino?

- A senhora sabe que eu tenho uma tartaruga, né? O nome dela é Tar, de tartaruga. Na verdade não é bem uma tartaruga, assim, mas é um réptil quelônio, só que terrestre. É um jabuti. Jabuti-piranga, se eu não me engano. Veio lá da Bahia, do sertão.

- E o que que tem isso a ver?

- Deixe-me acabar. Daí que um bicho desses deve viver mais de cem anos. E, como a Tar completou seu quinto aniversário mês passado, tinha a certeza de que ela seria legada aos meus netos. Só que, esta manhã, a Tar morreu. Você não pode imaginar a tristeza...

- Ahn.

- Daí que velório, essas coisas, tomam tempo. Daí que atrasei. Juro que não estava dormindo até às 9h40 quando a sua importante aula começa pontualmente às 8h, 8h15...

- Sei...

Sempre odiei a professora Bárbara do Carmo. Fazia questão de lhe assoprar baforadas de bons cigarros na cara, escolhia a dedo minhas roupas amarelas para satisfazê-la e caprichava nos comentários avessos à sua ideologia francesa. Sempre. Porque sempre odiei a professora Bárbara do Carmo. Ela vestia um par de óculos cor de superbonder e, pela espessura aparente, devia sofrer com uns oito graus de miopia do lado direito e uns seis e setenta e cinco do lado esquerdo. Se narizes também fossem passíveis de miopia, ela a teria em suas narinas salientes, disformes, certamente. Como não as são, preferia exibir um leve desvio de septo.

Sempre odiei a professora Bárbara do Carmo, principalmente dois dias depois de ela ter me dito que jamais se deitaria com um homem branco como eu, ainda que fosse dotado do mais capaz objeto direto. Sempre odiei a professora Bárbara do Carmo, e meu sonho era escrever esta frase umas cem mil vezes, para que toda a humanidade a decorasse. E quando ela, mais uma vez, se botar a ler Thomas Mann ou qualquer autor de sua predileção, antes iria encontrar na contracapa: "sempre odiei a professora Bárbara do Carmo".

Mas foi em seu ventre que se nasceram os nove gnominhos de minha imaginação.

4.2.07

Pelo avesso

Dentro da geladeira, congelou. No forno, assou. Óbvio assim. Quando caminhava pela cozinha, fingiu que evaporaria e quedou-se: taciturno como um espirro de mudo, lento lento lento como quem lendo Guimarães Rosa. Era camaleão.

Asfixiado, afixado, aficionado, afiado, uma afronta aos paradigmas pré-enraizados na vertigem doce de ser casa. Não sou daqui, diz. Não quero ficar aqui, diz. Não sei o que vim parar aqui, diz. Não, não, não, diz mais alto. E então se acorcunda de viés e rasga as roupas próprias vermelhas e quase rasga a pele também mas pára. Não adianta tanto assim brigar consigo mesmo.

Amanhã estará no jornal, em letras garrafais de primeira página, mas no jornal popular, sensacional, estrago. Amanhã estará no jornal, talvez até com foto sangrenta e tudo, a história do estrangeiro que de tanto se adaptar virou morto. Porque o desespero mata de suicídio.

7.1.07

A televisão pintada na parede trazia ruídos. Canindé, cara ensaboada de barbear, suspirava de sonho e vento, comer aquela rapariga, como era mesmo o nome dela, tinha sido bom pra cacete. Uia, cortou-se com a gilete, o sangue escorre e a espuma fica rosada.

- Merda.

31.12.06

Medo de a bancada desbancar.

20.12.06

Esboços de uma estação passada (vol. último)

Pronto. Agora é só botar minha vida na mala e voltar pra Bauru.

Um babaca de nariz adunco - que conheço de vista mas não sei o nome - me interpelou hoje, aí pelas 11 horas da madrugada. Primeiro tirou um sarrinho do tamanho de minhas barbas, com uma daquelas piadinhas medíocres.

[SEMI-SONETO TOSCO, SEM MÉTRICA NEM RIMA PORQUE PÓS-MODERNO]

Todos os linques estão quebrados
Todos os imeios retornam ao servidor
Todos os saites foram invadidos
Todos os computadores acordaram com bug

Todos os bológues estão desatualizados
Todas as romipeiges foram desativadas
Todas as figuras não carregaram
Todos os arquivos atachados trouxeram vírus

Todos os messenes se perderam no ciberespaço
Todos os modens queimaram com a tempestade
Todos os contatos foram deletados

Todos os arquivos FTP viraram pó virtual
Todos os favoritos simplesmente sumiram
Toda a internet foi brincar de rede de dormir.

Pra não dizer que não falei dos ursinhos inocentes e sem vida que resplandecem nos quartos das meninas bonitas:
Muda-planta pra cidade-muda onde me mudo
Na cidade onde ninguém sabe falar eu também me calei.

