Há um retrato na parede
Que fica dobrando minhas lágrimas:
Largo as rimas que a alma pede
E vou chorar pelas meninas
mortas em Chernobyl
E aquelas coisas tortas que todo o mundo viu.
Jogo fora Dostoiévski, Tolstoi...
Meu espírito apenas rói
lembranças tristes:
Crianças famintas chorando de câncer,
Plantas com pintas calando o amanhecer,
Adultos ruços de soluços russos.
Parece um daqueles filmes de Kurosawa!
Uma prece, náuseas, quem nos redime?
Tamanho crime sem explicação
arranha a História
e rasga a memória
em mil pedacinhos querendo perdão.
21.5.08
20.5.08
sonhos de um tempo
vamos embora
joga fora teu relógio
tua hora já acabou
queima os sonhos na lareira
mas não leva o que restar
a fumaça cuida das lembranças
um quê caetânico vai olodunzar os teus quadris
e nas curvas do teu corpo eu vou sorrir
voltar a sorrir
agora vamos embora
que o instante urge
persiste a clemência dos ateus
sobra a fugacidade da vida
e os beijos surdos da adolescência
sente a vibração do ar
e lembra como é bom não sonhar
em tempos de pesadelo
lembra que o medo é brinquedo
e as armas também são de brinquedo
foge agora
se não quer ir embora comigo
e sei que num peito abrigo
teus sonhos voltarão tristes...
joga fora teu relógio
tua hora já acabou
queima os sonhos na lareira
mas não leva o que restar
a fumaça cuida das lembranças
um quê caetânico vai olodunzar os teus quadris
e nas curvas do teu corpo eu vou sorrir
voltar a sorrir
agora vamos embora
que o instante urge
persiste a clemência dos ateus
sobra a fugacidade da vida
e os beijos surdos da adolescência
sente a vibração do ar
e lembra como é bom não sonhar
em tempos de pesadelo
lembra que o medo é brinquedo
e as armas também são de brinquedo
foge agora
se não quer ir embora comigo
e sei que num peito abrigo
teus sonhos voltarão tristes...
19.5.08
Novo hino de obrigações
prometo meter a meta na gaveta
pra que o objeto-meta não se meta comigo
prometo ser só mais um amigo...
prometo matar o muito detrás da moita
pra que o muito-matado não se mate depois
quem se suicida no fundo é um covarde
(um covarde corajoso!)
no mata-mata da vida bandida que nos mutila
um surto de metas contra-ataca; voam do teto
as gavetas lacradas cheias de objetos não têm vez
é hora de matarmos os suicidas escondidos nas moitas.
pra que o objeto-meta não se meta comigo
prometo ser só mais um amigo...
prometo matar o muito detrás da moita
pra que o muito-matado não se mate depois
quem se suicida no fundo é um covarde
(um covarde corajoso!)
no mata-mata da vida bandida que nos mutila
um surto de metas contra-ataca; voam do teto
as gavetas lacradas cheias de objetos não têm vez
é hora de matarmos os suicidas escondidos nas moitas.
18.5.08
16.5.08
15.5.08
14.5.08
13.5.08
12.5.08
A fazer #2
- Escrever cartinha ao Papai Noel;
- Sonhar com Deus;
- Entoar clássicos do Beatles;
- Correr da chuva;
- Morrer calado.
Para começar a semana
"Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem com seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes. Depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota. Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar.Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer."
Graciliano Ramos de Oliveira (1892-1953)
11.5.08
9.5.08
A fazer #1
- Barbear meus pensamentos;
- Colecionar coleções;
- Caçar sacis de duas pernas;
- Transar com uma orquestra;
- Solucionar solecismos.
8.5.08
Coleções #1
- Lágrimas inventadas;
- Fotografias de sonhos;
- Desejos repreendidos;
- Últimos momentos;
- Gols perdidos, na trave.
6.5.08
5.5.08
Para começar a semana
"Estou no palco sozinho.Sei que a peça vai começar daí a instantes, mas ignoro completamente meu papel, o que tenho a fazer e sobretudo a dizer.
O script está na minha mão, mas não consigo lê-lo: as letras se embaralham e o sentido do texto muda sem que haja qualquer concatenação. Tenho a vaga idéia de que um casal (dois atores famosos e tarimbados) deve chegar a qualquer momento e então eu terei que dirigir-lhes a palavra e começar a atuar.
Pela janela vejo dois vultos suspeitos tramando alguma coisa e num deles reconheço o ator com quem contracenarei.
O casal logo depois entra no palco, sem se anunciar, e eu, no desespero, chego a pedir que espere que eu leia ao menos as primeiras palavras do meu papel.
A cortina se levanta e eu decido improvisar tudo em tom humorístico e sem sentido."
Walter Campos de Carvalho (1916-1998)
4.5.08
Versos tristes para um coração vazio
Como o céu está triste esta noite!
Posso escrever que a vida é bela, que te amo, que Deus existe...
Mas a noite é triste: as estrelas sequer piscam cúmplices
E no silêncio respinga um orvalho quase vácuo.
Como o céu está triste esta noite!
Vem um duende, cai um cometa, alguém sonha sozinho...
Tem gente que estabelece metas e prazos para o dia seguinte
E na imensidão nem vela nem lua nem nada ilumina.
Como o céu está triste esta noite!
Sussurro-te um poema baixinho ao ouvido, ouço um estampido
Inerte como um mundo que se acaba depois do amor
E na mente desdobram-se trouxas de ilusão.
Como o céu está triste esta noite!
Ninguém abre a porta mas as janelas devem ter frestas
Vou gritar: olha lá a vidraça quebrada! Que desassossego!
E no chão uma planta anda adunca, cabisbaixa.
Como o céu está triste esta noite!
A esperança nervosa só chora
Com um anel quebrado e um coração partido na mão
Vou-me embora de volta pra casa.
Posso escrever que a vida é bela, que te amo, que Deus existe...
Mas a noite é triste: as estrelas sequer piscam cúmplices
E no silêncio respinga um orvalho quase vácuo.
Como o céu está triste esta noite!
Vem um duende, cai um cometa, alguém sonha sozinho...
Tem gente que estabelece metas e prazos para o dia seguinte
E na imensidão nem vela nem lua nem nada ilumina.
Como o céu está triste esta noite!
Sussurro-te um poema baixinho ao ouvido, ouço um estampido
Inerte como um mundo que se acaba depois do amor
E na mente desdobram-se trouxas de ilusão.
Como o céu está triste esta noite!
Ninguém abre a porta mas as janelas devem ter frestas
Vou gritar: olha lá a vidraça quebrada! Que desassossego!
E no chão uma planta anda adunca, cabisbaixa.
Como o céu está triste esta noite!
A esperança nervosa só chora
Com um anel quebrado e um coração partido na mão
Vou-me embora de volta pra casa.
2.5.08
1.5.08
Instante da estante
CORTÁZAR, Julio. O jogo da amarelinha. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007.
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