21.5.08

Tragédia radioativa

Há um retrato na parede
Que fica dobrando minhas lágrimas:
Largo as rimas que a alma pede
E vou chorar pelas meninas
mortas em Chernobyl
E aquelas coisas tortas que todo o mundo viu.

Jogo fora Dostoiévski, Tolstoi...
Meu espírito apenas rói
lembranças tristes:
Crianças famintas chorando de câncer,
Plantas com pintas calando o amanhecer,
Adultos ruços de soluços russos.
Parece um daqueles filmes de Kurosawa!

Uma prece, náuseas, quem nos redime?
Tamanho crime sem explicação
arranha a História
e rasga a memória
em mil pedacinhos querendo perdão.

Um quadro às quartas

A boba, 1915/16
Obra de Anita Catarina Malfatti (1889-1964)

20.5.08

sonhos de um tempo

vamos embora
joga fora teu relógio
tua hora já acabou

queima os sonhos na lareira
mas não leva o que restar
a fumaça cuida das lembranças

um quê caetânico vai olodunzar os teus quadris
e nas curvas do teu corpo eu vou sorrir
voltar a sorrir

agora vamos embora
que o instante urge
persiste a clemência dos ateus
sobra a fugacidade da vida
e os beijos surdos da adolescência

sente a vibração do ar
e lembra como é bom não sonhar
em tempos de pesadelo
lembra que o medo é brinquedo
e as armas também são de brinquedo

foge agora
se não quer ir embora comigo
e sei que num peito abrigo
teus sonhos voltarão tristes...

Terça sonora



"Mas as pessoas da sala de jantar
São ocupadas em nascer e morrer"

19.5.08

Novo hino de obrigações

prometo meter a meta na gaveta
pra que o objeto-meta não se meta comigo
prometo ser só mais um amigo...

prometo matar o muito detrás da moita
pra que o muito-matado não se mate depois
quem se suicida no fundo é um covarde
(um covarde corajoso!)

no mata-mata da vida bandida que nos mutila
um surto de metas contra-ataca; voam do teto
as gavetas lacradas cheias de objetos não têm vez
é hora de matarmos os suicidas escondidos nas moitas.

Para começar a semana

"Ousar é perder o equilíbrio momentaneamente. Não ousar é perder-se."

18.5.08

Domingo, foto

Quebra-cabeça, 2008
Clique de Carol Zaine (1985- )

16.5.08

Filminho de sexta

Na Japolândia é assim.

15.5.08

Instante da estante

NERUDA, Pablo. Livro das perguntas. São Paulo: Cosac Naify, 2008.

14.5.08

Um quadro às quartas

Sem título, 2006
Obra de Rubens Gerchman (1942-2008)

13.5.08

Terça sonora

"Eu chorei de dor"

12.5.08

Quantos sonhos cabem aqui?

A fazer #2

  • Escrever cartinha ao Papai Noel;
  • Sonhar com Deus;
  • Entoar clássicos do Beatles;
  • Correr da chuva;
  • Morrer calado.

Para começar a semana

"Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem com seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes. Depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota. Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar.
Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer."

11.5.08

Cença, não!

sem essa
de licença
poética;

desde quando
poema precisa
pedir licença
pra se sentar?

Domingo, foto

Fábrica abandonada em Itu III, 2004
Clique de Henrique de Carvalho (1980- )

9.5.08

Seu céu qualquer

Cinzenta, a vida tem seus dias acrílicos.

A fazer #1

  • Barbear meus pensamentos;
  • Colecionar coleções;
  • Caçar sacis de duas pernas;
  • Transar com uma orquestra;
  • Solucionar solecismos.

Filminho de sexta

Bastidores de um título. Alviverde.

8.5.08

Coleções #1

  • Lágrimas inventadas;
  • Fotografias de sonhos;
  • Desejos repreendidos;
  • Últimos momentos;
  • Gols perdidos, na trave.

Instante da estante

SCLIAR, Moacyr. A festa no castelo. Porto Alegre: L&PM, 1982.

7.5.08

Um quadro às quartas

Banhistas na praia, 1934
Obra de Giorgio de Chirico (1888-1978)

Correndo contra.

6.5.08

Terça sonora

"Sabe sempre levar de vencido
E mostrar que de fato é campeão"

5.5.08

Para começar a semana

"Estou no palco sozinho.
Sei que a peça vai começar daí a instantes, mas ignoro completamente meu papel, o que tenho a fazer e sobretudo a dizer.
O script está na minha mão, mas não consigo lê-lo: as letras se embaralham e o sentido do texto muda sem que haja qualquer concatenação. Tenho a vaga idéia de que um casal (dois atores famosos e tarimbados) deve chegar a qualquer momento e então eu terei que dirigir-lhes a palavra e começar a atuar.
Pela janela vejo dois vultos suspeitos tramando alguma coisa e num deles reconheço o ator com quem contracenarei.
O casal logo depois entra no palco, sem se anunciar, e eu, no desespero, chego a pedir que espere que eu leia ao menos as primeiras palavras do meu papel.
A cortina se levanta e eu decido improvisar tudo em tom humorístico e sem sentido."


Walter Campos de Carvalho (1916-1998)

4.5.08

Versos tristes para um coração vazio

Como o céu está triste esta noite!
Posso escrever que a vida é bela, que te amo, que Deus existe...
Mas a noite é triste: as estrelas sequer piscam cúmplices
E no silêncio respinga um orvalho quase vácuo.

Como o céu está triste esta noite!
Vem um duende, cai um cometa, alguém sonha sozinho...
Tem gente que estabelece metas e prazos para o dia seguinte
E na imensidão nem vela nem lua nem nada ilumina.

Como o céu está triste esta noite!
Sussurro-te um poema baixinho ao ouvido, ouço um estampido
Inerte como um mundo que se acaba depois do amor
E na mente desdobram-se trouxas de ilusão.

Como o céu está triste esta noite!
Ninguém abre a porta mas as janelas devem ter frestas
Vou gritar: olha lá a vidraça quebrada! Que desassossego!
E no chão uma planta anda adunca, cabisbaixa.

Como o céu está triste esta noite!
A esperança nervosa só chora
Com um anel quebrado e um coração partido na mão
Vou-me embora de volta pra casa.

Domingo, foto

Cata-ventos, 2006
Clique de Giovana Romani (1985- )

2.5.08

Filminho de sexta



BMW pop.

1.5.08

Instante da estante

CORTÁZAR, Julio. O jogo da amarelinha. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007.

É por isso que eu digo...

Todo pessimista é feliz.