Linhas recheadas de línguas
Tec-tec-tec-tec-tec. Teclando. Entre bits e bytes minha língua míngua ou ainda deságua porque a língua não se acaba?
O guarda-língua assustou-se quando descobriu que a língua é uma grande metamorfose. Mas a língua, espevitada e linguaruda que só ela, não se fez de rogada: deu uma de Emília, mostrou-lhe a língua e virou as costas.
Tec-tec-tec-tec-tec. High-tech. Século XXI d. C. Depois do Computador? Não, ainda não. Apenas, depois de Cristo. E o mundo já nos veio pronto, estruturado, organizado linearmente como se nem coubesse um hipertexto nem pedacinho de poesia.
O guarda-língua ficou tão sem graça que decidiu fugir rapidamente para o meio da guerra. Dizem as más-línguas, todas vermelhas e grandes, que ele fica lá deitado o dia todinho, esperando que alguma bomba colorida acerte sua cabeça e exploda sua língua junto. Enquanto isso, deixa a barba crescer em pensamento.
Tec-tec-tec-tec-tec. Trec. Se o computador quebrou, não tem mais tec-tec, mas ainda há toda a piração que nunca se sabe se é ins ou trans. Porque é urgentemente preciso des-ser o que sempre fomos e sub-ir aonde sempre fomos.
O guarda-língua, casmurro, taciturno e sorumbático, irritou-se com a lenga-lenga da guerra. Entre fogo cruzado, pisou na pedra mais alta e pontiaguda e desatou a gritar.
- A história da língua é tão longa quanto a língua da girafa. Ninguém chega num acordo, mas não vale a pena brigar, já que as espadas seriam línguas afiadas.
A língua é apenas um rótulo de maionese que colamos para poder viajar nas coisas? Puro convencionalismo que nos ajuda a perceber o mundo tal e qual ele nos parece? Ou a língua nasce do mundo de maneira natural e assim suas palavras estão diretamente relacionadas ao seu significado?
No fundo o importante é cheirar os frutos e comer as flores. Inverter e subverter os paradigmas. Trabalhar nus. Depois todos caímos na mais profunda modorra, pensando sabermos a verdade e curtindo a estranha mentira de nos acharmos felizes. Talvez o importante mesmo da língua sejam os beijos.
(Alheio ao processo lingüístico, um garotinho ficou espantado ao ver o tamanho da língua de boi dependurada no açougue. Com o impacto, mordeu a língua.)

Hoje não tem poema
Porque eu não consegui fazer o soneto que queria.

Uma carta doutros tempos
[achada entre meus arquivos de computador, uma carta que foi escrita há quase três anos]

Taquarituba, maio de 2001.

Século XIX. Dois anos depois de Auguste Comte ter afirmado categoricamente que jamais o ser humano conheceria a composição das estrelas – e isso era um conceito que iria provocar para sempre a existência da humanidade –, Gustav Kirchhoff inventou o espectroscópio, assassinando a idéia do seu contemporâneo. Logo depois, o jovem Albert Einstein divertia-se na escola Politécnica suíça, imaginando um dia viajar atrelado a um raio de luz.
São meras coisas. Fatos banais talvez de um dia que não nos chega ou já nos passou. Que importa? Marcas do que se foi e do que nunca será... Queria ser estrela para morrer e me tornar gigante vermelha, agonizante, depois morrer mesmo de verdade, anã vermelha, anã branca, anã negra, buraco negro, um buraco na parede, corpos selvagens...
Século XXI. Você me pergunta o que tenho feito. O que faço? Penso, logo existo; existo, logo penso. Isso não é resposta que se espere de um cara da minha idade com a nescilidade que me é característica primária. Quem sou? O que faço?
Faço poemas, mentiras, retratos, estranhos esboços. Pinto um quadro que não é surreal nem traça os sonhos do mundo. Às vezes, dormindo, ouço o repicar dos sinos da igreja e penso no racionamento de energia. Às vezes, dormindo, finjo que estou acordado para ver para crer para se ver, para te ter no fundo em meus braços num longo abraço de não mais saber.
Você já olhou para a lua com os olhos que lacrimejam paixão? Já encarou a face estreita que parece conter São Jorge e sua prosopopéia dragão – o dragão carrega em seus ombros o peso dos desvarios de toda a idade da raça humana.
Devo estar chato hoje. Mas pensei em te escrever justamente depois de ler que “o inferno são os outros”. Só Drummond acreditava, em meio a um oceano de filósofos pessimistas, que a convivência é boa, é proveitosa, é divertida – qual era mesmo a palavra que ele usava, sábio? não me lembro, não sei, minha cabeça está à toa...
Devo estar chato hoje. Desculpe-me; juro que não tinha a intenção de te aborrecer tampouco de ser inconveniente. Apenas queria desabafar, e o papel tem aceitado essas coisas medíocres que escrevo na vastidão incólume do giramundo vastomundo raimundo imundo (se o mundo fosse raimundo seria uma rima não uma explicação).
Devo estar chato hoje. Renitente, sem saúde, não estou tributável. Tinha vontade de comprar conhecimento na lojinha de 1,99, mas lá não são vendidos livros. Que pena, amor, que pena. E pensar que a saudade é diretamente proporcional ao avesso da simetria que nos prende e nos confunde... E pensar que somos tão jovens... E pensar que sequer pensamos direito.
Devo estar chato hoje. Esse meu discurso não servirá para nada. Será mais uma carta que passará por suas mãos e será arremessada pela janela – defenestrada – ou, pior, encestada na lixeirinha do banheiro.
Devo estar chato hoje. Deve ser a saudade, o clima gélido... o cheiro do seu perfume que imagino em minhas narinas como se você estivesse ao meu lado agora... Mas você não está... Por que será?
Beijos do perturbado chato.

Idiota mesmo sou eu que fui reinstalar minha impressora e, por falta de atenção, acabei deixando-a em alemão. Então que sou supreendido por mensagens deste tipo:
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Vocês não têm idéia de como isso me deixa feliz.

Trechos
de umas coisas que ando escrevendo

1) Mas para que ninguém saia por aí pedindo o dinheiro de volta, dizendo que “como assim o protagonista morrer bem no comecinho?”, eu vou mostrar as duas linhas que eu escrevi antes de morrer:

Decidi que não quero ser felizinho.
Agora vai ser oito ou oitenta: só brinco se for feliz ou triste.

