11.6.08

Um quadro às quartas

The moon-woman, 1942
Obra de Jackson Pollock (1912-1956)

10.6.08

Terça sonora



"E os nossos sonhos querem pedir divórcio"

9.6.08

Sobre silêncios

Há silêncios que conheço de cor. Outros, nunca ouvi.

Para começar a semana

"Artista tem útero. Todo dia está botando filhos na terra. E você não pode ficar tratando seus bebês como se fossem príncipes. Tem que ser um pai romano. Nasceu com defeito, você mata! A crueldade é assepsia na arte."

Antônio José Santana Martins (1936- )

8.6.08

Domingo, foto

Elas moram numa âncora, 2007
Clique de Laila Abou Mahmoud (1982- )

6.6.08

O caminhãozinho verde

Eu era um menino que tinha um caminhãozinho verde. De madeira. Carreta. Dava para carregar sessenta cabeças de boi (de chuchu) ou mil sacas de arroz (de bugalha). Não fazia barulho eletrônico, não tinha botões, não gastava pilha, não quebrava fácil. Era de madeira. E era verde.

Cresci com a idéia fixa de me tornar caminhoneiro, vencer as estradas do Brasilzão a bordo de um valente caminhão verde de verdade. Não sabia que iria ter de financiar o bicho em trocentas prestações, enfrentar solidão, pagar pedágio, desviar de buracos, viajar de noite, correr contra o calendário e subornar polícia rodoviária. Não sabia nada da vida de gente grande.

- Se casamento fosse estrada, eu só andava no acostamento.

- Perigo não é um cavalo na pista, é um burro na direção.

- Feliz era Adão, que não tinha sogra nem caminhão.

Hoje dirijo doze horas por dia a uns oitenta quilômetros por hora. Quando passo por São Paulo, a dez. Estrada ruim, trinta.

- Se correr o guarda multa, se parar o banco toma.

Meu caminhão ainda não tem frase pintada. Não sei se escolho uma repetida, dentre as tantas que leio nos pára-choques dos colegas. Ou se homenageio Deus, meus pais, minha amada, meu time de futebol... Talvez deixe em branco mesmo, ou invente uma nova. Mas tenho mais coisas com o quê me preocupar, oras.

- Se eu tivesse estudado não estaria aqui.

- Estepe e mulher: é sempre bom ter de reserva.

Quando era criança, não imaginava que meu caminhãozinho verde iria crescer. Ficar barulhento, beber óleo diesel, soltar fumaça. Vencer distâncias e garantir os poucos trocados com os quais eu sustento minha família. O dia todo nesta boléia fedida e vazia. Com muito suor, disposição e banguela.

Filminho de sexta



Saramagando as crianças.

Trecho

No bolso da aristocracia, a eutanásia da poesia.

5.6.08

Instante da estante

SOARES, Lucila. Rua do Ouvidor 110 - Uma história da Livraria José Olympio. Rio de Janeiro: José Olympio, 2006.

4.6.08

Um quadro às quartas

La nevada, 1786
Obra de Francisco José de Goya y Lucientes (1746-1828)

3.6.08

É preciso crescer para aprender que...

  • Algumas verdades são indesculpáveis;
  • Algumas músicas são infinitas;
  • Algumas solidões são inexplicáveis;
  • Algumas pedras são imperdíveis;
  • Algumas noites são assim mesmo.

discordo, mas...

... há silêncios.

Terça sonora



"Did you ever find heaven right in your arms,
Saying I love you, I do?"

os quês

o que pareço
se nem percebo
o que me esqueço?

o que perturbo
se nem escuto
o que sussurro?

o que assino
se nem atino
o que assassino?

o que assombro
se nem encontro
o que me lembro?

o que há de mim
se nem enfim
anseio um fim?

2.6.08

Para começar a semana

"Galinhas são mortas a pauladas, pessoas são mortas por engano. A vizinhança está em baixa, o turismo está em alta. A timidez e o eufemismo estão em baixa, sangue e perfume estão em alta. A sensação só pode ser escrita a chibata, e por isso sobra fígado, muito fígado. Eu, se pudesse, matava a causa secreta, gritava enfurecido, abria-lhe o ventre, roía a cara contra o chão, queimava, esquartejava, pendurava como ovelha abatida. Não há causa que valha uma vida. Mas ainda seria pouco. Se pudesse, expiava a velha culpa e abria com o dedo a ferida do ressentimento. O ressentimento chega altivo, feito coruja ruiva, mas não demora para perder as penas, pestilento. Não há remendo que lhe baste, pois ele sobrevive ao próprio enterro. É diferente do perdão ou da vingança, que entretêm a circulação do sentimento. O ressentimento acumula perdas, desconfia da vida, e nada coloca no lugar do que retira. O ressentimento mata aos poucos, por envenenamento. Para suportar esse refluxo, a culpa do outro se transforma em causa própria, a fraqueza humana em razão moral. Perdão, mas eu matava."