2)
– Que cabeça você quer?
– A mais bonitona e cheia de recheio por favor!
– Serve Ezra Pound?
– Não sei... Preferia algo nacional... Tem Clarah Averbuck?
– Tem mas acabou. Por que você não leva Leminski?
Tudo. Tudo. Menos o tem mas acabou. Odeio o tem mas acabou.

3) Tinha cinco dedos em cada uma das mãos. Não era, portanto, presidente. Falava inglês, alemão e não-sei-mais-o-quês. Amava cinco namoradas, sendo fiel a todas elas. Era doutor em embromations factus e ganhava 15 mil dólares por mês. Andava sempre num carro importado, que não sei a marca porque não entendo de carros. Bebia só uísque escocês e ria dos pobres para quem jogava esmolinhas com desdém.
Um dia, tropeçou no ego e morreu de traumatismo craniano.

4)
- Manhê! Manhê! Manheeeeeeeeeeeeeeeeeeê!
...
- Mãe!?

O mundo anda bem doidão. Parece que fumou uns três quilos de maconha e agora bateu uma larica desgraçada nele. Então começou a devorar pessoas, umas com quéti-chupe, outras com queijo ralado. As mais rechonchudas, in natura mesmo.

Você já experimentou conectar dois caleidoscópios, um diferente de outro, um em cada olho, ao mesmo tempo? Experimente: talvez seja o melhor jeito de se lembrar de esquecer que o mundo não está mais valendo a pena.

Antes que alguém me pergunte: Não, o inferno ainda não voltou a funcionar!
Eu? Sou só um cara sensível tentando compreender a dureza do mundo.
Não, não estou bem. Acho que estou pirando. Sábado sem graça e, agora, prenúncio de um domingo indigesto.
Não sei o que vou fazer. Mas alguma coisa grande pode acontecer.
Vou-me embora da Terra dos Emboras?

Embora o Governo não saiba contar direito até dez e nos obrigue a manter o equilíbrio na ponta dos pés, o Brasil vai caminhando; embora a Televisão mo-dele a pública opinião e padronize até mesmo o nosso coração, há nichos de resistência criando novas formas artísticas; embora nossa escola venda um saber sem sabor que nos atola e nos restrinja a um universo sem verso nem de esmola, cresce o número de interessados por uma educação de nível superior; embora a nossa seleção de futebol ande capengando no cenário mundial e jogando mediocremente faça chuva ou faça sol, o povo não perdeu o amor pelo esporte; embora não haja uma política de incentivo suficiente para um ativo processo de revitalização do que outrora foi cenário de gláuberes e as blockbusters pasteurizadas por americanismos sejam abundantes, o nosso cinema está renascendo.
Embora não tenha cumprido sequer as promessas do vento da campanha, o presidente ousa prometer que vai fazer muito mais do que promete. E a fo-me? Zero é a nota que sacode no prato vazio do faminto que, embora tenha confiado seu voto ao ex-metalúrgico, ainda não viu realizado seu sonho do pão-nosso-de-cada-dia. Embora a realidade para ele seja triste, amanhece ca-da dia com força para trabalhar em busca de sua utopia.
Embora o frio esteja chegando bravo este ano, os sonhos continuam quentinhos dentro do peito de cada um; embora ao passarinho custe migrar porque grandes são as distâncias, sabe que no final de sua trajetória um porto seguro encontrará nos braços de sua amada; embora a dor e a saudade sejam incomensuráveis e cutuquem o amargo âmago feito piercing que não se perce-be, reside na alma o consolo de novo reencontro e tantos e tantos e tantos e quantos forem e houver.
Embora todo adágio pelo uso seja gasto e não passe de lugar-comum e a língua tenha se tornado cada vez mais comum com o baixo nível de entropia cultural alçado pelo povo, é preciso dizer que quem canta seus males apronta, que antes só do que mau no mercado, que em terra de cego quem tem um olho é gay, que quem com ferro fere com ferro será fedido, que se conselho fosse bom eu te vendava e ventava porque quem semeia vento colhe solidão.
Embora haja tantas ironias no seu dia-a-dia e tanta desilusão na sua noi-te-a-noite, note, o brasileiro não perde a esperança.

Bom dia, sol!
(Mas a janela vai ficar fechada porque eu não quero te ver não!)

Vazio como meu dia.
Vem uma dor aqui. Triste.
Talvez.
E o sol nascendo é tão bonito, tão diferente da tristeza que toma conta de mim, que às vezes tenho medo de preferi-lo ao poente, de inverter assim minha vida como se não houvesse.
O que que tem atrás da porta?

Sentado em um sorriso indefeso, ponho-me a observar as pessoas que não sabem voar. Elas são tapadas e não me vêem aqui do alto, enquanto eu procuro minha escova de dentes para continuar defendendo meu sorriso.

Eu ando com raiva da chuva.
Eu vou fugir.

Eu fico aqui torcendo pro meu ventilador, 24 horas por dia trabalhando, não pifar. Senão, como irei terminar de criar as infinitas vidas?

15.12.06

Eterno retorno

Nada criativa, a história se repete.
Lula chora ao ser diplomado e vai rir por outros quatro anos.
Nós assistimos. E teremos quatro anos para continuar com os prantos.

A única diferença é a sujeira acumulada no currículo do presidente.

13.12.06

Tudo o que sobra é o espaço entre nós
Tudo o que falta é abraço

12.12.06

Desconto de Natal

Durante o ano todo, ele se comportou direitinho. Seguiu todos os dez mandamentos, inventou outros três, respeitou mais alguns. Nem era cristão, mas achou melhor não brincar com essas coisas. Também deu provas de cidadania: jogou o lixo no lixo, não andou na contramão, não fumou no elevador, ajudou as velhinhas decrépitas a atravessarem a rua e, principalmente, não sonegou o imposto de renda. Ah, o imposto de renda.

Seu bom comportamento valeu até no futebol com os amigos - não foi desleal em nenhum lance e resistiu a quebrar os tornozelos do atacante adversário mesmo quando este sobraria cara-a-cara com o gol, goleiro já vendido - e no de verdade, quando no estádio não xingou a mãe do bandeirinha corrupto e nem pediu a cabeça do técnico do seu time, mesmo perdendo de 4.

Tratava os funcionários de sua fábrica de brinquedos a pão-de-ló, como se diz. Ganhavam bem, comparando-se à concorrência, recebiam décimo-terceiro, décimo-quarto e décimo-quinto salário, tinham tíquete-refeição, vale-transporte, cesta-básica, o escambau. Em casa, era um marido exemplar: cobria a mulher de afagos e mimos, nunca falhava na cama.

Pensou que por ter sido um bom menino mereceria um belo presente debaixo da árvore. Quase esqueceu que era ele o Papai Noel.

7.12.06

Esboços de uma estação passada (vol. 5)

"Os pássaros voam porque não têm ideologia"
(Millôr Fernandes)

Tudo o que eu queria agora era fazer um grande poema de amor
mas não acho poema pra tanto amor!
Eu ia falar uma grande besteira, só o naco de sensatez que ainda me existe pede pra deixar pra lá.

Resto de madrugada. Eu sem grana, procurando um novo buraco pra me esconder da chuva.
Descubro-me misântropo de última hora.
É sempre assim quando a noite começa e nada termina é sempre assim esse gosto de sem gosto agosto na boca e a secura de não te ter ao meu lado nas noites tristes é sempre assim mesmo porque não há salvação fora daqui nem dentro daqui não há salvação em lugar nenhum é tudo ilusão e toda ilusão é passageira porque isso eu aprendi desde pequenininho.

Pra falar a verdade eu nunca havia pensado nesse negócio de que todas as meninas amam as estrelas
Agora estou até com medo
Medo
de perder um ou outro dedo na conta insaciável dos astros do céu
seu céu
meu céu
céu

Pra falar a verdade eu nunca havia pensando que pensar demais podia doer um pouco
agora começo a bater cabeça
cabeça
cheia de idéias novas e sonhos velhos comprados no supermercado
próximos da data
do vencimento
Vem, cimento: concreta tudo o que se desfazia no ar!

Vi um relógio escorrendo de um galho e pensei que estava perdido dentro de um quadro de Dalí. Mal sabia eu, pálido ignorante, que aquilo era um pé de tempo e o que escorria era um fruto apodrecido porque não colhido no tempo certo.
Decidi mudar-me para um quadro do Escher. Ao menos seria mais divertido escorregar na perspectiva.

A mentira da forma como ela acontece:
- Legal né?
- O que?
- Tudo!
- É...

Descobrimento do Brasil: A terra, ninguém prometeu, ninguém cumpriu. Caminho entre pedras e vejo surgir cidades cheias de gente feliz e cores verdes, amarelas, azuis. Olho pra dentro das casas, pelas janelas que me sorriem, e o que são lá dentro senão faces me vendo alegres com as cabeças cheias de pensamentos de algodão-doce...
No país do meu sonho, todas as construções se esfacelam no ar. E dá pra sentir no vento tudo o que as pessoas sentem. Sabe quando a gente pega a casca de laranja e espreme, sai aquele sumo que nem um vaporzinho brilhando contra o sol? Assim, assim. Dá pra perceber o sentimento das pessoas como se fosse sumo de laranja.
Piso o chão. Mas piso bem de leve, para que ele não grite, não reclame, não doa. E vez em quando saio pra colher estrelas, enquanto a lua fica observando todos nós. As estrelas têm o jeito estranho de serem todas serelepes, enquanto a lua é rainha onipotente, clarão clareando tudo, esclarecendo o ser, esclarecendo a vida com sua magia de ser.
Aqui não tem pobreza, não tem fome. Não tem ignorância, não tem analfabetismo. Os livros pululam livres das estantes, e o que era antes senão somente instantes de sabedoria?
Meu país ainda vai ser descoberto.

Decidi que não quero ser felizinho.
Agora vai ser oito ou oitenta: só brinco se for feliz ou triste.

Considerações

Para errar com estilo, é preciso aprender, é preciso saber. Nada de estuprar a sorte ou convencer a fortuna. Para errar com estilo, é preciso soerguer as sobrancelhas e evitar qualquer golpe que vier a ser desferido.

6.12.06

Esboços de uma estação passada (vol. 4)

Vou chamar a polícia e o ladrão.
Minha mãe também virá.

Dormi hora e meia. No meu sonho tinha um revólver verde e quase enferrujado com o qual eu matava todas as pessoas chatas.
Matei-me.

Taquarituba, 21 de julho de 2003.
Pensando em toda a maluquice desta pós-modernidade na qual vivemos, sabendo-a efêmera e triste, embora recheada de pontos de felicidade - provocados por compostos físicos e/ou químicos.
Pensando se não é mais fácil jogar tudo pra cima e desistir. Certo de que é mais fácil, decido continuar: sempre optei pelos caminhos mais difíceis.
Pensando na imensa delícia de ser o que é. Pensando em pensar só mais um pouquinho. Apenas pensando.
Como será o próximo semestre que por aí vem? é sempre esse gosto de ansiedade e esse sabor de sorvete de laranja na boca. Alguém já tomou sorvete de laranja? Por que?
Estranho, né? Mas já dizia Shakespeare: "Há mais razões entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia".
Só. Acabou o papel.

fico aqui pensando e me lembro que você já me matou.
quando acordei vi meu corpo estirado junto ao seu. um pouco de sangue misturado ao resto de vinho. ambos mortos. primeiro eu, com um punhal no coração. depois você, com um suicídio na cabeça.
o amor tem dessas coisas.