Marcos Antonio Siscar (1964- )

1.6.08

ensimesmado

toda vez que amanheço,
me perco.
porque o embaraço
é tamanho
e o abraço, tacanho.

toda vez que amanheço,
me pauso.
porque não encontro
uma manhã
inédita,
que nem assombro
outra manhã
lépida.

toda vez que amanheço,
me ouso.
porque me pergunto
onde foi que
estive,
onde foi que
estou,
onde é que
sou.

Domingo, foto

Semi-iluminados, 2006
Clique de Laila Abou Mahmoud (1982- )

30.5.08

Filminho de sexta



Blindness. Não sem um pouco de atraso.

29.5.08

Instante da estante

ARNS, Dom Paulo Evaristo. A técnica do livro segundo São Jerônimo. São Paulo: Cosac Naify, 2007.

28.5.08

Lua cheia de dor

Eu preferia as noites de lua cheia. Na boléia, mãos na direção, olhar atento para espantar o sono. O pára-brisa era a minha moldura a enquadrá-la, exuberante, alumiando a estrada com um azul-noite tão bonito. Vencia assim a quilometragem. Do interior de São Paulo a Manaus. De Manaus a Quixeramobim. De Quixeramobim a Saquarema. De lá pra cá, de Oiapoque a Chuí. Comigo não tinha essa de caminho ruim: enfrentava estrada boa, buraqueira, terra batida, lama.

Naquele tempo a gente já reclamava da situação difícil, mas havia uma porção de belezas. Ninguém falava de aids, essa tal internet nem existia, não tinha pedágio e os amores custavam menos, bem menos. Eu botava uma fita do Roberto Carlos e ia adentrando o Brasil. Preferia as noites de lua cheia, na boléia, sonhando com o azul-noite que nem Nossa Senhora a rogar por mim.

Via a família mês sim, mês não. Aquela história de quando dava. Na estrada até que arranjava amores de ocasião, em casas de luz vermelha. Mas tinha saudades mesmo era de Janice, com quem me casei em 6 de dezembro de 1961. E da filharada – Afonso, Roberto e Felipe, cada vez maiores, correndo ao meu encontro quando ouviam o ronco do Mercedes 1113 vermelho ainda dobrando a esquina. Saudades e a dor de não ter podido vê-los crescer de perto. Cicatriz que nunca sumirá.

- Pai, entrei na escola!

- Pai, quero ser caminhoneiro igual o senhor!

- Paiê, por que o senhor fica tanto tempo fora?

Preferia as noites de lua cheia. Saía nas pontas dos pés, para não acordá-los. Evitava a despedida. E lá estava de novo rodando, carga cheia. Duas paradas por dia para esquentar o rango. Outra para dormir na cama improvisada. Dezesseis, dezoito horas ao volante, as cercas correndo sem parar nas laterais da pista, cidadezinhas passando, sol nascendo, povoados surgindo e sumindo rápido na janela, sol se pondo.

Corria o ano de 1969 do qual nunca me esquecerei. Quando eu parei em um postinho meia-boca em Rondonópolis, todo mundo se amontoava em frente à televisão. A imagem, ruim, meio desfocada, de um cinzento difícil de discernir as coisas, mostrava um homem pisando na lua. Em câmera lenta.

Primeiro não acreditei.

Depois, me impressionei com os americanos.

Por fim, senti-me roubado. Traído. Era minha lua cheia, afinal. Minha companheira de labuta, aquela que alumiava minhas quilometragens. Desnudada e deflorada por impiedosos e saltitantes homens de roupas pesadas. Não, não podia ser verdade.

Atônito, comprei umas fichas e corri ligar para Janice. Queria avisá-la. Mandar os meninos se arrumarem na casa de algum vizinho com televisão. Precisavam ver aquilo: era um momento histórico.

Não sei como se mata uma família. Não sei por quê se mata uma família. Não entendo nada de armas de fogo, não coleciono inimigos, não sou homem de posses. Mas quando, depois de insistir três vezes até o último toque, quem atendeu ao telefone foi o pai de Janice, numa choradeira só, percebi que a lua jamais teria a mesma graça depois daquele dia em que homens a pisoteavam.

A Terra? A Terra ainda era azul.

Um quadro às quartas

Duas figuras, 1933
Obra de Lasar Segall (1891-1957)

27.5.08

Coleções #3

  • Podas;
  • Pedras;
  • Perdas;
  • Pedidos;
  • Perdidos;

Máxima do misantropo

Onde dois ou mais estiverem reunidos, ali não estarei.

Terça sonora



"Regrets, I've had a few, but then again, too few to mention
I did, what I had to do, and saw it through, without exemption"

26.5.08

Para começar a semana

"Eu não sou um vendedor de livros: eu os escrevo para atacar os hipócritas, mas para mim tanto faz se as pessoas os compram ou não os compram."

25.5.08

Domingo, foto

Pinacoteca, 2008
Clique de Carol Zaine (1985- )

23.5.08

Filminho de sexta



No sofá.

22.5.08

Instante da estante

ASSIS, Machado de. Contos escolhidos. São Paulo: Martin Claret, 2007.

21.5.08

Coleções #2

  • Aspas fortes;
  • Parênteses fracos;
  • Interrogações efêmeras;
  • Reticências constantes;
  • Ex-clamação.