Não adianta nada, não adianta nada.
No fim ninguém vai mesmo sair vivo desta história, desta histeria, este game-show sem graça no qual estamos imersos. Eu e você + todo mundo. É, minha nega, você também vai morrer!

Vou escrever compulsivamente, o que significa ficar horas, dias, semanas quiçá, a fio, teclando e bebendo, bebendo e teclando. Poemas, cartas de amor, problemas, crônicas, contos, tudo, tudo, tudo...
Vou escrever até morrer de cirrose hepática, aids ou lesão por esforços repetitivos mesmo! Vou escrever até ficar com a ponta dos dedos ensagüentadas e ela possa então colher a poesia que brota dos meus dentre unhas.
Ninguém segura. Senão me explodo!
Pode reclamar. Foda-se.

mundo moderno
pressa. pessoas passam.
posso? pode não,
aqui é sob pressão.

a pedra ronca?
não. é só o mar
que quebra.

Talvez porque minha costumeira indisciplina e essa preguiça macunaímica nunca me permitam cumprir sequer metade do que planejo. O fato é que até agora não li o tanto que havia imaginado ser capaz.
Além do mais, o violão continua encostado praticamente da mesma forma como o encontrei - como se por si só ele fosse fazer música ou mesmo aprendê-lo.
O calor é grande: ontem fui pentear os cabelos estabanados do sol e quase virei Ícaro; só não me converti em energia porque ainda não compreendemos muito bem aqueles papos do Einstein.
E o que mais me incomoda, incomoda de doer, é a total secura de inspiração. Eu, rodeado de páginas em branco, branco em páginas e na cabeça, produzindo pouco, pouquíssimo.
Até agora nenhuma carta dela.

Você já tomou chuva hoje?

Você dorme de meias?

Por que perdi assim o caminho do seu coração?

Você está com frio? Por quê?

Abro e cadabro meu coração: I need somebody to love, de verdade, não esses amores made in Taiwan que se locupletam com um sorriso falso e não entendem nada das coisas da vida.
Eu quero a poesia dos instantes e, acima de tudo, quero voltar logo pra Bahia porque a Bahia é o que o Brasil tem de bom, com exceção do Antonio Carlos Magalhães.
Tem dias que a gente é como que nem sente, passa feito nuvem e vai chover lá longe. Aí o sol se apaga feito vela de pavio curto e não sobram duendes pra colher o ouro porque nem arco-íris não há mais.
Onde está Wally?

Qual é a cor do céu azul?

Você confunde concorrer com correr? E confundir com fundir?

Véspera do nascimento. Vento. A chuva que molhou seu onde com lágrimas de felicidade só agora chegou a Taquarituba. Culpa do fuso horário ou do confuso andar dos dias na mente de Deus.
Véspera do nascimento. Execução da pena capital de todos os perus, leitões, panetones e outras flores e trevos de Natal. E Papai Noel, coitado!, vestido de coca-cola, vertendo suor por baixo de suas roupas nórdicas e suas barbas de algodão. Ainda se fosse algodão-doce...
Uma carta sua chegou-me - misto de alegria e desesperança crescente.
Mas isso não é importante: o mundo vai continuar sua vã existência.
Há uma alma em mim desgovernada como se dentro de um carro em alta velocidade eu risse cínico do perigo deletério de viver.

Não é perigoso ficar navegando na Internet?

Mais uns dias por aqui. Olhar fotográfico perscrutando o dia, os dias, dia-a-dia. Diáspora, eu diria, velhos amigos espalhados por esse espelho estranho chamado vida.
Subo pra colher a brisa do ar e cato um pouco de poesia no seu olhar. Só olhar, mais nada, nem alma, nem nada, mais nada.
Abro o guarda-chuva e salto lá de cima.

Sorvete de baunilha é gostoso?

Foi quando a beleza veio me visitar, irisdescendo meus olhos e dando novo alento às minhas retinas tão fatigadas. Veio num corpo ainda adolescente e tinha dois olhos castanhos que não me cansei de olhar melhor. Suas melenas escorriam pela face - o que tristemente impossibilitou o toque de meus lábios no beijo usual de recepção e despedida.
Pensei que viesse para ficar, ao menos uma noite. Mas não: almoçou e foi-se embora deixando para trás um suspiro já calejado de tanto perder as esperanças.
Na noite do mesmo dia conheci a versão safada da beleza. Uns dezessete anos, mas muito vivida, louca para me ceder os prazeres mais deliciosos da carne, trêmula carne que tanto gostamos. E usava saias que praticamente facilitavam a tarefa.
Day after: sorvete de acerola com gosto de saudade e overdose de Lula na TV. E eu torcendo para que a terceira menina, o terceiro olho da cara, a terceira margem do rio, me entenda, pois só ela é capaz de, em sua distância de onde está, sanar a sensaboria de meus dezoitos anos.

Você já nos mandou um vírus hoje?

Uma coisa é correr, outra é socorrer

Uma coisa é escorrer, outra é escorregar

Uma coisa é crescer, outra é ficar velho

você já levou seu cão pra passear hoje?

1.12.06

Do poder

quem pode, chove
promovento
e os piores são
pirados
onomatopaicos.

conto, canto,
estrelo os dedos
e, em cada estralo
que estremeço, moça,
jogo os dados,
arrisco, arisco,
uns degraus da vida
- de grau em grau,
meço a dádiva
da dúvida
e choro,
em dívida.

quem pode, gasta
eu gesto
no gosto
eu gosto
e me enrosco em pernas
que não são minhas
e me aninho em perdas
sempre tão sozinhas
e me atiro pedras
pontiagudas,
ferinas,
pesadas.

quem pode, interroga,
exclama,
reticencia, ri.
eu só ponto-finalizo.

Perdição

Com vontade de passar sua vida a limpo ou esticá-la sob ferro quente, não dormiu hoje. Ficou contando letrinhas do Notepad.

Seus sonhos, há muito vendidos, embaralhados.

28.11.06

[ ]

Na folha, lembranco vazazio
por lacunas lancinantes
alimentadas de fomes disformes
beletristas
como uma borboleta incolor:

- Salvai-me, ó proeta eminente! Salvai-me!
Porque a dor que se avizinha
é cruel amém dentroentre
cadassentimento
brotado
a-sós.
as coisas estão.
se fossem, seriam.
mas faz tempo
que só estão.
olhativas, embora
passivas.
passageiras como
um poema.

Esboços de uma estação passada (vol. 3)

"Olho alarmado.
E se a vida estiver do outro lado do espelho?"
(Millôr Fernandes)


Não sei... só pensando...
ela fala de cinema:
seja bem-vinda a este cenário de ciberdemência
espero sinceramente que você não se preocupe em acrescentar nada de útil ao grandioso intelecto dos nossos milhares de leitores. mesmo porque o inútil é o sal da vida. (ando bíblico hoje!)
ah!!! madrugada já me cai alta...
páro-me.

era mais ou menos esta a cara da menina dos meus olhos
era mais ou menos esta
era mais
era

acabei de fundar a A.L.I.A.S., pensando em todos aqueles marcadores argumentativos das aulas
A.L.I.A.S. - Associação dos Lindos e Inteligentes Amantes do Sexo. Ou Amantes do Sim. Ou Amantes dos Sonhos. Ou Amantes do Saber. Ou ainda, Amantes dos Símbolos, das Silhuetas, dos Sorrisos, das Sombras, dos Sambas, das Somas, dos Somos, dos Senões.

nonononononononono
nonononononononono
nonononononononono
fiquei louco ou foi o sol que se quedou torto?

um dia noiado
uma dor
um sonho
uma lágrima
uma vontade de ir embora

e u
ansioso pra ver o dia acabar em paz!

23.11.06

Esboços de uma estação passada (vol. 2)

todo mundo já viu objetos-voadores-não-identificados, mas você conhece o não-objeto?

falling down
como na música, como no filme de moretti, como na vida
como no vento que despenca adunco e recorta nossas tristezas
como o vento porque nem só de pão o homem viverá.

agora se quer saber?

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dia dos mortos
<><><><><><><><><><><>
quem tem certeza que estamos vivos?

férias. câmpus quase vazio.
bauru é apenas um solilóquio.
saudades de alguém.

pra matar a saudade, vale o repeteco:
tempo de amar

hoje é domingo, chove lágrimas lá fora, largando as rimas e outras coisas mais na enxurrada. dia de voltar a bauru, enfrentar novamente a realidade efêmera que está se esvaindo pelos anos idos universitários. esperança sempre presente de não mais tropeçar em ilusões e de que a candura da vida enfim se manifeste sem gotas de saudades. amplexos a todos, e um beijo na testa dela,

hoje ando quintano, cantando, quentando e requentando

para comemorar a páscoa
comi uma coelhinha!

é tempo de pensar na vida, essa desvida, desviada, desnada, desnatada.
é tempo de chorar o leite que nunca vai se derramar porque nem há leite.
é tempo de.

porque todos os sóis estão se apagando e o fim está chegando.

22.11.06

Esboços de uma estação passada (vol. 1)

Preciso escovar os dentes e lavar o cérebro também.
Lógica capitalista irreversível e nojenta: negue o ócio, negócio.

Hoje estou pra ontem.

A noite! A lua! As folhas caindo e ainda estamos na Primavera! Bauru!! Churros!!!
Que saudades de casa!! Mas...
Libertinagem, Edison!!

Bairro Fortunato. Nos meus ouvidos ressoa o verso de Camões: A fortuna não deve durar
Vou dormir triste. O sábado foi cheio de miséria numa rotina que grudou tristemente em minha retina.
Onde reina o amor?

Hoje acordei com vontade de escrever
principalmente porque dentro de mim há uma dor pungente
mas não tenho a menor idéia sobre o que escrever

..........................................
..........................................
..........................................
..........................................
..........................................
..........................................
ahahahahahahahahahahahah

Por mais que o mundo pareça perdido, há sempre o nada nadando feliz pelos rios que riem da gente.

20.11.06

Cegueira

Quem dera fizesse poemas visuais
e não versos sovinas,
vozes vazias
e viagens virgens;
Quem dera sobrevoasse alvissareiro
os vértices do mapa e da alma
avistasse, incólume,
a selvageria
dos vaticínios divinos.

Mas não;
vivo às voltas com meus vícios
de linguagem, da laringe e dos sonhos:
cicerones da vida, a faltar.

In Definição

Sem-teto, meus textos exclamam ao ver um vento cair. Eu, ensimesmado, não creio que vou amanhecer de novo.

16.11.06

Decálogo maravilhoso de Shacklee

1. Amar a Deus sobre todas as coisas.

Sempre que as luzes eram apagadas, Shacklee via as lampadinhas de natal pisca-piscando num exercício jingle bell. E assoviava baixinho a melodia que sabia de cor desde criança. Para a irritação dos seus 37 colegas de quarto, que chiavam e começavam logo a pancadaria.

Até que Shacklee tinha os miolos estourados, o sangue escorria por todo o quarto e os 37 colegas de quarto dormiam sorrindo, sonhando com a reconstrução de Shacklee no dia seguinte. Os nomes deles eram Santylli, Sarley, Sarlindson, Sattle, Saturnyn, Schuwawn, Seattlou, Sedaciou, Seen, Seenyour, Seenil, Seh, Seil, Sejarcovski, Semne, Sennix, Seoul, Seppya, Seqtawa, Serr, Sestafeyra, Seysse, Sezh, Shock, Shoun-tackle, Shytakee, Singarro, Singapuri, Souter, Sowterr, Suast, Suatjeklovz, Suaw, Sued, Syn, Swonnid e Tartaruga - os quartos organizavam- se por ordem alfabética, e eles ocupavam o de número 211C.

Shacklee olhava para os seu 37 colegas de quarto dormindo com o sorriso aberto, com um ronco tão alto de quebrar as vidraças, olhava para o quarto escuro e via as lampadinhas de natal pisca-piscando num exercício jingle bell, mas se continha para não assoviar de novo, olhava para o chão onde estava seu cérebro em pedaços. Olhava para cima, encontrava deus-pai-todo- poderoso, perdoava seus 37 colegas de quarto, amava seus 37 colegas de quarto, e orava e louvava.

Dia seguinte teria outros miolos para serem estourados.

***

Enquanto trabalhava cavando buracos para serem tapados pelo próximo da fila para serem cavados pelo próximo da fila para serem tapados pelo próximo da fila para serem cavados pelo próximo da fila para serem tapados pelo próximo da fila para serem cavados pelo próximo da fila para serem tapados pelo próximo da fila..., ficava medindo a distância que o separava dos demais colegas, todos organizados em ordem alfabética, tendo como critério de desempate, numa pouco provável hipótese de que dois ou mais dividissem o mesmo nome, o tipo sangüíneo, depois o número de dentes na boca e, por último, a quantidade de títulos de seu time de futebol. Se a distância fosse maior ou igual a 97 centímetros e meio, ele nem considerava o sujeito um ser de sua própria espécie. Entre 29 e 97 centímetros e meio, ora, era um conhecido. Próximos mesmo, só aqueles que suportassem, sol a pino, ficar em um raio menor ou igual a 29 centímetros dele.

2. Não tomar o nome de Deus em vão.

Shacklee usava duas gravatas ao mesmo tempo. Uma para sentir o nó e outra para se enforcar de vez. Sabia que era só no dia seguinte afrouxar para ser refeito novamente. Fácil como empilhar pedras e pilhar perdas. Quando Shacklee tinha sede, gritava Água. E chovia. Em todas, funcionava.

Por isso que, quando ele teve fome, gritou Água também. Mas não houve caldo de feijão, nem arroz empelotado, nem bife gordo desabando do céu. De sorte que Shacklee compreendeu que não deveria gritar Água para tudo.

3. Guardar para a religião domingos e dias de festa.

No último dia de cada semana, que para Shacklee era ora o décimo-segundo, ora o vigésimo-quinto, descansava-se. Shacklee aproveitava a folga para tirar as duas gravatas de todos os dias e vestir um kit logo com uma dúzia delas. Ficava tão emperequitado que nenhum dos seus conhecidos assumia o conhecimento, e mesmo os seus próximos fingiam ignorá-lo. Ainda bem que era um dia nulo, em que não se tapava nem se cavava. Shacklee costumava passá-lo deitado no sofá, no máximo com uma revista pornô debaixo dos olhos.

E dormia, e chorava, e desmontava-se para ver o que tinha dentro de seu corpo.

E fugia toda vez que via alguns de seus 37 colegas de quarto, pois sabia que ou eles queriam quebrá-lo outra vez ou, ao menos, lhe tomariam a revista que fazia alegres seus poucos momentos ociosos.

***

Os buracos na folhinha tornavam-se lacunas nervosíssimas na cabeça de Shacklee. Sentia-se como se não fosse, não houvesse. Era nada mais que uma vida debaixo do tapete, varrida. Ou uma vassoura, varredora, atrás da porta. Sem trinco, sem nada.

E ouvia os 37 colegas de quarto com risinhos desgraçados. Vontade de devorá-los um a um, arrancando-lhes a cabeça e sorvendo, pelo pescoço, cada gota de sangue deles.

Todos os assassinatos que Shacklee tramava eram anotados em um papel, meticulosamente. O papel, amarelo e levemente amassado, ficava guardado sempre entre as páginas 32 e 33 da revista pornô.

4. Honrar pai e mãe.

Às vezes Shacklee sonhava com o dia de seu nascimento. Na ocasião, cada relógio marcava um horário: 0h45, 24:45, 0:45, 12:45PM... E, dentro da chocadeira, a maioria dos ovos gorou. Shacklee foi o primeiro a saltar fora do ovo, após quebrar direitinho toda a casca, conforme havia aprendido no curso de nascimento ministrado pelo professor japonês Yamura Kawassakaki. Assim, quando os dois únicos filhotinhos outros saíram de suas cascas, Shacklee já estava forte o suficiente para trucidá-los com o bico.

Bico este, aliás, que foi extinto quando as aves, antes répteis, viraram humanos. Ou alguma coisa parecida porque da evolução os registros são poucos, precários e confusos.

5. Não matar.

(Pula)

6. Não pecar contra a castidade.

Virou lenda o dia em que Shacklee saiu caçando todas, todas as mulheres do campo de concentração. Eram 3 997, àquela altura - hoje não restam 19. Trancou-as em um quarto com pouco mais de 27 metros quadrados, amontoadas uma sobre as outras, aglutinadas. Despiu-as com uma serra elétrica e, sem preservativo nem nada, tratou de penetrá-las raivosamente, em fila.

O processo todo levou mais de 14 horas e entrou para o famigerado livro dos recordes do local. Além, é claro, de provocar a inveja e a ira de seus 37 colegas de quarto, que decidiram linchá-lo por mau comportamento perante as damas da sociedade campo-de-concentraçã ozense.

***

Shacklee foi encontrado, no dia seguinte, com as pernas de uma cadeira dentro de sua cabeça. Seu tênis marronzinho, a 200 metros de seu corpo. Uma grelha de carne foi utilizada para queimar suas partes pudentes. E nada, mas nada teve a declarar quando, redivivo, percebeu que gostaria de repetir tudo de novo.

7. Não furtar.

No campo de concentração ninguém podia esquecer a bola, a carteira ou a sogra sobre o banco da pracinha. Shacklee ia lá e tomava, com a sua gigante boca. Ninguém podia deixar resto no prato. Shacklee devorava, com prato e tudo - adorava os pratos, sobretudo. Ninguém podia entrar nela não, porque na casa não tinha chão. Ninguém podia dormir na rede, porque na casa não tinha parede. Um dia Shacklee roubou, para si e sua coleção de objetos estranhos roubados, a parede e o chão. De quebra levou a pessoa que ia entrar nela e a rede dependurada.

Quando foram reclamar ao delegado de polícia, este contra-argumentou que nada havia visto e, portanto, nada houve. Nem a declarar.

8. Não levantar falso testemunho.

Quando era criança, Shacklee gostava de brincar de bate-cara. Ou pique-esconde, de acordo com o regionalismo que mais convier, ser, fingir. Às vezes, piquenique. Sua mania era acabar de contar e gritar bem alto os podres dos amiguinhos, atualmente seus 37 colegas de quarto.

Por isso apanhava, sempre.

Por isso não tinha medo de escuro e preferia inventar lampadinhas de natal.

Para disfarças as estrelinhas. Nas entrelinhas.

9. Não desejar a mulher do próximo.

As 19 mulheres restantes no campo de concentração tinham dono. No calcanhar esquerdo de cada uma delas, um código de barras que, quando passado na maquininha de supermercado, acusam o seu proprietário - além de idade, telefone para recados, cor da pele e posição favorita para o coito.

Shacklee, que já possuiu todas elas e outras 3 978, havia ficado sem nenhuma.

10. Não cobiçar as coisas alheias.

Inventou-se um inventário minucioso pleonástico dos itens do campo de concentração:

· 2 487 meias de percal azuis
· 2 332 sapatos amarelos de couro maciço
· 2 198 cadáveres em putrefação
· 1 984 ossos para pentear os cabelos
· 1 870 telefones de latão
· 1 870 linhas telefônicas cortadas
· 1 869 livros de auto-ajuda sem valor comercial
· 1 850 cartilhas com o abecedário
· 1 549 sonetos para catar mulher do próximo
· 1 490 próximos sem mulher
· 1 377 gnomos de jardim de cócoras
· 1 376 gnomos de jardim sentados
· 1 370 gnomos de jardim em pé
· 1 369 gnomos de jardim em posição fetal
· 1 354 gnomos de jardim normais
· 1 350 brancas de neve de jardim
· 1 112 carros para ir embora
· 1 100 lampadinhas de natal
· 1 023 bandejas com comida macrobiótica
· 1 011 punhais ensangüentados
· 1 002 revistas pornô
· 913 grelhas de passar carne e matar pessoas linchadas
· 903 esperanças insones
· 901 cadeiras para enfiar na cabeça das pessoas
· 895 vassouras
· 876 papéis amarelos
· 857 redes em fiapos
· 857 canetas bic
· 856 paredes com a pintura descascada
· 850 sonhos, pesadelos e viagens alucinadas
· 803 folhinhas
· 802 carteiras
· 802 algemas
· 800 chocadeiras velhas
· 746 pratos quebrados mas um pouco inteiros
· 713 tênis marronzinhos
· 534 sogras
· 500 portas sem trinco nem nada
· 245 relógios de ponteiro
· 185 relógios de numerozinhos
· 101 livros dos recordes ultrapassados
· 97 bolas de capotão
· 37 colegas de quarto
· 19 mulheres vivas
· 14 gravatas
· 13 bancos de sentar
· 12 tapetes com muita sujeira debaixo deles
· 9 supermercados falidos
· 7 sofás cheios de restos de chips
· 5 casas engraçadas
· 3 versos brancos
· 2 delegados de polícia
· 1 rima rica
· 1 clips

Num arroubo certeiro, Shacklee matou os outros personagens e ficou com todos os pertences.

4.11.06

Estão

O certo é sertão
e não este tesão
onde estão contidos
os trejeitos tristes
na mira da
namorada.

O certo é ser tão
tesão
quanto os que estão
- pífia questão -
na mira da
namorada.

1.11.06

Ciclo

Abrupto
me entupir
de entorpecente
em torpes doses
crescentes
até o amanhã ser
sol otário
eu.